domingo, 22 de janeiro de 2012

Entrevista com Rita Lee, 18/01/2012

Rita Lee: 'Quero ser abduzida em 2012'
Publicado em 18 de janeiro de 2012 no O Dia

*Guilherme Scarpa

Rio - Rita Lee não dá entrevistas entrevistas pessoalmente desde que inventaram o e-mail. Viciada em Internet, hoje ela faz a alegria de 346.110 seguidores no Twitter, ferramenta que escolheu para, “em plena vagabundagem, com toda disposição”, falar muita bobagem, como canta nos versos do hit ‘Banho de Espuma’. “Confesso que não sei onde começa o vício e onde acaba a ‘dorga’”, brinca ela, que já foi dependente de coisas mais pesadas e, ultimamente, só se permite muitas baforadas de Marlboro. Embora tenha 64 anos, 45 de estrada, e já tenha experimentado de tudo nessa vida, a rainha do rock vai se portar como uma virgem quando subir ao palco do Circo do Voador, sábado, na Lapa, pela primeiríssima vez. Depois de nove anos sem gravar um CD de inéditas, ela também vai lançar o novo disco, ‘Reza’.

O DIA: O Circo Voador está completando 30 anos e você nunca se apresentou naquele palco. Lembra de ter assistido a algum show memorável? 

RITA LEE: Cara, eu nunca estive no Circo! As notícias das farras que rolavam por lá eram ‘roquenrou’ no tutano. Se você me pede uma explicação de por que nunca estive na maior estação roqueira do Rio... Dã! É ‘ambilívabou’ (inacreditável)! 

Alguns fãs sempre pedem músicas mais antigas, do começo do Tutti Frutti ou dos Mutantes. Existe alguma canção que você não toca de jeito nenhum? 

Não tenho música-ojeriza. O público tem favoritas, procuro favoritar todas, mas são mais de 400!

Você e Elis Regina ficaram muito amigas no fim dos anos 70. Amanhã faz 30 anos que ela foi para o outro plano. Pensa em homenageá-la sábado, no show do Circo?

Homenageio direto na fonte, ser arroz de festa não era com ela, nem comigo.

Seu Twitter é sempre uma fonte de boas histórias e gera muitos comentários. O microblog foi amor à primeira vista? 

Confesso que não sei onde começa o vício e acaba a ‘dorga’, sempre vou negar no tribunal. Afff!

Sua participação e atuação no Twitter a inspiraram a compor alguma música recentemente?

Objetivamente, não. Digamos que o caso é sério e não somos apenas bons amigos.Apesar de que temos uma faixa chamada ‘Pow’, originária dessas ondas tuitescas.

Você postou que “gente boazinha chupa, gente legal mama, gente educada lambe, gente com nojo cospe e gente faminta engole”. Desculpe, mas em que categoria você se encaixa?

Não tenho ideia do que você está dizendo. Fumou? Bebeu? Cheirou?

Está obstinada a parar de fumar? O cigarro é a droga mais difícil de largar, pior que o álcool?

Any drug is a motherfucker drug (toda droga é filha da p...), inclusive comer, que não é o meu caso. Afff!

O que pensa quando lê um artigo sobre sua vida? Que tipo de comentário mais a irrita, Rita?

Apesar de conter no meu nome, não sou irritável, eu sou rabugenta.

No DVD ‘Baila Comigo’, você diz que só tem ouvido basicamente música eletrônica em casa. Quem você permite nos seus fones de ouvido?

Faz isso comigo, não. Mudo de ideia como mudo de calcinha, cada dia uma nova (ou não) rola no salão.

Essa ligação com a música eletrônica, bem marcante no disco ‘3001’ (2000) e também em ‘Balacobaco’ (2003), vai voltar no próximo disco que você está preparando para lançar? Já tem um nome definido?

De namoro no ‘3001’, já estamos em lua de mel neste novo, que, aliás, se chama ‘Reza’ — ou o que isso signifique. Há eletronicidades pelo disco todo.

Você vai mesmo desfilar na comissão de frente da Vai-Vai, de São Paulo, cujo samba-enredo é ‘Mulheres que Brilham — A Força Feminina no Progresso Social e Cultural do País’?

Ainda não bati o martelo, sou virgem na coisa.

Mas você já pensa como iria vestida?

Não sei.

Depois de tantos anos casados, como você e Roberto de Carvalho reinventam a relação no dia a dia?

Nós temos cumplicidade no crime.

Quais são suas metas para 2012?

Ser abduzida.

sábado, 21 de janeiro de 2012

Celso Blues Boy - Som Na Guitarra [1984]

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Álbum de estréia do sempre fantástico Celso Blues Boy. Ouça também seu último trabalho Por Um Monte de Cerveja.

Achei um vídeo de 2009 com ele tocando Aumenta Que Isso Aí É Rock And Roll onde os desinformados podem ter uma prévia noção de como o cara manda muito bem. Detalhe importante, ele é o cabeça branca que canta e arrasa na guitarra e para completar Jefferson Gonçalves dá aquela palhinha espetacular na gaita.

Cólera - Deixe A Terra Em Paz! [2004]



Este foi o 6º e último trabalho lançado pela banda paulista de punk rock Cólera. Uma característica intriceca à banda o disco trás canções com temáticas pacifistas, ecológicas, que retratam os problemas do cotidiano urbano em geral. Aos menos iniciados, o Cólera foi um dos grupos mais representativos do punk brasileiro, uma das primeiras bandas punk's brasileira, foi a primeira a excurcionar pela Europa, a ter gravadora própria do estilo, entre outros... 

Faça você mesmo sempre diferente

Artigo antigo mas vale a boa leitura.


Publicado em 22 dezembro de 2005 no site Rock Press

*Alexandre Alves

Para Redson, seguir em frente significa levantar bandeiras. A primeira foi a da independência. Depois, a da ousadia. E, finalmente em pleno terceiro milênio, quando o punk rock volta às paradas embalado em papel de bombom, um tanto assim adocicado e domesticado, a banda crava a bandeira da criatividade no solo nacional. “Nunca deixamos o Cólera ficar à mercê da situação”, diz Carlos Mariano Lopes Pozzi, 44 anos, o Pierre, baterista e irmão de Redson. “Estamos sempre fazendo a nossa própria história”. E o público recompensa: “Onde tocamos somos bem recebidos, por jovens e pessoas de mais idade. As pessoas sabem cantar as músicas de cor. É uma coisa autêntica e é incrível”, diz o baixista Fábio de Almeida Bossi, 32 anos.


