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sábado, 18 de agosto de 2018

Alceu Valença em Colcha de Retalhos


Em HQ exclusiva para a Continente, André Valença e Celso Hartkopf “conversam” com o músico pernambucano sobre as peripécias do seu disco 'Vivo'.

Acesse AQUI.

segunda-feira, 28 de dezembro de 2015

Augustine Azul [2015]

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Por Macrocefalia Musical

É raro, mas pode acontecer. Você alguma vez já pegou um disco (seja ele no formato físico ou digital) e ficou encarando a capa? Não sei se existe um pensamento ''exato'' por trás desse ato, mas quando faço isso, geralmente penso: será que o conteúdo refletirá o que vejo na arte?
Por vezes é uma viagem sem volta. Como poderia saber que um prisma refletiria tanto Prog na forma de Pink Floyd? Jamais imaginaria que o Jeff Beck arrebataria meus ouvidos com um som tão futurista, ostentando uma maçã na capa de seu Jeff Beck Group, ou que o Led Zeppelin, fosse derreter minha mente da mesma forma que aconteceu com a carcaça do dirigível em chamas do Led I.

Não é um sistema à prova de falhas, muitas vezes as artes dos discos são trabalhos paralelos que tentam unir teias por conceitos diferentes. É uma maneira que propõe um novo ângulo de observação artístico para linkar um trabalho. A ideia é criar um signo, algo que você olhe e imediatamente pense: essa mina de Black Power é do ''Maggot Brain''.


Volto a repetir o mantra: é complicado achar um todo bem sincronizado, mas quando você acha e aprecia as notas, o baque é ainda maior. Você escuta o disco e frita de uma maneira quase conceitual. É como se você se identificasse com aquilo, da mesma maneira que o músico que está nos créditos o fez. É algo limpo e que não tenta se esconder, o groove é reto.

Arte: Inácio Eugênio - Crowl
E se tem um registro que vai lhe atingir como um porrete, desde a capa e desnorteará sua bússola psicológica, meu amigo, esse trampo será o EP dos paraibanos do Augustine Azul. O autointitulado lançado (virtualmente) no dia 01 de julho de 2015 é extremamente fiel ao que é relatado na capa e, digo mais, se eu deixei de falar algo, desculpem-me, desde que saquei essa jam, possuo dois martelos cravados no meu cérebro. A fritação Prog-instrumental do trio é violenta

Se teve um registro nacional que me pegou pelo pé foi esse aqui. A pegada do trio é assustadora. A bateria pesa, mas com técnica, bombeia o sangue da síncope para todos os instrumentos e mostra uma versatilidade notável, deixando claro desde a base, que o que temos aqui é uma cozinha bastante inventiva, livre e casca grossa.

O baixo de Jonathan Beltrão não caminha com a bateria de Edgard Moreira o tempo todo, ele desafia a guitarra, joga novos graves, deixa tudo mais torto e adiciona um groove bastante ácido em meio à tantas influências diversas. Insights que surgem desde o Stoner, passando pela psicodelia e um groove Funky que encerra o EP com ''Aquele Arregaço'', literalmente.

Na guitarra, João Yor fecha o pack, servindo como o norte de tudo que acontece aqui. Só que cuidado com essa frase, durante os quase 25 minutos que as notas surgem como um choque de taser, todos os instrumentos disputam espaço de maneira contundente.

Só que a fagulha que fará deste som, algo único nos seus fones, é justamente a criatividade de cada música. A diversidade de influências e a técnica crua de cada um dos envolvidos, que com um conceito muito bem definido, impressionam pela exatidão das timbragens.

Falei tanto das artes antes do texto por que você vai olhar pra essa daqui pra frente e lembrar: vish. É um trabalho marcante, seco e que define a força de um grupo que conseguiu achar um conceito e extendê-lo de forma rica sem se perder.

Aqui tem muito Blues, aquelas Hardeiras obscuras, música brasileira, ácido e no fim das contas o estrago chega com a força de um ''Mesclado'' mesmo. A química da banda é fervorosa, o baque é ''3>1'' na entrada, a pancadaria é vertiginosa e no fim parece que você vai cair, mas quando tudo ficar turvo, só verás um ''Teto Preto'' batizando jams ao vivo (a especialidade deste trio), como se a vida fosse uma eterna brisa num festival qualquer em 1900 e ''Setenta e Quatro''.

A cena underground brasileira vai muito bem (obrigado) e são grupos como esse, que além de evidenciarem o tato de nossos músicos e o alto nível das gravações made in Brazil (sem trocadilho), ressaltam ainda mais o puro néctar da música instrumental, nos provando por A + B, como é possível falar muito, sem precisar necessariamente cantar algo concreto. 

Uma bomba de estilhaços com um laço Prog para amarrar a ideia, esse é o Augustine Azul e seu EP. Depois da primeira audição parece que você saiu correndo e atravessou uma porta de vidro temperado. Que muqueta, é tão bom que até o nome do ''Nando Reis'' passa batido!


ENTREVISTA:

1- O conceito base do som de vocês é o rock progressivo e não o stoner, como muitos pensam. Como essa escolha estética faz vocês trabalharem pra mesclar influências e não se fechar dentro de um estilo apenas ?

O Rock Progressivo permite uma liberdade muito maior ao compor, pois conseguimos variar de maneira extrema o que é produzido dentro da música, como os compassos, tons, frases e temas. Algo que nos possibilita passear além do Rock Progressivo, mas o faz mantendo uma sonoridade que nos é íntima. Gostamos de escutar vários gêneros e isso se reflete no nosso som, que passeia não só pelo Stoner, mas absolutamente tudo que consumimos musicalmente.

2- E a banda, como se deu a formação do Augustine Azul ?

Eu (João Yor) e o Jonathan estávamos fazendo umas jams com nossos amigos. Daí pra frente as composições foram surgindo e a necessidade de ser uma banda também. O baterista dessas jams já tinha projetos e preferiu não continuar, depois Jonathan conheceu Edgard num bar e deu start na lombra.

3- O som desse EP é elementar por vários motivos, mas creio que o principa seja o caráter orgânico do todo. Como foi o processo de gravação ?

Sendo bem sincero, as condições não foram nem um pouco favoráveis, mas contamos com a ajuda de uma galera muito massa. Um amigo liberou a sala do home studio e uma bateria, os microfones arrumamos com outro parceiro, depois captamos a batera do jeito que deu e colocamos a guitarra e o baixo em linha, pra depois editar, mixar e masterizar tudo por conta própria e tá aí rolando. 

4- Na última session dessa gravação ("Nando Reis/Aquele Regaço"), o EP se encerra num boggie funkeado que é veneno. Vocês pensam em trabalhar mais com esse elemento ácido e gravar algo mais swingado num futuro próximo?

Sim, a gente viaja muito compondo e temos uma influência muito forte de Funk, mesmo não tocando o estilo propriamente dito, inclusive, já temos alguns riffs que transparecem mais nitidamente esse grooveado que o funk possui.

5- E daqui pra frente, quais são os planos? Dá pra soltar ou está tudo em off ainda?

Bicho, a gente tá em processo de composição e planejando lançar um álbum no próximo ano. Temos também músicas novas que já tocamos ao vivo e algumas que estão sendo compostas nos ensaios dos shows do EP. Ano que vem tem coisa nova com certeza!

6 - O Conceito trio remete bastante aos combos clássicos dos anos setenta, como o Taste e etc, mas como é essa química no víes de vocês, o instrumental ?

Nós achamos que o conceito de trio remete ao triângulo e a sua perfeita harmonia estética e prática. Além do som correr mais rápido, por ser mais concentrado, a gente se sente bastante confortável ao trabalhar junto, é uma liberdade massa de criação.

7- Pra finalizar, gostaria de agradecer pela atenção, o som de vocês é bastante singular. Aliás, falando nisso, o que os senhores estão ouvindo no momento? Algum desses sons acabou influenciando a gravação do EP de alguma maneira?

Pô, muito obrigado pelo elogio e pelo carinho com nosso som! Nós escutamos muito Led Zeppelin, Captain Beyond, Rush, King Crimson, Pink Floyd, Sleep, Down, EYEHATEGOD, Pantera, Wolfmother, Radio Moscow, Audioslave... É bem relativo como tudo isso entrou como influência no EP, acreditamos que interfira mais na maneira como desenvolvemos o gosto para não só escutar, mas criar sons.


João Yor - guitarra
Jonathan Beltrão - baixo
Edgard Moreira - bateria

sábado, 19 de dezembro de 2015

The Mullet Monster Mafia - Power Surf Orchestra [2009]




O Mullet Monster Mafia, também conhecido como Mullet, ou apenas MMM, como eram chamados pelo trio skate punk californiano Agent Orange, com quem dividiram um extensa turnê brasileira em 2010, começou atividades em dezembro de 2008 e no mês seguinte já estavam com este EP de 6 canções gravado. Em fevereiro de 2009 distribuíam as 1000 cópias no festival Psycho Carnival, em Curitiba.

Logo o quarteto ficou conhecido, seu som auto nomeado "Power Surf Orchestra", nada mais é do que uma surf music pesada, tocada em volume alto e sem dó dos instrumentos, a parte 'orquestra' ficava por conta do trompete JC Moloncio, que deixou a banda no final de 2012, reduzindo o Mullet Monster Mafia a um trio. O EP gravado em Piracicaba/SP tem produção conjunta do MMM com Celso Rocha, destaque para as porradas "Sinister people secrets" e "Swamp", e para a balada "Freshwater". O projeto gráfico é simples, as informações vêm na contracapa do envelope que guarda o CD. No rodapé um frase chama a atenção, ela diz: "Pirataria se combate é na facada!!!".

O Mullet Monster Mafia fez muitos shows, incluindo uma turnê de dez shows pela Europa em 2011, também acompanhou muitas nomes internacionais em passagem pelo Brasil. A banda lançou um segundo EP em 2011, "Dogs of the seas". O blog Disco Furado conversou com o trio no SESC de Presidente Prudente no dia 23 de março de 2013, ocasião em que o MMM acompanhava a turnê do quinteto surf music Los Chamánicos, do Chile. No link abaixo você pode conferir o que houve nesta conversa.

domingo, 22 de novembro de 2015

Vitrola Verde entrevista Miranda

Entrevista com o produtor musical Carlos Eduardo Miranda (ex-jurado dos programas "Ídolos", "Astros" e "Qual é o seu Talento?").

quarta-feira, 29 de julho de 2015

Vitrola Verde entrevista Percy Weiss

Entrevista histórica com o ex-integrante do Patrulha do Espaço, Made in Brazil e outros.

sábado, 11 de julho de 2015

Vitrola Verde entrevista Charles Gavin

Episódios 61, 62, e 63 do programa Vitrola Verde em que consta a entrevista com Charles Gavin.

