quarta-feira, 31 de outubro de 2012

Saulo Battesini - Scored Fractals [2010]

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Por Renato Glaessel
Publicado originalmente em 16 de junho de 2010 no Prog Brasil

E eis que em meio à mingua de lançamentos progressivos de bandas brasileiras, somos pegos de surpresa por Saulo Battesini e seu disco solo Scored Fractals. Que bela surpresa! 

Saulo Battesini capitaneou desde as composições, às quais ele dedica cada um dos diferentes momentos por ele vividos, bem como toda a gravação e produção do trabalho, sendo portanto um trabalho solo no mais literal sentido da palavra, evidentemente amparado pelos músicos supracitados. 

As duas primeiras faixas (Journey to Orien Planet e Lapse of Confusion) seguem uma linha mais fusion, com bons momentos de Saulo na guitarra, mas particularmente não apostaria muito nesse estilo, terreno já tão demarcado pelos virtuoses americanos e ingleses e sim na linha que o trabalho segue a partir da terceira faixa (Flying Dutchman) com seu início inspirado no barroco e passagens mais focadas na melodia e climas mais introspectivos, sem tanta aceleração rítmica, em uma linha mais sinfônico progressiva com muita variação de paisagens e retomadas com sons de cravo e flauta que ajudam a dar o clima. 

A faixa 4 (Tema 3) é mais acústica e aponta para algo mais reflexivo até mesmo depois da entrada da bateria, ambiente que mais ou menos tem prosseguimento na faixa seguinte ( Theme C) e seu belo dedilhado virtuoso ao violão intercalado com o piano e a bonita melodia executada pelo teclado. 

O disco segue com One Bit Over e sua levada um pouco mais groove com foco inicialmente nos solos de teclado e passando gradualmente à guitarra em um estilo que faz lembrar o Tribal Tech pelos timbres utilizados. 

A Little Moment to Rejoice encerra o álbum retomando um enfoque mais melodioso com as flautas e o piano embalados pela fluida melodia do teclado e violão. 

Resumindo, um lindo trabalho, produção caprichada e boa qualidade de gravação, grande estréia.

Macaco Bong - Artista Igual Pedreiro [2008]



Por Cleber Facchi
Publicado originalmente em 30 de março de 2011 no Miojo Indie

Se houvesse um disco capaz de definir todo o panorama da música instrumental brasileira na segunda metade dos anos 2000 esse sem dúvidas seria Artista Igual Pedreiro (2008). O trabalho de estreia do trio mato-grossense Macaco Bong soa como a obra máxima de um grupo de artistas veteranos, embora como dito, não passa do primeiro disco de estúdio de três rapazes, todos na casa dos 20 anos, mas com a experiência de mestres e a habilidade de empunhar seus instrumentos como gigantes.

Quando lançado, o debut parecia como uma grande constatação do óbvio. Boa parte das faixas já eram conhecidas do público, que tinham nos festivais pelo Brasil afora a possibilidade de serem presenteados com a sonoridade explosiva de Bruno Kayapy, Ynaiã Benthroldo e Ney Hugo. Entretanto, o “óbvio” não estava escondido no já conhecimento de algumas faixas, mas no fato de que ao estrear o grupo sem dúvidas proporcionaria um disco forte o suficiente para balançar qualquer estrutura. E é justamente isso que os três garotos fazem ao longo de 67 minutos.

Na ativa desde 2004 (quando ainda eram um quarteto) os mato-grossenses fazem com que quaisquer constatações que os aproximem de grupos como Mogwai, Slint ou demais pioneiros do post-rock sejam simplesmente incoerentes, afinal, tudo soa único, deles e sempre temperado com uma sonoridade puramente brasileira (mesmo sem se desmanchar em um arrasta-pé). Nos sete minutos de Amendoim, por exemplo, o trio mostra de fato a que veio, alterando o ritmo da faixa mais de três vezes, mandando uma pancada generalizada de som, fazendo com que o público dance de forma adestrada.
Mesmo sem entoar um único vocal (com “exceção” de Vamos dar Mais Uma), os títulos criativos das composições e o ritmo empolgado proposto pela banda fazem com que a qualquer momento você se pegue criando letras imaginárias, murmúrios que tentam acompanhar o ritmo, quase como uma tentativa de parecer um quarto membro do Macaco Bong. Embora não existam palavras falta ar para acompanhar o disco, tudo é muito direto, rápido e certeiro.

