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quarta-feira, 15 de fevereiro de 2017

David Ganc - Caldo-de-Cana [1999]

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Qualidade e sensibilidade são adjetivos nem sempre associados à música. Mas são fundamentais à boa música e poderiam muito bem definir este suculento CALDO DE CANA (Kuarup) que, no capricho, DAVID GANC nos oferece agora. Poderiam, mas talvez fossem insuficientes. Isso porque o CD - o segundo solo da respeitável e produtiva carreira do artista - merece muitos outros elogios, como elaborado, inspirado, feliz e brasileiro. Esse último, elevado a altíssima potência sonora. Pois se nossa música influenciou meio mundo, faz tempo que anda se embebedando em excesso com as influências acadêmicas americanas e afins. Nada contra; mas nossos ouvidos também gostam (e muito!) do sotaque brasileiro com entonação perfeita e fonte que brota da raiz.

A flauta é o grande destaque de Caldo de Cana. David deixou de lado o saxofone - base do Baladas Brasileiras, seu primeiro CD solo - e dedicou-se a ela, coisa rara em disco no mercado nacional. Um retorno às suas origens com o instrumento que toca desde os 7 anos.

E o melhor som/sotaque brasileiro está bem representado logo no primeiro gole deste Caldo de Cana, Fica Mal com Deus, de Geraldo Vandré, em arranjo do próprio clima agreste sofisticado. “É minha homenagem ao Quarteto Novo, grupo que acompanhava Vandré nos anos 60 e que era formado pelos grandes músicos Hermeto Pascoal, Heraldo do Monte, Airto Moreira e Theo de Barros, para mim, o berço da música instrumental brasileira”, explica David Ganc. Ele é acompanhado por Leandro Braga (piano), Ronaldo Diamante (baixo), Márcio Bahia (bateria), Mingo Araújo (percussão) e pelas cordas do Quarteto Guerra Peixe, solando em flautas em Dó e em Sol.

Divertimento, de Nivaldo Ornelas, é a segunda faixa do CD. Piano (Leandro Braga), cello (Iura Ranevsky) e flauta se alternam em solos e acompanhamento da bela melodia, entremeada por diferentes climas. A faixa título, logo em seguida, foi escrita por David em 1978 e é dedicada a Zé da Flauta. “Naquela época eu circulava muito com o Zé, que havia chegado pouco antes do Recife para lançar o primeiro disco de Alceu Valença”, conta Ganc, que só fez a harmonia de Caldo de Cana em 1999. A alegria nordestina é representada pela percussão de Mingo Araújo e pela viola de João Lyra.

Memento/Catavento, faixa número 4, é o que David classifica como um “maracatu mântrico”. A música foi composta por Nando Carneiro, que também toca violão. “Meu filho Daniel, hoje com 10 anos, disse quando ouviu o tique flautístico que precede a música que as cores mudavam na sua frente. Será que algum adulto ainda consegue ver as cores mudarem sob o efeito do som?” pergunta David. O clima de sonho se mantém, com tempero mais romântico, em Noturno, outra bela composição de Nivaldo Ornelas dedicada ao amigo David Ganc em 1986. Flauta e piano (de Monique Aragão) soam puros, por vezes dobrando a melodia, em outras duelando ou fazendo contraponto um para o outro.

O ritmo muda radicalmente em Na Tradição do Frevo, parceria de David com Vittor Santos. É um tributo a Teca Calazans e aos muitos amigos que Ganc tem em Recife. A bateria de Márcio Bahia segura o pique. A sétima faixa, Impressão de Choro, foi composta pelo pianista Leandro Braga - que acompanha David ao piano - em homenagem ao cantor e compositor Guinga, com melodia elaborada e original bem ao estilo do homenageado.”É mesmo uma impressão de choro, com andamento lento, captando a emoção de uma gravação ao vivo”, diz David. Já Vó Argemira, música seguinte, tem clima mais intimista e foi composta por Nando Carneiro. “Nando e eu somos amigos desde a época de A Barca do Sol e ele sugeriu que não gravássemos o violão, criando uma sonoridade singular com a flauta e o baixo acústico cantante de Zeca Assumpção” conta David.

O samba Pro Marçal È a nona faixa do CD. “Tinha vontade de gravar este samba do baterista César Machado com Fernando Merlino há muitos anos. Me surpreendia o fato de nunca ter sido gravado por instrumento de sopro, como a melodia pede”, diz David. Destaque para as participaçõs de Artur Maia (baixo) e Vittor Santos (trombone) e para o solo de Leandro Braga, ao piano.