Direção de Cesar Gavin.





terça-feira, 23 de junho de 2015

Frodo é coisa nossa

Por André Barcinski no R7
publicado em 22 de junho de 2015


Uma parte quase desconhecida da história do pop brasileiro está prestes a ser revelada, e com ajuda ilustre: o astro do cinema Elijah Wood, o Frodo de “O Senhor dos Anéis”, está colaborando com o cineasta e documentarista brasileiro Artur Ratton, 43, na produção de “Brazilian Guitar Fuzz Bananas”, um documentário sobre o pop psicodélico brasileiro dos anos 60 e 70.

O filme nasceu da amizade de Artur e outro brasileiro, Joel “Stones”, dono de uma cultuada loja de discos do Lower East Side de Nova York, a Tropicalia in Furs, fechada em 2013.

Artur ficou fascinado com uma coletânea, também chamada “Brazilian Guitar Fuzz Bananas”, que Joel lançou em 2010, com faixas gravadas entre 1967 e 1976 por artistas como Marisa Rossi, Tony e Som Colorido, The Pops e Célio Balona, e convenceu Joel a fazer um filme que contasse a história de artistas que sempre viveram à margem da indústria musical brazuca. Elijah Wood era cliente da Tropicalia in Furs, amigo de Joel, e decidiu ajudar na produção.

Artur mora há 15 anos em Nova York. Fiz uma entrevista com ele sobre o filme e a história da Tropicalia in Furs. Aqui vai:


- Você pode falar um pouco de seu background? Como foi parar em Nova York?
- Vim para Nova York em 2002. Antes havia morado na Califórnia, onde estudei cinema. Ao todo, moro nos EUA há 15 anos. Vim para Nova York para poder fazer meus filmes junto com minha mulher, que também é dessa área documental.

- Como conheceu a loja e o Joel?
Conheci o Joel (abaixo, na foto: Artur e Joel) quando fui entrevistá-lo para um documentário que eu fotografei e produzi, chamado “Beyond Ipanema”, sobre música brasileira nos EUA. Logo começamos a fazer pequenos filmes na loja dele e também um programa em umawebradio que tinha aqui em Nova York. O programa era um documentário sonoro sobre os discos que passavam pela loja. Misturávamos psicodelia turca com Krafwerk e Arnaud Rodriguez com alguma banda nova de Detroit, além de muito funk, jazz e soul. Foi naquela pequena loja pintada de laranja berrante que passei a realmente gostar e conhecer a música brasileira.

- Quem eram os clientes mais famosos da loja do Joel?
- Mike D do Beastie Boys estava sempre lá comprando vinil. O Julian Casablancas, do Strokes, foi iniciado na música brasileira pelo Joel. Um dia, dei de cara com o Matt Dillon na loja. Muita gente dounderground de Nova York parava por lá: Sonic Youth, Blond Redhead, gente da época do punk nova-iorquino, além de DJs como Jonathan Toubin, que é o cara que faz as melhores festas para dançar na cidade, tocando apenas 45s e coisas super originais. Eram muitos personagens que passavam por lá e a troca cultural era intensa. E tinha uma coisa rara em lojas de discos: era um lugar amigável e onde ninguém era julgado. Assim como o Joel dava atenção a rockstars querendo saber sobre Tim Maia, dava a mesma atenção a um menino qualquer que passava por lá. O Joel sempre fazia questão de descer caixas das prateleiras para mostrar músicas.

- Quando fechou a loja, e por quê?
- O Joel é um doido iconoclasta, quis ver o que seria o próximo capítulo e fechou as portas em plena virada do ano de 2013, com a loja bombando. Foi até a First Avenue e jogou caixas e caixas de discos para o povo, foi engraçado ver. A loja existe agora nos subterrâneos virtuais e nas feiras de discos. Outra coisa que influenciou é como o East Village está virando careta e cheio de estudantes universitários andando de bermudas como se estivessem em algum campus suburbano. Também havia muita gente reclamando de som alto e chamando a polícia. Na loja o som estava sempre alto e as festas iam até de madrugada. Nova York está sofrendo um pouco de deficiência erétil, e os malucos aos poucos estão sumindo.

- Como surgiu o interesse em fazer o filme?
O filme foi resultado de uma residência artística espontânea que fiz na loja, junto com o Joel. Nesse processo fizemos o programa de rádio, produzimos shows, pequenos curtas-metragens experimentais e, sem saber, construímos uma historia na cena undergroundboêmia do East Village. Sem pretensão, do jeito do Joel, ele criou e construiu um ponto que vai fazer parte da mitologia daquele bairro especial para sempre. O filme foi resultado disso. Em nós surgiu também um prazer em apresentar o Brasil para os estrangeiros, à nossa maneira. Quando o Joel me disse que estava produzindo a compilação (“Brazilian Guitar Fuzz Bananas”) comecei a documentar do jeito que podia, e acabamos com um documentário de 15 minutos sobre o processo caótico, mas funcional, do Joel em pesquisar e relançar as músicas. Depois disso começamos a planejar o que seria o longa, um documentário road movie em um formato realmente psicodélico, um filme divertido que ajudasse a trazer esta era tão especial da música brasileira para a superfície. Apresentamos o filme como uma mistura de “Easy Rider” com “Buena Vista Social Club”, misturado com um pouco de Mussum.

- Esse lado desconhecido do pop brasileiro sempre te interessou?
- Sim, mas eu não tinha nem ideia da profundidade dessa verdadeira caverna escura e sinuosa que é a música brasileira que ficou pelas beiradas da indústria musical do país. Músicas que, até pouco tempo atrás, estavam fadadas a sumir, pois existiam apenas em compactos. A criatividade, originalidade, audácia e ingenuidade desse material são capazes de enlouquecer qualquer pessoa com sensibilidade musical e vontade de expandir a mente. É uma música simplesmente divertida e, às vezes, até perigosa de ser ouvida. Esteticamente, é subversiva.

- Vocês fizeram um projeto de crowdfunding e levantaram 25 mil dólares. Como está o andamento do projeto?
- Com os 25 mil fomos ao Brasil e filmamos por 15 dias ininterruptos entre Rio e São Paulo. Começamos com o cantor Fábio, de “Lindo Sonho Delirante”, no topo do Hotel Jaraguá, no centro de São Paulo, e terminamos abraçados e molhados de água salgada com o Serguei em Saquarema. Também achamos o mitológico Paulo Bagunça em uma vila no litoral norte do Rio. Voltamos com um material muito legal, mas quebrados de dinheiro. No momento, desistimos de tentar captar no Brasil e estamos deixando o projeto mais internacional, para podermos levantar recursos aqui. Tem dado certo. Nossa ultima empreitada agora é trazer o Paulo Bagunça para gravar em Los Angeles, com produção do Mario Caldato (brasileiro que trabalhou com Beastie Boys, Beck e muitos outros), que é um dos nossos apoiadores e incentivadores.

- Pode falar um pouco sobre a colaboração do Elijah Wood? Ele aparece no promo. Isso quer dizer que vai aparecer no filme também?
- O Elijah é muito amigo do Joel e coleciona e toca discos como DJ profissional, às vezes eles tocam juntos. Acho que a musica é onde ele gosta de andar na sombra, sem ser o astro do cinema. Ele realmente ama música com bastante paixão. Ele nos ajudou bastante na época do crowdfunding e quer muito participar do filme. Pediu uma cena em que não fale nada, então escrevi um encontro no deserto entre ele, o Paulo Bagunça e o Joel. Ele vai fazer o papel de uma cobra azul com a cabeça do Elijah.

- Você tem um cronograma para terminar o filme?
- Sim, o mais breve possível. O Paulo está tinindo, ainda toca e canta muito bem, tem um ótimo senso de estética fashion para escolher suas camisas floridas. Está perfeito para viajar com a gente e poder recriar seu som pelo menos mais uma vez, para os olhos e ouvidos do mundo. É agora ou nunca. Pretendo lançar o filme em 2016.

domingo, 15 de junho de 2014

Odair José - O Filho de José e Maria [1979]

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Odair José se redescobre em novo público: "Quero os doidões ao meu lado"
Por Tiago Dias em 13 de junho de 2014 no UOL


Odair José finaliza novo disco de inéditas, "Dia Dezesseis".
"Estou me sentindo o Keith Richards e Mick Jagger", diz
Terror das empregadas, brega, cantor romântico. Odair José passou a vida sendo enquadrado em rótulos que sempre lhe trouxeram desconforto. Prestes a completar 66 anos, ele, enfim, se rebela. "Eu sou um artista de público jovem. Estou convencido que houve uma análise errada sobre meu trabalho", afirmou em entrevista ao UOL. "As pessoas me convidam [para programas de TV], e eu não vou, porque eles querem mostrar o cantor brega, um Odair que não sou eu."

O cantor revisita, neste fim de semana, seu disco mais controverso, "O Filho de José e Maria" no Sesc Belenzinho, em São Paulo, nos dias 13, 14 e 15. Lançado em 1977, o álbum conceitual conta a saga de uma espécie de Jesus Cristo, mais terreno e contemporâneo, fruto de um casamento que não deu certo e que encontra o sentido da vida aos 33 anos.

Usuário de maconha e cocaína na época, Odair sofreu rejeição do público e chegou a ser ameaçado de ser excomungado pela Igreja Católica. "Aquilo foi tomado como blasfêmia. 'Esse cara é um merda, não pode falar isso', diziam. De gravadora a amigos pessoais, todo o mundo olhou com desconfiança."

Trinta e sete anos depois, o disco não apenas é aceito, como ganha eco em um público novo e mais jovem. "O Filho de José e Maria" ganhará em breve DVD ao vivo e especial no Canal Brasil em agosto.

Odair conversou a reportagem enquanto finaliza também as gravações de seu novo disco inédito, "Dia Dezesseis", inspirado pelos novos seguidores. "Agora estou pensando em mim. Eu quero a molecada, eu quero os doidões comigo, os malucos. Essa coisa de gente muito correta pode ficar longe."

UOL - O disco "O Filho de José e Maria" é um importante rompimento na sua carreira. Foi também um esforço em dar um basta na pecha de cantor brega e romântico?
Odair José - Na verdade, quando o projeto surgiu em 1976, não pensei em dar um basta em nada. Sempre tive muita paixão por músicos, tento ser um, mas não sou virtuoso. Naquela época eu estava lendo o livro do Kalil Gibran, "O Profeta", e acreditava em uma proposta musical que estourava no mundo inteiro, com Peter Frampton. Eu queria ser esse cara com a guitarra no pescoço, tocando com uma banda. Eu queria falar de algumas dúvidas minhas sobre a religião, não a religiosidade, mas sim a forma que a religião contava as coisas, que pra mim não batia, como não bate até hoje. Então eu fiz músicas interligadas que contam a história de uma pessoa. Cada música é um momento da vida do cara, tem o casamento, o filho abandonado, a tentativa de se achar. Mas as pessoas ficaram com pé atrás.