Há espaço para tudo dentro das extensas canções do álbum, menos para enchimento de linguiça. Muitos discos de musica instrumental acabam por vezes embrenhando em um terreno penoso e arrastado, como se fosse necessário que uma faixa tenha mais de oito minutos, mesmo que não haja entusiasmo para movimentá-la. Em Artista Igual Pedreiro isso não existe em nenhum momento. Tudo é exposto de maneira firme, objetiva e necessária, cada solo, acorde ou virada de bateria de Bananas For You All está ali, pois se faz necessário.

Eleito o melhor disco de 2008 pela revista Rolling Stone Brasil, a premiação é mais uma mera constatação de beleza desse trabalho. O registro acabou lançado de forma gratuita através do Álbum Virtual no site Trama Virtual, não encontrando barreiras para seu acesso e consequentemente ampliando o número de seguidores dessa obra, que pode ser encarada não como um costumeiro disco de música, mas praticamente uma celebração do rock instrumental.

domingo, 28 de outubro de 2012

Módulo 1000 - Não Fale Com Paredes [1972]


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Por Fernando Rosa
originalmente publicado na revista ShowBizz via  Brazilian Nuggets

O jornal Rolling Stone, em sua edição nacional, de número 4 (21 de janeiro de 1972) trazia na segunda capa (interna) anúncio de página inteira com o disco. Está lá escrito: "Nosso som é o som do mundo para ser sacado e curtido" - Módulo 1000, com a foto do quarteto e a capa do disco, trazendo apenas o nome da banda e da obra - "Não Fale Com Paredes". Uma estréia que prometia, mas que enfrentou resistências, mesmo dos setores mais roqueiros da mídia, inclusive do próprio RS.

A razão da reação adversa de alguns é, ao mesmo tempo, o grande trunfo do álbum: o som progressivo, altamente técnico, que, ao contrário das críticas, não deixava de manter o pé no rock e da psicodelia. Integravam o grupo carioca, os músicos Luiz Paulo (órgão, piano e vocal), Eduardo (baixo), Daniel (guitarra) e Candinho (bateria). A produção, devidamente capitalizada no anúncio do jornal, é do disc-jockey Ademir, um dos mais destacados da época, depois de Big Boy.

De fato, em suas nove músicas, "Não Fale Com Paredes" é um exercício de criatividade instrumental que, hoje, pode-se nivelar aos melhores discos do gênero produzidos no exterior. "Turpe Est Sine Crine Caput", cantada em latim, com um impressionante trabalho de guitarra, abre o disco mostrando o que vem pela frente. "Não Fale Com Paredes", com letra de Vitor Martins ("Uma pessoa/É uma figura/É uma imagem/Numa moldura/Minha imagem quer sair do quadro/Dessa vitrine sem profundidade"), em clima de quase hard-rock à la Grand Funk Railroad, expõe a face mais pesada do grupo. E "Espelho" é uma viagem acústica, com vocais suaves, que lembra um pouco a sonoridade dos Mutantes.

Um aviso na capa do lp reflete a preocupação do grupo com a qualidade de produção: "o tempo de duração de cada face do disco foi limitado a 16 minutos para proporcionar uma excelente reprodução sonora". Objetivo alcançado, pois ainda hoje causa surpresa aos novos ouvintes o resultado final do disco, gravado com as conhecidas condições técnicas nacionais de trinta anos atrás. E por jovens que tinham idade média de 20 anos.

"Não Fale Com Paredes" também é assíduo frequentador dos "want lists" (procurados) de colecionadores internacionais de discos raros de psicodelia e progressivo. Sua capa (em detalhe) está no livro "2000 Record Collector Dream", do austríaco Hans Pokora, e uma de suas músicas - "Lem-Ed-Êcalg (Glacê de Mel, ao contrário) integra a coletânea "Love, Peace & Poetry - Latin American Psychedelic Music", ao lado do também brasileiro Som Imaginário.

