quarta-feira, 14 de março de 2012

O Terço - Criaturas da Noite [1975]


Por Raul Branco


Após uma carreira que passara do total anonimato para a categoria de expoente do rock nacional, ao lado dos Mutantes, o Terço entrou no estúdio Vice-Versa, após colaborarem no primeiro trabalho de Sá e Guarabyra sem Zé Rodrix, o álbum “Nunca”, para gravar um disco ansiosamente aguardado pelo seus fãs. Era novembro de 1974 e o disco que resultou desse trabalho, “Criaturas da Noite”, seria considerado o ponto alto da trajetória do grupo do guitarrista Sérgio Hinds.

Sua banda, em que começara como baixista, já havia gravado dois Lps e compactos, e na qual haviam atuado músicos como Jorge Amiden, Vinícius Cantuária e Cézar de Mercês, alcançara algum reconhecimento do grande público pela balada “Tributo ao Sorriso”, apresentado num Festival Internacional da Canção, e respeito da comunidade rock pelo álbum “Terço”, que trazia boas músicas como “Deus”, “Estrada Vazia” e “Lagoa das Lontras”.

Sérgio, além de Cézar de Mercês fazendo guitarra base, era agora acompanhado em shows de uma nova cozinha, que antes acompanhara o trio Sá, Rodrix & Guarabyra: Sérgio Magrão no baixo e Luiz Moreno (recentemente falecido, em 2002), na bateria. Para completar o time, um tecladista, violonista e cantor que anos mais tarde faria carreira solo de sucesso, Flávio Venturini, na época usando o nome artístico de Flávio Alterosas. A saída de Cézar oficializou a formação do quarteto e foi assim, com Hinds, Magrão, Flávio e Moreno, que saíram os créditos do disco, embora a presença de Cézar seja presente não só pela percussão em duas faixas mas, principalmente, pela quantidade de músicas em que ele é o autor ou parceiro. As excelentes apresentações da nova fase do Terço geraram uma expectativa muito grande pelo disco que estava sendo gravado e, o resultado em vinil, lançado em 1975 pelo selo Underground, da gravadora Copacabana, não decepcionou nem um pouco.

Ao maior sucesso da carreira do Terço coube a honra de abrir o disco. “Hey Amigo” (Cézar de Mercês) tornou-se, bem antes do lançamento de “Criaturas da Noite” presença obrigatória nos shows da banda. A conhecidíssima introdução de baixo, a que se somam o órgão, a bateria e que explode com a guitarra Gibson SG de Hinds já faziam – e fazem até hoje –a audiência sacudir os ossos e pular. Com uma letra simples, meio tola e fácil de memorizar, convidando a todos para se unirem como um só através desse rock, “Hey Amigo” tem uma melodia e um arranjo empolgantes. Nela uma velha característica do Terço está presente, que é a guitarra e o baixo dobrando os riffs, mas agora acrescentada pela cama proporcionada pelo órgão e os vocais mais elaborado, com várias vozes, recurso que viria a ser aplicado no 14 Bis, para onde Magrão e Flávio se bandeariam mais tarde.

O lado acústico da banda brilha em “Queimada” (Flávio Venturini - Cézar de Mercês). O som das violas, baixo elétrico, percussão e os vocais são a pitadinha de folk que faltava na mistura que gerou a banda. Uma música sem grandes pretensões que, cedo, tornou-se uma das favoritas do álbum.

“Pano de Fundo” (Sérgio Magrão - Cézar de Mercês), é mais uma retomada ao estilo de rock característico do Terço. Merece destaque a criatividade de Moreno no trabalho percussivo, tanto na introdução quanto no fim, o baixo de Magrão e o solo, com jeito de Santana, de Sérgio Hinds.

A versatilidade dos componentes fica clara com a próxima faixa, “Ponto Final” (Luiz Moreno), um tema instrumental do baterista, onde a vocalização funciona como outro instrumento, talvez substituindo as cordas, e com dois momentos bem definidos e distintos entre si. Na primeira parte um tema de piano que em alguns momentos lembra o Gismonti de “Parque Laje” e o sintetizador solando leve, aéreo como o Azymuth, até receber o reforço pelo peso da guitarra e, mais uma vez suavizar com o piano. Este mesmo piano puxa a segunda metade da música, um tema que vai se repetindo, com a percussão bem sinfônica, cheia de pratos, com destaque a cada momento para cada um. Para um ouvinte mais atento, as pequenas semelhanças com “Amanhecer Total”, do álbum anterior, cessam na maturidade musical dos instrumentistas dessa formação e na qualidade de gravação, infinitamente superior.