Hoje parece que não ficam mais com o pé atrás.
Hoje acho que o trabalho, desculpa a expressão, não tem prepotência, é genial. Hoje ele ainda assusta as pessoas, mas, graças a essa nova geração, tenho a oportunidade de mostrar no palco, e está sendo muito divertido. As pessoas comentavam: vamos fazer aquele disco de novo, naquela época não deu certo, vamos tentar hoje. Não foi uma procura minha. O DVD com o show sai agora, acho que em agosto. Queremos reeditar também o vinil.

E quais eram esses questionamentos religiosos?
Eu acredito e acho que a história de Jesus Cristo muito bonita, mas não vejo a história de Deus como a Igreja conta. Ainda não sabemos se existe nem que forma tem. Acho que a Igreja usa muito a fé e necessidade das pessoas para explorar isso aí. Sou batizado na Igreja Católica, mas, depois dos 18 anos, estou no mundo e tenho meu próprio conceito sobre isso. Na verdade, isso é um paralelo a todos cidadãos. O filho de José e Maria somos todos nós, não especificamente era Jesus Cristo. Mas aquilo, na época, foi tomado como blasfêmia. 'Esse cara é um merda, não pode falar isso'.

Mas parece que agora você encontrou seu público...
Quando eu me propus a fazer o disco, todo mundo foi contra. De gravadora a amigos pessoais, todo mundo olhou com desconfiança. A única pessoa que topou foi o Guilherme Araújo, que era meu empresário na época. Eu era um grande vendedor de discos, estava entre os três mais. As pessoas diziam que eu estava jogando minha carreira no lixo e aquilo vazou para a imprensa. Troquei até de gravadora, a fim de achar um clima mais tranquilo, e não consegui. Quando o disco foi lançado até fui ameaçado de ser excomungado da igreja. Foi um absurdo total. O público de um modo geral seguiu a opinião errada: o cara enlouqueceu. O disco foi mutilado, a gravadora mudou toda a ordem das músicas. Fiquei muito chateado na época, deprimido. Vejo hoje que eu devia ter insistido, eu sou isso aqui mesmo, f***-se. Mas parei ali. Sempre toquei minha guitarra, com banda, nunca coloquei orquestra no palco, não sou um cantor de bolero, sou um cantor pop, um cronista que sempre falou da vida das pessoas, eu não falo da pílula, da prostituta, da empregada, eu canto o que eu vejo na rua, da dureza da vida.

E a audiência mais popular? Desistiu de você?
Na verdade, o público antigo continua com o mesmo conceito. Vão ver o cantor da pílula. O público jovem que na verdade está mudando esse conceito. Estou tocando em festival onde só têm jovens. Se tiver mil pessoas, 700 pessoas são jovens, com menos de 35 anos. Eu sou um artista para o público jovem. Toda vez que programam meu show para um público mais velho, a tendência de fracassar é muito grande. Estou convencido que houve uma analise errada sobre meu trabalho. Por que eu me afastei de televisão? As pessoas me convidam, e eu não vou, porque eles querem mostrar o cantor brega, um Odair que não sou eu. Eu sou isso, mas não sou só isso. Se for dessa forma, não me interessa.

Sua história está no livro "Eu não sou cachorro, não", do jornalista Paulo César de Araújo, que resgata a importância dos cantores chamados de bregas. Anos depois, ele viria a ter um livro proibido pelo Roberto Carlos. O que você acha de tudo isso?
Eu gosto do livro, ele chamou atenção pra esse tipo de música e de determinados artistas que sofreram preconceito conceitual. Eu conheço o Paulo, estive com ele outras vezes. Sempre soube que o Roberto era contrário ao livro desde o início. Eu imaginei que não daria certo, como não deu. Eu tenho o livro e não vejo nada demais. Ao mesmo tempo também, o Paulo me disse que ia fazer um livro sobre a obra, mas tem a vida íntima ali.

Quando o assunto da proibição de biografias não autorizadas voltou à pauta houve um paralelo com a censura. Você teve letras censuradas durante a ditadura...
Tive músicas minhas que só foram liberadas depois do regime militar. Em determinado momento, você cria uma autocensura, 'isso eu não vou falar, porque não vai passar'. Acaba que a música não falava de nada. Eles não queriam que a gente cantasse coisas das ruas, e era o que eu fazia. Vi o Paulo César dizendo que o Roberto seria o último censor do Brasil. Nós sabemos que, em vários países, você encontra biografias autorizadas, não autorizadas, e está tudo certo. Já me procuraram para fazer documentário, livro, mas não me interessei. Houve até uma insistência por conta de algumas produções ligadas a Globo Filmes, eles disseram que o que eu não quisesse mostrar, eles não colocariam no filme. Eu disse: 'bicho, se eu for fazer, tem que colocar tudo, se eu usei drogas vai colocar, se eu tive um problema de homossexualismo, vai colocar. Sou contra proibir, mas tem que achar um meio termo. Teve um cara que disse: qual foi o processo que o Roberto Carlos perdeu? Ficou uma coisa assim: não podemos falar de Roberto, por que ele não quer e vai colocar na bunda de todo mundo.

O que você fez na vida que seria o grande chamariz de sua biografia?
Não tem nada grande. Todas as merdas que eu fiz, eu falo, como todo mundo. Eu me perdi, no casamento fui indisciplinado, bebi muito, me afundei nas drogas.

As drogas foram na mesma época do disco?
Fui careta até 1976, por aí. Depois fui para maconha, uma cocaína ali. Isso perdurou por uns 10 anos. Depois virei careta de novo. Mas o maior a loucura é o estado de lucidez.

Sua relação com Roberto não era próxima, mas vocês trabalharam na mesma gravadora durante os anos 70
Naquele momento, entrar na CBS era como entrar na seleção do Felipão. Era a seleção dos melhores. Foi uma sorte muito grande, mas depois que eu entrei, vi que não havia espaço para nenhuma criação que saísse do padrão Roberto Carlos. Todo mundo fazia aquele tipo de música, que não é ruim, era bom, mas era bom para ele. Eu conversava com a Rauzito, que trabalhava na gravadora na época, e que depois viria a se tornar o Raul Seixas, de que devíamos procurar nosso caminho, que aquele ali era o do Roberto. Quando faço "Vou Tirar Você Desse Lugar", a gravadora rebatia: 'Como é que um cantor que fala de prostituta quer ser pop?' Eu dizia: 'Há algo mais rock n' roll do que se apaixonar por uma puta e que eu vou me casar com ela e f***-se? E estou bem acompanhado na história, Jesus Cristo defendeu isso há dois mil anos'. Contrariando as previsões deles, eu vendi mais que todo mundo.

Você agora tem esse espaço. O que anda fazendo?

Estou terminando um disco que vai se chamar "Dia Dezesseis". Eu queria lançar no dia 16 de agosto, que é meu aniversário, mas acho que não vai dar tempo. Ao lado de "O Filho de José e Maria", é meu disco mais pop. É um disco cheio de guitarras. Tem algumas faixas que eu estou a cara do [Rolling] Stones, me divertindo, estou me sentindo o Keith Richards e o Mick Jagger. Ele está muito rock n' roll, porque não tem ninguém se metendo.

Está pensando nesse público novo?
Agora estou pensando em mim. Aquele ali sou eu. Outro dia eu falei algo que me criticaram bastante, mas vou fazer 66 anos, não vou pra nenhum lugar que não seja meu trabalho e minha casa. Velho não sai de casa, não fica em uma praça, velho não tem ânimo, não tem energia. Eu vi o Paul [McCartney] tocando no estádio para pessoas de oito a oitenta anos e fiquei louco. Mas ele toca como se tivesse vinte anos. É isso que eu quero. Estou fazendo um disco pensando nisso. Eu quero a molecada, eu quero os doidões comigo, os malucos. Essa coisa de gente muito correta, pode ficar longe.

quarta-feira, 29 de janeiro de 2014

Ex-integrante do Ave Sangria luta para recuperar a vida e a carreiraTítulo da postagem

Após raras aparições, Ivinho apresentação instrumental neste sábado, em Olinda
A apresentação instrumental será ao lado da banda Anjo Gabriel - Foto: Alcione Ferreira/DP/D.A Press

Por André Duarte
publicado em 25 de janeiro 2014 no Diário de Pernambuco

O primeiro brasileiro a subir no palco do Festival de Montreux, na Suíça, em 1978, não foi Gilberto Gil, como erroneamente acabou sendo creditado na história de um dos mais importantes templos do jazz e da world music. Horas antes da apresentação do cantor baiano, um guitarrista pernambucano de semblante invocado entrou sozinho, empunhando um violão de 12 cordas com um furo na madeira - apelidado depois de furiola, já que o rombo fora provocado por ele em um acesso de fúria.

Aos 61 anos, Ivson Wanderley Pessoa, o Ivinho, mora sozinho no térreo de um cortiço alugado no bairro da Boa Vista, onde, 35 anos depois de surpreender o público suíço com improvisos de frevo e baião numa pegada setentista, tenta retomar a carreira e a vida dentro um universo particular, chacoalhado por problemas pessoais.

Ex-guitarrista da não menos lendária banda Ave Sangria, virou personagem mítico da música psicodélica brasileira, não apenas pela habilidade na guitarra, mas pelo sumiço incompatível com alguém comparado a músicos do quilate de Robertinho do Recife e Lanny Gordin. Após raras aparições, Ivinho faz apresentação instrumental neste sábado, em Olinda, dividindo o palco com a Anjo Gabriel, banda da nova safra de artistas influenciados pela geração udigrudi pernambucana. “Ele é um herói da guitarra. Tem a assinatura só dele no jeito de tocar. O disco de Montreux é a prova disso”, diz Marco da Lata, baixista da Anjo Gabriel, falando do único registro solo em disco de Ivinho.

O músico vive da aposentadoria de um salário mínimo e, quando o bolso esvazia, pirateia os discos de que participou, vendendo as cópias para amigos e fãs. Almir de Oliveira, baixista da formação original do Ave Sangria e amigo de infância de Ivinho, se emociona ao lembrar do guitarrista: “Ivinho é único. Ele não perdeu o feeling, aquele estilo próprio, mesmo depois de todo esse tempo, de tudo isso. Um músico com a capacidade dele tem que trabalhar”.

Vestido de amarelo, como a personagem na letra Hei Man, do único disco do Ave Sangria, Ivinho recebeu o Viver para um entrevista em casa, onde, entre respostas sinuosas e raciocínio solto, demonstrou mais entusiasmo ao encerrar a conversa para tocar sua guitarra Memphis: “Música tem que ter três coisas: técnica, expressão e sentimento”.