Punk Vive

E o punk rock (da cena independente, frise-se) acabou não morrendo no Brasil. Pelo contrário. Vinte e dois anos depois da primeira crise, a situação virou pelo avesso. O estilo voltou a ser tocado em todo lugar e o Cólera entrou numa fase de efervescência criativa - diferente de outros medalhões do underground, como Ratos de Porão e Inocentes. O RDP virou “banda das horas de folga de João Gordo”, que ocupa seu tempo como apresentador da MTV, DJ, celebridade e chefe de família - tanto que o guitarrista Jão chamou velhos comparsas e montou a Periferia S.A, banda paralela com Betinho (batera) e Jabá (baixo); e os Inocentes lançaram Labirinto (Ataque Frontal, 2004), disco que recupera o peso do início da carreira, mas não acrescenta quase nada de novo à discografia do grupo. Mudar para ficar o mesmo, sabe como é? Sobrou ao Cólera fazer valer as máximas do “faça você mesmo” e “faça sempre diferente”. E eles fizeram, levantando agora as bandeiras da ousadia e da criatividade. “O Cólera sempre foi uma banda com os pés virados para frente”, confirma Pierre. 

Do ano passado para cá, a banda tem trabalhado dobrado, o que resultou em vários lançamentos, todos de forma independente. Primeiro foi o excepcional Deixe a Terra em Paz (Devil Discos, 2004) disco que recupera o grito ambientalista de Verde, Não Devaste! (1990) e traz novas sonoridades à banda, como a quase balada “Águia Filhote”, a hilária “Circocore” e as pegadas roqueiras setentistas de “Aperta o Nó”, “Enxadão Man” e “ENQ”. Mas não é só. A banda prepara diversos lançamentos para 2006. Não perca o fôlego.

A festa de comemoração dos 25 anos do Cólera foi realizada em fevereiro do ano passado, com show no Hangar 110, em São Paulo. A apresentação de cerca de três horas contou com participação especial dos ex-integrantes da banda (Helinho, Val e JB) e estará no DVD que o grupo pretende lançar em 2006. Ao todo, em três horas de material, o DVD terá também: vídeos com a história da banda em shows, desde os memoráveis Grito Suburbano, o festival O Começo do Fim do Mundo (ambos de 1982) e as duas turnês na Europa (1987 e 2004) até os dias atuais; cinco clipes (três deles de Deixe a Terra em Paz); entrevistas e bastidores da produção do DVD. O disco, que deve custar em torno de R$ 20, será vendido em bancas com uma revista poster.

quinta-feira, 19 de janeiro de 2012

Identidade - Jogo Sugo [2006]


No cenário local (Porto Alegre e interior do RS), quem precisava conhecer o quinteto já conheceu. Eles têm aí um sustentáculo que garante a possibilidade de se aventurar em vôos mais longos. Mas sem dar um passo maior que a perna, com "Jogo Sujo", lançado agora (final de 2006), a banda dá sua cartada definitiva. Um disco de qualidade, irrepreensível, muito melhor que o anterior, e sem desvirtuar a proposta original do grupo. Aliás, algumas das músicas (o terço final do álbum) são justamente da época em que Identidade Zero foi lançado. Então, os fãs não têm com que se preocupar. Muitas das composições originais foram sendo apresentadas ao vivo e aprimoradas no decorrer desse tempo que separa os dois títulos da discografia deles.

Mais que um apanhado de boas canções, "Jogo Sujo" tem qualidade de sobra pra peitar o mercado nacional. O CD saiu pela Good Music, selo do Nei Van Soria (ex-Cascavelletes). O encarte é caprichado, com todas as letras, informações técnicas e ótimas fotos do grupo. De quebra, o clipe de "Jogo Sujo" (excelente, diga-se de passagem) está lá no disquinho, como faixa multimídia, (mas você pode conferir com qualidade tosquinha no You Tube).

O som (que no final das contas é o que importa, não é mesmo?) mostra um amadurecimento incrível. Mas nada de rebuscado, a fórmula continua sendo a mesma do álbum anterior. Entretanto, a categoria dos guris está no foco que tomaram! Se em "Identidade Zero" era óbvia a inspiração do tal rock gaúcho, em "Jogo Sujo" eles percorrem toda a linha que leva direto à principal influência daquele estilo, relacionada corretamente com a raiz de sua própria sonoridade: os Rolling Stones e, de maneira precisa, exata, o espírito cretinamente chuckberryano dessa vertente.

Aliás, a fonte stoneana dos guris, ao contrário do clichê habitual, é muito mais setentista (com toques ronniewoodianos) do que sessentista. Rocks diretos e vigorosos dão a tônica. Faixas como "A sós sem pudor", "Ninguém é de ninguém", "Nosso tesão não vai ter fim" são belos exemplos disso, e mostram como a Identidade sabe dialogar de maneira relevante com a tradição. Riffs marcantes, cozinha embalada e vocais esgoelados. "Jogo Sujo" não dá nome ao disco por acaso. Forte! Rockão de verdade! "Tô cansado de esperar", com King Jim encarnando o Bob Keys no sax, até parece algo do Sticky Fingers, ou do Exile.

Essa verve do espírito decadentista do rock é o que confere calor pra personalidade dos caras. Um troço que esfumaça o ar quando se escuta o som. Uma aura que só de estar na frente dá pra sacar: o espírito de "It’s Only Rock’n’Roll, But I Like It" de se levar a vida com um cigarro caído no canto da boca. Uma seqüela de olhar cínico, uma ressaca hard-glam que deixa com aquela cara stoner punk, de roupa amassada, dor de cabeça, cheiro a sexo e álcool. Tudo que resulta de viver o rock de guitarras agressivas, embebidas em blues bêbado. E a banda adora explorar esse estereótipo cafajeste.

Uma completa assimilação de álbuns menos óbvios, mas igualmente ótimos, se refletem nas composições. Ao misturar isso tudo aí acima com coisas como DANCE e Lucy Jones, não tem como não lembrar do que se estende de "Goat Head Soup" até o "Emotional Rescue" (a Cachorro Grande já bebeu muito dessa fonte sem chamar atenção). São temas dançantes que as minas adoram! Bizarros construtos de matizes disco-boogie, que misturadas com os ganchudos rockinhos básicos funcionam bem na noite, em festinhas, shows e muquifos de vários tipos.

Aliás, as garotas têm uma séria queda por todo esse lance meio safado, que pouco tem de sexismo. Chega a ser clichê a idéia de roqueiros feios e magricelos, de cabelos desbaratinados e roupas amassadas serem peças descartáveis para malucas querendo igualdade ao direito de serem sujas e depravadas. E uma coisa deve ser dita sobre a Identidade. Não é a toa que os guris têm tantas fãs. A produção artística deles é quase toda voltada para o público feminino. Canções sobre relacionamentos, declarações de amor ou amizade para garotas, além de todas as personagens das músicas serem mulheres... Confira ouvindo uma faixa como "Belos Retratos".