Mesmo assim, a sina de "Não Fale Com Paredes" parece ser permanecer no anonimato. Tanto que já é candidato a transformar-se em "disco perdido" também na era digital. Remasterizado, com capa original de papel e encarte com as letras, ganhou versão em cd, sem que ninguém tenha se dado conta. Originalmente gravado pela Top Tape, a reedição caprichada, limitada e provavelmente esgotada é da Zaher Zein/Projeto Luz Eterna.


A1 - Turpe Est Sine Crine Caput
A2 - Não Fale Com Paredes
A3 - Espêlho
A4 - Lem - Ed - Êcalg
B1 - Ôlho Por Ôlho, Dente Por Dente
B2 - Metrô Mental
B3 - Teclados
B4 - Salve-Se Quem Puder
B5 - Animália

Black Zé - Só Para Loucos.. Só Para Raros.. [1975]

Yandex 320kbps


Por Márcia Tunes

Este álbum além de ser uma jóia rarissima do rock nacional é também parte de minha adolescência, frequentava Petropolis nas férias do colégio e fins de semana e os meninos da banda também frequentavam a cidade e alguns até moraram lá, então não só conheci o trabalho da banda, mas fui amiga, fã, frequentava a casa do Inglês e do Thomas, era amiga do Peçanha (que namorava uma louca e grande amiga) e acompanhava os shows, tinha 17 anos. Bons tempos!!! 

Então é com muita emoção que faço o aplic, para os que não conhecem e até mesmo para os que puderam ter a chance de ver ao vivo e a cores ou mesmo ter o lp original, esta banda é muito especial pra mim. Altamente Recomendada!!!

Letra de Só para os loucos, só para os raros:

Colhendo cogumelos na varanda de cristal 
Avenidas paralelas, rua em forma de espiral 
Pisando sempre em flores num pedaço de universo 
Espinhos do destino fazem parte do meu verso 

Só para os loucos, só para os raros 

Confesso impressionado, nunca vi coisa igual 
O banheiro era um refugio, um lugar espiritual 
A estante era um bidê que continha livros raros 
O nautilus no teto, bem em cima do vaso

Formação (anos 70)
• Roberto Planta ( Peçanha) Vocal
• Inglês (Richard Brokaw) Guitarra
• Thomas (Thomas Brokaw) Baixo
• Conde Borromeu (Mauro Sant' anna) Batera
• Marcio (Marcio Aguinaga) Guitarra

Links quebrados

Como já explanado quase todos os links do blog foram deletados, mas isso não nos impedirá que continuarmos com essa bela diversão. Continuaremos as postagens de álbuns e afins.

Quando aos links quebrados, vamos "re-upalos" conforme o tempo disponível mas daremos prioridade aos pedidos de "reupagem", portanto deixem pedidos nos comentários da postagem que contém o objeto de desejo.

Precisamos de colaboradores, portanto que quiser contribuir deixem um cometário aqui no blog no na nossa página do facebook.

Sem mais, agradecemos a paciência.

segunda-feira, 22 de outubro de 2012

Mediafire ferrando com o blog


A caça as bruxas chegou a esse blog. Acabo de verificar que tiraram meus links do mediafire do ar.

Pensarei no que fazer nos próximos dias.

Sem mais palavras pois estou super chateado.

domingo, 21 de outubro de 2012

Mahtrak - Panorama [2009]



Por Claudio Fonzi

Formada em São Paulo em 2001, a banda Mahtrak segue uma mescla de jazz-rock e rock progressivo recheado de referências aos anos 70, fortemente influenciados por bandas seminais como Soft Machine, Return to Forever, Mahavishnu Orchestra, Jean Luc Ponty e Camel. Seu CD de estréia, intitulado "Panorama", tem recebido excelentes críticas e reviews pelo mundo e graças à sua ótima repercussão, a banda foi convidada a participar da coletânea "The Haiti Project", juntamente com artistas renomados do Progressivo mundial como Roine Stolt, Neal Morse e The Tangent, ajudando as vitimas das tragédias ocorridas naquele país.