Entrevista - Ivinho

Você continua tocando ou revisitou o repertório apenas para este show?

Às vezes, quando estou sozinho escutando alguma coisa, pego a guitarra, ligo no amplificador e saio acompanhado as imagens (da TV). Por exemplo, recentemente vi o DVD de João Bosco, a banda quebrando tudo, eu fui lá, botei o som da minha guitarra em cima e fiquei me divertindo. Ou deixo tudo no silêncio pra qualquer coisa que começar a surgir. Eu estou colocando (no show) o que eu já tinha feito. Porque nunca ninguém deu valor ao que fiz. Eu dei valor a quem ficou comigo. Eu me coloquei do lado de Geraldo Azevedo, Alceu Valença, Zé Ramalho, Vital Farias, de Xangai, de Tito Lívio, de Ednardo. Foi sempre ao lado, mas eu nunca disse ‘eu fiz’, ‘eu vou mostrar’, ‘é assim’. Quando, na fase de mesa de bar, de caipirinha, de cervejinha, que a boca ficava solta no ar, as palavras saíam. Hoje em dia as palavras perderam o valor. Eu tou fazendo assim agora: passo a harmonia para os músicos da banda, aí eu coloco a melodia com harmonia entrosando.

Mantém contato com os cantores que você acompanhou ao longo desse tempo?
É como dizia Erickson Luna (poeta, falecido em 2007): ‘Se você não vem ao meu, eu não vou ao seu’. Entendeu? É Alceu mesmo (falando de Alceu Valença). Nenhum deles fala mais comigo. Fica lá na ficha técnica dos discos. Guardo tudo de bom e de ruim daquele tempo, desde a mordomia na Suíça, sentado em cadeiras de veludo, até o Departamento de Tóxicos, Roubos e Furtos, clínicas, internamentos. Existe o lado bom da vida, que é a mordomia, e o lado ruim, que são as regras de estado: o filho fica com a mãe, a mãe morre e fica o filho, aí aparecem os irmãos, a divisão de imóveis, aí eu, puf, casei. Os bons momentos foram a Suíça, o Festival de Montreux, a burguesia, o avião, o hotel de luxo. O outro lado da realidade é uma paradinha chamada averiguação – espero que não exista mais essa palavra.

E sobre as drogas e os problemas que enfrentou... Chegou a ser diagnosticado?
De início, na cidade era muita cachaça, lá em Maria Farinha (onde viveu um tempo) estava cheirando muito pó, era muita doideira, muito isso, aquilo. Estava me tremendo todo. Ia ficar jogado na rua. Ninguém abria a porta pra mim. Agora, eu prefiro ter minha vida controlada. Quando vejo que estou com um problema, aperreado, eu falo com o menino do bar, levo três garrafas (de cerveja), faço um tiragosto, meto o volume lá em cima, tomo uma aqui e passo o dia sozinho com três garrafas de um litro, cada. Mas não faço isso todos os dias. Fiz isso ontem. Não quero fazer até o dia do show. Quero saber do repertório, dos ensaios. Fui para a fila da previdência social na época de Fernando Henrique Cardoso. Vi que a situação tava preta, entrei na fila, peguei esse papel. Um senhor que me ajudava uma vez me chamou para ajudar a preencher essa papelada. Eu queria saber onde me enquadrava. Afinal, tenho duas pernas, que funcionam. Ele resolveu colocar deficiente mental. Eu disse “legal, é isso mesmo”.

Como começou essa fixação com a guitarra? Você é autodidata?
Eu não sou um grande guitarrista. Comecei tocando um violão de 13 cruzeiros. Tinha a banda Os Selvagens, de Casa Amarela. A gente tinha que tocar covers dos Stones, Beatles, do Creedence Clearwater. Aprendi a tocar escutando, tirando a base do ouvido, e Almir (de Oliveira, ex-integrante da banda) ajudava na pronúncia do inglês. Eu era da Vila dos Comerciários, e era lá que a gente ensaiava. Era banda para tocar em bailes. O Tamarineira Village (que deu origem ao Ave Sangria) veio depois. Marco Polo entrou para a banda, era um cara articulado, inteligente, e ficou com aquela história de ser líder da banda, mas existia uma competição entre ele e Almir, que era um cara mais na dele. Foi quando eu disse: ‘Eu não sou traidor. Dou apoio a vocês dois’. Aí Alceu Valença começou a querer Israel Semente (baterista da banda, já falecido)…

Mas isso de Alceu foi depois do fim do Ave Sangria, não?
Não. O Ave terminou porque Alceu levou quem ele queria para a banda dele. Levou Paulo Rafael, levou Israel Semente, levou Zé da Flauta, levou Zé Ramalho, levou Lula Côrtes, levou Agrício Noya e me levou. Sobrou quem da banda? Marco Polo e Almir. Porque eram os protagonistas. Não interessavam. Eu não fiquei bajulando Alceu. Botei logo uma camisa com a inscrição ‘Abaixo o Folclore’ porque eu queria crescer o Ave Sangria, e Alceu queria crescer sozinho. E cresceu. Mas derrubou os dois (Marco Polo e Almir). Almir é engenheiro da Prefeitura de Olinda e Marco Polo desistiu da música, virou jornalista e foi arrumar emprego em jornal.

Serviço: Shows de Ivinho e Anjo Gabriel
Hoje, 22 h
Solar da Marquesa, Largo do Varadouro, Olinda
R$ 20 (bilheteria) e R$ 15 (lista amiga)

quinta-feira, 26 de dezembro de 2013

O Som do Vinil - Mutantes e Seus Cometas no País dos Baurets

Charles Gavin entrevistando alguns dos músicos que participaram da gravação desse clássico.

sexta-feira, 5 de julho de 2013

Entrevista com Tânia Braz (Ladylike), 14/06/2012

O que é rock progressivo ? Tânia Braz dá uma luz sobre o assunto nessa entrevista concedida ao programa Revista BHNews


quarta-feira, 5 de junho de 2013

Eloy Fritsch - The Garden of Emotions [2009]

Mega FLAC


Eloy Fritsch lança disco de música eletrônica inspirado no Cosmos
publicado originalmente em 13 de outubro de 2008 no PortoWeb


The Garden Of Emotions é a sequência de um projeto instrumental do músico e professor do Instituto de Artes Eloy Fritsch. Focado em sintetizadores, samplers, computadores e teclados eletrônicos, o trabalho mescla sons orquestrais, corais, eletrônicos e concretos, com temas inspirados no Cosmos. O título do disco, que conta com músicas como Space Station, Lumine Solis e Solar Energy, também dá nome à suíte instrumental composta por seis faixas que inicia o álbum.

Eloy, que além de professor é tecladista do grupo de rock progressivo Apocalypse, foi o primeiro a lançar no Estado (Rio Grande do Sul) um disco totalmente composto e gravado por computador, o Dreams, de 1996. Ele também tem no currículo a menção honrosa do Prêmio Açorianos de Música 2009 e a indicação para melhor álbum e melhor compositor nas edições anteriores do troféu. Em entrevista ao PortoWeb, Fritsch comenta sobre o novo trabalho.

PortoWeb - “The Garden of Emotions” foi inspirado no Cosmos, fale um pouco sobre isso:

Eloy - Em todos os CDs deste projeto de música instrumental com sintetizadores busquei alguma inspiração no Cosmos. Alguns álbuns são mais influenciados pelo espaço como é o caso do CD Space Music de 1998 que foi editado apenas na França, outros são menos influenciados como é o caso do Landscapes. Este novo CD possui temas espaciais como Lumine Solis, Solar Energy, Heaven e Space Station. Mas vai além disso, envolve temas exotéricos e místicos que estão presentes também na suíte de abertura formada por seis movimentos com o mesmo título do CD. Esta suíte torna o trabalho mais conceitual, algo que já havia realizado com prazer nos discos Mythology e Atmosphere

PW - Quando e como surgiu a idéia para o novo CD?

Eloy - Surgiu quando criei a primeira versão da Suíte The Garden of Emotions. Eu finalizei a primeira versão em 2004 logo após ter feito o CD Landscapes. A suíte foi lançada no CD Edition #5 da gravadora holandesa Groove Unlimited. Após participei com esta mesma versão na coletânea Brasil Instrumental 2006 pela Editora HMP. Em 2008, para o novo CD, resolvi adaptar ela para seis movimentos criando interlúdios e modificando radicalmente a ordem das sessões. Inclui mais material eletrônico e trechos que havia guardado. O resultado foi uma versão estendida da composição que funcionou melhor para o contexto do novo álbum que a versão anterior.

PW - Quando começou a produção desse trabalho?

Eloy - A produção começou quando realizei, no início de 2009, uma audição do que havia composto nos últimos quatro anos. Assim percebi que já havia material para mais um CD. Ainda compus a Beyond the Mountais e a Lumine Solis em 2009. Ao enviar os áudios para o artista plástico Edgar Franco, ele pintou essa linda capa e criou toda a arte visual do novo CD. Uma arte forte que esta em harmonia com o projeto de composição musical.

PW - Como foi o processo de composição?

Eloy - O processo varia conforme a música. Mas normalmente sento ao teclado eletrônico e vou tocando livremente. Preciso estar sintonizado com a energia criativa e tentar transformar em música as minhas emoções e sentimentos. Tudo é muito espontâneo e sem limites para a criação. Utilizo o computador como um estúdio digital no qual vou registrando o momento da criação sem que importantes detalhes sejam esquecidos ou perdidos. No computador também trabalho o arranjo e a construção de texturas, ritmos e organização das sessões. Neste álbum usei o sequenciador MIDI em apenas uma música. Outras foram criadas em tempo real com recursos dos teclados eletrônicos. Eu queria fazer um álbum com temas bem distintos, então a alternância de técnicas de composição e a fusão entre sons eletrônicos sintetizados, samples, percussão e a voz deu um colorido especial ao trabalho.

PW - Quais as diferenças desse trabalho para os anteriores?

Eloy - Meu trabalho anterior foi uma coletânea de dez anos do projeto com sintetizadores chamado Past and Future Sounds (1996-2006) lançado apenas na França. O último álbum de inéditas foi o Landscapes feito em 2003 e lançado em 2005. Então esse novo disco veio com uma energia diferente acumulada em todos esses anos sem lançar um trabalho com sintetizadores. Apesar de produzir com o Apocalypse três álbuns, escrever um livro e fazer o DVD de Música Eletrônica, senti que precisava registrar e lançar mais essas criações para continuar a crescer e colher o feedback desse projeto. Eu tenho uma necessidade de criar e registrar as composições para depois possa ouvi-las e mostrar as pessoas que apreciam música. O nascimento de um novo álbum é algo maravilhoso porque ele reúne toda a energia de um tempo que passou, mas que ficou armazenada naquela produção. Por isso, não só a música, mas toda a concepção do álbum é significativa para mim.

