sábado, 24 de maio de 2014

Zé Ramalho - Força Verde [1982]

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Por Marcelo Fróes

Chamando atenção já por sua arrojada capa tríplice, o álbum “Força Verde” foi fruto do respaldo conquistado por Zé Ramalho em seus três primeiros trabalhos para a CBS. Segundo o próprio artista, foi o disco mais místico que já fez mas que obteve curta vida útil, ainda que tenha ido para as lojas com 150 mil cópias vendidas. A música Força Verde, distribuída num compacto promocional, estava indo bem nas rádios e o disco ganhava boas críticas até o cantor e compositor ser acusado de plágio, por causa de uma revista em quadrinhos do “Incrível Hulk”.

A história de Força Verde é antiga. Data dos idos de 1976, quando Zé havia chegado ao Rio de Janeiro e ainda atravessava seu período lisérgico pós “Paêbirú”. Folheando um gibi do “Incrível Hulk”, Zé reparou que os balões de determinada historinha continham pura poesia. Fez uma música em torno daquilo e, quando finalmente resolveu gravá-la para este disco em abril de 1982, falou com seu produtor sobre o que fazer. Como não obteve esclarecimento e inclusive ouviu um comentário de que certa feita Roberto Carlos musicara uma fotonovela, achou que não haveria problema.
Um colecionador de gibis reconheceu o texto na letra e denunciou Zé Ramalho na televisão, dizendo que a letra provinha do texto de um poeta irlandês não creditado na revista original. A imprensa brasileira transformou a coisa num escândalo e o apresentador Flávio Cavalcante chegou a chamar Zé de “ladrão”. Stan Lee e a Marvel Comics, responsáveis pelo personagem “Incrível Hulk”, chegaram a ser procurados pela imprensa brasileira, mas resolveram pedir que abafassem a história afinal, eles próprios não haviam creditado o poeta irlandês na revista original. Segundo Zé Ramalho, a CBS ficou temerosa e preferiu esconder o disco, embora já naquela época ele achasse que deveriam aproveitar pra incendiar o assunto. Naquele ano, Zé seria lançado internacionalmente a partir de um show no Festival de Montreux e depois disto gravaria um disco totalmente em espanhol. Tudo foi adiado por tempo indeterminado e Zé deu férias à banda, ficando dois anos trancado em casa até que a poeira assentasse.

O posicionamento do artista junto à gravadora ficou abalado, com uma quebra de confiança provocada por um incidente oriundo da ingenuidade característica de uma época.

sexta-feira, 23 de maio de 2014

Di Melo, O Imorrível [2011]



Cultuado 'soulman' pernambucano dos anos 70, Di Melo é redescoberto em clipe dos Black Eyed Peas, disco novo e filme

Por Carlos Albuquerque
Publicado em 30 de junho de 2011no globo.com

RIO - Quem é "imorrível" sempre aparece. Fazendo jus ao estranho apelido, que ganhou após sobreviver a um acidente de moto, o cultuado soulman Di Melo faz uma rápida aparição no vídeo da música "Don't stop the party", dos Black Eyed Peas. Com imagens da mais recente passagem do grupo americano pelo Brasil, o clipe dá um close na capa do único disco que o cantor e compositor pernambucano gravou, em 1975, hoje considerado uma raridade.

O culto se explica. Trazendo as participações de Hermeto Pascoal, Heraldo Do Monte e Cláudio Beltrame, "Di Melo" caiu nas graças de DJs na Europa e EUA, nos anos 90, graças à inclusão de uma das suas músicas (a balançante "A vida em seus métodos diz calma"), na coletânea "Blue Brazil", da Blue Note.

Assista ao clipe de 'Don't stop the party', do Black Eyed Peas o álbum Di Melo aparece aos 6:07.

- Encontrei o vinil desse disco numa loja na Holanda, há alguns anos, à venda por um dinheirão - lembra Di Melo, que mora em São Paulo. - Quando me apresentei ao vendedor, ele quase caiu para trás. Disse que adorava minhas músicas, mas que achava que eu tinha morrido. Eu disse que era imorrível, mas ele não entendeu direito.