Não por acaso, "Miss sixty" é o tema chave do álbum. Dela foram tiradas as vinhetas que abrem e fecham o disco, soando como uma gravação em vinil, acompanhada só por piano. É dá música os versos “Vou te escrever mais um cartão / Que é pra você levar contigo / Pra nunca esquecer, do seu amor do seu amigo / Vou te comprar um casaquinho / Que é pra você não sentir frio, quando estiver tão longe / tão longe assim de mim”.

E tem até história digna de lenda clássica envolvendo o álbum. O computador onde o disco ia ser masterizado e mixado foi roubado! Sem as masters, "Jogo Sujo" teve que ser todo regravado! E depois, no início da tour de divulgação da banda (no Expresso do Rock) o ônibus dos caras também sofreu um ataque que resultou em algumas caixas de CDs afanadas.

A banda caga mole pros estorvos e segue fazendo rock autêntico mundo afora. Colhem os frutos de quem oferece um trabalho legítimo, com conhecimento de causa, cara (e fígado) para agüentar. Ouça com volume alto e sem gelo.

Formação em Jogo Sujo
Lucas ‘Cabelo’ Hanke – Guitarras
Doce Solano – Guitarras e backings
Eduardo Dolzan – Bateria
Fernando Dametto – Baixo e backings
Evandro Bittencourt - Vocal

terça-feira, 17 de janeiro de 2012

Caetano Veloso e Os Mutantes - Ao Vivo [1968]

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Em outubro, Caetano (de 1968), Gil e Mutantes faziam uma temporada de shows na boate carioca Sucata.

O boato de que Caetano teria cantado o Hino Nacional com versos ofensivos às Forças Armadas serviu de pretexto para que fosse suspensa. Ainda em outubro, os tropicalistas conseguiram um programa semanal na TV Tupi. “Divino, Maravilhoso” contava com todos os membros do grupo e de convidados como Jorge Ben, Paulinho da Viola e Jardes Macalé.


A1 - A Voz Do Morto
(Caetano Veloso)
A2 - Baby
(Caetano Veloso)
B1 - Saudosismo
(Caetano Veloso)
B2 - Marcianita
(Alderete, Fernando César, Marcone)

Jorge Amiden, Gênio esquecido do Rock Nacional

Publicado originalmente no blog Som Barato, sem data.
Repulicado do blog Woodstock Sound em 10 de novembro de 2010.

* Nélio Rodrigues

O Grupo Karma foi formado no Rio de Janeiro pelo ex-guitarrista da banda ‘O Terço’ Jorge Amiden, reza a lenda Amiden ter sido o primeiro cara a aparecer com uma guitarra de três braços (a tritarra) na história do rock, antes do Jimmy Page, no FIC de 1971 quando ainda estava no Terço.


Sergio Hinds sobre a saída de Amiden: “Teve uma briga mesmo, na época. Tipo assim, ele queria fazer um negócio e a gente queria fazer outro. Pintou uma briga e ele saiu. E aí, nunca mais… Mas depois disso a gente ainda continuou amigo, ele foi pra São Paulo pra trabalhar num estúdio. Depois eu nunca mais o vi, o último contato que tive foi com seu irmão… Já faz muito tempo. Ele sumiu do mercado.” (extraido de uma entrevista para o site Jovem Guarda).


História:


Esquecido num sítio na periferia do Rio, o compositor, guitarrista e fundador de O Terço e do Karma, Jorge Amiden, tenta recuperar a saúde abalada pelo uso de drogas e das (pouquíssimas) viagens que fez com LSD no início dos anos 1970. “Foram muito boas, mas custei a voltar delas”, diz o nosso afável Syd Barrett. Jorge é o compositor da inesquecível ‘Tributo ao Sorriso’ (em parceria com Hinds) e de tantas outras canções geniais do repertório de O Terço (1970 a 1971) e do Karma (1972). Era ele o principal arquiteto dos vocais harmoniosos de ambas as bandas. Além do mais, gravou um antológico LP com o Karma, participou do disco ‘Sonhos e Memórias’ de Erasmo Carlos e integrou a banda de Milton Nascimento. Depois, com o cérebro golpeado, se afastou dos palcos. Seguiu-se, então, um longo e indesejável ostracismo. Mas Jorge quer voltar, quer a música “viva” de volta a sua vida. E nós, órfãos de sua brilhante musicalidade, torcemos para que ele encontre o fio da meada, a luz no fim do túnel, a glória de um final feliz.

Após romper com O terço, Amiden logo encontrou novos parceiros. Com Luiz Mendes Junior (violão e vocal) e Alen Cazinho Terra (baixo e vocal), irmão de Renato Terra, o guitarrista daria início a sua trajetória de pouco mais de um ano como líder do Karma. Ramalho Neto, da RCA, não teve dúvidas em contratar a banda antes mesmo de ouví-la. Reconhecia o talento de Amiden e antevia um belo disco do Karma para a RCA.

E foi o que aconteceu. Pouco tempo depois, a RCA distribuía na praça o LP homônimo do Karma, uma obra antológica que merece constar de qualquer lista dos melhores discos da história do rock brasileiro. Com uma sonoridade predominantemente acústica servindo de base para a primorosa vocalização do trio, ‘Karma’ é recheado de canções brilhantes, como ‘Do Zero Adiante’ (Amiden e Mendes Junior), ‘Blusa de Linho’ (Amiden e Rodrix) e a revisitada ‘Tributo Ao Sorriso’ (Amiden e Hinds). Esta, levada quase até seu final em a capela, servia para realçar ainda mais a força vocal do conjunto. Vale destacar a participação do baterista Gustavo Schroeter (então integrante da Bolha), que ajudou a abrilhantar o disco com sua batida sempre consistente, arrojada e precisa.

E foi com Gustavo na bateria que o Karma fez o show de lançamento do disco no Grajaú Tênis Clube. Lamentavelmente, este pequeno tesouro concebido por Amiden jamais foi reeditado. Possivelmente hiberna nos arquivos da RCA desde o seu lançamento, em 1972, como hibernam tantas outras obras importantes nos arquivos das gravadoras brasileiras.