* The Garden Of Emotions pode ser adquirido pela Internet nas gravadoras MUSEA (França), Sonhos & Sons (Minas Gerais) e CD Baby (USA).


Veja também:
Eloy Fritsch - Behind The Walls Of Imagination [1997]

domingo, 17 de março de 2013

Ávora Di Carlla - O Velho, A Carne e a Psicodélica Árvore do Imaculado Ventre da Terra [2012]


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Por Mácia Tunes
Publicado em 17 de setembro de 2012 no Olho Vivo

O rock progressivo do Ávora Di Carlla

Primeiro álbum deve ser lançado e distribuído no formato CD até o fim de 2012; Gustavo Caverzan também pretende publicar um livro


Esta é uma banda dotada de todos os atributos necessários para ser uma superbanda, ou melhor, para se tornar um clássico, uma referência. É difícil depois de tantas décadas de música, ouvindo som, conhecendo bandas de todas as partes do mundo ainda encontrar bandas que façam a diferença, que soem únicas, que tenham uma identidade própria. Isso tem acontecido com uma frequência muito maior do que seria por mim considerado normal, e isso é bárbaro. Sinal de que tudo está por vir, que a coisa está viva e revigorada e no mundo existem pessoas interessadas em fazer música, fazer música boa, de qualidade, que vão ficar, e daqui a 30 anos alguém ainda vai estar boquiaberto ouvindo o som desses rapazes. Conversei com Gustavo Caverzan e esse papo você confere agora.

Márcia: A banda começou quando, como e onde?


Gustavo: Ao falarmos de começo penso que o melhor seria primeiramente concentrarmo-nos no que diz respeito ao princípio Ávora Di Carlla, isto é, no advento das tarefas pertinentes à criação artística e ao resguardo estético-hermenêutico competente ao grande espectador. Logo, o princípio clama humanidade, pois ele acontece tanto na dinâmica inauguradora que se dá por todo momento que nos disponibilizamos ao ofício da criação (pelo afeto inerente à realização da nossa obra musical), quanto na ausculta imprescindível e fundamental do espectador. Com isso, tornamo-nos filhos de uma grande obra chamada compreensão. Eis o lugar privilegiado que nos encontramos diante da arte: seja enquanto gênios; seja enquanto juízes da contemplação. A obra se principia sempre que inaugura uma experiência de compreensão àquele que dela se alimenta pela conversação. Agora, sob o ponto de vista datado num começo que divide um ainda não e uma ação, uma proveniência pontuada num fato histórico, podemos dizer que o projeto Ávora Di Carlla teve a sua partida nos anos 90. Uma iniciativa que movi e que foi, ao longo do percurso, elaborada na companhia de pessoas talentosíssimas. Assim, tomado pela necessidade de dizer o mundo auscultado desde a sensibilidade do existir, composições foram ganhando corpo, alteridade. Muitas tentativas foram exercitadas para que a formação de uma banda pudesse se efetivar. Entretanto, no ano de 1998, o que até então fora anunciado pela solidão de um violão passou a soar numa banda de rock. Algumas gravações demonstrativas ainda foram realizadas em meio às mudanças e dificuldades, até que o primeiro disco do Ávora Di Carlla passou a ser elaborado com a participação de novos integrantes e com um encaminhamento temático mais intensificado. Com relação à nossa residência: o projeto Ávora Di Carlla é da Grande Vitória - Espírito Santo.

Márcia: Integrantes?

Gustavo: Muitas pessoas contribuíram com o seu talento para a realização da obra Ávora Di Carlla. No primeiro disco a nossa formação base foi: Geógenes dos Santos (captação técnica de áudio), Roger Bezerra (teclados e produção musical), Luiger Lima (bateria), Carlos Anderson (baixo elétrico), Flávio Veronez (guitarras) e eu na composição e no canto. Incluímos a participação do maestro Helder Trefzger e do técnico de gravação e músico Ricardo Mendes, que finalizou as gravações e mixou o disco. Mas, como já disse, a realização da obra Ávora Di Carlla foi sustentada pela genialidade de muitas pessoas. Assim, tivemos os vocais espetaculares produzidos pelo Emmerson Nogueira e pela Juliana Matias, a narração fenomenal do ator Ednardo Pinheiro, a participação do Igor Awad e do Cláudio Bocca no canto. Tivemos também a presença do grande guitarrista Rodrigo Marçal e a incrível participação de músicos geniais que compuseram o corpo da orquestra, enfim. Sou agradecido de coração por tudo que fizeram para o engrandecimento dessa saga musical. Deixo no fim dessa matéria um link onde podemos fazer o download do encarte. Lá, temos as descrições mais detalhadas sobre a participação das pessoas em cada faixa construída. Já no processo de gravação do segundo disco, estamos caminhando com a seguinte formação: eu na composição e no canto, Roger Bezerra (teclados e produção musical), Ricardo Mendes (guitarras e técnica de gravação), Luiger Lima (bateria) e Ruydael Santos (baixo elétrico). No mais, conforme o desenvolvimento das produções, somos contemplados também com novas participações.

Márcia: Discos lançados?

Gustavo: No ano de 2010 concluímos o nosso primeiro disco: o lançamento se concentrou exclusivamente na internet (onde o conteúdo do mesmo foi disponibilizado para audição e download). A partir daí, iniciamos a produção do nosso segundo disco. Esse, em fase de gravação. É importante acentuarmos que as sete faixas do Disco I, juntamente com as três faixas do Volume II, compõem, na verdade, uma única música chamada “O Velho, a carne e a psicodélica árvore do imaculado ventre da Terra”. Tal obra em sua totalidade nos sugere pensar, pela afecção da habitação poética contida em seu mito, a dinâmica do existir humano na sua responsabilidade para com a construção de si mesmo. Assim, as imagens que mostram as experiências de abismo (dor) e cume (obra de vida) são formadas num movimento cujo itinerário vai do crepúsculo à aurora (Disco I) e da aurora ao crepúsculo (Volume II). Pretendo, após o lançamento do Volume II, publicar um livro com as minhas considerações hermenêuticas sobre a obra Ávora Di Carlla em sua unidade. Ainda com relação ao disco lançado, não tivemos condições de reproduzi-lo para maiores divulgações num CD. Porém, é bem provável que até o fim do ano de 2012 o nosso primeiro álbum seja lançado e distribuído (no formato CD) por um selo de rock progressivo. Vamos aguardar, quem sabe...

Márcia: Com que frequência fazem shows e o que acham dos que já realizam?

Gustavo: Os ensaios e encontros que realizamos ao longo da produção de todo o conteúdo do Ávora Di Carlla foram orientados especificamente para a gravação do disco, e assim continuamos procedendo com o nosso segundo álbum. Sendo assim, o Ávora Di Carlla pode ser identificado como um projeto de estúdio. Não realizamos shows. Mas, numa época anterior ao desenvolvimento do nosso disco, se não me engano no ano de 1998, o Ávora Di Carlla fez um show, o único. Tocamos nossas músicas, um repertório que abarcava as minhas primeiras composições. O evento foi pequeno, confuso e direcionado para divulgar outras bandas. Nessa ocasião, lembro que fomos procurados de última hora, isso porque, antes, algumas bandas recusaram o convite. Fomos lá, tocamos e foi legal. Mas tal episódio se deu num momento bem específico, tínhamos outra formação, depois disso muita coisa mudou.

Márcia: Pretendem ou já têm carreira internacional?

Gustavo: Estando à frente da criação artística do projeto Ávora Di Carlla, penso que a maior pretensão dessa obra é ser entregue à humanidade em sua condição dialogal de fala, de anunciação. Compreendo o sentido da palavra carreira, aqui direcionada ao nosso trabalho musical, como construção de um percurso, de uma história afetiva que desemboca na realização de um conteúdo que concresce através dessa dinâmica pulsante em obra de arte. Acontece que a sustentação vital desse trabalho obrado com o advento da carreira não para por aí, ele clama pela participação necessária do espectador em sua contemplação, em seu assistir. Logo, o fato do conteúdo do nosso disco está sendo auscultado por um espectador já é algo, a meu ver, incrível, fantástico. Isso é a completude de um ciclo (carreira) que pode ser inaugurado a todo momento por alguém interessado numa obra já “dada, construída e acabada”. E se essa experiência de diálogo, de relação com a nossa obra musical, puder ser vivida por pessoas de outros países, ou mesmo em futuros momentos históricos, que maravilha: um ciclo perfeito que se estende a outros horizontes, a outras conversas, a outros espectadores. Então, vislumbro dois momentos para a carreira da obra Ávora Di Carlla. O primeiro diz respeito à tarefa que ainda estamos perfazendo e que precisa ser concluída, ou seja, lançado o Disco I, pretendemos concluir o Volume II. Já a realização do segundo momento da carreira da obra Ávora Di Carlla somente poderá acontecer pela via da sua relação com o espectador numa uníssona reciprocidade. Esse segundo momento é aonde a obra se torna independente do seu criador e conquista seu próprio destino na interpretação do espectador que a contempla. Isso já acontece com o que já produzimos. Pessoalmente é o que desejo para a carreira (a vida) da obra Ávora Di Carlla, a saber, que ela consiga se manter numa relação com o espectador a compor humanidade pelo advento da compreensão.


Carlos Anderson, Roger Bezerra, Geógenes dos Santos e Gustavo Caverzan
Márcia: Por que o rock progressivo?

Gustavo: É uma pergunta muito interessante. Veja bem, o Ávora Di Carlla não surgiu posteriormente a uma decisão sobre qual gênero musical iríamos tocar. O caminho desvelado foi pela via contrária, ou seja, foi o próprio dizer da obra musical Ávora Di Carlla em seu crescimento, em seu desenvolvimento, que orientou a identidade do nosso som. O Ávora Di Carlla não surgiu de uma escolha do tipo: vamos fazer uma banda de rock progressivo. Não, de forma alguma. Na verdade, foram as próprias composições (em sua disposição de fala) que solicitaram a sua plasticidade sonora, musical. A maior preocupação foi conduzir as produções elaboradas pela banda no esforço de atender a essa solicitação, ou seja, de poder comportar musicalmente um repertório de imagens dentro de uma progressão temática a representar vários cenários poéticos inseridos numa grande estória. E assim obedecemos e o resultado disso é lido hoje pela via do rock progressivo. Eu particularmente me identifico muito com essa proposta. Sinto-me honrado por participar dessa vertente musical tão extraordinária e de poder conquistar a sua permissão desde dentro da obra Ávora Di Carlla. Finalizo a entrevista registrando os meus agradecimentos à iniciativa da Márcia Tunes que, mais uma vez, disponibilizou sua atenção para a divulgação do trabalho do Ávora Di Carlla. Muito obrigado pelo espaço.

sábado, 9 de março de 2013

Legião Urbana - V [1991]

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Entrevista a Alex Antunes, Bizz, edição 78, janeiro de 1992.
Época do Lançamento do álbum V

A longa jornada do trio, da fábrica de hits até o neoprogressivo

“Que dia é hoje? Dezoito de outubro? O dólar tá quanto? 670? Esta entrevista vai ser publicada em dezembro? DEUS ME LIVRE do que vai acontecer até lá!!!”

