sábado, 22 de agosto de 2015

RPM - Rádio Pirata Ao Vivo [1986]

Mega FLAC


Por Luiz Felipe Carneiro no SRZD

Quando Roberto Medina conseguiu juntar bandas como Queen, AC/DC e Yes no mesmo palco, no Rock in Rio de 1985, uma palavrinha teve que entrar na cabeça das bandas de rock brasileiras: "profissionalização". Paralamas do Sucesso, Barão Vermelho, Kid Abelha, Lulu Santos, entre outros, haviam participado (e, de um modo geral, mandado bem) do festival. E, na verdade, foram eles mesmos os responsáveis pela existência do Rock in Rio, quando mostraram (ou relembraram) que o brasileiro era capaz de fazer rock de boa qualidade. Os fãs entenderam o recado, compraram os discos, lotaram os shows e, assim, viabilizaram a realização do Rock in Rio. Mas, depois do Rock in Rio, esses mesmos fãs ficaram mais exigentes. E se não houvesse "profissionalização" - o Kid Abelha, por exemplo, nem tinha empresário no início de 1985 -, as bandas poderiam sumir do mapa, o que, aliás, aconteceu com muitas delas.

No momento em que aquele imenso palco aportou na Cidade do Rock de Jacarepaguá, Paulo Ricardo, Luiz Schiavon e Fernando Deluqui ainda estavam fazendo pequenos shows pelo circuito paulistano, e nem sonhavam em tocar no festival. De fato, o RPM não foi convidado para o evento (até mesmo porque, o álbum de estreia ainda nem tinha sido gravado), mas, no ano seguinte, foi a banda que mais soube levar ao pé da letra aquela palavrinha mágica que o festival impôs. Resultado: em 1986, não havia banda de maior sucesso no Brasil do que o RPM.

Vale aqui um parêntese para explicar a ascensão meteórica do RPM antes de atingir o estrelato. Em abril de 85, o grupo (que já tinha o baterista Paulo Pagni, ou, simplesmente, P.A. entre os seus integrantes) colocou nas lojas o álbum "Revoluções Por Minuto", com pelo menos cinco clássicos - "Rádio Pirata", "Olhar 43", "Louras Geladas", "A Cruz e a Espada" e a faixa-título. Com a produção de Luiz Carlos Maluly, o álbum foi muito bem recebido pelo público, que transformou as canções em hits instantâneos do Rock Brasil. No total, foram mais de meio milhão de cópias vendidas. O RPM virou febre nacional e ganhou até um programa "Globo Repórter" inteirinho em sua homenagem.

Tendo ciência do poder de fogo da banda, os seus integrantes se cercaram do bom e do melhor para fazer uma grande turnê, com shows que entrassem para a história do show business brasileiro e nada ficassem a dever aos espetáculos de som e luz de bandas como o Queen e o AC/DC - se lembra da tal "profissionalização"?.

Dessa forma, o empresário Manoel Poladian (o mesmo de Roberto Carlos e Simone, dois dos maiores vendedores de disco do Brasil) foi contratado pela banda, e Ney Matogrosso foi chamado para dirigir o show de divulgação do álbum "Revoluções Por Minuto". A turnê estreou no dia 19 de setembro de 1985, no Teatro Bandeirantes, em São Paulo. Muito rapidamente, percebeu-se que os pouco mais de mil lugares do teatro eram pouco, mas muito pouco, para o RPM.

Desde a estreia, o RPM mostrou que aquele era um show diferente. Se, musicalmente, ele pouco fugia do que era apresentado no disco, cenicamente, era algo impressionante, cheio de raio laser, gelo seco, cenários imensos e iluminação estonteante. Tudo isso, misturado às músicas que o público sabia de cor e salteado, fez com que a banda começasse a se apresentar em lugares maiores, como o Palácio de Convenções do Anhembi ou o Canecão carioca, que presenciou semanas e mais semanas seguidas de show do RPM, que ainda chegou a lotar, por dois finais de semana seguidos, o ginásio do Maracanãzinho, também no Rio de Janeiro.

No repertório do show, entravam todas as músicas do único disco do grupo. Para o espetáculo ficar um pouco mais (e geralmente eles não passavam de 80 minutos de duração), o RPM incluiu duas inéditas (o sucesso "Alvorada Voraz" e a instrumental "Naja") e duas covers ("London, London", de Caetano Veloso, e "Flores Astrais", canção obscura do Secos & Molhados, ex-banda do diretor do show). E isso foi o suficiente para o RPM ter absolutamente todos os shows lotados de sua turnê.

Os teclados iniciais de "Revoluções Por Minuto" eram a deixa para a banda entrar no palco. Falar da histeria das adolescentes aqui seria perda de tempo. Usando "estilosos" blazers para os anos 80 (e que hoje são de gosto bastante duvidosos), Paulo Ricardo (com um sobretudo de gosto mais duvidoso ainda), Schiavon, Deluqui e P.A. chegavam atacando no som enquanto o raio laser encantava a plateia, que imaginava estar em um show de rock de alguma banda internacional.

A diferença é que nesse show, o público podia cantar as músicas em português. E assim foi feito, em sucessos como "Louras Geladas" (a segunda do roteiro), "A Cruz e a Espada", "Olhar 43", "Rádio Pirata", entre outras menos conhecidas - pelo menos para os pais das crianças e dos adolescentes -, como "Juvenília", "Liberdade / Guerra Fria", "Sob a Luz do Sol" e "A Fúria do Sexo Frágil Contra o Dragão da Maldade".

Mesmo no momento em que cantava em inglês, Paulo Ricardo era (bem) acompanhado pelo público. "London, London", faixa do álbum lançado por Caetano Veloso durante o seu exílio na capital inglesa, em 1970, logo caiu no gosto popular com a interpretação melosa de Paulo Ricardo (que, a essa altura do show, já estava com os seus ombros, tão elogiados pelo compositor da canção, de fora), acompanhado apenas pelo teclado de Luiz Schiavon. O motivo de tamanho sucesso era simples e até mesmo inusitado no Brasil, em tempos de pré-internet. Durante um show no Festival Atlântida, no Rio Grande do Sul, alguém conseguiu gravar a canção direto da mesa de som. A música foi parar nas rádios e logo se transformou em uma das mais pedidas, de norte a sul do país. Segundo Marcelo Leite de Moraes, biógrafo da banda (e que lançou o ótimo livro "Revoluções Por Minuto"), a versão para a música de Caetano chegava a tocar 85 vezes por dia nas rádios do eixo Rio-São Paulo.

Assim, a banda não perdeu tempo e convocou o produtor Marco Mazzola para gravar o show nos dias 26 e 27 de maio de 1986, no Palácio de Convenções do Anhembi. Com uma produção de luxo (a começar pelo renomado produtor e terminando com uma mixagem em Los Angeles), "Rádio Pirata Ao Vivo" vendeu 2,5 milhões de cópias e, até hoje, é um dos discos mais vendidos no Brasil. No total, foram mais de 200 apresentações em um ano e quatro meses de turnê pelo Brasil. No derradeiro show, no dia 17 de dezembro de 86, dessa vez no Ginásio do Ibirapuera, o RPM gravou o VHS com a íntegra da apresentação, e que foi recentemente lançado em DVD (sem a imagem restaurada) no box "Revolução! - RPM 25 Anos".

De fato, naquele longínquo ano de 1986, o RPM fez a "revolução" no show business brasileiro. E pelas muitas produções brasileiras que nós vemos hoje em dia, em tantos palcos por aí, devemos agradecer a Paulo Ricardo e companhia.

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