Em sua curta vigência sob a liderança de Amiden, o Karma ainda participou do VII Festival Internacional da Canção Popular, em setembro de 1972. Foi quando defendeu ‘Depois do Portão’ (Amiden e Mendes Junior). Em 1973, nos primeiros meses do ano, durante um show no Clube de Regatas Icaraí, em Niterói, depois de misturar bebida com drogas, Amiden perde o controle do próprio cérebro. O solo de guitarra parece interminável… Depois, sentado à beira da praia com Mário, se perde em plano existencial paralelo, vagando inseguro e solitário pelo lado escuro da lua.
Jorge só encontra a saída do enovelado e desconhecido labirinto no dia seguinte, quando percebe que o mundo não é mais o mesmo, o Karma não é mais o mesmo, a música não é mais a mesma…E nem sua vida seria mais a mesma. Dos palcos, se afasta…para na calma do tempo, quem sabe uma luz como guia, em dado momento, conceda algum dia seu retorno sereno.

segunda-feira, 16 de janeiro de 2012

Saecvla Saecvlorvm [1976]


Acqua Vitae



“Per omnia Saecvla Saecvlorvum...20 anos. 20 séculos. Por 20 anos, como quase tudo em Minas, o Saecula foi como ouro debaixo da terra. Este CD é a reconstituição de uma velha fita demo gravada na primavera de 1976, quando o grupo estava prestes a ser contratado pela Warner. 

Cada membro apresentou o material que possuía e resolvemos lançar um CD com as 5 faixas gravadas na época. Fizemos uma seleção entre os vários rolos e conseguimos recuperar um material quase perdido. As gravações foram remendadas, consertadas, coladas, benzidas e finalmente, por incrível coincidência, na primavera de 1996, masterizadas digitalmente e editadas. Agora, todos poderão fazer uma idéia do que foi esse cometa que cruzou os céus das Geraes de 1974 a 1977. A música aqui contida fala por si só, não obstante as deficiências da fita original. É também um testemunho, nos 100 anos de Belo Horizonte, do que esta cidade produziu há 20 anos atrás; um tributo a tantos talentos que aqui nascem e vivem, desconhecidos do resto do Brasil e do mundo. 

...Amém”

Esta citação contida no encarte do cd começa a nos dar a idéia da preciosidade musical que temos em mãos. Um registro histórico de um grande evento musical que existiu nos anos 70 compôs e executou algumas das melhores e mais belas músicas da época e por pouco não ficou perdido no limbo do desconhecimento e esquecimento. Mais do que historicamente importante por ser a primeira banda do grande violinista Marcus Viana, a música contida neste disco é mais uma demonstração de como a música neste país foi forte e muitas vezes melhor do que as estrangeiras. Infelizmente, poucos são aqueles que conhecem e apreciam esta obra-prima (sim, obra-prima, mesmo com todos os problemas). 

É difícil descrever a sonoridade desta obra. Contudo, tenho certeza que mais importante que a descrição da música, devo ressaltar que com certeza essa é um tipo de música diferente de outras, é contagiante, introspectiva, excitante e com certeza mexe com o sentimento daquele que ouve a música disposto a apreciá-la. 

Contudo creio ser dificultoso transcrever tais sensações em uma resenha, acho que isso fica a cargo do próprio ouvinte em perceber a música. Então me limitarei aqui a tentar expor aquilo de que o disco tem de melhor, avaliando e descrevendo sua sonoridade. Em linhas gerais é possível constatar que o violino e o piano têm papel fundamental no desenvolvimento da música, pois com certeza são os instrumentos que mais traduzem o sentimento da música, ora contagiante e frenético, ora suave e contido. Marcus Viana com certeza dominava seu instrumento com perfeição desde aquela época. Contudo, não só a esses dois instrumentos se resume a música: o trabalho de bateria é simplesmente fantástico, marcando presença sempre. O baixo é surpreendentemente presente, compondo a parte mais pesada das músicas e a guitarra, apesar de estar num timbre bem de rock, contribui de forma fantástica na construção dos climas mais espirituais que a música da banda possui, fora os vocais muito bonitos, que são cantados, mas em várias vezes entram em forma de coro. 

Fiz uma pequena descrição de cada música enquanto ouvia:
O começo do disco é em um tom meio sombrio, com um coral, então com a entrada do vocal um clima mais suave se instaura, até que entram piano e violino em primeiro plano, dando nova dinamicidade à música, num ritmo frenético. A voz entra e a música toma corpo com todos os instrumentos. O instrumental de violino é realmente marcante nessa música. Há uma variação de ritmo para um clima mais tranqüilo e depois volta ao coral por duas vezes com subseqüentes explosões de ritmo. A música dá uma caída na sonoridade e quando se pensa que vai acabar, retorna ao ritmo frenético com todos os instrumentos encerrando a música de forma magistral. Excelente! 

A segunda entra com piano e outros sons estranhos até que se instaura um clima anterior ao ápice da música anterior, mas com a inclusão de um coro rítmico com o som. Violino e piano novamente em destaque. Mas baixo e bateria não ficam atrás e também contribuem para formar um ritmo envolvente. A música se modifica num ritmo mais marcado e então passa para um momento mais calmo e introspectivo. A segunda metade começa com todos os instrumentos e os vocais, que se alternam com a guitarra em primeiro plano. No final, um ritmo empolgante entra com os vocais mais pegados. Violino e piano voltam ao destaque e terminam a música com chave de ouro. 

Na terceira faixa o piano marca o início num crescendo muito bonito junto com vocais. Um novo ritmo se instaura com a entrada de violino, bateria, baixo e guitarra que vão crescendo até a entrada dos vocais. Na metade da música há uma suavização e então volta um novo ritmo com os vocais e instrumentais e depois só os instrumentos num ritmo rápido. Após, os vocais assumem magistralmente em “eu quero ver o sol” acompanhados por uma guitarra e bateria afiadíssimas concluindo a música em fade out instrumental. 

A quarta entra em um ritmo mais melancólico com piano, que passa a ser agressivo, em que se somam o violino e bateria. Pra mim um dos melhores momentos do cd. Entram os vocais dando nova direção ao ritmo. O clima segue mais melancólico e em um crescendo instrumental com bastante tensão até a explosão de todos os instrumentos e subseqüente volta dos vocais. O resto da música é guiado por piano e depois guitarra, sempre com a bateria e violino no jogo, até o retorno dos vocais e finalização da canção. Apesar de ser a mais curta, para mim a melhor do disco. 

A última começa e os vocais são mais presentes e dão o ritmo à música, com os instrumentos seguindo no mesmo padrão do disco, com violino e bateria preenchendo bem a sonoridade. Segue-se uma parte instrumental agitada que passa para um ritmo mais calmo e começa a dar nova direção à música para a nova incursão dos vocais. Há uma repetição da última seqüência. Então o piano toma a frente num solo muito bonito e então para o encerramento todos os instrumentos entram num crescendo que então se encerra, fechando magistralmente o disco. 

Este trabalho é, sem sombra de dúvida, um dos melhores da discografia do progressivo nacional, com uma sonoridade ímpar e muito bonita, com pegadas e suavizações marcantes. 