Além do excelente repertório autoral presente em "Panorama", a banda prepara seu segundo disco do qual executarão músicas inéditas e trarão também surpresas ao palco, tocando músicas de grandes medalhões do estilo.

Sociedade da Grã-Ordem Kavernista - Sessão das 10 [1971]

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Por  Um Disco

Em 1971 chegou às lojas um disco diferente. Anárquico, cheio de vinhetas e com um senso de humor cáustico e crítico. Esculhambando televisão, classe média e o Brasil da novela. Os sambas que tem aqui são de uma natureza totalmente ímpar. Pelo tamanho que o Raul Seixas tomou poucos anos depois do lançamento deste LP em sua carreira solo e pela falta de resenhas circulando sobre este disco desde sempre, acabou ficando totalmente relegado à sombra. Muita gente fã de Raul não sabe deste disco.

Aqui se misturam samba, soul e rock, forró e jovem guarda. Tramado pelo então produtor de discos da CBS (filial brasileira da Columbia americana) Raul Seixas trazia os convidados Miriam Batucada, Edy Star e especialmente Sérgio Sampaio. Este capixaba que rende um postado só dele ao lado. As músicas são na maioria de Raul e Sérgio além de uma composição assinada por Antônio Carlos e Jocafi.

A primeira faixa abre com a primeira vinheta do disco: gritos de comemoração e música de circo anunciando o que viria: ” Respeitável público: a Sociedade da Grã-Ordem Kavernista pede licença para vos apresentar o maior espetáculo da Terra”. E então começa ”Êta Vida” parceria de Sérgio e Raul em que os dois dividem os vocais. O ouvinte já direto é capturado pelo tipo de poesia da dupla: uma estrofe para cada um e o Rio de Janeiro de fundo.

Na seqüência mais uma vinheta e o samba-canção ”Sessão das 10” na voz e no vibrato de Edy Star que anos mais tarde lançaria um LP glitter bem interessante. ”Fala flautinha matadeira…”

Segue uma das vinhetas mais nonsense do disco. Sobre uma basezinha jovem-guarda a banda toca o tema que poderia ser ”Runaway” ou ”Diana” e as vozes de Sérgio e Raul conversando: ”Ih rapaz hoje eu vi meu ídolo da juventude / Essas coisas já não me assustam mais as laranjas continuam verdes e… / Ih cara peraí não complica eu disse que vi meu ídolo da juventude / É amigo assim os discos voadores nunca irão pousar”.

Vêm ”Botar pra Ferver” o solo de guitarrada e o refrão ”Eu vou botar pra ferver no carnaval que passou”. Sérgio começa já lá em cima ”Quero ver o sol fervendo / no salão entediado / quero ver as menininhas no salão desarrumado / quero ver gente cantando na salão entediado / muita gente se aprumando no salão entediado” a estrofe de Raul praticamente refaz a de Sérgio.

Eis que chega a 4a faixa e adentra a cena o personagem Jorginho Maneiro e sua hilária vinheta. Podes crer. Depois ”Eu Acho Graça” outro excelente momento do grande Sérgio Sampaio. A métrica usado de tô-que-tô e tiq-tiq-teco-tecos é demais! Uma das melhores do disco com certeza.

Vale aqui uma ressalva sobre as vinhetas. Elas – no vinil, claro – não vêm separadas das músicas. É realmente a introdução do tema. Por isso a gente na hora de ripar o disco deixamos elas de novo ligadas.

Miriam batucada canta duas músicas neste disco. Primeiro a faixa 5 ”Chorinho Inconsequente” e depois ”Soul Tabaroa”. Excelente cantora que era, Miriam manda legal e é um dos destaques do disco.

Depois temos ”Quero Ir” com seus triângulos e excelente momento do batera. Depois de ”Soul Tabaroa” vem a vinheta do programa Brasa Viva e um Raul de novo na de ator.

