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quinta-feira, 22 de junho de 2017

Edgard Scandurra - Amigos Invisíveis [1989]

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Por Carlos Eduardo Lima em monkey buzz

Em 1989 o Ira! experimentava uma pequena queda de popularidade. Após o boom de seus primeiros dois discos - Mudança de Comportamento (1985) e Vivendo e Não Aprendendo (1986), o terceiro trabalho da banda, Psicoacústica (1988) não apresentava o mesmo desempenho. Apenas uma canção fez sucesso radiofônico, a peculiar Receita Pra Se Fazer Um Herói, mais uma daquelas pérolas compostas por Edgard Scandurra em tempos de serviço militar. Núcleo Base, lançada dois anos antes, compartilhava a origem e a falta de vontade em ostentar uma farda como razão para defender o país.

Neste hiato criativo de dois anos, o Ira! ficou em segundo plano e, enquanto Nasi e André Jung se aproximavam de sua mais recente paixão - o rap - Edgard Scandurra entrava em estúdio para gravar seu primeiro disco solo. A ideia era aproximar grande parte do que o Ira! significava com uma sonoridade mais setentista, algo que poderia seguir por uma via sem comunicação com as sonoridades punk. É como se Scandurra quisesse ser mais Who que Jam. E o que se ouve ao longo de Amigos Invisíveis é exatamente isso. Algo setentista, concebido num mundo perfeito.

Produzido pelo próprio Edgard e contando com o auxílio de Paulo Junqueiro, Amigos Invisíveis tem apenas um músico em ação: o próprio Edgard, que assume o controle de guitarras, bateria, violões, baixo, teclados, percussão, além da voz e dos vocais de apoio, numa surpreendente demonstração de habilidade, sem que isso pareça uma declaração de arrogância ou exibicionismo, até porque a produção cuida para que esta sonoridade seja, de algum modo, coletiva e confere a Amigos Invisíveis uma pluralidade impressionante. Scandurra consegue juntar seus vários backgrounds - Ira!, Ultraje A Rigor, Smack, Mercenárias - obtidos nas bandas das quais participou e oferece um amplo leque de variações.

Além disso, dá vazão a temas legais e ausentes quase sempre das composições do Ira!, como quadrinhos, por exemplo, exaltados aqui em Amor em B.D (B.D é a abreviação de quadrinhos em português de Portugal). O Who, banda seminal para Edgard ostentar uma guitarra com orgulho, é homenageado na versão bela de Our Love Was, uma das mais belas canções de The Who Sell Out, terceiro disco da banda mod inglesa, de 1967. Gritos Na Multidão, sucesso do segundo disco do Ira!, recebe uma versão personalíssima, enquanto outras pequenas pérolas como Minha Mente Ainda É A Mesma, Abraços e Brigas (hit do disco, composto em parceria com a então esposa, Taciana Barros), além da singela Bem Vindo, Daniel, em homenagem ao filho, então recém-nascido.Taciana Barros, ex-Gang 90, participa do disco como compositora em três faixas, além de tocar algumas poucas notas em Abraços e Brigas.

Amigos Invisíveis é um disco absolutamente atípico em relação a seu momento histórico. 1989 é um ano que pode marcar uma perda significativa de popularidade do rock nacional, é um tempo estranho, no qual muitas bandas produzirão discos de maturidade, que eram vistos na época como "ruins", "acomodados" ou "não-rock". Edgard, sem muita ambição, homenageando suas bandas preferidas, amigos, família e filho, foi longe na experimentação e na busca por algo novo. Conseguiu e ainda tirou a onda de aparecer em programas como o Globo de Ouro, sozinho, empunhando um violão, mandando playback de Abraços e Brigas. Bravo.

O disco foi lançado em 1989 em CD, LP e K7. Ficou fora de catálogo em pouco tempo e só foi relançado em CD na série Warner Archives, em 2000, com duas faixas bônus. Desde então, encontra-se esgotado e, como tal, impossível de ser encontrado, exceto para audição na internet.


