terça-feira, 9 de outubro de 2012

Sagrado Coração da Terra - Farol da Liberdade [1991]

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Foi apenas em 1990, que tive o privilégio de conhecer o som do grupo brasileiro de rock progressivo Sagrado Coração da Terra. Liderado por Marcus Viana desde os anos 70, só fiquei sabendo de sua existência pela novela Pantanal, da extinta Rede Manchete. Não que eu seja noveleiro, mas vamos combinar, a trilha sonora não tinha como passar em brancas nuvens com o som daquele violino tão peculiar que marcou toda uma geração.

Em Farol da Liberdade, temos o que de melhor a banda produziu naquele ano, em 1991, incluindo não apenas a belíssima canção-título da novela Pantanal, que leva o mesmo nome, como também a faixa produzida para a novela seguinte da Manchete: A História de Ana Raio e Zé Trovão, sob o título Raio e Trovão, além da faixa Olívia e da bônus track em inglês, The Central Sun Of The Universe.

O detalhe que não passa despercebido, é a letra de Pantanal. Que carrega todo o chamado ao cuidado que devemos ter para com a natureza, muito antes desse assunto se tornar um tema global. O que mostra que bem antes de ECO 92 e Rio+20 a banda já fazia sua parte em conscientizar seus ouvintes, para o fato de que devemos cuidar do nosso planeta, antes que seja impossível reverter o irreversível: sua morte, como também daqueles que nele o habitam.

segunda-feira, 8 de outubro de 2012

Cazuza - Burguesia [1989]

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O quinto e último álbum de Cazuza, Burguesia, lançado pela Polygram em 1989, veio duplo, recheado do material que o poeta acumulava em casa, escrevendo às pressas enquanto a morte não vinha. 

Esse pode ser chamado de o disco da ressurreição. Cazuza, já minado pela doença, provou que a pirraça era a forma de se manter vivo. Criava como um tresloucado, escrevia desbragadamente, aos borbotões. Mandava letras para Frejat, Angela Ro Ro, Arnaldo Antunes, Arnaldo Brandão, Joanna, João Donato e também as dava a quem fosse visitá-lo na Clínica São Vicente. E exigia que eles musicassem tudo em milésimos de segundos. 

É um álbum de conceito dual, sendo o primeiro disco com canções de rock brasileiro e o segundo com canções de MPB. Burguesia é o último disco gravado por Cazuza e vendeu 250 mil cópias. Cazuza recebeu o Prêmio Sharp póstumo de melhor canção com “Cobaias de Deus”. 

Para gravar o LP, Cazuza chegava ao estúdio da Polygram em cadeira de rodas, deitava-se num sofá e mandava ver, mesmo com a voz nitidamente enfraquecida. João Rebouças criava os arranjos e ele ia colocando a voz direto. Os técnicos da gravadora agiram de uma forma pavorosa. Como ele cantava deitado, os microfones eram colocados de qualquer jeito, como se cada dia de gravação fosse o último e que aquele disco não iria ser lançado nunca. 

Era uma produção, digamos sem exageros, brutalista. Esse disco poderia ser comparado com Metal Machine Music, de Lou Reed. E as letras eram orgiásticas, haviam canções com 140 versos, tudo era fantasmagoricamente irracional, trovões e relâmpagos verbalizados numa linguagem devastadora. Era a própria urgência de cataclismas transcendentais. 

Burguesia é um álbum-duplo com 21 pulverizantes faixas. Um registro que sempre valerá a pena ser relido por “seculo seculorum”. Cazuza assumiu e assinou, com garras e dentes toda a produção. Só mesmo ele teria culhões e honestidade para fazer isto.

Cazuza - Ideologia [1988]




“Meus heróis morreram de overdose. Os meus inimigos estão no poder.”

Com música de Roberto Frejat e letra de Cazuza, Ideologia é a faixa-título do terceiro álbum solo de Cazuza. Além disso, é a canção que abre o primeiro álbum do compositor após a confirmação de que ele era aidético. Considerada a melhor canção de sua carreira solo, Ideologia levou o prêmio de música do ano, em 1988.

Tudo o que acontecia no Brasil, no mundo e principalmente na vida de Cazuza está em Ideologia. O garoto que queria mudar o mundo agora se vê frágil, diante de um país sem ideologia definida. A crise dos partidos políticos e a queda da ditadura militar aparece já nos primeiros versos da letra. Toda a ideologia pregada por Cazuza, como a de sexo, drogas e Rock n’ Roll vai por água abaixo, quando ele percebe que é impossível viver assim. As pessoas que Cazuza via como heróis agora foram deixados para trás e o garoto que sonhava em ser herói agora tem de conviver com uma das maiores doenças da década de 80, a AIDS.