”Aos Trancos e Barrancos” é a música neste disco para mim. Raul começa num tom confessional haha: ”Taí eu sou um cara que subiu na vida/ Morava no morro e agora moro no Leblon”. E aí manda um samba que é das coisas mais finas já feitas no Brasil. é pena que como o resto do disco seja tão pouco conhecido. Graças a bem todo mundo sabe quem. ”Eu não vou levando nosso leite / Troquei por um bilhete da roleta federal/ Eu vou pela pista do aterro / E nem vejo meu enterro que vai passando no jornal / Rio de janeiro você não me dá tempo de pensar com tantas cores sobre este sol / Pra que pensar se eu tenho o que quero / Tenho a nêga o meu bolero / A tv e o futebol”.

Depois pra acabar a balada lisérgica ”Eu não quero dizer nada” e o rock hendrixiano ”Dr. Paxeco”

A turma termina tudo com ”Finale”: uma puxada literal na descarga. A única vinheta que ganha título no LP.

Faltam os créditos dos músicos que arrebentam. Especialmente o guitarra e o batera. Uma pena.

Cólera - Pela Paz Em Todo Mundo [1986]



Por Fred

Na capa amarelona com um mapa mundi estampado, a frase “Pela Paz em Todo Mundo” em seis idiomas. Esqueça o destroy pelo destroy dos Sex Pistols ou o amor adolescente dos Buzzcocks e das bandas emos da nova geração. Quando se fala em Cólera, fala-se naquele punk engajado e utópico no qual três acordes podem mudar o mundo e um disco pode ser uma pequena revolução. “Pela Paz em Todo Mundo” é um dos mais sérios candidatos a melhor disco do punk nacional. Tá, tudo bem, “Mais podres do que nunca” do Garotos Podres é um clássico, mas a qualidade da gravação é péssima, assim como de “Crucificados pelos Sistema” do Ratos. “Pela Paz” foi tão bem sucedido que vendeu cerca de 85 mil cópias, um recorde para um disco independente.

Em 1986, poucas bandas punk eram tão organizadas quanto o Cólera: eles já tinham gravado um disco(“Tente Mudar o Amanhã”, de 1984) e estavam prestes a ser a primeira banda da nossa cena a excursionar pela Europa (o que rolou em 1987). Formada em 1979, pelos irmãos Redson (Edson Lopes Pozzi, guitarra e vocais) e Pierre (Carlos Lopes Pozzi, bateria), o trio explosivo era completado por Val no baixo. Muito antes de todos holofotes apontarem para a questão ambiental aqueles garotos do subúrbio gritavam pela salvação da terra e do homem. A bolachinha vinha acompanhada da “Declaração Universal dos Direitos Humanos” e mais um manifesto surpreendentemente bem articulado chamado “Registro Arqueológico Sobre o Século XX”, que era como se alguém no futuro explicasse o mundo no qual aqueles moleques ralavam nos anos 80. Tínhamos acabado de sair da ditadura, a Guerra Fria ainda rolava solta, Rambo era um herói no cinema e Sarney se divertia brincando com a nossa inflação. Ninguém falava dos BRICS e “O Brasil é o país do futuro” era uma citação irônica numa música da Legião Urbana. Nesse cenário, parecia que o futuro era mesmo uma cena do apocalíptico “Blade Runner”. É ai que nossa audição começa.

“As vezes tenho medo/As vezes sinto minha mão/Presa pelo ar/E quando olho em volta/Encontro uma multidão/Presa pelo ar”. Síndrome do pânico? Ansiedade? Doenças do século XXI? Já estava lá, no primeiro clássico do disco, “Medo” (Que anos mais tarde seria regravada pelo Plebe Rude). A voz era um pouco desafinada, mas cheia de emoção. As letras não eram apenas críticas sociais ou clichês contra igreja, polícia e governo. Elas tinham um lirismo e alternavam momentos mais reflexivos como “Somos Vivos” e criativos como “Alternar” (na qual Redson reclama que precisa trabalhar, mas eles te obrigam a usar roupa social, gravata, sapato e cabelo “lau-lau”. Que jovem rebelde nunca ficou puto, por ter que ir pro trabalho todo engomadinho?). As críticas às instituições também estão lá nas pacifistas “Guerrear” e “Continência” ou na direta “Não Fome”.