É difícil encontrar palavras para elogiar esta obra, então limito-me a dizer que este trabalho é altamente recomendável a todos os apreciadores de uma boa música!

Formação:
Giácomo Lombardi - Piano
José Audísio - Guitarras
Bob Walter - Bateria
Edson Plá Viegas - Baixo
Marcus Viana - Violinos
Juninho - Baixo

Tianastácia - Criança Louca [2000]



O quarto álbum do Tia veio em 2000. Criança Louca é, provavelmente, seu trabalho mais diversificado. Às vezes folk, às vezes distorcido, "às vezes mais sério, outras galhofeiro", o estilo vai do blues ao rock and roll, do hard rock ao grunge. A ficha técnica do disco traz profissionais do primeiro time: Carlo Bartolini (ex-guitarrista do Ultraje a Rigor) foi o responsável pela produção, mixagem e gravação, que contou ainda com Miranda na pré-produção e Torcuato Mariano como diretor artístico - que, além do trabalho executivo, fez uma participação especial em Tchau.

Mais de Três Foi o Diabo que Fez

Filme conta os bastidores da criação de "Você não soube me amar" no 30º aniversário de lançamento da canção


O Documentário “Mais de três foi o diabo que fez”, sobre a canção “Você não soube me amar”, com direção de Leonardo Souza e produção de Daniel Accioly será lançado em 2012 no Rio de Janeiro. A data marca as comemorações pelos 30 anos de lançamento do álbum “As aventuras da Blitz”.

O filme descreve como foi composta a canção, que foi um dos grandes ícones da música brasileira dos anos 80 e é apontada como um divisor de águas dentro do gênero Rock no Brasil. Cada detalhe sobre a composição da canção é desvendado. Como foram pensados os acordes, como surgiu o refrão e qual a inspiração para criar a história daquele rapaz que estava numa daquelas noites em que se sai caminhando, sozinho, de madrugada, com a mão no bolso, na rua. A história da canção é contada por seus quatro autores, o cantor e ator Evandro Mesquita, os guitarristas Guto Barros e Ricardo Barreto, e o compositor Zeca Proença.

Além dos detalhes da canção, o contexto musical e político são debatidos abertamente. Uma leitura pontual sobre a época explica os motivos pelos quais a canção surgiu na hora certa, no lugar certo e para as pessoas certas.

O documentário, em fase de finalização, é realizado de forma independente, tendo a Matizar Filmes como apoio. Além da finalização, estão sendo concluídas as últimas conversas com potenciais investidores.

Claudio Francioni, do portal SRZD, fala sobre o trabalho: “Durante o filme, há passagens comoventes e outras curiosas, como o fato de que dois dos quatro compositores não se conhecem pessoalmente até hoje! O nome do filme se refere a uma frase que certa vez Caetano Veloso falou para Ricardo Barreto: ‘Essa música foi feita por quatro autores, né? Você sabia que parceria de mais de três foi o diabo que fez?’”.


MAIS DE TRÊS FOI O DIABO QUE FEZ (2012; 15 min)
Direção: Leonardo Souza
Produção: Daniel Accioly
Edição: Alan Ribeiro e Tita Berredo
Fotografia: Leonardo Magliano
Assistente de fotografia: Leonardo Neumann
Som direto: Ivan Mussa

domingo, 15 de janeiro de 2012

Projeto Sonho - Estação [2012]



O Projeto Sonho, banda alagoana de rock instrumental, lançou em janeiro de 2012 seu primeiro EP, intitulado “Estação”. O disco divulgado em parceria com os selos Sinewave (SP) e Popfuzz (AL) registra cinco composições que marcam a primeira fase do grupo.


Formada em 2008, por Gabriel Cerqueira, Ítalo Bruno, Victor Caesar e Hugo Lyra, a banda tinha como ideia inicial a criação de músicas fazendo uso apenas de guitarras e bateria. Em 2011, o grupo passou por transformações na sonoridade e na formação. Assimilando referências sonoras locais e incorporando outros instrumentos, o Projeto Sonho se tornou um quinteto com a entrada de Victor de Almeida, que assumiu baixo, teclado e escaleta.


Gravado de maneira independente na casa dos próprios integrantes, o EP “Estação” tem como ideia norteadora o ciclo de formação da vida. Da destruição ao nascimento, do caos à criação da vida, da tempestade à calmaria. Como sugerem os títulos e a sonoridade de cada faixa: “Tormenta”, “Chuva”, “A Espera do Triste Fim”, “O Próprio Caos Tem Sua Magia” e “Aurora”.


Ao todo, o trabalho levou dois anos para ser concluído e foi produzido pela própria banda, além de contar com a mixagem de Pedro Ivo Euzébio, responsável pela produção de Wado, Mopho e Cris Braun, e masterização de Sérgio So atti. O lançamento está disponível para download gratuito no site da banda (www.projetosonho.com.br).
de Sinewave


Formação:
Gabriel Cerqueira - guitarras
Victor Cesar - guitarras
Hugo Lyra - guitarras
Italo Bruno - bateria
Victor Almeida - baixo, teclado, escaleta

sábado, 14 de janeiro de 2012

Entrevista com Rodrigo Santos (Barão Vermelho), 08/01/2012

Publicado em 08 de janeiro de 2012 no Blog do Brunocos

*Bruno Moreira


Bruno: Nos anos 80 você tocou com muita gente, grandes ícones da música. O que essa geração representou (ou representa) pra você e pra música brasileira? 