A fama procede. Mais de 35 anos depois do seu isolado début, Di Melo volta à cena, não apenas pelas lentes de will.i.am e cia. Cultuado por rappers como Emicida, ele prepara um novo disco e vê sua errante trajetória se transformar num filme - o documentário "Di Melo - O imorrível", de Alan Oliveira e Rubens Pássaro (dimeloimorrivel.com.br), previsto para ficar pronto em agosto. Uma excursão pelo Brasil com sua nova banda e uma volta à Europa também estão nos planos.

Fã de James Brown, Jimi Hendrix, Jackson do Pandeiro e Luiz Gonzaga, Di Melo migrou de Recife para São Paulo pela primeira vez no fim dos anos 1960. Manteve-se tocando na noite local até gravar "Di Melo", que, esgotado, chegou a ser relançado, em CD, em 2002, dentro da coleção "Odeon 100 anos", coordenada por Charles Gavin.

- Esse disco é realmente incrível - conta Gavin sobre o trabalho. - Ele tem uma coisa rara por aqui, que é o clavinete, instrumento usado por Stevie Wonder e outros astros do soul e funk dos anos 1970. Ele dá um balanço todo especial ao disco. E deve ser destacado o fato de ele ter sido muito bem gravado para a época. O som é ótimo.

Depois daquele disco, porém, Di Melo, imaturo, "se perdeu por aí", como diz, abandonando a carreira e voltando para Recife.

- Eu era muito jovem, estava naquela onda de curtir a vida. Aí, fumei umas coisas e resolvi ir embora - lembra ele.

Durante esse tempo em sua terra natal, acabou sofrendo o acidente de moto que lhe deu a fama sobrenatural.

- Me machuquei bastante e fiquei um tempo no hospital - conta ele. - Quando voltei a São Paulo, algum tempo depois, já estavam rolando esses boatos de que eu tinha morrido. Foi quando criei essa expressão, "imorrível".

Decepcionado com a industria fonográfica, o "imorrível" soulman passou a se dedicar às artes plásticas ("Sou meio um marchand", gaba-se) e voltou a cantar na noite.

- Posso me considerar um arteiro nato, tudo o que mexe com arte me emociona. Mas nunca deixei de compor e criar durante o tempo em que sumi. Tenho 400 músicas inéditas no baú lá em casa - garante ele, que para provar, cantarola uma delas, pelo telefone.

Em 2009, ao voltar a Pernambuco, para se apresentar em um festival em Garanhuns, Di Melo conheceu os fãs Alan Oliveira (de Recife) e Rubens Pássaro (de São Paulo), que sonhavam, separadamente, fazer um filme sobre ele.

- Foi engraçado, porque nos encontramos no festival e descobrimos que queríamos fazer o mesmo filme. O Di Melo nos apresentou e acabamos nos unindo num projeto só - conta Pássaro, que gravou aquele show e depois vários depoimentos sobre o cantor. - O filme é sobre a mitologia em torno da figura do Di Melo e desse disco, além de mostrar a rotina dele hoje em dia.

A tal rotina do pernambucano inclui levar a filha, de 4 anos, ao colégio. Foi a criança quem despertou nele o desejo de retomar a carreira artística.

- Quando eu vi aquela criatura no berço, pequenininha, totalmente dependente dos pais, me deu uma chacoalhada, como se ela dissesse: "Ei, velho, acorda pra vida". Aí, eu acordei mesmo - diz ele, que se apresentou recentemente na Virada Cultural de São Paulo. - Logo surgiu essa história do filme, vieram os shows e, agora, o disco. O filme ficou muito bonito, do tipo que engravida o coração. E o disco vem aí, todo transado e rebuscado, com a participação do Emicida e de alguns outros amigos. Tenho certeza de que vai agradar a fulanos, sicranos e beltranos.

sexta-feira, 16 de maio de 2014

Titãs - Nheengatu [2014]

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Por Victor de Andrade Lopes em Sinfonia de Ideias

Muito coisa aconteceu com os Titãs desde seu último trabalho de inéditas, o friamente recebido Sacos Plásticos. Cansado da dura rotina de turnês, Charles Gavin, baterista que tocou com a banda desde seu segundo álbum (Televisão), decidiu deixar o grupo, sendo substituído pelo músico convidado Mario Fabre. Alguns membros se aventuraram em trabalhos solos - exemplo do vocalista/tecladista/baixista Sérgio Britto e seu disco SP-55. Por fim, turnês como Futuras Instalações e Titãs Inédito serviram de laboratório para testar músicas novas com o público (parte delas presentes neste trabalho). Uma terceira turnê, a de celebração do aniversário de 25 anos do clássico Cabeça Dinossauro, serviu para que o quarteto sentisse o gosto dos velhos tempos, o que foi determinante para o produto final.

