sexta-feira, 25 de outubro de 2013

Bandas independentes revigoram a cena do rock instrumental brasileiro


Internet é aliada importante para gravar e divulgar discos, enquanto festivais formam público para o gênero
Por Tristão Girão no Divirta-se
Vendo 147
Uma banda afirma que suas influências vão de Robert Johnson a Luiz Caldas, passando por Slayer; a outra cita pintura, design e literatura como fontes de inspiração. Há quem não tenha o menor receio em rotular seu trabalho como instrumental pop e há quem aposte no clone drum (dois bateristas tocando na mesma bateria). Um acha que DVD é o melhor suporte para lançamentos, enquanto o outro acaba de lançar CD por selo sul-coreano. Uns tocam pouco e outros vivem da estrada.

A nova cena do rock instrumental brasileiro está exuberante, com talentos surpreendentes de norte a sul do país – literalmente. Talvez, isso se deva a fato de não ser ditada por regras ou compromissos comerciais.

De Natal, vem a Camarones Orquestra Guitarrística. O objetivo do quinteto é tocar música divertida para dançar. “Nossas principais referências são temas de desenhos animados antigos, filmes, paisagens sonoras ou acontecimentos do cotidiano. Não temos o menor problema em ser pop instrumental. Talvez isso tenha criado uma aura de simpatia e alguma conexão com as pessoas ‘além-cena independente’”, define o tecladista Anderson Foca. O trabalho mais recente é 'O curioso caso da música invisível', que chegou à praça este ano.

Com três discos lançados (virtualmente e em CD), a banda comemora seus mais de 300 shows desde 2008, somadas três turnês em todas as regiões brasileiras, além da Argentina e do Uruguai. “O momento é ótimo. Vivemos uma pequena crise no país, a estagnação da economia influencia todas as áreas, mas as marolas estão aí para a gente surfar. Cabe a cada um achar a prancha ideal”, garante ele.

A potiguar Camarones Orquestra Guitarrística faz música para dançar
Comportamento
Para André Ramiro, guitarrista da banda curitibana Ruído/MM, o momento é o de de sempre: “Grupos com música difícil têm seus fiéis seguidores. Instrumentais fáceis ganham alguns fãs a mais”. Fora isso, todos os integrantes têm empregos fora do palco (André mora no Rio de Janeiro), o que torna a agenda de shows complicada. “Às vezes, tentamos emendar tours, mas nunca dá certo. Fins de semana são sempre bem-vindos, mas quando o show é interessante, damos um jeito para tudo”, diz ele.

Isso não o desanima. André vibra ao se lembrar de shows no Recife e em Maceió, onde conheceu fãs, e de apresentação durante o carnaval belo-horizontino, quando os paranaenses venderam muitos discos. Aliás, já são quatro os álbuns lançados pelo grupo (o último é 'Introdução à cortina do sótão', de 2011), influenciados por gama de referências que vai de Debussy a Stephen Malkmus e poderia se encaixar na definição um tanto vaga de post-rock.


De toda forma, acredita André, há que se reconhecerem mudanças na cena do rock: “Hoje, temos meios mais eficientes para liberar o esporro musical instrumental. Banda nem lança mais CD, é preciso ter DVD e cada faixa ser trilha sonora para um filme bacana. A música instrumental ‘não masturbável’ serve para isto: dar vida ao imaginário das pessoas”.

Por falar em público, Dimmy “O Demolidor”, um dos dois bateristas da banda baiana Vendo 147, que lançou o álbum 'Godofredo' recentemente, alegra-se em constatar que o estilo rompe barreiras: “Temos grupos que conseguem tocar para plateias imensas, que atingiram espaço que não se imaginava. Um fator que contribuiu para isso foi a mudança do comportamento do próprio público, mais aberto a novas experiências sonoras”.

Robert Johnson, Luiz Caldas, Slayer e Led Zeppelin estão na lista de influências da banda, caracterizada também por contar com dois instrumentistas tocando a mesma bateria. Eles compartilham o bumbo, sentados um de frente para o outro. O quinteto lançou um EP e um álbum nos formatos físico e virtual, e faz pelo menos 50 shows por ano em todas as regiões do país. O público é formado por “pessoas de 3 a 80 anos”, conta Dimmy.