Sérgio Hinds compôs “Volte na Próxima Semana” e o público dos shows tornou esta mais uma música obrigatória no setlist. Rock mesmo, lembrando as músicas do disco anterior, tem na guitarra a principal arma do arranjo, com o baixo dobrando novamente. O bom trabalho de Moreno, que não foge da tentação de suingar a batida em todos os momentos é uma das boas coisas da faixa, mas os vocais, mais parecidos com a fase Vinícius Cantuária, são os mais fracos do disco.


Para o início do Lado B, a música que dá nome ao disco, “Criaturas da Noite” (Flávio Venturini - Luiz Carlos Sá), com a abertura feita pelo piano de Flávio e os vocais da banda, apoiados por um naipe de cordas, tem um gosto de Sá, Rodrix & Guarabyra inconfundível, deixando bem claro o quanto um grupo influenciou o outro, inclusive pela parceria. O vocal solo é de Flávio e a guitarra solando com os violinos completa o clima onírico sugerido pela letra.

“Jogo das Pedras”, que retoma o clima de “Queimada” com um pouco mais de peso pela inclusão de bateria, teclado e solo de guitarra, entrou pela tangente em “Criaturas da Noite”. O disco já estava pronto e uma das músicas gravadas, “Raposa Azul”, foi substituída por ela em cima do laço. Se a decisão foi acertada ou não, são outros quinhentos. O que importa é que a inclusão de “Jogo das Pedras” reforçou essa ligação com o rock rural e deu oportunidade ao Terço de enveredar por novos caminhos musicais. Apesar de “Raposa Azul” ter um clima mais progressivo e uma introdução marcante, seria apenas mais uma música.

A peça que encerra este excelente disco é, para dizer o óbvio, grande: pelos seus longos 12min26s de duração, pela grandiosidade da composição e pelo nível de execução dos músicos. “1974” (Flávio Venturini) é, sem sombra de dúvida, uma das melhores coisas do progressivo brasileiro daquela época. Com o clima suave criado pelo piano que é paulatinamente sendo interrompido pela intromissão do baixo, prato de condução e guitarra dobrada e distorcida, a banda nos coloca numa atmosfera frenética como o de uma Cidade Grande, de qualquer parte do planeta. O ouvinte pode se imaginar, por exemplo, andando apressado numa rua movimentada de Sampa, Nova Iorque ou Tóquio e, de repente, encontrando um espaço no caos para deixar o pensamento fluir livre, até ser arrastado a contragosto para a turbulência novamente.

As vocalizações com resposta e depois o instrumental, onde a guitarra de Hinds tem o seu melhor momento em todo o álbum, nos mantém nesse nível de intercessões contínuas de euforia/relaxamento até que, em determinado momento, parece que tudo morre, menos o teclado, arrastado e melancólico, com a voz de Flávio e a guitarra de Sérgio Hinds induzindo um lamento à mente do ouvinte. Perda da inocência: o baixo vai buscar nossa alma e trazê-la de volta à dura realidade dos tempos modernos, com o resto da banda. Mas a guitarra volta para reclamar uma brecha e, finalmente, o piano e o vocal nos devolvem a paz e a esperança em tempos mais amenos. Agora, todo o peso da banda não consegue mais do que reforçar essa idéia e, a medida que a música se aproxima do fim, a felicidade vai inundando a alma e o coração do ouvinte até que este explode num sintetizador que vai desaparecendo, insistindo em se manter no rodamoinho de seu próprio som. Uma viagem.

Mesmo com alguns problemas técnicos, que qualquer demo de hoje passa por cima, “Criaturas da Noite” foi um marco para o rock nacional e colocou a banda, para sempre, na história.

Formação para Criaturas da Noite:

Flávio Venturini - telcados e vocais
Sérgio Hinds - guitarra
Sergio Magrão - baixo
Luiz Moreno - bateria

Cezar de Mercês - percussão (participação especial)
Marisa Fossa - vocais (participação especial)


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