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domingo, 10 de setembro de 2017

Bike - Em Busca da Viagem Eterna [2017]

Yandex 320kbps


Por Alejandro Mercado em A Escotilha


A BIKE retorna com seu segundo álbum, Em Busca da Viagem Eterna, oferecendo ao ouvinte um passeio onírico, um mergulho profundo e arraigado na psicodelia contemporânea brasileira. Bebendo em fontes tão plurais quanto a musicalidade permite, o grupo despeja riffs de forma quase celestial, optando por fazer uma experimentação menos enérgica e selvagem do rock psicodélico, mas, ainda assim, com uma estética sonora fortemente ligada ao imaginário do ritmo, que possui uma roupagem muito particular em terras brasileiras.

Lançando mão de músicas menos cruas ou caóticas e unindo com perfeição distorções e reverb, a BIKE impressiona com suas composições ricas que fogem ao exagero do virtuosismo, compondo faixas em que as texturas se entrelaçam e hipnotizam, acentuando a junção ímpar das harmonias vocais, linhas de baixo com grooves proeminentes e uma bateria certeira.

Faixas como “Enigma dos Doze Sapos”, que abre o álbum, e “A Montanha Sagrada” se transformam rapidamente em interpretações sonoras de um contato lisérgico com lugares mais interessantes que nossa realidade. Há tons épicos nesta segunda, que utiliza a narrativa musical como espécie de transe no ouvinte.

Um dos pontos mais curiosos e característicos deste novo disco é como ele é mais expansivo que o anterior, mesmo que essa expansividade se expresse através de arranjos mais sutis, sensíveis e sensuais. A banda, que participou do projeto Psicorixádelia produzido por A Escotilha, cria uma bagunça de sons que vão, a cada nova canção, desconstruindo e reconstruindo nossas impressões sobre o que seja essa nova cena psicodélica no Brasil. Trata-se menos de ser inovador e mais de ser imensuravelmente sensitivo.

Toda a força que o grupo já havia demonstrado em 1943 é amplificada com Em Busca da Viagem Eterna, um disco muito mais seguro e redondo que o anterior, e de tanta qualidade quanto. Se a eternidade era o resultado da viagem que a banda faz no álbum, ela tem sucesso sem sombra de dúvida, encadeando composições sonhadoras o bastante para serem a perfeita definição da proposta musical (e, obviamente, estética) dos integrantes.

Com tamanho talento, não é difícil entender o porquê o quarteto paulista, formado por Rafa Buletto, Daniel Fumegaladrão, Julito Cavalcante e Diego Xavier, atravessou o oceano para shows no exterior. Com tamanho talento e potencia, seria egoísmo guardar apenas para nós.

domingo, 17 de abril de 2016

Bike - 1943 [2015]

Yandex 128kbps


Por Cleber Facchi em Miojo Indie

Que viagem. Durante os mais de 30 minutos de duração de 1943 (2015, Independente), estreia da banda paulista Bike, vozes, melodias e doses consideráveis de distorção se articulam de forma a distanciar o ouvinte da realidade. Como uma verdadeira experiência lisérgica, cada verso ou ruído dissolvido pela obra transporta o espectador para um mundo de sons, cores e emanações cósmicas. Arranjos e letras que mudam de direção a todo o instante, crescendo e diminuindo, como se reações típicas do consumo de LSD fossem transformadas em música.

Com título inspirado no ano em que o cientista suíço Albert Hoffman descobriu o LSD – abril de 1943 -, e deu uma volta de bicicleta ao tomar a primeira grande dose da substância, cada uma das oito faixas que marcam a estreia do Bike se projetam com pequenas viagens. Sem necessariamente perder o caráter homogêneo das canções – sempre próximas, como se tudo não passasse de um mesmo ato instrumental -, o grupo parece brincar com a mente do ouvinte, dançando em meio a reverbs, distorções e solos de guitarra que explodem a todo o instante.

Nos versos, o mais completo delírio. Músicas que relatam experiências cósmicas, falam sobre o amor e até temas existencialistas. “Arco-íris distorcem a minha visão / Me guiando à outra dimensão / E amanhã será um belo dia / Outra tarde de psicodelia”, canta o vocalista Julito Cavalcante na mágica Alucinações e Viagens Astrais, música que resume toda a estrutura montada pela banda ao longo do disco.

Ainda que lembrar de Beatles, Tame Impala e outros gigantes da música psicodélica seja um ato natural no decorrer do álbum, muito do que orienta a estreia do Bike parece ancorado em conceitos e distorções típicas do Shoegaze / Rock Alternativo da década de 1990. Basta voltar os ouvidos para os antigos projetos de boa parte dos integrantes da banda – completa com Diego Xavier (guitarra e voz), Gustavo Athayde (bateria e voz) e Hafa Bulleto (baixo e voz) -; grupos como Sin Ayuda e The Vain, que conseguiram relativo destaque no meio independente no começo da presente década.

Logo na abertura do disco, a dobradinha composta por 1943 e Enigma do Dente Falso reforçam essa inevitável associação com o passado. Difícil não lembrar de grupos como Ride e Slowdive quando as vozes abafadas e batidas tentam escapar da avalanche de temas sujos lentamente incorporados pelas guitarras. A relação com a música dos anos 1990 ainda volta a se repetir em faixas densas como A Vida é uma Raposa e Luz, Som & Dimensão, composições escolhidas pela banda para encerrar o disco e uma espécie de diálogo com a obra do grupo norte-americano The Flaming Lips no mesmo período.

Embora constante, a relação da banda com o passado está longe de parecer um problema durante a execução da obra. Trata-se apenas de uma fina tapeçaria referencial, uma espécie de tempero para o conjunto de experimentos delicadamente incorporados em cada música. De fato, poucos grupos recentes conseguiram reproduzir um trabalho tão dinâmico e atual quanto o Bike em 1943. Da avalanche de ruídos ao uso de versos marcados pela leveza – “Vulcões cospem fogo e as geleiras derretem / Resolvemos os problemas do mundo e eles se repetem” -, é fácil ser seduzido e hipnotizado pelo som do grupo.