O que mais chama atenção na letra da música é o verso “meu prazer agora é risco de vida”. Com esse verso, Cazuza, pela primeira vez, assume que a doença mexeu com a vida dele e que o sexo, que ele sempre declarou ser o maior prazer do mundo, não pode mais fazer parte de sua vida.A queda do Muro de Berlim, um ano depois da música, provou que as ideologias realmente estavam mudando.

Com a canção, Cazuza diz buscar uma ideologia, sem perceber que naquela obra estava sendo escrita uma ideologia. A ideologia crítica, que o consagrou como um dos maiores compositores brasileiros de todos os tempos.

domingo, 7 de outubro de 2012

Rock Brasília Era de Ouro [2012]



Por Penny Lane

O filme conta a história das principais bandas brasilienses nascidas nos anos 80, e que colocaram Brasília definitivamente no mapa dorock´n roll mundial. Com cenas reais da época e vários depoimentos de personagens da chamada “Era de ouro” do rock nacional, uma época pré-jabá onde as rádios tinham liberdade musical para escolher o que queriam tocar. Os shows no Foods e naZoom dão um choque na memória dos que viveram a época mágica.

Em meio às quadras do Plano Piloto e a Colina, a história do rock nacional ganhava páginas de glória, redigidas por integrantes da Legião Urbana, Capital Inicial e Plebe Rude. Uma entrevista de Vladimir com Renato Russoem pleno boom da Legião traz recordações boas e arranca risadas da platéia. A ironia do gênio do rock brasileiro passeia por momentos não tão charmosos de uma época de repressão e censura.

Mais emocionante é o depoimento do professor Briquet, pai de Fê e Flávio Lemos, que com seu jeitinho paternalarrancou lágrimas do público. Outro momento a ser destacado é o relato sobre a causa mortis de Renato Russo: “ele morreu de depressão, não de HIV”, relata Carmem Tereza, irmã do cantor. A película mostra também o quanto a vida de Renato foi chacoalhada pelo show da Legião no Mané Garrincha em 1988.

O documentário é uma obra prima do cinema nacional. Expõe um período em que a juventude, por mais oprimida que fosse, encontrou uma forma de dizer o que pensava através de uma linguagem universal.

Parabéns aos produtores e atores do filme, especialmente Vladimir Carvalho que como poucos, encontrou uma forma nobre e emocionante de declarar seu amor a Brasília. Nós agradecemos o presente!

Ultraje a Rigor - Nós Vamos Invadir Sua Praia [1985]




Por Doctor Robert

Formada em São Paulo no começo da década de 1980, o Ultraje teve em seus primórdios suas guitarras divididas pelo vocalista (e Ultraje em pessoa) Roger Rocha Moreira e pelo grande Edgard Scandurra, que também já fazia parte do Ira! à época. Edgard foi indiretamente o responsável pelo nome da banda – certo dia, buscando um nome para o grupo, Roger pergunta a ele o que achava do nome Ultraje e Edgard, meio distraído: “Que traje? Traje a Rigor?”. Chegaram a lançar um EP em 1983, com a música “Inútil”, e fizeram sua fama na capital paulista, tocando sempre com casa cheia por onde passavam. Com o tempo, Edgard priorizou sua outra banda, tendo sua vaga preenchida por Carlinhos Castelo Branco. Completavam o time o baixista Maurício Fernando Rodrigues (que depois passaria a assinar Maurício DeFendi) e o carismático Leospa na bateria. Após lançarem mais um compacto, “Eu Me Amo”, e de contrato assinado com a Warner (WEA, na época), entram em estúdio para gravar aquele que, mal sabiam eles, tornar-se-ia um grande clássico do rock brasileiro.

A moral do Ultraje era tão grande que logo na divertida faixa de abertura, que dava título à bolacha, havia a participação especial no refrão de outros grandes nomes do cenário rock da época: Lobão, Ritchie, Léo Jaime e Selvagem Big Abreu (do João Penca). Teve direito até a vídeo clipe exibido no Fantástico, honra que até então só cabia aos grandes medalhões da música brasileira e a artistas estrangeiros. “Rebelde Sem Causa”, a segunda faixa, era uma singela homenagem aos playboys, “filhos de papai” que sempre tiveram tudo na mão. Só a frase “como é que vou crescer sem ter com que me revoltar?” já vale a música toda.

O bom humor e a diversão sempre foram marca registrada da banda, e isso fica ainda mais evidente em “Mim Quer Tocar”, um belo sarro em cima das canções de reggae em inglês que abusavam das frases começadas com o pronome “Me”. “Zoraide” é um rockão bruto, onde um machão assumido não sabe mais o que fazer ou dizer para se livrar de uma ex namorada que ainda fica chicletando. “Ciúme” encerrava o lado A e dispensa maiores comentários: uma das melhores do disco e um dos maiores hits da banda.