Ao longo de “Pela Paz em Todo Mundo” você caminha pelas ruas esburacadas de São Paulo, pega o trem do subúrbio e presta o serviço militar, tudo ao som de uma bateria rápida, riffs grudentos de guitarra, um baixo ritmado e refrões empolgantes para serem cantados em coro. E o teor inflamável só aumenta nas duas últimas canções; primeiro “Adolescente”, que foge dos temas punks comuns e na sequência “Pela Paz”, talvez a melhor música do Cólera, um grito pacifista, cheio de fúria, que faz valer a frase destacada no encarte “Ser Pacifista é não fechar os olhos perante a violência”.

Pacifismo, ecologia, hinos da juventude e lirismo. Se Redson tivesse nascido em um país de primeiro mundo, talvez ele fosse um Bob Dylan. Fruto do nosso subúrbio operário ele só poderia cantar numa banda chamada Cólera. Ainda bem.

Veja também:

Cólera - Deixe A Terra Em Paz! [2004]
Três Acordes de Cólera (2005) Documentário

Lobão e Os Ronaldos - Ronaldo Foi Pra Guerra [1984]




Por Marcus Vinícius Beck

Não trata-se de um enorme sucesso comercial, mas sim de um disco ótimo, musicalmente, lembrando muito a new wave, que vinha sendo um sucesso no Reino Unido deste o final dos anos 70. Ronaldo foi pra guerra também foi uma critica ao então regime militar, no qual ele meio que obrigava você a escolher uma profissão muito cedo, chamado de tecnocracia. Me chama, feita para a sua namorada Alice Pink Punk, fora um sucesso nas rádios de todo o país,figurando entre as primeiras musicas mais tocadas dos anos 80.

Destaque vão para as musicas: Me chama, Ronaldo Foi Pra Guerra, Corações Psicodélicos, Bambino, Os Tipos Que Eu Nunca Fui (que acabou sendo a musica de trabalho do álbum, o que segundo Lobão foi um tremendo de um erro), Rio de Delírio.

Os Ronaldos eram:
Guto - guitarra e voz
Alice Pink Pank - teclados e voz
Odeid - baixo
Baster Barros - bateria

sábado, 20 de outubro de 2012

A Bolha - Um Passo a Frente [1973]

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Primeiro álbum d'A Bolha. Neste a banda buscou algo mais próximo ao progressivo. A formação da banda para esse disco foi:

Pedro Lima - Guitarra, Harmônicos, Vocal
Renato Ladeira - Órgão Hammond, Farfisa, Guitarra, Vocal
Gustavo Schroeter - Bateria, Vocal
Lincoln Bittencourt - Baixo, Vocal


Madame Saatan [2007]

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Por Fernão Silveira em Whiplash

O quarteto de Belém, formado por Sammliz (vocal), Edinho Guerreiro (guitarra), Ícaro Suzuki (baixo) e Ivan Vanzar (bateria), nasceu em 2003 e logo começou a se destacar em festivais de rock pelo Brasil afora. O primeiro registro oficial em CD foi possível graças ao pool de gravadoras independentes Ná Records (PA), Cubo Discos (MT), Fósforo Records (GO) e Fora do Eixo. E vale a pena a experiência.

O que se pode encontrar em "Madame Saatan" é um rock vigoroso, no qual a base instrumental de Guerreiro, Suzuki e Vanzar é verdadeiramente matadora. O hardcore, o thrash metal oitentista (principalmente) e algumas doses de nü metal são as influências mais claras que o quarteto demonstra ao longo das 10 faixas do álbum. Mas existe uma brasilidade inquestionável em todo o trabalho: pancadas como "Gotas em Caos de Selva Avenida" e "Cine Trash", por exemplo, remontam aos tempos áureos do experimentalismo do SEPULTURA (mas sem os vocais de Max!).

A frontwoman Sammliz também merece destaque. Letrista da banda, ela imprime suas digitais e demonstra criatividade nas composições. De cara, já acerta ao compor e cantar em português, mesmo que os riffs e introduções dêem ao ouvinte a certeza de que os versos vindouros serão pronunciados em inglês, por alguma voz gutural da Califórnia. E justamente este paradoxo (no bom sentido) é um dos grandes diferenciais da banda – algo que pode causar alguma estranheza nas primeiras audições, mas logo se torna um interessante atrativo à sonoridade do disco.