É o Renato Russo que eu conheço. Hoje é treze de novembro e o dólar está a 800 e qualquer coisa (despencou. Mas só depois de ter estourado a barreira dos mil, para gáudio dos alarmistas em geral e dos especuladores em particular). E não aconteceu nada de digno da preocupação de Deus - pelo menos nada do que Ele já não esteja careca de conhecer.

Pô, já faz um mês que eu entrevistei os caras. E só depois de uma longa e tenebrosa primavera é que nos chegou às mãos, hoje, o raio do disco (aliás uma cópia pirata. Não, dona Odeon, não conto como eu consegui). Também é só hoje que parecem, finalmente, estar superadas todas as confusões que Russo & Cia. criaram com os fotógrafos que a BIZZ incumbiu de clicá-los - em geral uma missão prosaica, mas nunca no caso da Legião.

A velha Legião íntegra e frágil. A velha Legião sublime e pentelha. É só por isso que a Legião está na capa de janeiro, e não de dezembro, quando foi lançado o disco... Ou, do meu ponto de vista, quando será lançado, visto que eu estou transcrevendo, em novembro, a entrevista feita em outubro. De volta para o futuro, parte quatro. O dólar tá quanto, leitor?

Que treta foi essa com a gravadora?

RUSSO - É que nós negociamos, para o quinto disco, um contrato com total liberdade artística. Nossa relação com o pessoal da Odeon era quase afetiva e, no momento em que resolvemos fazer a coisa sozinhos, pintou um certo ressentimento.
DADO - Eles já tinham pisado na bola. Tentaram lançar uma coletânea pelas nossas costas, a gente vetou... Aí cortamos o cordão umbilical.
RUSSO - Mas agora já está tudo resolvido... É que nós éramos os "bichinhos mimosos", os enfants gatés da gravadora. Pô, eu estou com 31 anos, um homem casado, com filho. Não é mais aquela coisa (imitando criancinha) de "Oi, tio, e o disco, tio?" Vá falar com os nossos advogados! Se até o Axl Rose já reclamou da Geffen...

E como é o disco?

RUSSO - Ih, tem umas coisas medievais, uns instrumentais. O primeiro lado é uma viagem. Vão dizer assim: "Legião repete fórmula e lança disco progressivo (risos)..."

Progressivo?
RUSSO - Ah, eu adoro progressivo! Porque não me faz pensar. É música escapista. Estou ouvindo o Nursery Cryme do Genesis, imagina... Não todo dia, é claro. Mas eu voltei a colocar na vitrola. Na MTV, se você pega o programa certo, tem umas coisas muito boas... eles passam De-Falla! Mas às vezes eu quero ouvir coisas que me acalmem. É todo meu imaginário, é o que eu ouvia quando tinha onze, doze, treze anos...

Você jogou seus discos progressivos fora? Porque eu, na época da new wave, dispensei e depois tive que comprar de novo...

RUSSO - Não, eu guardo tudo! E tem bandas que eu nem percebia como eram boas... Eu achava Emerson, Lake & Palmer o máximo - hoje eu ouço e sei que é creca, aquilo não é bom de jeito nenhum. Agora, você pega o Lark's Tongues In Aspic ou até o Islands do King Crimson, e tirando aquelas coisas barrocas... Cara, "Ladies Of The Road" é bom pra caralho!
Nosso disco vai ter uma balada de onze minutos e meio, que se chama... (em tom solene) "Metal Contra As Nuvens"... A gente tentou fazer umas coisas pesadas, mas ficava tão frau... Fizemos isso por preguiça. Poxa, a gente tem que trabalhar no formato LP. E seria muito desagradável repetir o Quatro Estações, que virou um hit singles pack. Até hoje está tocando "Sete Cidades"! Acho que não há uma música daquele disco que não tenha tocado no rádio, umas mais, outras menos... Até "Feedback Song", que é a que menos tocou, foi primeiro lugar na rádio 89 de São Paulo, ou coisa parecida. Aí como é que fica? A gente vai ser obrigado a fazer quantos hits, já que o último tinha nove...

E as outras faixas?

RUSSO - O lado A começa com um texto em português arcaico, escrito em 1200. É a antítese do Quatro Estações, aquela coisa de que o amor-vai-salvar-todo-mundo... De repente este disco abre falando assim... "Pois nasci nunca vi amor/E ouço dele sempre falar". É assim. Nunca vi. Não existe. Acabou. Aí vem aqueles onze minutos daquela coisa superlenta... Fala de coisas de hoje em dia, mas de um ponto de vista meio medieval: "Não sou escravo de ninguém/Ninguém senhor do meu domínio..." Depois tem um instrumental chamado "Ordem Dos Templários", e mais oito minutos de "Montanha Mágica", que é uma música sobre heroína... Esse é o primeiro lado. Do outro é que está a realidade, as canções mais normais. Acho que é um disco bom para namorar, para fumar um...

É uma espécie de Low do David Bowie ao contrário, com o lado "difícil" na frente...

RUSSO - Mas não deixa de ser Legião. A gente sempre é meio brega. No primeiro disco a gente ainda tinha uma certa virulência. Agora, em vez de ficar reclamando, a gente faz uma música totalmente linda (cantarolando), "parararará, o mundo está uma merda..."

E as letras?

RUSSO - É um disco de transição...
BONFÁ - Claro que é de transição. A gente grava só de dois em dois anos, todos os nossos discos são de transição...
RUSSO - É de transição porque eu comecei a fazer análise. Não tenho mais aquele angst de jogar tudo nas letras. Sei lá. É a primeira vez que eu tenho certeza de que as letras são boas, mas eu não sei se gosto. Antes eu gostava, mas não sabia se estava bom...

A Legião perdeu o ímpeto juvenil?

RUSSO - Não, no disco tem uma letra que diz "o mundo começa agora/Só agora que começamos"... É claro que quando eu tiver 40 anos vou dar outra desculpa. O nosso amigo Mick (Jagger) dizia: "Como é que eu vou cantar 'Satisfaction' quando eu tiver X anos?" E hoje o cara está com X mais 14 e tá lá, cantando "Satisfaction"... A verdade é que a gente ainda nem sabe tocar direito. Hoje é o Dia do Médico, e o Dado taí perguntando quando é o Dia do Músico Estagiário...
DADO - O Dia do Músico Estagiário é de noite...
RUSSO - O maior trabalho que esse disco deu foi para fazer a coisa o mais simples possível. Eu adorei escrever coisas como "Acrylic On Canvas", mas neste disco eu quis ser bem mais simples... A gente tem até público infantil... Eu já tenho trauma de ter falado coisas sérias demais.
No pop e no rock não adianta você ser panfletário. Eu não vou fazer o equivalente sonoro das fotos do Robert Mapplethorpe... Se eu falar do que está rolando, da miséria, da angústia, eu terei que falar disso duma maneira que não agrida, porque já existe muita, muita, muita agressão. Se a gente não tivesse tanta responsabilidade... Isso é uma coisa paradoxal e controvertida, as pessoas podem até me entender mal... Mas se nós não tivéssemos responsabilidade, com certeza estaríamos fazendo outras coisas.

Mas isso parece um marketing anti-Legião!

RUSSO - Cara, a gente está num país em que as pessoas não têm educação! Na época do Quatro Estações a gente ainda fazia a coisa perigosamente. Aquilo é o disco de um cara descrente. A gente não vai esquecer "Que País É Este", que era uma música adolescente boba e quase fode com a gente! Ou daquele show em Brasília, vendo a garotada se matando.

... É melhor não chutar o pau da barraca?

RUSSO - Eu tenho um filho pequeno, que está aprendendo a falar agora. Se eu quiser escrever sobre heroína, vou fazer de jeito que, quando meu filho ouvir a música, não fique chocado.

A Legião já foi considerada porta-voz de uma geração...

DADO - Tem uma dose de mitificação nisso.
RUSSO - Aquela coisa do Herbert (Viana) dizer que a Legião não é música... A gente é o que?!
DADO - ...É religião...
RUSSO - No momento em que a gente não é tratado como igual nem por nossos pares, eu me sinto colocado contra a parede. Legião nem é tão bom nem tão especial. Claro que tem coisas bacanas, mas também tem muita coisa que não presta... Só que tem uma certa empatia. Como eu faço as letras sempre em primeira pessoa, há uma identidade, paradoxal, entre a música e o ouvinte... "Poxa, esse cara tá falando da minha vida!"
Já teve um cara que até quis me bater! Eu estava andando no Shopping da Gávea, chega esse cara e diz: "Você não tinha o direito de escrever 'Ainda É Cedo' sobre a minha história, de ficar espalhando isso para as pessoas! Como é que você sabia de tudo?", e me olhando, com aquela cara de psicótico... Pô, cara, eu estava falando de mim! Eu sempre gostei de Bob Dylan, desse tipo de compositor que mesmo quando está falando do social, do que quer que seja, passa isso por um prisma psicológico-afetivo-emocional-íntimo, sei lá... Mas qual era a pergunta mesmo (risos)?

A Legião se sente parte dessa geração que está sendo detonada pela crítica por tentar mudar de registro? Tipo os Titãs, tentando fazer rock mais pesado, ou os Paralamas, cada vez mais românticos?

RUSSO - Eu acho que esse disco dos Titãs é o disco mais Titãs deles. O dos Paralamas é o mais Paralamas. E o nosso é o mais Legião... O que era açucarado, agora é sacarina pura... O Metallica sim é que deu uma diluída!

E as comparações entre a Legião e os Engenheiros?

RUSSO - Não estou muito em posição de falar de nenhuma banda, porque a coisa fica rebatendo durante meses. Numa entrevista, uma única vez na minha vida, falei alguma coisa dos Uns E Outros, que eu achava eles parecidos com a gente, e também reclamei um pouquinho do Capital, porque eles estavam dando no saco, pegando música antiga minha e gravando - e olha que eu sou amigo dos caras e tudo. Isso ficou rolando meses, era só abrir a revista... Eu li a entrevista do Humberto (Gessinger) na BIZZ, e achei que o que o cara falou tinha a ver, eu queria ter falado algumas coisas daquelas...
Lá fora esse tipo de coisa não existe porque para cada banda tem mais trinta iguais! Só banda-de-franjinha deve ter umas cinquenta! Eu não sei qual é a diferença entre Charlatans e Inspiral Carpets e Ride e não sei mais o que... Que importa se é o Humberto ou o Russo quem escreve melhor? Que bobagem, eu faço música para ganhar dinheiro! Não foi o Humberto que disse que todos nós somos umas putanas? Eu tenho aluguel para pagar. Tenho 31 anos, já passei da fase de morrer de overdose... Todos eles morreram com 27... Eu agora tenho mais é que virar Rod Stewart...