Rodrigo: Como faço parte dessa geração, não costumo ficar puxando brasa pra nós. Apenas demos continuidade ao que aprendemos com Rita Lee, Raul Seixas, Belchior, Jorge Benjor, Bezerra da Silva, Moreira da Silva, Tim Maia, Mutantes, Novos Baianos,Pepeu Gomes, A Cor do Som, Alceu Valença, Zé Ramalho, Ney Matogrosso, Renato Barros Roberto Carlos, Erasmo Carlos, Secos & Molhados, Gil, Chico e Caetano. Basicamente isso formou a nossa geração. Junta-se tudo isso a influência que também tinhamos da New Wave, Rockabilly, Punk, Rock,n,Roll e Reggae/Ska lá de fora e aí está formada a nossa geração, que também vinha com vontade de quebrar os resquicios finais de ditadura que ainda permeavam o país. Letristas como Cazuza, Renato Russo, Lobão, Roger Rocha Moreira, Evandro Mesquita, Herbert Vianna, Leoni, Marcelo Nova, Bernardo Vilhena, Julio Barroso, Tavinho Paes e Arnaldo Antunes davam a diferença. Chutamos a chatérrima MPB que volta agora novamente a equilibrar a mesmice do mercado. A grande diferença que demos no mercado foi arrombar as portas das rádios Fm que não acreditavam no rock, até escutarem a Blitz, o Ritchie e o Lulu Santos. A partir daí não parou mais. Obviamente que com o surgimento do sertanejo universitário, da música Baiana, do pagode mauricinho, do funk carioca e da volta da chatérrima MPB, isso deu uma esfriada, e graças ao surgimento do Skank, Raimundos, Chico Science, Cidade Negra, Detonautas, Cassia Eller, Planet Hemp, e Charlie Brown Jr, o rock deu uma pequena renovada. O resto é mais do mesmo. Dos novos que estão quebrando pedras para chegar ao mainstream, os Autoramas estão a frente! Cito também a cantora Marilia Bessy (de Rock e não de MPB!!! que incrível!!!) . Dos compositores-solo destaco Zeca Baleiro, Nando Reis, Zélia Duncan, Isabela Taviani, Moska, Mauro Sta Cecilia, Lobão e me incluo, sem nenhuma modéstia, nos que se preocupam com a continuidade das letras e sua capacidade de propagar pensamentos e reflexões. Somos da geração que escutou Bob Dylan, Stones, Bezerra da Silva e Beatles. A geração dos 80 também trouxe a tona em suas canções, referências do que estava rolando lá fora na época, como Men At Work, Pretenders, Police, U2, Cure, Smiths, Clash e outros. O Barão era mais da galera do blues, ou rock swingado como Rolling Stones e Santana. Mas a abertura das rádios, o Rock in Rio 1 e os equipamentos (instrumentos, PAs, mesas de som ,etc) que começaram a entrar no Brasil, foram lutas que nossa geração conquistou. Claro, boa música e bons letristas tambem, senão não existia nada.

Bruno: E o Barão? Como tudo começou? 

Rodrigo: Eu entrei no Barão em 91. Cheguei a ver shows deles em 82,83...Eu tocava com Leo Jaime, Front, Eletrodomesticos e João Penca & Miquinhos Amestrados. O começo foi como todo mundo daquela geração - impulsionado pela Radio Fluminense e Circo Voador. Depois do sucesso de Bete Balanço, Maior Abandonado e Pro Dia Nascer Feliz (essa antes executada exaustivamente nas radios, na voz de Ney Matogrosso), o Barão se destacou das demais bandas e subiu um degrau acima, coisa que só aconteceu com Paralamas, Lulu, Kid, Legião, RPM, Titãs, Ultraje, Leo Jaime e Lobão. Hoje em dia o Capital Inicial pode entrar nessa lista também. E o Engenheiros do Hawaii saiu..rs

Bruno: Você teve um lance com drogas, álcool, e conseguiu superar. Conte um pouco sobre essa experiência.

Rodrigo: Como acontece com todo mundo era bom no inicio, com 18, 19 anos... foi ficando mais constante entre 25 e 35 anos (tempo tambem em que fiquei praticamente de segunda a segunda na estrada fazendo shows) e começou a virar vício entre 35 e 40. Começou a atrapalhar compromissos e perder dias seguintes dormindo. Aí resolvi parar. Procurei ajuda numa clínica (Centro Vida) e logo a seguir me tornei coordenador na mesma clínica (coordenei reuniões durante 3 anos e meio). Parei com álcool e drogas em 02.08.2005. Hoje em dia não tenho sequer vontade de beber ou usar drogas. Apenas nos primeiros dois meses ficava um pouco saudosista. Criei minha carreira solo toda na abstinência a partir de 2007. Mantive meu casamento (14 anos) e nasceu nosso segundo filho. Só ganhos! Faço muitas palestras hoje em dia sobre isso e falo de uma maneira real, mas leve. 

Bruno: Você tem uma carreira solo bem interessante. Quando decidiu lançar essa carreira? 

Rodrigo: A partir de 2005, quando o Barão anunciou que ia parar de novo - só que dessa vez sem previsão de volta - eu resolvi me preparar para encarar uma nova empreitada na minha vida. Sou surfista de onda grande, gosto de desafios e também não tinha opção, era aquela hora ou nunca. Já vinha cantando nos Britos (banda minha que gravou um DVD todo de Beatles, na Inglaterra). Preparei o repertório novo durante a turne do Barão em 2006 e durante minhas horas vagas no RJ. Era um sonho antigo, mas esperei a hora certa, quando realmente tivesse tempo grande para dar continuidade ao trabalho. São 4 discos em 5 anos, sendo o último um DVD. Muitas músicas tocaram em rádio, outras em novelas. A Som Livre me contratou em 2007 e fiquei lá até 2010 lançando dois discos autorais ( Um Pouco Mais de Calma 2007 e O Diario do Homem Invisível 2009). O mercado mudou e fiz o terceiro disco por um selo em 2010, a convite de Marcelo Froes. O cd "Waiting On a Friend" foi meu único não autoral, todo em inglês e com músicas inéditas de John Lennon e Paul McCartney. A música "Waiting On a Friend " tocou muito em rádios, comigo e Frejat dividindo os vocais, e todos os Barões na faixa. Em 2011 resolvi lançar o DVD que gravei em 2010, "Ao Vivo em Ipanema" gravado no Teatro Ipanema e em cima de uma Kombi na Praia do Arpoador (participações de Evandro Mesquita, Ney Matogrosso, Frejat, Leo Jaime, Miquinhos, Leoni, Isabela Taviani, Pepeu Gomes e Chris Pitman, do Guns n´ Roses). Foram até agora 5 músicas em rádios e 1 em novela. 1001 shows. Hoje em dia faço uma media de 15 shows solo por mês e já não dependo do Barão para viver. Isso aconteceu com muita ralação. Apesar de estar muito bem nesse momento da vida, amo tocar com o Barão e portanto na volta da banda, estarei tocando feliz e com muitas saudades de 
encontrar meus companheiros de muitos anos. Sem abandonar a carreira solo.

Bruno: Dos seus shows, tem algum que mais te marcou?

Rodrigo: Da carreira solo: O Rock in Rio 2011, sem dúvida foi o mais impressionante. Foi na Rock Street para 10.000 pessoas e volta para 3 bis. Além desse, teve o que abri o Skank na Praia de Copacabana para 70.000 pessoas.Inesquecivel, em 2008. Em 2011 fiz 221 shows, muitos importantes, muitas temporadas lotadas e tambem um show memorável: o da praia do Arpoador, no Verão da OiFm. Os shows que inventei em cima de uma Kombi também foram inesquecíveis (Leblon e Arpoador, esse ultimo registro do meu DVD) e as duas festas de Reveillon nos locais mais nobres do Rio (Forte Copacabana e Iate Clube) tambem ficarão na memória, aconteceram agora, de 2011 para 2012. Com o Barão: a abertura dos 5 shows dos Rolling Stones na turne Voodoo Lounge e o Rock in Rio 3, em 2001. Com Lobão: O Hollywood Rock de 1990 onde gravamos o LP "VIVO". Com o Kid Abelha a temporada no Credicard Hall SP, com mais de 12 shows lotados. Com Leo jaime o show Alternativa Nativa, no Maracanazinho lotado em 1986. Com os Britos os 3 shows no Cavern Club, em 2005 e 2006.