Sem obrigações 

Paranaenses da Ruído/MMse dividem
entre a carreira e outros empregos
Considerado inviável e complicado por alguns, o rock instrumental parece estar mesmo transcendendo essas concepções. “Nunca nos prendemos a conceitos, premissas ou obrigações. A nossa única obrigação é com a gente, fazer algo de que realmente gostamos. Nunca nos preocupamos se algo é certo, errado ou inviável”, observa Thivá Fróes de Souza, guitarrista do The Tape Disaster, de Porto Alegre (RS).

Apreciadores das bandas dos anos 1960 e 1970, do rock alternativo e também de pintura, design e literatura, os gaúchos começaram a divulgar seu trabalho só pela internet. Para o lançamento conjunto dos dois EPs, receberam oferta do selo sul-coreano Onion Records, o que resultou no CD físico 'The Tape Disaster compilation'.

“Pessoas do círculo underground nos apoiam muito, assim como gente de diferentes círculos. Há música que parece ser acessível para todos. Ou assim esperamos. Sempre vai ser o momento certo de mostrar algo verdadeiro, significativo e positivo”, conclui Thivá.

Palavra de especialista

Edu Pampani -
colecionador de discos

Há demanda


A partir dos anos 2000, aumentou consideravelmente o número de bandas fazendo rock instrumental no Brasil. Compro discos há 36 anos, já tive loja durante 18 anos, sou representante de CDs independentes há 11 e nunca vi a cena do rock instrumental brasileiro tão fortalecida. Cada banda com seu estilo próprio. Elas surgem de todos os estados e vêm conseguindo visibilidade por conta dos festivais. São nomes como Pata de Elefante (RS), Burro Morto (PB), Banda de Joseph Tourton (PE), Macaco Bong (MT), Chimpanzé Clube Trio (SP), Hurtmold (SP), Caldo de Piaba (AC) e Aeromoças e Tenistas Russas (SP), todas com público formado e informado. Se elas aparecem, é porque há demanda. BH não fica atrás: temos 4Instrumental, Iconili, Di Bigode, Constantina e Lise. Desculpe se esqueci alguém. O grupo que deu uma boa alavancada no rock instrumental foi o Macaco Bong, expoente do Circuito Fora do Eixo, que transitou por todos os festivais do país durante alguns anos.



Rock de Sabará para o planeta

Com músicas como 'A fuga das mulheres ruivas para Vênus' e 'A lage, o sofá e o asfalto' no repertório, a banda 4 Instrumental, de Sabará, na Grande BH, não tem público-alvo. Quem afirma é o tecladista, pianista e flautista Tiago Salgado. “Recentemente, fizemos um show em São José dos Campos (SP). Tinha de criança de colo a senhores de mais de 60 anos. Foi uma satisfação muito grande para nós”, afirma.

Ouvintes de música erudita e de heavy metal, os quatro integrantes se sentem livres para criar. Em 2009, eles lançaram o primeiro EP; em 2011, partiram para o disco de estreia, 4.1, gravado em Buenos Aires, na Argentina, e mixado em BH. “Nosso maior interesse é divulgar o trabalho. A internet nos permite fazer isso no mundo todo sem sair de casa”, justifica o músico.

O maior desafio do rock instrumental não é ter público, mas palco e condições para tocar. “As pessoas estão mais abertas às novas bandas. Isso é bom, mas pouquíssimas casas de shows são abertas ao autoral independente. Por outro lado, temos os festivais, que nos permitem chegar ao grande público”, diz Tiago.

O grupo tem feito cerca de 12 shows por ano. Tiago considera essa média baixa e diz que os custos (passagens aéreas, hospedagem, alimentação e traslado) dificultam a contratação de artistas. “Uma banda independente consegue, sim, fazer muito mais shows, mas nem sempre as condições para isso são honestas. Ainda é muito caro circular por outros estados. Uma viagem para o Nordeste para quatro pessoas custa cerca de R$ 5 mil, só de passagem”, conclui. 

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