Abrindo o lado B vinha “Inútil”, que já era hit, tendo sido inclusive uma espécie de “hino da juventude” no movimento pelas “Diretas Já”, com o fim da ditadura militar. O que não deixava de ser irônico, visto que ela critica a alienação política e cultural dos brasileiros. Detalhe: o grupo manteve intacto o antológico riff de guitarra original, criado por Edgard Scandurra, um dos mais inspirados do rock brazilis. “Marylou”, outra faixa engraçadinha, era cantada por Leospa e Maurício, e tinha a participação especial de Herbert Vianna, do Paralamas do Sucesso nas guitarras. Foi talvez o maior sucesso do álbum, tendo tocado à exaustão, e ganhando até mesmo versão especial para o carnaval (num compacto, onde o lado B era “Nós Vamos Invadir Sua Praia”, também em versão carnavalesca). Em tempos de ditadura, era uma vitória ver tocando nas rádios uma música censurada, conforme podia ser lido na contracapa, mesmo sem ter um palavrão sequer – na edição final, ao invés de cantar “cu” a letra dizia que “Marylou botava ovo pelo sul”.

A boa “Jesse Go”, cantada por Maurício, trazia a história de um idiota que se tornou um sucesso gigantesco e depois desapareceu. Infelizmente essa é a imagem errônea que muitos têm da própria banda (provavelmente aqueles que nunca sacaram qual é a deles, ou nunca entenderam suas críticas e piadas). Essa tocou pouco, bem como “Se Você Sabia”, a canção seguinte, que tratava de um assunto delicado (a gravidez inesperada de um casal de namorados) de forma bem humorada. Encerrando, “Independente Futebol Clube”, gravada ao vivo na Rádio Clube, casa noturna de São Paulo onde o Ultraje sempre se apresentava. Na era do CD, o disco chegou a ser relançado com algumas faixas bônus, como as versões originais de “Inútil” e “Ricota”, gravadas lá nos primeiros tempos da banda, ainda com Scandurra – esta segunda seria regravada e lançada depois no álbum “Crescendo”. Havia ainda as versões carnavalescas citadas acima.

O que fica evidente, e já foi confirmado em diversas entrevistas, inclusive dos produtores, é que todo mundo se divertiu muito fazendo o disco – Liminha chegou a contar, em entrevista à MTV, até sobre a famosa brincadeira do balde apoiado sobre a porta, que virava e derramava água sobre quem a abrisse. E o público, com certeza, divertiu-se ainda mais ouvindo-o e assistindo aos shows. A presença nas rádios, programas de TV (em especial do saudoso Chacrinha) eram cada vez mais esperadas. Os fãs costumavam até apostar qual música seria tocada, já que tantas eram sucesso.

Depois deste clássico, o Ultraje ainda lançaria outro belo álbum, “Sexo”, em 1987, desta vez com Sérgio Serra nas guitarras – Carlinhos gravou apenas duas faixas: “A Festa” e “Prisioneiro”, um legítimo heavy metal em português. E houve ainda participação especial de Sting (o cachorro boxer do Liminha, que late no disco) no coro de “Terceiro”, e João Barone, dos Paralamas, no solo de bateria de “Maximillian Sheldon”. Dando continuidade à discografia viriam obras irregulares, alternando grandes músicas com outras mais fracas, e várias mudanças na formação – passaram pela banda o guitarrista Heraldo Paarman, o baterista Flávio, o baixista Serginho, e até mesmo Andria Busic, do Dr. Sin, que aparece no clipe de “O Chiclete”, do álbum “Crescendo”.

Infelizmente o Ultraje acabou sendo deixado de lado pelo grande público, mas está sempre vivo entre seus fiéis fãs e seguidores. O último grande êxito comercial veio com o CD e DVD “Acústico MTV”. Atualmente, acompanham Roger na formação do Ultraje o baterista Bacalhau e o baixista Mingau. O guitarrista Sérgio Serra, que havia voltado no álbum “Os Invisíveis”, mais uma vez deixou o posto vago recentemente. Em algumas canções inéditas lançadas na internet pela banda, neste ano, o velho amigo Scandurra assumiu como convidado as guitarras ao lado de Roger. Os fãs mais antigos até chegaram a sonhar: quem sabe com o fim do Ira! ele não pudesse assumir mais uma vez a posição... mas nas apresentações ao vivo, quem tem prestado seus serviços à banda é Marcos Kleine.

Que o Roger e o Ultraje ainda fiquem por muitos anos nos divertindo com seu rock and roll, por pelo menos mais 25 anos...