Bruno: Como surgiu o projeto "Os Britos" (com George Israel, Guto Goffi e Nani Dias)? Continuam?

Rodrigo: Os Britos surgiram em 94 a convite do pessoal do Circo Voador para lançarmos o filme Back Beat nos moldes do lançamento no exterior, com musicos de diferentes bandas tocando musicas dos Beatles. Aqui fomos nós os escolhidos. Deu tão certo que continuamos e gravamos um dvd na Inglaterra, Ganhamos medalha do principe inglês e acabamos a banda em 2008. Ou seja, nossa historia é quase igual a dos Beatles!! rs

Bruno: Qual sua visão do atual momento da música no Brasil?

Rodrigo: Boa, se procurar encontra coisa muito boa. Claro que o que a mídia empurra no momento é a porcaria de sempre com novos nomes incluídos - nomes do momento. Esse momento-mídia-música está horroroso, mas por tras de tudo isso chegam bandas boas. Falta algo no movimento para quebrar a concorrência dos programas de TV e rádios, mas em compensação tem integridade e musicalidade. Enquanto os diretores de TV e programadores de rádios estiverem por tras disso tudo, teremos as mesmas ruindades sertanejas, axés, funks, rock infantil, mpb sem alma e muitas armações de encontros fakes. Sobre o último armado pela maior gravadora no Brasil não vou nem comentar..mas o efeito vem...o público é enganado por um tempo, mas na geração seguinte isso dá efeito. Afinal, quem vai aturar armações entre ícones da MPB e novos "talentos" unica e exclusivamente criados para empurrar o novo produto da gravadora? Fica fácil...empurra 4 músicas para novelas e o resto vem junto. Tem muito diretor jogando esse jogo e mais, pessoas que eram excelentes musicos na década de 70, 80...entraram direitinho nesse jogo - claro, para manter seu emprego e sua grana na conta. Enquanto isso a produção musical é sofrível!

Bruno: Que conselho você dá pra turma que tá começando na música?

Rodrigo: Não desista, mesmo tendo pela frente pessoas idiotas que nos cercam nesse meio. Não desistam, essas pessoas enriquecem e somem... a nossa arte fica!! E assim vamos crescendo e essas pessoas "diminuindo" - com o tempo isso faz a diferença. Caráter não se aprende na faculdade.

Bruno: Quais são seus projetos pra 2012? Barão volta? 

Rodrigo: Vou ser apresentador de um programa de televisão fechada e continuarei meus shows até maio, quando o Barão volta para shows! Vou tentar conciliar algumas atividades, como palestras-shows e os programas que estarei apresentando, contanto que nao bata com as datas do Barão. Essa é a grande novidade de 2012 - a volta do Barão Vermelho!! Tenho milhares de pedidos de shows solo. Os que conseguir conciliar farei, os outros ficarão para 2013. Tenho meu público hoje em dia, que sai de casa para me ver cantar. Isso eu tenho de cuidar, regar e manter a chama acesa também. Sou muito grato a todos e estou apenas começando minha historia solo.

Bruno: Para o Rodrigo Santos, a vida é... (?)

Rodrigo: Perseverar, as vezes recuar, mas nunca desistir. A vida é...harmonia e desafio!!!

Bruno: Valeu Rodrigo! Que seus trabalhos continuem dando certo, com muito sucesso. Um grande abraço.

Rodrigo: Abração Bruno e aos seus leitores!! Tamos na área! Nos encontramos nos meus facebooks I, II e III , no Twitter @rodrigosantosbv e no site www.rodrigosantos.com.br

Vlad V - A Espada e o Dragão [1998]

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Depois do álbum de estréia, Vlad V, a banda lança o álbum que lhe rendeu o apelido de rush brasileiro devido a virtuosidade e ao timbre de voz de Jean Carlo.

Formação em A Espada e o Dragão:

Jean Carlo - guitarra, violão folk, flauta, harmônica e voz
Doriga - teclados, acordeon e vocais
Humberto Klitzke - baixo, violão clássico, bandolin e vocais
Flavio Theilacker - bateria, percussão e vocais

sexta-feira, 13 de janeiro de 2012

Entrevista com ruído/mm. "Às vezes, a melhor música é o silêncio"

*Cristiano Castilho, 13/01/2012

Coloco ruído/mm para escrever sobre ruído/mm. Introdução à Cortina do Sótão começa delicado. O piano melancólico é como um afago na cabeça, ainda que intermitente. E também a chavinha que dá a partida para essa viagem de seis músicas, carregadas de brumas e dor, tensão e alívio. O álbum é um dos melhores discos de 2011. Foi citado em diversas listas nacionais. E comentado, destrinchado, digerido.


Formado atualmente por André Ramiro (guitarra), Ricardo Pill (guitarra), Giovani Farina (bateria), Alexandre Liblik (piano) e Rafael Panke (baixo), o ruído/mm tem quase dez anos de história. Passou por diversas formações. Lançou seu primeiro disco, o EP Série Cinza, em 2003.

Na longa e divertida entrevista a seguir, a banda curitibana demonstra um impressionante domínio sobre o “fazer artístico”. Falam também sobre o processo criativo do quinteto, que envolve esquimós e Edgar Alan Poe; contam como receberam as boas críticas; e divagam sobre Curitiba, cidade essa que, como o pós-rock, vive entre luz e sombras.
“O artista não pode se fechar na torre de cristal e achar que cada ideia que produz é brilhante, nem pode ficar sempre copiando os outros por falta de assunto e querendo agradar.”

O que estão ouvindo nesse exato momento?


Ramiro: Sleep Party People e Sonic Youth (Bad Moon Rise), ao mesmo tempo e aleatório, rs.

Panke: Shuffle on! Mas o Last.fm denuncia: Neutral Milk Hotel, Swervedriver, My Midi Valentine e Akron/Family.

Liblik: Ando ouvindo os pilares do jazz boliviano (uma gravação histórica que resgatei em La Paz) e Hierofante Púrpura, banda doidona que lançou um belo disco neste ano.

Introdução à Cortina do Sótão está em diversas listas de melhores discos de 2011 – inclusive na deste blog. Por que ele foi o grande álbum do ruído/mm?



Ramiro: Porque existe uma sincronicidade beirando a exaustão por coisas sinceras no mundo da música.