Calma lá!

RUSSO - Não estou dizendo que eu sou falso. Eu acredito no que eu canto. O que acabou foi essa coisa do Russo poeta romântico. Que nada, é só letra de música - e ainda por cima eles roubam toda a grana da gente! Tivemos que montar uma editora para cuidar dessas coisas... Será que não existe nada mais importante na vida que letra de rock'n'roll?

Para a molecada idealista, provavelmente não.

RUSSO - Eu estou sendo diplomático. Claro, tem coisas de que realmente eu não gosto. Por exemplo, todo munda adora o Lenny Kravitz, e eu acho o Lenny Kravitz um fake de marca maior. Não gostava dos Guns N'Roses, ficava puto com as coisas que o Axl falava...
Hoje em dia até respeito o cara: ele pensa realamente desse jeito, e está tendo que assumir a responsabilidade pelo que diz. Nada é impune. Até comprei um disco do Guns... Só não fico ouvindo porque acho que vai ser um desserviço enorme para o rock'n'roll. Toda a garotada que está vindo agora vai achar que foram eles que inventaram todos aqueles riffs... Na verdade eles chupam os caras que chupavam dos Stones, que já tinham chupado de alguém antes...
DADO - Tem que ter discernimento pessoal, subjetivo. Eu adoro Cowboy Junkies, é maravilhoso. É diferente de, sei lá, Divinyls... É tudo pop, mas dá para discernir. É tudo putana, mas tem as da rua Major Sertório e as da madame Claudette.
RUSSO - O que me irrita um pouco é que não tem jeito de a gente falar do nosso trabalho sem citar outros. Eu vim para cá e já sabia: vão me perguntar dos Titãs, dos Engenheiros... Será que não dá para falar do nosso trabalho?

É porque vocês se recusam a mostrar o disco... (Confusão. Bonfá quer mostrar algumas pré-mixagens no toca-fitas do carro. Depois acabaríamos no estúdio onde o disco estava sendo mixado, patra ouvir duas músicas... mas ambas do lado B).

Você, que gravou em português arcaico, acha que quem está escrevendo em inglês está prestando também um desserviço para a língua portuguesa?

RUSSO - Que língua portuguesa? Cadê nossas escolas? A língua portuguesa é muito bonita, mas é difícil. Dá muito menos trabalho escrever em inglês, que tem certos fonemas, e a divisão das sílabas... quando há sílabas! Porque o inglês é uma língua virtualmente monossilábica... Sério, é melhor fazer música em inglês do que uma música em português que diz "mulher é tudo vaca". Aí é o meu limite. Isso não dá.

Você a favor da censura?


RUSSO - Censura não, nunca. Tudo bem, alguém fez, tem o direito de se expressar. Mas "mulher é tudo vaca" é o cúmulo...
DADO - A gente tinha umas coisas em inglês neste disco, mas acabaram não entrando...
RUSSO - É, eram três músicas em inglês. Não entraram de propósito. E olha que eu adoro cantar em inglês. Meu inglês é legal, "Feedback Song" eu escrevi em inglês porque era uma coisa pesada, sobre a Aids... Mas talvez também tenha sido vislumbre disso, de quem sabe tocar lá fora, como o Sepultura...
Que eu aliás considero, humildemente, a maior banda nacional hoje em dia. Em termos de tudo. Eu nem entendo muito de metal, mas respeito o espaço que eles conseguiram, fazendo o que querem... Pode esquecer o tal triunvirato Titãs-Paralamas-Engenheiros... Tem um trocadilho com o heavy metal no refrão de "Metal Contra As Nuvens" que é assim: "Eu sou metal, raio, relâmpago e trovão/Eu sou metal, e eu sou ouro em seu brasão"...

Se você me permite uma comparação escrota, pensando no show do Pacaembu, acho que o Sepultura é mais herdeiro da Legião do que os Engenheiros...

DADO - (Entusiasmado) Totalmente verdadeiro!
RUSSO - É, a postura é parecida, só a música é diferente. "Dead Embryonic Cells", aquele clip é um escândalo! E eles são bonitinhos (risos)... Isso no rock conta! Você quer um bando de trolhas lá em cima (risos)? Eu, pelo menos, as fãs dizem assim (imitando tiete): "O mais bonito é o Dado, o Bonfá também é lindo. Mas o Renato é o mais inteligente"... deixa elas pensarem...
DADO - A beleza é inversamente proporcional à inteligência...

Isso é ofensa ou elogio (gargalhadas)?

RUSSO - Tudo bem. Vocês são bonitos e inteligentes (risos)... A imagem é importante. É que nem o Donny dos New Kids. Ele tinha que ser alguma coisa, já que é o mais feioso. Então ele tem que ser o rebelde, o que fala as coisas.

Te preocupa não ser bonito?

RUSSO - Só na hora de tirar fotos... (Valeu o aviso, grandessíssimo filho da mãe!)

Mas eu já ouvi fã dizer que você é o cara mais bonito do mundo...


RUSSO - Poxa, avisa essas pessoas para me darem mole com mais frequência (risos)! Pode chegar e dizer: "Renato, você é um tesão, vamos fazer isso e aquilo (gargalhadas)"...

domingo, 13 de janeiro de 2013

Entrevista com Leoni, 11/01/2013

O músico Leoni conta como a internet transformou o seu modo de encarar a cultura, a política e sua própria carreira

Por Pedro Alexandre Sanches
publicado em 11 de janeiro de 2013 na revista Forum

“É uma briga solitária, e uma briga inclusive com os artistas, aqueles que reclamam: ‘O mundo acabou’, ‘a internet veio pra foder com a gente’. Não, não, espera aí, sem internet é que a gente estava fodido! Os privilégios são só para quem está em gravadora, o resto vive em exílio artístico.” O confronto se dá entre o carioca Carlos Leoni Rodrigues Siqueira Jr., conhecido artisticamente como Leoni, e seus colegas de música popular brasileira. Ele discorda de seus pares alocados nas estruturas obscuras do Ecad, o Escritório Central de Arrecadação e Distribuição de Direitos Autorais, e é dos poucos que gosta de afirmá-lo publicamente.

Leoni é coautor de um número expressivo de sucessos pop da década de 1980: “Pintura íntima”, “Por que não eu?”, “Como eu quero” “Fixação”, “Nada tanto assim”, “Lágrimas e chuva”, “Garotos”, “A fórmula do amor”, “Exagerado”, “Só pro meu prazer”, “Nosferatu”. Diz receber bem do Ecad. Mesmo assim, passadas as febres de juventude, trilhou rumos contrários aos da elite dos artistas de sua idade ou mais velhos, e fez da internet sua casa, empresa, ágora, palco, palanque.

“As pessoas só reclamam: ‘Tem que cobrar por tudo’, ‘estamos sendo roubados’. Não, não, não, gente, não é isso. Quem estamos sendo roubados? As corporações, as gravadoras, esses sim estão perdendo. Os artistas, não, até porque tem cada vez menos gravadora lançando cada vez menos gente. Deve ter uns 20 ou 30 privilegiados que podem perder alguma coisa. Todo o resto da cultura brasileira ficava alijado nem de fazer muito sucesso, mas de ter uma carreira.” Agora não é mais assim, ele afirma.

É uma história de muitas idas e voltas. Aos 21 anos, com a banda Kid Abelha & Os Abóboras Selvagens (mais tarde simplesmente Kid Abelha), Leoni virou reizinho das paradas nacionais de sucesso. Com a então namorada Paula Toller e companhia, cravou dois discos cheios de hits pop-rock, Seu espião (1984) e Educação sentimental (1985), numa época congestionada de autores de hits pop-rock: Blitz, Lulu Santos, Marina Lima, Ritchie, Neusinha Brizola, Os Paralamas do Sucesso, Legião Urbana, Ultraje a Rigor, RPM…

A presença de Leoni no Kid acabou com uma pandeirada imprimida por Paula na face do ex-namorado, fórmula de ódio encontrada nos bastidores enquanto no palco o grupo buscava “A fórmula do amor” (1985). A historinha banal era daquelas que entram para a mitologia do pop. “Acho pitoresca, folclórica”, ele ri. “É bacana ter uma história que esteja na história da música brasileira, mesmo puxada para o ridículo.”

Daí em diante, Leoni seguiu com uma segunda banda, Heróis da Resistência. Assim como a primeira, não era mimada pela crítica musical que, via de regra, fazia o contrapeso do sucesso avassalador dos artistas e bandas destinados mais a produzir bagunça e diversão do que a fazer cabeças. “Nem o Kid Abelha foi aceito no início. Depois, com o tempo, é que as pessoas começaram a falar bem. Na época foi escorraçado, era muito malvisto, o ‘rock de bermuda’. Foi muito ruim de lidar, muito ruim mesmo. Eu era fã de música, não da fama. Queria ter boas críticas.” Não conseguiu pular os muros de preconceitos e efeitos-manada nem no Kid, nem nos Heróis, talvez nem na carreira solo que desenvolve, com entressafras, desde 1993.

Logo na estreia, os Heróis erigiram um hit-chiclete do tamanho dos do Kid, “Só pro meu prazer” (1986). “Noite e dia se completam/ o nosso amor e ódio eterno/ eu te imagino, eu te conserto/ eu faço a cena que eu quiser”, gotejavam versos aparentemente melosos sobre melodia amorosa. Aos 51 anos, o autor tem uma leitura peculiar de sua própria canção: “Tem um lado irônico muito forte, que pouca gente percebe. Acham que é uma canção de amor rasgada, e é muito cruel, de reformular o outro, ‘você é uma merda do jeito que é’, ‘vou te fazer só pro meu prazer’, ‘seus prazeres e sonhos não vêm ao caso’. Não é uma música de amor. Dizem: ‘É a música do meu relacionamento’, caramba!”, diverte-se, lembrando que “Só pro meu prazer” foi regravada em clave sertaneja por Bruno & Marrone. “As pessoas não se tocam da ironia, ou então acham natural: ‘Vou ajudar essa pessoa a ser melhor’. Não percebem que é uma coisa fascista.”

