quarta-feira, 29 de janeiro de 2014

Ex-integrante do Ave Sangria luta para recuperar a vida e a carreiraTítulo da postagem

Após raras aparições, Ivinho apresentação instrumental neste sábado, em Olinda
A apresentação instrumental será ao lado da banda Anjo Gabriel - Foto: Alcione Ferreira/DP/D.A Press

Por André Duarte
publicado em 25 de janeiro 2014 no Diário de Pernambuco

O primeiro brasileiro a subir no palco do Festival de Montreux, na Suíça, em 1978, não foi Gilberto Gil, como erroneamente acabou sendo creditado na história de um dos mais importantes templos do jazz e da world music. Horas antes da apresentação do cantor baiano, um guitarrista pernambucano de semblante invocado entrou sozinho, empunhando um violão de 12 cordas com um furo na madeira - apelidado depois de furiola, já que o rombo fora provocado por ele em um acesso de fúria.

Aos 61 anos, Ivson Wanderley Pessoa, o Ivinho, mora sozinho no térreo de um cortiço alugado no bairro da Boa Vista, onde, 35 anos depois de surpreender o público suíço com improvisos de frevo e baião numa pegada setentista, tenta retomar a carreira e a vida dentro um universo particular, chacoalhado por problemas pessoais.

Ex-guitarrista da não menos lendária banda Ave Sangria, virou personagem mítico da música psicodélica brasileira, não apenas pela habilidade na guitarra, mas pelo sumiço incompatível com alguém comparado a músicos do quilate de Robertinho do Recife e Lanny Gordin. Após raras aparições, Ivinho faz apresentação instrumental neste sábado, em Olinda, dividindo o palco com a Anjo Gabriel, banda da nova safra de artistas influenciados pela geração udigrudi pernambucana. “Ele é um herói da guitarra. Tem a assinatura só dele no jeito de tocar. O disco de Montreux é a prova disso”, diz Marco da Lata, baixista da Anjo Gabriel, falando do único registro solo em disco de Ivinho.

O músico vive da aposentadoria de um salário mínimo e, quando o bolso esvazia, pirateia os discos de que participou, vendendo as cópias para amigos e fãs. Almir de Oliveira, baixista da formação original do Ave Sangria e amigo de infância de Ivinho, se emociona ao lembrar do guitarrista: “Ivinho é único. Ele não perdeu o feeling, aquele estilo próprio, mesmo depois de todo esse tempo, de tudo isso. Um músico com a capacidade dele tem que trabalhar”.

Vestido de amarelo, como a personagem na letra Hei Man, do único disco do Ave Sangria, Ivinho recebeu o Viver para um entrevista em casa, onde, entre respostas sinuosas e raciocínio solto, demonstrou mais entusiasmo ao encerrar a conversa para tocar sua guitarra Memphis: “Música tem que ter três coisas: técnica, expressão e sentimento”.

Entrevista - Ivinho

Você continua tocando ou revisitou o repertório apenas para este show?

Às vezes, quando estou sozinho escutando alguma coisa, pego a guitarra, ligo no amplificador e saio acompanhado as imagens (da TV). Por exemplo, recentemente vi o DVD de João Bosco, a banda quebrando tudo, eu fui lá, botei o som da minha guitarra em cima e fiquei me divertindo. Ou deixo tudo no silêncio pra qualquer coisa que começar a surgir. Eu estou colocando (no show) o que eu já tinha feito. Porque nunca ninguém deu valor ao que fiz. Eu dei valor a quem ficou comigo. Eu me coloquei do lado de Geraldo Azevedo, Alceu Valença, Zé Ramalho, Vital Farias, de Xangai, de Tito Lívio, de Ednardo. Foi sempre ao lado, mas eu nunca disse ‘eu fiz’, ‘eu vou mostrar’, ‘é assim’. Quando, na fase de mesa de bar, de caipirinha, de cervejinha, que a boca ficava solta no ar, as palavras saíam. Hoje em dia as palavras perderam o valor. Eu tou fazendo assim agora: passo a harmonia para os músicos da banda, aí eu coloco a melodia com harmonia entrosando.