Liblik: Sincronicidade é a palavra. São cinco melhores amigos que se acharam, mas que sempre estiveram se procurando.

Vi que vocês comemoraram muito essas boas notícias. Qual era a expectativa da banda na época do lançamento do álbum



Panke: Havia uma certa insegurança devido ao relativo sucesso do disco anterior, A Praia. Estávamos nos enveredando por caminhos diferentes, e a comparação seria inevitável. Como isso seria percebido pelos outros? E, em geral, quando se lança um disco não se faz a menor ideia de como ele será recebido; perde-se o distanciamento da obra durante o processo, fica difícil apreciá-la objetivamente. Além disso, o reconhecimento de um trabalho depende de n fatores não relacionados à música em si... há discos bons que não nunca chegam aos ouvidos certos, há tanta porcaria que ganha destaque. Aprende-se a não esperar nada: assim, quando surgem opiniões favoráveis, é uma festa.

Ramiro: Não temos expectativas para muitas coisas. ruído é lado B da vida. É a cor do nosso sangue. Quando alguém diz que gosta do disco, acaba sendo um prazer conhecer esta pessoa, porque alguma coisa está nos fazendo convergir para o mesmo canal. Isso é bom demais.

Liblik: A alegria de fazer música compartilhando com nossos amigos é a nossa expectativa realizada. É isto que comemoramos.

Ruído/mm - Introdução à Cortina do Sotão [2011]

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Não chega a ser uma parede ou uma barreira sonora, mas Zarabatana, a primeira faixa de Introdução à cortina do sótão, o novo disco do grupo de rock instrumental ruído/mm, começa com uma certa elevação de som. No mínimo uma pedra no caminho. Se a primeira faixa do disco é uma curta introdução de clima tranquilo, Zarabatana faz o disco começar todo de uma vez e meio rápido. Você só viu a pedra no caminho depois que já estava tropeçando nela.


Segundo a Wikipedia e o Dicionário Informal, Zarabatana é uma arma de sopro. Um tubo oco pelo qual são soprados dardos ou projéteis. Os tiros podem atingir grandes velocidades e distâncias. Mas o nome antigo da mesma música, Mariachis, parece ter mais a ver com ela. Há algo em sua estética que relembre do clichê mexicano: calor, areia, sombreros, deserto. E esse começo seco e duro dos primeiros segundos lembra milhares de agulhadas de uma tempestade de areia. Depois dela, a bonança, a escaleta tocada por Alexandre Liblik (falaremos mais dele aí para frente), a calma. O vento parou e fica tudo em silêncio até que surja a primeira parede sonora do disco, formada por 1) a guitarra de André Ramiro gritando aguda e profundamente, como se um grão de areia da tempestade tivesse chegado ao osso e fosse a maior dor possível -- essa guitarrinha aproxima Introdução à cortina do sótão ao post-rock; 2) a guitarra grave de Pill gritando "porra!" entre os dentes e o vento, mas ficando apenas incomodada com a tempestade; e 3) o grave do baixo incrivelmente calmo de Rafael Panke, que parece nem se incomadar com tudo aquilo, ou ainda, imponentes, talvez sejam estas notas graves as responsáveis pela construção e arquitetura da tempestade.

De repente, como um herói, surge um piano. A tempestade imediatamente começa a enfraquecer e acaba poucos instantes depois. Volta o calor infernal do deserto, mas pelo menos as agulhadas de areia pararam.

Assim começa a Introdução à cortina..., o sucessor do muito bem falado A Praia (2008). Mas se o disco anterior falava (murmurava) sobre os problemas e as impossibilidades da vida -- ou pior, sobre o medo de enfrentá-la -- Introdução à cortina resolve escapar do incômodo momento em que se hesita perante as dificuldades e parte para o enfrentamento delas. Analisa que coisas boas e ruins podem acontecer e conclui, emocionado, que é pela chance de tudo dar certo que vale a pena enfrentar os problemas da vida.

Mesmo sem palavras, é sobre essa decisão feliz e emocionada que os instantes finais de Zarabatana parecem tratar.

Petit Pavé, a terceira faixa do disco, resolve ir ao enfrentamento. Tal qual as tramas complicadas dos calçamentos do nome da música, a tomada de uma decisão é sempre um processo complexo. Cada caminho leva a uma nova escolha, a novas bifurcações, a novas dúvidas.

Agora, falando sobre a estética da música, Petit Pavé é uma caminhada por morros verdes e céu nublado. Mas antes da sensação de calma e paz por se presenciar uma paisagem bonita, o que temos aqui é uma certa angústia de se estar perdido e sem saber para onde ir (vida?). De repente você passa por uma colina pela qual jura ter passado há trinta minutos atrás, mas descobre, perplexo, índios eletrônicos em ritual de dança que não estavam ali antes (para quem quiser ver com os próprios olhos, eles estão entre 2:01 e 2:30).

Esquimó é a penúltima música do disco. É aqui que voltamos a falar sobre o piano de Alexandre Liblik. Decisão acertada essa do ruído/mm de botar um pianista na banda. Liblik, deixe-se bem claro, não é tecladista, mas exímio pianista (pelo menos dentro do âmbito roqueiro a que avalio).

Se antes, em A Praia, sem o piano de Liblik, o ruído/mm era uma grande banda de um disco excelente, com Liblik e a Introdução à cortina do sótão o ruído sobe vários degraus e chega ao status de, sei lá, banda superior. É aquele ponto em que há deslumbramento. É o ponto em que se evolui e se faz uma música complexa, de díficil compreensão, e assim mesmo há a aceitação de público considerável. É um ponto em que você transmite mensagens inteiras (quiça sentimentos completos) sem dizer uma única palavra.

É o piano que começa O Prestidigitador, a última e mais ensolarada faixa do disco. Nela há, além da nova aparição dos índios eletrônicos de Petit Pavé, a sensação de que tudo passou, afinal. Os problemas foram enfrentados. As nuvens sumiram, você está nas mesmas colinas verdes de antes, mas agora está tudo ensolarado. E você sabe muito bem onde está. Sorriso no rosto, na alma. Deu tudo certo.

Dizer que Introdução à cortina do sótão é um grande disco é pouco. O terceiro lançamento do ruído/mm está para além de "bom", "ótimo", "excelente". É um disco que, para fazê-lo não basta ser ótimo músico ou compositor. É preciso ser louco, e depois disso ser são, e depois ainda desenvolver a capacidade de transitar com desenvoltura entre a loucura e a sanidade, a vida e suas complexidades, os problemas e suas soluções. Aí sim, depois disso tudo, transpor com leveza e descompromisso as experiências obtidas para guitarras, pedais e partituras. E ter feeling.