segunda-feira, 16 de janeiro de 2012

Saecvla Saecvlorvm [1976]


Acqua Vitae



“Per omnia Saecvla Saecvlorvum...20 anos. 20 séculos. Por 20 anos, como quase tudo em Minas, o Saecula foi como ouro debaixo da terra. Este CD é a reconstituição de uma velha fita demo gravada na primavera de 1976, quando o grupo estava prestes a ser contratado pela Warner. 

Cada membro apresentou o material que possuía e resolvemos lançar um CD com as 5 faixas gravadas na época. Fizemos uma seleção entre os vários rolos e conseguimos recuperar um material quase perdido. As gravações foram remendadas, consertadas, coladas, benzidas e finalmente, por incrível coincidência, na primavera de 1996, masterizadas digitalmente e editadas. Agora, todos poderão fazer uma idéia do que foi esse cometa que cruzou os céus das Geraes de 1974 a 1977. A música aqui contida fala por si só, não obstante as deficiências da fita original. É também um testemunho, nos 100 anos de Belo Horizonte, do que esta cidade produziu há 20 anos atrás; um tributo a tantos talentos que aqui nascem e vivem, desconhecidos do resto do Brasil e do mundo. 

...Amém”

Esta citação contida no encarte do cd começa a nos dar a idéia da preciosidade musical que temos em mãos. Um registro histórico de um grande evento musical que existiu nos anos 70 compôs e executou algumas das melhores e mais belas músicas da época e por pouco não ficou perdido no limbo do desconhecimento e esquecimento. Mais do que historicamente importante por ser a primeira banda do grande violinista Marcus Viana, a música contida neste disco é mais uma demonstração de como a música neste país foi forte e muitas vezes melhor do que as estrangeiras. Infelizmente, poucos são aqueles que conhecem e apreciam esta obra-prima (sim, obra-prima, mesmo com todos os problemas). 

É difícil descrever a sonoridade desta obra. Contudo, tenho certeza que mais importante que a descrição da música, devo ressaltar que com certeza essa é um tipo de música diferente de outras, é contagiante, introspectiva, excitante e com certeza mexe com o sentimento daquele que ouve a música disposto a apreciá-la. 

Contudo creio ser dificultoso transcrever tais sensações em uma resenha, acho que isso fica a cargo do próprio ouvinte em perceber a música. Então me limitarei aqui a tentar expor aquilo de que o disco tem de melhor, avaliando e descrevendo sua sonoridade. Em linhas gerais é possível constatar que o violino e o piano têm papel fundamental no desenvolvimento da música, pois com certeza são os instrumentos que mais traduzem o sentimento da música, ora contagiante e frenético, ora suave e contido. Marcus Viana com certeza dominava seu instrumento com perfeição desde aquela época. Contudo, não só a esses dois instrumentos se resume a música: o trabalho de bateria é simplesmente fantástico, marcando presença sempre. O baixo é surpreendentemente presente, compondo a parte mais pesada das músicas e a guitarra, apesar de estar num timbre bem de rock, contribui de forma fantástica na construção dos climas mais espirituais que a música da banda possui, fora os vocais muito bonitos, que são cantados, mas em várias vezes entram em forma de coro. 

Fiz uma pequena descrição de cada música enquanto ouvia:
O começo do disco é em um tom meio sombrio, com um coral, então com a entrada do vocal um clima mais suave se instaura, até que entram piano e violino em primeiro plano, dando nova dinamicidade à música, num ritmo frenético. A voz entra e a música toma corpo com todos os instrumentos. O instrumental de violino é realmente marcante nessa música. Há uma variação de ritmo para um clima mais tranqüilo e depois volta ao coral por duas vezes com subseqüentes explosões de ritmo. A música dá uma caída na sonoridade e quando se pensa que vai acabar, retorna ao ritmo frenético com todos os instrumentos encerrando a música de forma magistral. Excelente! 

A segunda entra com piano e outros sons estranhos até que se instaura um clima anterior ao ápice da música anterior, mas com a inclusão de um coro rítmico com o som. Violino e piano novamente em destaque. Mas baixo e bateria não ficam atrás e também contribuem para formar um ritmo envolvente. A música se modifica num ritmo mais marcado e então passa para um momento mais calmo e introspectivo. A segunda metade começa com todos os instrumentos e os vocais, que se alternam com a guitarra em primeiro plano. No final, um ritmo empolgante entra com os vocais mais pegados. Violino e piano voltam ao destaque e terminam a música com chave de ouro. 

Na terceira faixa o piano marca o início num crescendo muito bonito junto com vocais. Um novo ritmo se instaura com a entrada de violino, bateria, baixo e guitarra que vão crescendo até a entrada dos vocais. Na metade da música há uma suavização e então volta um novo ritmo com os vocais e instrumentais e depois só os instrumentos num ritmo rápido. Após, os vocais assumem magistralmente em “eu quero ver o sol” acompanhados por uma guitarra e bateria afiadíssimas concluindo a música em fade out instrumental. 

A quarta entra em um ritmo mais melancólico com piano, que passa a ser agressivo, em que se somam o violino e bateria. Pra mim um dos melhores momentos do cd. Entram os vocais dando nova direção ao ritmo. O clima segue mais melancólico e em um crescendo instrumental com bastante tensão até a explosão de todos os instrumentos e subseqüente volta dos vocais. O resto da música é guiado por piano e depois guitarra, sempre com a bateria e violino no jogo, até o retorno dos vocais e finalização da canção. Apesar de ser a mais curta, para mim a melhor do disco. 

A última começa e os vocais são mais presentes e dão o ritmo à música, com os instrumentos seguindo no mesmo padrão do disco, com violino e bateria preenchendo bem a sonoridade. Segue-se uma parte instrumental agitada que passa para um ritmo mais calmo e começa a dar nova direção à música para a nova incursão dos vocais. Há uma repetição da última seqüência. Então o piano toma a frente num solo muito bonito e então para o encerramento todos os instrumentos entram num crescendo que então se encerra, fechando magistralmente o disco. 

Este trabalho é, sem sombra de dúvida, um dos melhores da discografia do progressivo nacional, com uma sonoridade ímpar e muito bonita, com pegadas e suavizações marcantes. 

É difícil encontrar palavras para elogiar esta obra, então limito-me a dizer que este trabalho é altamente recomendável a todos os apreciadores de uma boa música!

Formação:
Giácomo Lombardi - Piano
José Audísio - Guitarras
Bob Walter - Bateria
Edson Plá Viegas - Baixo
Marcus Viana - Violinos
Juninho - Baixo

Um comentário:

  1. Cara, eu toquei guitarra neste disco e nem imaginava isso tudo. Obrigado por gostar tanto! Eu era fã dos Mutantes e do Yes e Deep Purple, por isso a guitarra é mais Rock. Marcos começo a fazer Rock conosco, antes do Sagrado e o Giacomo vinha de uma onda mais de música italiana misturada com música clássica. Misturando isso tudo deu no Saecula! Abraço Audisio

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