"Molotov", "Duo", "Ele Queima Ela Sorri" e "Messalina Blues", que poderiam ser classificadas como "nü-baladas", são quatro das músicas em que Sammliz parece mais bem enquadrada na moldura musical preparada pelos rapazes. Mas é em "Apocalipse", dotada de uma letra muito bem sacada e um cenário instrumental vigoroso, e em "Vela", temperada com saborosas pitadas de musica regional, que a banda se supera. Estas faixas são, de longe, as melhores demonstrações do potencial do quarteto.

Ainda além da qualidade do álbum, MADAME SAATAN traz uma brisa rejuvenescedora da cena independente que rola nos rincões do Brasil. É ótimo quando temos a oportunidade de encontrar bandas promissoras surgidas de fora do eixo Sul-Sudeste. A questão que fica é: será que a banda terá fôlego para manter seu peso e sua personalidade (que são seus principais diferenciais) diante de um possível flerte com o sucesso? Vale a pena esperar...

quinta-feira, 18 de outubro de 2012

Longlife Rock Festival 2012 em Maringá/PR


Por Tacia Rocha 
Publicado em 15 de outubro de 2012 no odiario.com

A partir da próxima quarta (17), o festival de rock mais esperado inicia pré-venda de ingressos. O evento está em sua sexta edição e é o maior festival de rock do interior do Paraná. No dia que 1º de dezembro Maringá vai curtir um rock animal, no Parque de Exposições.

Os ingressos estarão à venda no MPB Bar e no site do evento. Para aqueles que compraremos ingressos nos pontos de venda terá direito a um kit exclusivo do Longlife composto por copo personalizado, um adesivo, uma dose de Bacardi, um CD promocional e um lixocar (quantidade limitada). Os ingressos custam R$ 150 para o camarote e pista e R$ 75. meia (estudantes e sócios do Clube do Assinante O Diário). Para os primeiros que adquirirem os ingressos promocionais (1º lote) pagarão apenas R$ 90. O valor do backstage não foi divulgado.


O Longlife Rock Festival promete abalar as estruturas. É esperado público de 10 mil pessoas, 7 grandes apresentações de nomes do rock nacional e internacional. Dentre elas, a banda gaúcha Nenhum de Nós, o cantor e compositor mineiro Zé Geraldo, além do quarteto carioca, Forfun, Dead Fish e Motorocker.



Vale ressaltar que a música não para. Serão mais de 6.000 m² de área coberta, 2 palcos principais, cuja troca entre as bandas não afetará na continuidade do show. Como de praxé, cada participante do festival doará 1kg de alimento não perecível, que serão distribuídos para instituições.


Nenhum de Nós - Acústico ao Vivo [1994]



Digam o que quiserem, mas os gaúchos do Nenhum de Nós saíram na frente nesta história de acústico. Até 1994, o formato era ignorado no Brasil e uma ou outra aventura neste sentido ainda trazia o rótulo anglo-saxão unplugged. À época, a banda deixou de lado as guitarras, arranjou as músicas para instrumentos ancestrais, postou-se em um teatro e lançou o bem-sucedido Acústico Ao Vivo. "É o que dizem os livros de história", diz o vocalista Thedy Corrêa ao Terra.

O Bando [1969]

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Por Lucas Rodrigues de Campos e André Mainardi
publicado no jornal Coletivo sÓ

No frenesi da Jovem Guarda, em 1965, Os Malucos - Diógenes Burani, (bateria), Paul de Castro, (guitarras e voz), Américo Issa, (guitarras e voz), Emilio Carrera, (órgão e piano), Rodolpho Grani,(baixo e voz) e Marisa Fossa, (voz principal) – apresentavam-se semanalmente nos lugares da moda, como o restaurante O Beco e a boate Urso Branco. Essa última casa recebia um evento patrocinado pela Coca Cola. Por intermédio do empresário Teo de Barros, (não confundir com o compositor), Os Malucos conseguiram lugar no evento ao lado de “Ronaldo Lark e os Versáteis”. O êxito na Urso Branco proporcionou uma excursão através da América do Sul e dois meses na Venezuela. Em Caracas, os garotos gravaram dezesseis programas de TV na principal emissora local, um deles acompanhando a atriz-cantora Sarita Montiel. “Chegando lá ficamos encantados com a salsa e outros ritmos locais. Ali pintou a idéia de colocar outro percussionista no grupo”, conta o baterista Diógenes.