Coke Luxe - Rockabilly Bop [1984]



Salve, salve amantes do Rock 'n' Roll. A banda em questão aqui é a Coke-Luxe...isso mesmo.

A palavra “coqueluche” era uma gíria usada em décadas passadas para designar algo que estava na moda ou, como se diria hoje: é um barato, é o que há, tá na onda…

Formada pelo saudoso Eddy Teddy (considerado um dos pioneiros do Rockabilly no Brasil). Ao lado de João Penca e Seus Miquinhos Amestrados, a banda tornou-se um dos grupos principais nesse gênero mais Rock ‘n‘ Roll primitivo, caricaturando muitas das vezes Bill Haley e Seus Cometas. Em 1983 o grupo lançou o compacto "Não beba, papai, não beba", pelo selo Barato Afins. No ano seguinte, pelo mesmo selo, gravou o LP "Rockabilly Bop". No final da década de 1980 o grupo se desfez, contudo, reunia-se ocasionalmente até 1997, quando faleceu Eddy Tedy, um de seus integrantes. 

A Banda Paulista era formada por Eddy Teddy (Eduardo Alberto da Silva Moreira - São Paulo 1950 - idem 1997) guitarra e voz, Bitão (Wagner Benatti) baixo, Lelo Cadillac (Marco Aurélio de Macedo - São Paulo 1946) guitarra e Billy Breque (Victor Sidney Riccelli - São Paulo 1948) baterista.

Para saber mais sobre a Banda Coke-Luxe, Eddy Teddy e esse movimento que perdura até os dias de hoje acesse http://eddyteddy.wordpress.com/, site cheio de reportagens e fotos para lá de coke-luxe.

A Noite do Espantalho [1974]



A Noite do Espantalho não é um filme bem resolvido. Suas seqüências finais exageram na abstração, nas releituras de Glauber, nas metáforas em prol de uma utópica crítica social, mas é sensacional que um filme como ele tenha sido feito no Brasil, no auge da Ditadura Militar, em 1974. Sérgio Ricardo era um dos cantores mais engajados da época. Seu filme é uma ópera-rock nordestina, rodada na cidade cenográfica de Nova Jerusalém, no interior de Pernambuco. Alceu Valença é um espantalho que acompanha a pequena saga de um grupo de colonos cujas terras são ameaçadas por um coronel. Um destes colonos é interpretado por Geraldo Azevedo. A encenação é teatral, os elementos em cena parecem estar dispostos num palco e a lógica é a cordel, com a poesia, a música, emoldurando a história. A cor explode no sertão como vestido roxo de Odete Lara em Dragão da Maldade contra o Santo Guerreio. Sérgio Ricardo assina ainda a cenografia e é um dos roteiristas, ao lado de nomes como Jean-Claude Bernadet. Há alguns devaneios metalingüísticos como a aparição de câmeras durante a feitura das casas e há muita experimentação pueril, como o clímax da matança, mas me pareceu um filme extremamente importante - e cheio de boas e honestas idéias.
de filmes do chico


Assista ao filme completo no youtube:

Camisa de Vênus - Batalhões de Estranhos [1984]

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Por Wladimyr Cruz em ZP

Um anos depois de sua estréia em vinil, e de terem sido demitidos da Som Livre por não quererem mudar seu nome, o controverso Camisa de Vênus lançou seu segundo disco no distante ano de 1984 via extinta RGE.

Correndo sozinho, fazendo punk rock em plena Bahia, o conjunto nesta época já era razoavelmente conhecido, mas explodiu de vez com a primeira faixa deste disco, o single "Eu Não Matei Joana D'arc", um dos maiores hits do grupo até hoje.

Aqui o Camisa já se aventurava em fazer algumas baladas, músicas melancólicas que permearam todo o trabalho da banda, aparecendo as vezes aqui e acolá. Neste disco, neste naipe, temos "Lena" e "Rostos E Aeroportos", duas faixas carregadas e densas. "Batalhões De Estranhos" tem mais alguns hits, caso de "Hoje" (que inclusive o Charlie Brown Jr. gravou em seu Acústico MTV ao lado de Marcelo Nova) e "Gotham City".

Os destaque do álbum ficam para as faixas mais punk e de letras mais ácidas, caso de "Casas Modernas", "Crime Perfeito" e a faixa-título.

Pouquíssimas bandas, em 1984 e até os dias de hoje, tiveram a coragem de fazer um disco tão subversivo, mas é até redundante falar isso pois toda a discografia do Camisa exala subversão, contestação e espírito punk.

Em resumo, mais um clássico da música punk nacional que deve ser ouvido por todos.