Mantém contato com os cantores que você acompanhou ao longo desse tempo?
É como dizia Erickson Luna (poeta, falecido em 2007): ‘Se você não vem ao meu, eu não vou ao seu’. Entendeu? É Alceu mesmo (falando de Alceu Valença). Nenhum deles fala mais comigo. Fica lá na ficha técnica dos discos. Guardo tudo de bom e de ruim daquele tempo, desde a mordomia na Suíça, sentado em cadeiras de veludo, até o Departamento de Tóxicos, Roubos e Furtos, clínicas, internamentos. Existe o lado bom da vida, que é a mordomia, e o lado ruim, que são as regras de estado: o filho fica com a mãe, a mãe morre e fica o filho, aí aparecem os irmãos, a divisão de imóveis, aí eu, puf, casei. Os bons momentos foram a Suíça, o Festival de Montreux, a burguesia, o avião, o hotel de luxo. O outro lado da realidade é uma paradinha chamada averiguação – espero que não exista mais essa palavra.

E sobre as drogas e os problemas que enfrentou... Chegou a ser diagnosticado?
De início, na cidade era muita cachaça, lá em Maria Farinha (onde viveu um tempo) estava cheirando muito pó, era muita doideira, muito isso, aquilo. Estava me tremendo todo. Ia ficar jogado na rua. Ninguém abria a porta pra mim. Agora, eu prefiro ter minha vida controlada. Quando vejo que estou com um problema, aperreado, eu falo com o menino do bar, levo três garrafas (de cerveja), faço um tiragosto, meto o volume lá em cima, tomo uma aqui e passo o dia sozinho com três garrafas de um litro, cada. Mas não faço isso todos os dias. Fiz isso ontem. Não quero fazer até o dia do show. Quero saber do repertório, dos ensaios. Fui para a fila da previdência social na época de Fernando Henrique Cardoso. Vi que a situação tava preta, entrei na fila, peguei esse papel. Um senhor que me ajudava uma vez me chamou para ajudar a preencher essa papelada. Eu queria saber onde me enquadrava. Afinal, tenho duas pernas, que funcionam. Ele resolveu colocar deficiente mental. Eu disse “legal, é isso mesmo”.

Como começou essa fixação com a guitarra? Você é autodidata?
Eu não sou um grande guitarrista. Comecei tocando um violão de 13 cruzeiros. Tinha a banda Os Selvagens, de Casa Amarela. A gente tinha que tocar covers dos Stones, Beatles, do Creedence Clearwater. Aprendi a tocar escutando, tirando a base do ouvido, e Almir (de Oliveira, ex-integrante da banda) ajudava na pronúncia do inglês. Eu era da Vila dos Comerciários, e era lá que a gente ensaiava. Era banda para tocar em bailes. O Tamarineira Village (que deu origem ao Ave Sangria) veio depois. Marco Polo entrou para a banda, era um cara articulado, inteligente, e ficou com aquela história de ser líder da banda, mas existia uma competição entre ele e Almir, que era um cara mais na dele. Foi quando eu disse: ‘Eu não sou traidor. Dou apoio a vocês dois’. Aí Alceu Valença começou a querer Israel Semente (baterista da banda, já falecido)…

Mas isso de Alceu foi depois do fim do Ave Sangria, não?
Não. O Ave terminou porque Alceu levou quem ele queria para a banda dele. Levou Paulo Rafael, levou Israel Semente, levou Zé da Flauta, levou Zé Ramalho, levou Lula Côrtes, levou Agrício Noya e me levou. Sobrou quem da banda? Marco Polo e Almir. Porque eram os protagonistas. Não interessavam. Eu não fiquei bajulando Alceu. Botei logo uma camisa com a inscrição ‘Abaixo o Folclore’ porque eu queria crescer o Ave Sangria, e Alceu queria crescer sozinho. E cresceu. Mas derrubou os dois (Marco Polo e Almir). Almir é engenheiro da Prefeitura de Olinda e Marco Polo desistiu da música, virou jornalista e foi arrumar emprego em jornal.

Serviço: Shows de Ivinho e Anjo Gabriel
Hoje, 22 h
Solar da Marquesa, Largo do Varadouro, Olinda
R$ 20 (bilheteria) e R$ 15 (lista amiga)

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