1 - Estamos Nesse Trem
(Edgard Scandurra)
2 - Amor Em B.D.
(Edgard Scandurra)
3 - Minha Mente Ainda É A Mesma
(Edgard Scandurra)
4 - Abraços E Brigas
(Edgard Scandurra, Taciana Barros)
5 - Gritos Na Multidão
(Edgard Scandurra)
6 - Quero Voltar Pra Casa
(Edgard Scandurra)
7 - Our Love Was
(Pete Townshed)
8 - Amigos Invisíveis
(Edgard Scandurra)
9 - 1978
(Edgard Scandurra)
10 - Culto De Amor
(Edgard Scandurra, Taciana Barros)
11 - Bem Vindo Daniel
(Edgard Scandurra)
12 - Vou Me Entregar Como Nunca
(Edgard Scandurra, Taciana Barros)

quarta-feira, 13 de julho de 2016

Silvia Tape e Edgard Scandurra - est [2015]



Por Carlos Eduardo Lima em Monkeybuzz

Que disco simpático, pessoal. Oriundo do encontro entre Edgard Scandurra, mais conhecido como o guitarrista da banda paulistana Ira!, de tantas glórias, tradições e projetos paralelos ao longo de três décadas, e a cantora/baixista/guitarrista Silvia Tape, atual integrante do grupo Mercenárias, dona de carreira solo elegante, que namora de longe o entroncamento entre Psicodelia e Pós-Punk, EST é uma inesperada surpresa neste fim de 2015, justo quando ninguém esperava algum lançamento que valesse nossa atenção. Há tempos que Edgard mostra mais talento e criatividade fora de sua banda de origem, sempre com mente aberta e disposição para ouvir/fazer novidades. Seu apreço pela música Eletrônica, por exemplo, rendeu bons álbuns nos anos 00 sob o nome "Benzina", além de colaborações e crocâncias sonoras diversas. As canções e o conceito deste novo álbum surgiram há alguns anos, passando, necessariamente, pela ideia de gravar tudo em casa, em esquema Lo-fi. A chegada de Silvia mudou tudo. Pra melhor.

Dona de boa voz e capaz de escrever letras bonitas, a cantora fez com que o conceito original fosse adaptado para sua chegada. O que era rascunho e desapego evoluiu para um moderno trabalho de Rock, no sentido mais amplo que o termo pode comportar em 2015. Mesmo assim, EST é, basicamente, Scandurra em todos os instrumentos, a voz de Silvia e a participação de algumas pessoas, entre elas, Curumim, emprestando seu talento baterístico a algumas canções, especialmente em Asas Irreais, melhor do álbum, cheia de timbres amplos de guitarra e tambores nervosos por todos os lados, em função da doçura da voz de Tape, inesperada, porém conveniente em meio ao painel sonoro que se ergue. Mas nem tudo é doçura e céu azul por aqui.

A abertura com A Sua Intuição é noturna, perplexa em calma, com sonoridade que emula algo dos anos 1990, eletrônico, sussurrado, que dá lugar ao campo aberto e livre que Asas Irreais, já mencionado acima. A canção seguinte, Num Instante Qualquer é totalmente Rock, cantada por Scandurra e levada adiante por bateria e guitarras também tocadas por ele e presença elegante de Tape nos vocais de apoio do refrão. Hoje O Tempo tem uma sonoridade bem peculiar, lembrando um lado obscuro dos anos 1980, quando, em meio ao grande número de bandas surgindo em Manchester, The Durutti Column chamava a atenção pelo uso das guitarras e timbres econômicos, ideia de seu líder, Vinny Reilly. Edgard, macaco velho e conhecedor dos atalhos, certamente tinha as aquarelas sonoras do grupo em mente. Bolhas de Sabão é psicodélica, fofa e sessentista, trilha sonora de passeio no parque sábado de tarde.

Meu Lamento é um instrumental sem muita função definida, meio lúgubre, meio sintético, meio soturno, que tem na curta duração e sua maior qualidade, logo dando espaço para Concha, que surge acústica, singela, setentista, totalmente calcada no binômio violão/voz, algo bonito e raro nos dias de hoje. Com o tempo ela se transforma em clara criação psicodélica, com metais e levada dolente, algo como se Os Mutantes originais tivessem passado pelo estúdio para dar algumas dicas.Rio Rastro, logo em seguida, é um instrumental com clima é de guitarras intervindo em melodia hipnótica e sem pressa para terminar. Eu Acho Que Posso Esperar é outra canção que visita a tranquilidade guitarrística de The Durutti Column, com entrelace de acústico e elétrico em torno da voz de Silvia. O encerramento com Meu Lamento é delicado, soturno, falsamente simples, com mais comunhão de sons elétricos e orgânicos, com certo ar fadista em algum lugar não muito definido.

EST é uma criação coletiva com cara de projeto rascunhado sem compromisso e parecendo casual. Tem estrutura, conceito e noção de início, meio e fim, exibindo modernidade cosmopolita e doçura agreste legítimos. Típico projeto sem compromisso com qualquer outra coisa que não seja a satisfação de seus envolvidos. E do público. Bem bacana.