A1 Eu Não Matei Joana D'Arc
(Gustavo Mullem, Marcelo Nova)
A2 Casas Modernas
(Gustavo Mullem, Marcelo Nova)
A3 Lena
(Karl Hummel, Marcelo Nova)
A4 Ladrão De Banco
(Gustavo Mullem, Karl Hummel, Marcelo Nova)
A5 Gotham City
(Macalé, Capinam)
B1 Noite E Dia
(Karl Hummel, Marcelo Nova)
B2 Crime Perfeito
(Karl Hummel, Marcelo Nova)
B3 Rosto E Aeroportos
(Gustavo Mullem, Marcelo Nova)
B4 Hoje
(Karl Hummel, Marcelo Nova)
B5 Cidade Fantasma
(Karl Hummel, Marcelo Nova)
B6 Batalhões De Estranhos/Coiote No Cio
(Karl Hummel, Marcelo Nova)

sábado, 6 de outubro de 2012

Os Mutantes [1968]



Muita gente tem a mania de buscar apenas no rock americano ou inglês a sua fonte única de inspiração e conhecimento, enquanto as pérolas da MPB permanecem no esquecimento. 

Também a quem não ache que tais pérolas existam, mas houve a bossa nova, a tropicália (anote aí: "bossa nova" não é uma invenção da vanguarda londrina), coisas que poderiam dar um forte impulso ao rock nacional, em sua busca de identidade. Realmente, não é justo que só a tal "geração AI-5" tenha conhecido o primeiro LP dos Mutantes, lançado em 68 eis as pérolas.

Pelo ineditismo para a época e pelo seu distanciamento dos clichês roqueiros, este pode ser considerado o melhor disco do grupo (sem menosprezar os posteriores, Mutantes, de 69, e A Divina Comédia ou Ando Meio Desligado, 70). Rita Lee, Arnaldo e Serginho Baptista faziam música, está na cara, pelo puro barato de criar, de se divertir. Assim como outras obras-primas da tropicália, este disco contou com o auxílio do George Martin (produtor dos Beatles) brasileiro, Rogério Duprat. Sintetizar orquestralmente as idéias lisérgicas que os Mutantes simplesmente jorravam não deve ter sido fácil, mas com certeza Duprat curtiu adoidado. 

Vejam só: o disco abre com "Panis et Circensis", de Caetano e Gil. De repente a música se interrompe como se alguém tivesse tropeçado no fio do toca-discos; em seguida ela continua para acabar em meio a ruídos de sala de jantar, com talheres e conversas familiares. Tudo isso com orquestração digna de aberturas wagnerianas. Depois vem "Minha Menina" (Jorge Ben) e "O Relógio", de autoria do grupo, um dos grandes momentos deste lado, graças à estranheza do contraste entre a melodia leve e o non-sense da letra (o relógio parou/ desistiu para sempre de ser antimagnético, 22 rubis/ eu dei corda e pensei/ que o relógio iria viver/ pra dizer a hora de você chegar). 

"Maria Fulô", de Leonel de Azevedo e José de Sá Roris, cai num clima de quilombo, com marimbas, Kalimbas e cuícas no maior samba. "Baby", de Caetano, é cantada (imaginem só) por Arnaldo. A última faixa do lado A é "Senhor F" (O senhor F/ vive a querer/ ser senhor X/ mas tem medo/ de nunca voltar/ a ser senhor F outra vez), mais uma pérola de autoria do grupo, com arranjo inspirado (assim como outros momentos desde LP) em coisas do Sargeant Peppers dos Beatles. 

O lado B abre com "Bat Macumba" e segue com Rita cantando, à la Françoise Hardy, o clássico francês "Le Premier Bonheur du Jour". "Trem Fantasma", Mutantes em parceria com Caetano, destaca uma bela combinação de vozes com metais. "Tempo no Tempo", versão de uma música dos Mamas & the Pappas, tem um solo de carrilhão no final, e "Ave Gencis Khan" (sic) encerra o disco num pique de George Harrison, com fortes toques orientais. 

É isso aí. De resto, só mesmo ouvindo. Os climas mudam, de faixa para faixa, da água para o vinho. Sem nenhum preconceito, os Mutantes fizeram uma viagem psicodélica pela música universal, bastante influenciados pelos Beatles e auxiliados pelas partituras mágicas de Rogério Duprat. É um disco de MPB, tratado com o espírito efervescente da época, o espírito de libertação das formas e padrões. Por isso é um disco que os roqueiros brasileiros devem conhecer.

Violeta de Outono - Espectro [2012]

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O Violeta De Outono nessa altura do campeonato não precisa de apresentações, surgida na década de 80 no circuito underground paulistano, o grupo lançou no dia 28 de Maio o seu 6º disco de estúdio, Espectro (2012).