Caldo de Cana termina com Inútil Paisagem, de Tom Jobim e Aloysio de Oliveira, com um arranjo elaborado de Vittor Santos. Para interpretá-lo, David Ganc se desdobra em nove canais de gravação (picollo, duas flautas em dó, duas flautas em sol, dois saxes altos e dois saxes tenores) e tem a companhia de Cristiano Alves (dois clarinetes e clarone).

Caldo de Cana tem produção musical do próprio David Ganc, foi gravado entre abril e junho de 1999 no Drum Studio e seu projeto gráfico é de Gringo Cardia.

terça-feira, 14 de fevereiro de 2017

David Ganc - Baladas Brasilerias [1996]

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Pela primeira vez no país, um instrumentista de sopros grava um disco solo acompanhado de cordas. Partindo para carreira solo , após uma vida dedicada a dar cores em shows e gravações dos maiores nomes da música brasileira, o saxofonista e flautista David Ganc lança seu primeiro CD, Baladas Brasileiras, colocando em primeiro plano arranjos e orquestrações de conhecidas canções brasileiras. O vôo solo de David alcança a França, onde o CD sai pelo selo Buda Musique, que garante a distribuição mundial. No Brasil, a distribuição é da Leblon Records.

A idéia de um solista e cordas não é nova. Charlie Parker, Dizzy Gillespie, Stan Getz, Coleman Hawkins e tantos outros fizeram discos antológicos nesta linha. Mas, na nossa música, David é o primeiro, e o faz com a experiência de quem está acostumado a realçar a essência da música.

A opção de David em Baladas Brasileiras foi gravar melodias conhecidas do público, de autores consagrados como Lupicínio Rodrigues, Tom Jobim, Edu Lobo, Hermeto Paschoal, Peter Pan, além do próprio David .

Despidas das letras, e levadas pelos saxes e flautas envolventes de David, as canções ganham roupagem totalmente nova. Este é o maior feito do disco de Ganc. Sem mudar uma nota ou descaracterizar as músicas, elas soam com a beleza de sempre, e ao mesmo tempo, diferentes. Os arranjos de David, do pianista Leandro Braga, e do trombonista Vittor Santos são vitais no projeto. A formação jazzística dos três músicos garantiu espaço para as improvisações, que em momento algum “traem” a estrutura brasileirísima, original das composições.”Demorei um ano para escolher as dez músicas do CD”, lembra David, um perfeccionista chamado de “brilhante” pelo amigo Jaques Morelenbaum, seu companheiro dos tempos da Barca do Sol.

O CD Baladas Brasileiras enfatiza a qualidade melódica das canções, simples mas refinadas. O sax alto e tenor e as flautas dominam o tempo todo, ressaltando cada nota. As cordas marcam presença em 6 das 10 faixas. Ganc burilou a concepção e só depois chamou, um a um, os amigos de longa data para os arranjos e gravações. Estrada do Sol, de Tom Jobim, abre o disco, com sax tenor sublinhado pelas cordas em arranjo de Leandro Braga. Zanzibar, de Edu Lobo, ganha comprida introdução no arranjo de David, marcada pela percussão de Mingo Araujo e Marcelo Costa, e um belo improviso de cello de Morelenbaum. Três músicas revelam o arranjador Vittor Santos. Em Esses Moços, David expõe Lupicínio numa seção de 4 flautas seguidas de curto solo de Leandro Braga. As cordas passeiam pela abertura de Nunca, outra de Lupicínio, com David no sax alto. Chovendo na Roseira recebe andamento acelerado realçado pela bateria de Cesar Machado e pelo baixo acústico de Ronaldo Diamante, o tema desenvolvido em sax tenor e improvisos na flauta. Em sua 4ª gravação , a composição Flor, de Monique Aragão, é executada em duo de sax alto e piano de perfeito entendimento .

Balada/Paz é uma rara composição modal de Ganc, gravada com base, trompete-trompete e sax tenor, e intervenção da guitarra de Rodrigo Campello. Song for David foi composta especialmente pelo amigo israelense Adi Yeshaia, quando ambos ainda estavam em Boston. David adaptou-a para uma rara Flauta em Sol, numa viagem melódico-harmônica bem acompanhada por Tomás Improta e Morelenbaum. As cordas brilham novamente no requintado arranjo de Leandro Braga para Se Queres Saber, de Peter Pan. O toque do sax tenor parece trazer a bela e melancólica letra da canção de volta. E em São Jorge de Hermeto Paschoal , Ganc tira partido dos ritmos nordestinos , com o característico pandeiro de Marcos Suzano e a bateria única de Oscar Bolão, criando um festivo clima final.


Ficha técnica AQUI.