sábado, 15 de setembro de 2012

Lestics - História Universal do Esquecimento [2012]



Por Cleber Facchi

De todas as bandas nacionais que surgiram ao longo da última década, a paulistana Lestics é de longe uma das mais curiosas. Sem a intenção vulgar de produzir um som comercial, o fascínio de se relacionar com um selo/gravadora e ciente do público reduzido que a acompanha (ouvintes que “misteriosamente” crescem a cada novo trabalho), o projeto comandado por Olavo Rocha (voz) e Umberto Serpieri (violão,teclados,guitarra,gaita e voz) chega ao quinto registro dentro de uma estufa criativa e particular que lentamente se abre aos ouvintes. Denominado História Universal do Esquecimento (2012, Independente), o novo disco (também lançado dentro do site da banda) parece fadado a tudo, menos desaparecer das mentes e dos ouvidos dos espectadores.

Com um acabamento menos sombrio do que o anterior Aos Abutres (2010), o projeto segue com a contribuição (necessária) de Marcelo Patu (baixo) e Marcos Xuxa (bateria), instrumentistas que auxiliaram a dupla inicial a alcançar um novo resultado dentro da estrutura antes limitada do projeto. Ainda dialogando com as mesmas pluralidades da música folk, indie e do country alternativo – encontros que em algum momento fluem como um misto entre Cass McCombs e Wilco -, a banda deixa o enclausuramento dos projetos passados para soar maior, não apenas na extensão do disco (o maior até aqui), mas na maneira como os instrumentos, os detalhamentos e principalmente os versos parecem se expandir no decorrer da obra.

Da mesma forma que os trabalhos anteriores, com o novo disco o uso constante de versos temperados pelo impacto sutil das palavras e frases arquitetadas de forma a atrair o ouvinte está por todos os lados. Habilidade natural de Olavo Rocha, que desde o “hit” Luz do Outono provou cantar sobre amor como ninguém, em História Universal do Esquecimento temos mais um substancial cardápio de composições que discutem o romantismo com esperança (Enquanto Espero) e certa dose de melancolia (Saudade do cativeiro). Dentro dessa dicotomia de percepções, não é difícil nos depararmos com versos que mesmo simples (“Você pode ir decidindo enquanto beija/ e eu posso ir te beijando enquanto espero”) representam exatamente aquilo que o espectador busca dizer, como se o álbum fosse do princípio ao fim um imenso tradutor de sentimentos.
Longe de apenas falar sobre amor ou términos de relacionamentos, assim como nos primeiros discos Serpieri e Rocha apresentam um colosso de músicas que tratam dos mais variados reflexos da vida e das percepções humanas. Da saudade e distância dissecadas em um criativo jogo de palavras na faixa Quinze Mil Dias (“Quase quinze Mil Dias/Vivendo Quase Mil Metros/Acima do nível do mar”) ao teor amargurado que se dissolve na quase vingativa A mesma decepção(“Na minha imaginação/ Seu Perfume Era Discreto/ Suas pernas eram longas/ Seu sorriso era completo”), o disco surge repleto por desajustes cotidianos que de tão comuns surgem como inéditos na voz e nos versos enaltecidos pelo vocalista.
Mesmo profundamente íntimo de tudo aquilo que a banda já produziu (principalmente no conteúdo das letras), o presente registro estimula o nascimento de músicas muito mais “comerciais” e de fácil assimilação. Para além da bem resolvida tríade de abertura, todas as faixas presentes no disco parecem surgir como prontas para animar a trilha sonora da novela das nove, efeito antes limitado na construção dos anteriores álbuns, mas que agora se expande de forma notável. Em História Universal… as canções parecem muito mais plásticas e até dinâmicas, ainda que profundamente sinceras e capazes de comover o espectador em uma rápida passagem, acabamento lírico (e também instrumental) que deve aproximar o grupo paulistano de uma nova onda de espectadores.
Nada limitado quando o comparamos com o “caseiro” e tímido 9 Sonhos (2007), ao alcançar o quinto disco da carreira a Lestics parece pela primeira vez ciente de todas as possibilidades e possíveis alcances de sua obra. Não apenas os companheiros de banda posteriormente anexados parecem bem ambientados como Umberto Serpieri e Olavo Rocha soam melhor habituados ao composto que eles próprios ajudaram a desenvolver, resultado que se anuncia na construção de faixas coesas, menos ríspidas e que pouco a pouco parecem romper com os limites antes intencionais que ocultavam a obra e um provável crescimento do grupo.

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