Espectro (2012) sai exatamente de onde o último disco de estúdio do grupo, Volume 7 (2007), parou. Músicas que exploram atmosferas psicodélicas, viagens instrumentais e o som Progressivo que remete as bandas do Canterbury dos anos 70.

O Violeta De Outono tem em sua formação uma novidade, além do trio que já está na banda a muitos anos: Fabio Golfetti (voz e guitarra), Gabriel Costa (baixo) e Fernando Cardoso (órgão Hammond e piano), o grupo agora tem um novo baterista, José Luiz Dinóla que entrou no lugar do baterista original da banda Claudio Souza.

Espectro (2012) foi gravado de maneira analógica (em fita, não diretamente em computadores) como se fazia antes da era digital entre Abril e Março de 2012 no estúdio paulista MOSH. A mixagem ficaram a cargo de Alex Angeloni e a masterização por Walter Lima e se deram nos meses de Abril e Maio. O disco foi produzido pelo próprio Fabio Golfetti.

Lobão - Acústico MTV [2007]


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Por Ricardo Seelig em Whiplash

Afastado da grande indústria musical há vários anos, o velho lobo tirou o comando da sua carreira das mãos das grandes gravadoras e passou ele mesmo a lançar seus trabalhos de forma independente. A revista Outra Coisa, seu cartão de visita, além de colocar nas bancas de todo o país seus novos CDs, foi também a responsável pelo lançamento de ótimos novos artistas, sendo o mais destacado deles o excelente Cachorro Grande (que por sinal participa do CD, na faixa “A Gente Vai Se Amar”).

Esse “Acústico MTV” marca o retorno de Lobão ao sistema, ao estabilishment que ele tanto combateu, e continua combatendo, ao longo dos anos. Lançado pela Sony Music, apresenta uma super produção, com belíssimos cenários e uma senhora banda de apoio. Mas o que realmente salta aos olhos no projeto é a qualidade das composições de Lobão, imunes ao tempo.

Esse aspecto fica ainda mais evidente pela inteligente construção dos arranjos para as versões acústicas. Nada soa óbvio no trabalho. “Decadence Avec Elegance” surge com uma introdução irreconhecível, que evolui para uma levada que é pop puro. “Essa Noite, Não” virou um baião nordestino. O mesmo vale para “Canos Silenciosos”, “Rádio Blá” e “Corações Psicodélicos”, com versões superiores às originais.

Mas o maior destaque do disco vai para o quarteto formado por “Por Tudo Que For”, “Noite e Dia”, “Me Chama” e “Você e a Noite Escura”. Nestas quatro canções fica evidente a qualidade do material composto por Lobão ao longo de sua carreira. Quatro lindas baladas, que emocionam sem cair na pieguice em nenhum momento. Até mesmo a mais que batida “Me Chama”, presença certa em qualquer roda de amigos com um violão, ganha ares novos e desce redonda.

Uma coisa que devo dizer: eu não acompanhei a carreira de Lobão quando ele começou a lançar seus discos de forma independente. Talvez por isso, eu tenha ficado tão impressionado com “Você e a Noite Escura”. Dona de uma letra belíssima, é, com certeza, a melhor canção deste “Acústico MTV”.

Lobão conseguiu fazer um belo disco neste seu projeto acústico. Suas versões soam renovadas e refrescantes, inserindo novos elementos e construindo novas sonoridades em músicas que fazem parte do imaginário pop brasileiro. Eu torço para que, com a exposição que esse disco deve proporcionar a Lobão, sua carreira ganhe um sopro e que a sua obra seja descoberta por novos fãs.

O cenário pop nacional fica melhor quando um artista inquieto e contestador como Lobão está em evidência na grande mídia. Que essa fase dure.


1. El Desdichado II
2. Essa Noite, Não
3. Decadence Avec Elegance
4. Bambina
5. Vou Te Levar
6. Quente
7. Por Tudo Que For
8. Noite e Dia
9. Me Chama
10. Você e a Noite Escura
11. A Queda
12. A Vida É Doce
13. Pra Onde Você Vai
14. O Mistério
15. Canos Silenciosos
16. Rádio Blá
17. Corações Psicodélicos
18. A Gente Vai Se Amar

Zé Ramalho - A Peleja do Diabo com o Dono do Céu [1980]

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Faixas

1. A Peleja do Diabo Com o Dono do Céu
2. Admirável Gado Novo
3. Falas do Povo
4. Beira-Mar
5. Garoto de Aluguel(Taxi Boy)
6. Pelo Vinho e Pelo Pão
7. Mote das Amplidões
8. Jardim das Acácias
9. Agônico
10. Frevo Mulher
*Bônus da reedição de 2003

11. Admirável Gado Novo (Instrumental)
12. Mr. Tambourine Man
13. Hino Amizade
14. O Desafio do Século


Por  Som do disco
Zé Ramalho é um artista que vale mais do que o grande público percebe. Já disseram que vinha de Zé "as guitarras do sertão". Alguém universal que canta sua aldeia, com voz e cara do nordeste, sem perder a antena com o mundo e a humanidade. Um disco seu que considero particularmente especial é "A Peleja do Diabo Com o Dono do Céu". A sua viagem começa com sua capa, que tem Zé do Caixão e a atriz Xuxa Lopes, como num cordel, em que Zé encarna o Dono do Céu e o diabo é Zé do Caixão.