Talvez “Só pro meu prazer” batesse bem por retratar um tipo de amor vivido por muitos, talvez também um estado espírito da própria indústria de entretenimento em que ele se inseria. “Sem querer, nossa geração foi responsável pela primeira grande monomania no mercado musical brasileiro. Antes as pessoas faziam sucesso, mas não era excludente. Todo mundo tinha seu espacinho no rádio. Quando estouramos, todos os programas de TV e rádio só tocavam rock. Vender 200 mil era bom pra caramba, e vender 100 mil já era muito mais do que a geração MPB vendia antes da gente. Quando entrei na Warner, as carreiras super bem-sucedidas de Guilherme Arantes, Milton Nascimento, Caetano Veloso vendiam 30 mil, 40 mil. A gente vendia muito mais.”

Maduro, Leoni percebe o que não era inteligível no calor da hora. “As gravadoras acharam legal, porque a gente vendia muito e não custava caro. Não tinha que contratar orquestra, arranjador, músicos. Era bem mais econômico. Só que, então, eles descobriram que existiam outras manias mais lucrativas – axé, pagode, lambada, sertanejo. Por que iam ficar aqui vendendo 100 mil se os novos vendiam 3 milhões? A gente acabou sendo vítima do sucesso que fez.”

A memória de Leoni percorre o antes e o depois dessa transição – e a percepção de seus significados. Sobre a primeira fase, interpreta: “É muito difícil lidar com o sucesso. Em 1982, eu tinha 21 anos e já tinha uma carreira, dinheiro. De repente, parece que você tem direito divino ao sucesso, que aquilo nunca vai acabar, que você descobriu a fórmula. A gente ficou se sentindo importante demais. Caímos de paraquedas, não tínhamos a menor noção se estávamos sendo explorados ou não, ou do que vinha depois”.

Sobre o rescaldo, com os Heróis, também vai direto ao ponto. “Em 1988, fomos gravar o segundo disco em Los Angeles com [o produtor e ex-integrante dos Mutantes] Liminha. Esse foi um fiasco absurdo, porque além de as músicas não serem muito boas pra rádio, a gente gastou uma fortuna. Eu me lembro de o [diretor da Warner] André Midani ir para lá tentar controlar nossos gastos. Liminha estava amarradão, na Disneylândia. Quer aquela guitarra verde de 12 cordas às duas horas da manhã de segunda pra terça? Basta ligar que aparece.”

O álbum, Religio, deu em nada. “Tínhamos gasto junto com a gravação o dinheiro da divulgação, então o disco foi pro saco. Só depois de vender 100 mil voltariam a pensar em gastar com o disco, mas, se não divulga, não vende 100 mil. Vendeu 20 mil. A gente ficou com uma dívida dentro da gravadora, e o terceiro disco, em 1990, foi feito em condições infinitamente piores. Não tinha o dinheiro da gravadora, o jabá, para investir e fazer tocar. O desinteresse da gravadora era total, e ficamos sem contrato numa época em que ninguém mais queria banda de rock”. A febre de juventude virava vida real para os garotos de “Garotos”, enquanto as gravadoras procuravam as próximas galinhas de ovos dourados.

A ascensão, a queda. E a internet

O primeiro álbum solo, chamado simplesmente Leoni (1993), veio por outra multinacional (a EMI), com um sucesso, a tristonha “Garotos II – O outro lado” (“garotos não resistem aos seus mistérios/ garotos nunca dizem não”), e uma reflexão precoce sobre o drama que se desenrolava nos bastidores, no reggae “Carro e grana”: “Já tive carro e grana e um monte de convites pra qualquer lugar/ hoje eu só ando a pé/ mas eu continuo a andar”.

Leoni reavalia “Carro e grana”. “É a percepção de que o fracasso, ou pelo menos o não sucesso, é também muito importante para você entender em que mundo está vivendo. As pessoas não conseguem manter o sucesso pra sempre, não é assim. Eu ainda era muito iludido com o sistema, achava que com o sucesso de ‘Garotos II’ estava feito, pronto, acabou, como tinha acontecido com o Kid Abelha antes. Comigo não aconteceu. ‘Garotos II’ tocou muito, mas o disco não vendeu bem. Na hora de gravar o segundo, a gravadora não teve interesse, e ninguém mais tinha interesse em mim, porque se espalhou uma fama de que eu tocava bem, mas não vendia.”

Essa história poderia acabar assim, qual uma fábula moral(ista) de ascensão e queda. Mas aí aconteceu a internet.

Fora um single com a lúcida “Tudo sobre amor e perda” (1996), Leoni não lançou mais nada entre 1993 e 2002. “O que fiz mais nessa época foram dívidas.” Em 2002, bancou Você sabe o que eu quero dizer por uma gravadora pequena. “Os meios pra divulgar eram os mesmos: jornal, revista, televisão, rádio. Eu não tinha grana pra participar do jogo nem estômago pra fazer jabá. Então não tocava.” No ano seguinte, a Som Livre, gravadora da Globo, adequou Leoni ao formato em voga de regravar sucessos em roupagens acústicas, intimistas, com participações especiais de outros ídolos mais ou menos caídos de sua geração.

“A Som Livre anunciava o Áudio-Retrato em lugares que têm TV com parabólica, e começou a rolar muito pedido de show no interior. Era guerrilha mesmo, íamos eu, um guitarrista e um produtor, sem técnico nem roadie, a gente montava e desmontava. Foi nessa época que comecei a usar muito a internet”, lembra.

Enquanto os colegas mais conservadores viam – ainda veem – a internet como um inimigo ameaçador, o ex-garoto inconsequente encontrou ali a janela de oportunidade de que precisava para… bem, para continuar trabalhando, talvez mais e mais pesadamente do que nunca. “Eu tinha que criar algum tipo de contato direto com o público, o que era a minha aflição. Sabia que tinha gente que gostava do meu trabalho, mas eles não sabiam que eu tinha lançado um trabalho. Foi em 2004 que entrei no Orkut, vi que tinha uma comunidadezinha que falava de mim, entrei e comecei a conversar com aquelas pessoas. Em 2006, lancei meu segundo independente, junto com o site, um dos primeiros que tinham uma rede dentro, um fórum de discussão. Ainda tem, mas hoje as pessoas discutem mais no Facebook. Passei a focar inteiramente em ser independente, cuidar de internet e show. Esquece rádio e TV, o que tiver disso é lucro, mas não dá pra eu entrar na briga.”

O novo organismo aprendeu a organizar o próprio metabolismo, devagar e sempre. Leoni inventou de lançar singles virtuais mensais, para manter os fãs abastecidos e os próprios desejos criativos alimentados. Entregou sua obra para os admiradores consumirem livremente, de graça. “Os colegas, principalmente os que estão ligados às diretorias das sociedades arrecadadoras, acham uma estupidez. O [produtor musical] Mazzola falou diretamente para mim: ‘Pessoas como o Leoni, que dão músicas na internet, vão perceber que deram um tiro no pé’. Isso não aconteceu, nem vai acontecer, até porque as pessoas cada vez menos precisam comprar ou mesmo baixar música. Ouvem no YouTube”, afirma.

Ele retribui tais críticas com outras críticas, endereçadas àqueles artistas que, por exemplo, terceirizam a própria presença nas redes sociais. “Se o artista está no Twitter e segue todo mundo, que é normalmente a estratégia desse pessoal, o fã sabe que não é especial. Está sendo seguido porque todo mundo está sendo seguido. A internet não é um monólogo, é uma conversa. Se você não faz a sua parte, você aproveita pouco. Pra mim, é muito importante saber o que as pessoas estão achando, ouvir a opinião delas, colocá-las pra produzir e apresentar o que elas fazem também.”

A descoberta dessas ferramentas transformou o modo de encarar cultura, política e vida do coautor de versos gostosos como “diz pra eu ficar muda, faz cara de mistério/ tira essa bermuda que eu quero você sério/ dramas do sucesso, mundo particular/ solos de guitarra não vão me conquistar”. “O que começou como uma estratégia de sobrevivência acabou me ensinando muito sobre cultura, sobre compartilhamento. O que era uma simples posição de negócio virou posição política”, diz.

A politização, assombração das indústrias de outrora, passou a entrar na nova composição: “Com essa coisa neoliberal, a gente tinha perdido a ágora, o local público onde a gente poderia discutir com alguma eficácia para mudar as coisas. Com a internet, a possibilidade de mobilização, ser engajado passou a ser outra coisa. Você pode realmente fazer alguma diferença”.

Munido das novas descobertas, ele transforma rascunho em arte-final. “A gente viveu uma época em que os artistas eram escassos, porque não tinha como não ser. A capacidade das gravadoras de lançar discos era escassa, e o resto estava fora da história. Essa escassez fez com que tanto o público quanto os artistas tivessem uma noção meio de casta, de eleitos. ‘Somos especiais’, ‘somos muito doidos’, ‘podemos fazer o que queremos porque somos artistas’. Com a internet, de repente todo mundo é artista, não tem casta nenhuma. Acho que esse é um privilégio ainda mais complicado de os artistas abrirem mão. ‘Eu não vou competir com esse cara, sou um artista, quem é ele?’. Mas, antes de você ser artista, você não era, era igual a ele. São muitos preconceitos, muito elitismo que os próprios artistas têm.”

O vetor resultante se aproxima do oposto simétrico do tempo em que a indústria dispunha de nós – consumidores, críticos, artistas – só para o seu prazer (ou lucro). “Hoje em dia, tenho um contato com o público que nunca imaginei que fosse ter, e uma liberdade artística que não teria em época nenhuma. Não tenho de agradar a nenhum diretor artístico ou de rádio. Isso me deu uma liberdade de criação e de pensamento que eu nunca tive.” Diz que seu público cativo, quando instado a ajudar a selecionar o repertório de um show, costuma eleger canções mais novas, que entoam em coro na plateia. “Pelo pensamento tradicional da indústria, isso não teria como acontecer.”

Mais que militante pelos downloads gratuitos, Leoni virou um militante político-cultural, daqueles de reivindicar por sua categoria no Congresso Nacional e participar ativamente da CPI do Ecad – mesmo que o escritório continue a remunerá-lo razoavelmente. Suas diferenças com a instituição são menos particulares que coletivas. “Um dos casos que mais me revoltou foi o de uma escola pública do interior que ia fazer uma festa junina, e o Ecad foi lá pra cobrar os direitos autorais do Luiz Gonzaga”, exemplifica. “Como não tinha dinheiro, a escola teve que cancelar a festa. Quem ganhou com isso? Os herdeiros do Luiz Gonzaga com certeza não, porque não receberam dinheiro. A cultura brasileira também não, porque ninguém ouviu as músicas do Luiz Gonzaga. As crianças também não. O direito autoral é usado como uma forma de exclusão social. E as pessoas acham que não, ‘é o meu direito’, ‘direito adquirido’. Ora, todo direito é adquirido, não existe direito natural.”

Poucos garotos sabem bem como Leoni as dessemelhanças entre direitos naturais e adquiridos. Ele os quer, mas prefere dividi-los conosco. E ainda existe quem chame o que ele faz de “tiro no pé”.