Novamente em São Paulo, passaram a se chamar O Bando. O baterista Dudu Portes, amigo de Emilio, logo abandonou o programa televisivo O Fino da Bossa, apresentado por Jair Rodrigues e Elis Regina, para integrar a primeira banda brasileira com dois bateristas. O pioneirismo desses jovens músicos não parava aí: faziam um som bem arrojado dentro dos padrões psicodélicos, e, assim como os Beat Boys e Os Mutantes, eram sempre convocados a tomar parte no tropicalismo. Sob a égide e proteção de Solano Ribeiro, grande mentor da banda, conseguiram um contrato com Phillips do Brasil. André Midani apaixonou-se pelo som deles e, em busca de servir o mercado aberto pelos Mutantes, adicionou O Bando no cast da gravadora, colocando à inteira disposição deles os maestros Júlio Medaglia, Damiano Cozzela e Rogério Duprat. com a contemporaneidade do rock uniu a academia à tradição da garagem: “Não tinha pra ninguém... nós e Os Mutantes éramos os tais!”. 

Em 1969, bem à vontade, entraram no estúdio Scatena para registrar o primeiro disco do grupo. Trabalhar com os maestros possibilitou o acúmulo de grande conhecimento na área de arranjos e orquestração. Para Diógenes, os maestros assumiam o papel de intérpretes: “A gente bolava os arranjos e eles traduziam nossa linguagem de cabeludos doidos ao pessoal da gravadora”. Em oito canais gravaram um disco com apoio o esmerado dos regentes. Elaboradas partes de cordas e metais pintam em vivas cores, sob o signo tropicalista, músicas do cancioneiro popular como “Disparada” e “Quem Sabe”, composições do grupo, de Caetano Veloso e a primeira e definitiva versão de “Que Maravilha”, música de Jorge Ben, com a qual O Bando concorreu no Festival da TV Tupi, conquistando o primeiro lugar. 

Rio Grande

Muitas foram as incursões do Bando pelo sul do Brasil. Levados pelo Centro Acadêmico de Arquitetura da UFRGS, granjearam muitos fãns em Festivais nos Pampas. Nesse período conheceram os compositores Hermes Aquino e Laíz Marques. No Festival Universitário da Musica Popular Brasileira, em 1969, onde apresentaram-se Zé Rodrix, Danilo Caymmi e O Som Imaginário, O Bando defendeu “Pela Rua da Praia”, da dupla gaúcha Hermes e Laíz, e receberam um indesejado segundo lugar: “Só não vencemos porque éramos paulistas”. Com a agenda lotada, o Bando passou boa parte do ano de 69 viajando. No verão, arrendavam a boate Barbarela em Ubatuba, fazendo boa temporada e descansando. A “rotina era praia, ensaioe show”, lembrança de Diógenes. 

Além da vida de rocker californiano, o grupo fez aparições nos programas televisivos de Wilson Simonal e no Jovem Guarda, de Roberto Carlos. O grande mérito pós-disco veio com a participação na peça teatral O Plug, espetáculo multimídia, com representações de tipo teatral, filme underground, audiofotonovela com participação de Décio Pignatari, Duprat e Grupo OEL. Entre colunas romanas, versos e os mais absurdos happenings, o Bando mostrava todo o seu balanço. A pesada sessão rítmica retumbava tal qual uma barulhenta sinfonia de Beethoven ou Berlioz. Com suas câmeras desbundadas, Rogério Sganzerla registra tudo. Era o ano de 1972, já próximo do crepúsculo da banda. 

O fim do Bando foi uma conseqüência natural dos rumos musicais que cada integrante seguiu. A experiência com os maestros tropicalistas, produtores e empresários em uma época de franca expansão da indústria do disco no Brasil, proporcionou aos integrantes d’O Bando excelentes contatos profissionais, que acabou por direcioná-los para diversos caminhos.