O disco contém a conhecida "Admirável Gado Novo", que mistura elementos bem nordestinos, como triângulo e zabumba, com um arranjo de cordas e uma letra inteligente que faz uma crítica engajada em épocas de ditadura militar. 

Tem marcas bem nordestinas, como "Falas do Povo" e "Garoto de Aluguel (Taxi Boy)", que consta ter traços autobiográficos de quando o autor chegou no Rio de Janeiro. Tem também Frevo Mulher, um de seus maiores sucessos, dizendo "É quando o vento sacode a cabeleira / A trança toda vermelha /Um olho cego vageia procurando por um..."

Tem a guitarra de Pepeu Gomes em "Jardim das Acácias"

A música que eu mais gosto, no entanto, é outro grande sucesso, "Beira-Mar", que fala da vida e da morte, da noite e do dia que começam e terminam na beira do mar...

Numa entrevista, Zé ramalho comentou sobre a obra: 

Foi o meu segundo disco. Veio implacável, com letras furiosas e políticas, ditas num tom profético e nordestino, passando para a época uma fornada de músicas, que marcaram a minha carreira para sempre. Aqui neste disco estão: "Admirável Gado Novo" (que virou hino popular), "Garoto de Aluguel" e "Beira-Mar", além de "Jardim das Acácias" e "Frevo - Mulher". Tem um sabor de luta e vitória, amor e revolta, que o poeta sentia na época em que fez estas canções. Tempo de ditadura militar e perseguição aos artistas. Na capa, aparece ao meu lado, o genial José Mojica Marins (Zé do Caixão), que representou a figura do diabo nesta imagem de cordel e surrealismo que criamos para ilustrá-la.

sexta-feira, 5 de outubro de 2012

Pata de Elefante [2004]




Por Dado Magalhães

A banda Pata de Elefante surgiu em janeiro de 2002, formada por Gabriel Guedes, Daniel Mossmann e Gustavo Telles. O trio se diferencia por fazer rock instrumental com ênfase nas melodias. São canções instrumentais que atingem em cheio ao público acostumado a ouvir música com vocal. Gabriel Guedes e Daniel Mossman revezam entre guitarra e baixo, imprimindo a dupla sonoridade característica do grupo, sustentada pela bateria de Gustavo Telles. Os três são compositores, o que faz com que a Pata de Elefante soe heterogênea, mas com unidade. Em estúdio a banda procura dar às músicas o que cada uma necessita, priorizando timbres arranjos e execução. Ao vivo, "o bicho pega", são performances viscerais! Ao dispensar palavras e optar por canções instrumentais "a Pata segue destruindo e recosntruindo o caminho da música instrumental brasileira de forma marcante e sem volta”, sentencia a jornalista Adreana Oliveira, editora on- line do Correio de Uberlândia e que acompanha de perto o cenário independente brasileiro.

Luiz Bonfá - Jacarandá [1973]

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Virtuoso violonista de trajetória musical impecável, Luiz Bonfá (1922-2001), autor de canções memoráveis como "Manhã de Carnaval", Samba de Orpheus", "Berimbau", entre outras, teve marcante presença na fase Samba-Jazz e Bossa Nova na década de 70. À partir do início da década de 70 dedica-se ao Jazz. Em 1973, grava esse magnífico álbum "Jacarandá", na linha Jazz-Funk, convidando um elenco seleto de músicos jazzistas, entre eles, algumas estrelas da grife CTI, como por exemplo John Tropea, Romeu Penque, Stanley Clarke entre outros. E naturalmente, na orquestração e regência como não poderia deixar de ser, o grande mestre Eumir Deodato! Peça rara de colecionadores durante anos, o álbum foi editado em cd em 2000 pela Orchard Records se esgotando em pouco tempo. RARE MASTERPIECE GROOVE ALBUM VERY HIGHLY RECOMMENDED!!!!!!!!!!

Faixas:
1. Apache Talk
2. Empty Room
3. The Gentle Rain
4. Dance Nº 5
5. Song Thoughts
6. You Or Not To Be
7. Don Quijote
8. Strange Message
9. Jacarandá
10. Sun Flower

Créditos:
Luiz Bonfá - 6 & 12 Strings Acoustic Guitars
Eumir Deodato - Electric Piano, Synths, Arrranger, Conductor
John Wood - Electric Piano
Stanley Clarke - Electric Bass
Mark Drury - Acoustic Bass
Idris Muhammad - Drums
Airto Moreira - Percussions
Ray Barreto- Congas
John Tropea - Electric Guitars
Randy Brecker - Trumpet & Flugelhorn
Romeu Penque- Flues & Baritone Sax
Sonny Boyer - Tenor Sax
Wayne Andre - Trombone

segunda-feira, 1 de outubro de 2012

Raul Seixas - Gita [1974]

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Por Thiago Kerzer em Tenho Mais Disco Que Amigos

Raul Seixas leu o livro Hinduísta Bhagavad-Gita três vezes em sua vida. O livro, no entanto, só foi absorvido em seu próprio canto na terceira vez, quando Raul já se interessava pela filosofia e quando resolveu se inspirar para escrever a música que daria nome ao seu talvez mais bem sucedido álbum.

A parceria com o então “jornalista” Paulo Coelho, trazia um conhecimento infinitamente mais profundo para suas canções. Em comparação com as músicas compostas por outros artistas contemporâneas a Raul, “Gita“, entre outros trabalhos, possuía diversos níveis de entendimento, indo contra as letras rasas e monotemáticas da moda.

O álbum, lançado em 1974, trouxe a Raul e a Paulo a mudança drástica de suas vidas. Mudança de país, de realidade. Eles atingiram o sucesso musical absoluto com o disco de ouro. Mas estavam nos Estados Unidos, em exílio, principalmente por causa da música “Sociedade Alternativa” que evocava “A Lei“, criada pelo mago Aleister Crowley em 1904.

“Faz o que tu queres, há de ser tudo da lei
Todo homem e toda mulher é uma estrela
O número 666 chama-se Aleister Crowlei (…)”

A música trazia o número da Besta, presente no livro do Apocalipse, na Bíblia, evocando-o como o número do homem. Uma utilização da simbologia cristã de forma radical, feita para chocar e já usada pelo próprio mago Crowley. A música, acima de tudo, dava viva a uma nova sociedade. Algo extremamente perigoso em meio a uma ditadura militar.

Durante o exílio foi que Raul Seixas teria supostamente conversado com John Lennon, qua havia se interessado pelo projeto da Cidade das Estrelas. A verdade sobre esse contato só veio a tona com o lançamento da Biografia “O Mago” de Paulo Coelho, que deixava claro que tal conversa entre os dois ídolos do Rock nunca havia acontecido.

O álbum ainda trouxe a música “Trem das 7” em um dos primeiros momentos em que Raul usaria a analogia do trem para ilustra a vida. Analogia trazida novamente à tona por Paulo Coelho em seu mais recente livro, “O Aleph“. O contexto filosófico dessa analogia foi posteriormente e profundamente analisado no livro “Metamorfose Ambulante” de Mário Lucena e colaboradores.

Um dos grandes méritos de Raul estava no fato de conseguir abordar questões tão densas de forma leve, por vezes quase infantil. A genialidade do artista se mostrava afinada ainda em momentos como na irônica “Super Heróis“, rasgando a realidade do momento em duras críticas disfarçadas em um rock simples, de levada quase boba.

“Medo da Chuva“, uma das letras mais belas já escritas, falando declaradamente de uma espécie de liberdade que ultrapassa a que nos damos o direito de vivenciar, é mais um dos hinos impressos na carreira de Raul. Com linhas de harpa e orquestra, desfecho com coral e a participação de muitos músicos, mostra que os arranjos foram lapidados ao extremo.

E finalmente o hino “Gita“. Baseada no fragmento de texto do Bhagavad-Gita ondeArjuna interroga Krishna sobre seu significado, onde este responde:

“Entre as estrelas sou a lua… entre os animais selvagens sou o leão… dos peixes eu sou o tubarão…. de todas as criações eu sou o início e também o fim e também o meio… das letras eu sou a letra A… eu sou a morte que tudo devora e o gerador de todas as coisas ainda por existir… sou o jogo de azar dos enganadores…”

“Gita“, ao meu ver, mudou um pouco a face musical do país. Uma música com tamanha qualidade filosófica e poética, mantendo o contexto pop e sendo ouvida por multidões só pode confirmar para mim o tamanho da inteligência de Raul. Não há outro artista no Brasil que tenha sequer chegado perto dessa conquista.

62 músicos foram usados para gravar os arranjos dessa música. Raul queria algo épico. Ele sabia que seria uma marca deixada na face da história da música. O fechamento desse maravilhoso álbum não podia de forma mais sublime.