O resultado de toda esta cozinha é "Nheengatu", um disco que apresenta um paradoxo em sua capa: a imagem traz um pedaço da pintura "A Torre de Babel", do artista belga Pieter Bruegel; a construção mítica tinha como objetivo levar o homem aos céus, mas foi destruída por Deus, decepcionado com a pretensão de seus filhos. O resultado foi a diáspora dos povos, que desenvolveram idiomas próprios e não mais se entenderam. Por outro lado, "nheengatu" é uma língua artificial criada por jesuítas no Brasil Colonial para "unificar" os idiomas indígenas com o português, facilitando a compreensão entre todos no Brasil. Em suma, um nome que sugere a compreensão gravado em uma imagem que lembra a incompreensão. Ou, nas palavras da própria banda: "Na tentativa de fazer uma foto instantânea do Brasil atual, as duas ideias se contrapõem bem: uma palavra (e uma linguagem) de entendimento para tentar explicar um mundo de desentendimento."

Antes de mais nada, é preciso deixar claro que este não é exatamente um disco de inéditas. Das 14 faixas, 10 já são conhecidas pelos fãs, uma vez que foram tocadas ao vivo ao cabo de dois anos de shows. E foram para o disco praticamente inalteradas. Em outras palavras, a banda seguiu na contramão do caminho "tradicional" e gravou em estúdio faixas que já havia apresentado ao vivo. O que não torna o disco menos interessante.

Se alguém desconfiava que este seria mais um trabalho mediano, a abertura "Fardado" (inédita) elimina qualquer dúvida. 28 anos depois de "Polícia", os Titãs voltam a atacar a corporação que tantos exemplos de má conduta nos ofereceu nos últimos tempos. Aproveitando-se de um grito de ordem que marcou presença nas manifestações de junho de 2013, a banda já abre o disco com o verso "Você também é explorado (fardado!)". Praticamente um "Polícia II".

"Mensageiro da Desgraça" cita vários cartões-postais de São Paulo e conta a história de um guerreiro da floresta de pedra. A estética da faixa lembra "Homem Primata", também do Cabeça. A influência da turnê de aniversário do álbum se faz perceber mais uma vez aqui. "República dos Bananas" traz a assinatura do vocalista e baixista Branco Mello em parceria com ninguém menos que o cartunista Angeli, o comediante Hugo Possolo e o ex-guitarrista de apoio do grupo Emerson Villani. O instrumental cativante serve de base para a letra, típica de Branco, que aborda questões cotidianas.

"Fala, Renata" é possivelmente a mais antiga das faixas. Vídeos de até dois anos atrás com a música sendo tocada ao vivo podem ser facilmente encontrados no YouTube. Apesar de ser uma das mais pesadas do disco, a letra faz com que ela pareça até meio infantil, embora haja lampejos de agressividade. Aliás, falando em agressividade, as quatro primeiras faixas trazem algo que a banda não apresentava em discos de estúdio desde A Melhor Banda de Todos os Tempos da Última Semana, de 2001: palavrões. Mas é preciso ir lá para o pesadíssimo Titanomaquia, de 1993, para ver a banda usando tal vocabulário várias vezes ao longo das faixas.

Eis que vem então uma sequência com as três outras inéditas: "Cadáver Sobre Cadáver", "Canalha" e "Pedofilia". Ou melhor dizendo, nem todas são tão inéditas assim: "Canalha" é um cover de Walter Franco, e recebe aqui uma pesada versão com aroma grunge. Bom saber que a "cozinha" ao vivo influenciou as composições exclusivas de estúdio também, mantendo o alto nível do disco.

"Chegada ao Brasil (Terra à Vista)" traz novamente a assinatura de Branco Mello e Emerson Villani, desta vez em parceria com o diretor de teatro Aderbal Freire. É uma espécie de crônica da viagem de Cabral e do Descobrimento do Brasil - mais uma vez, a personalidade de Branco grita aqui. "Eu Me Sinto Bem" também poderia ter sido escrita por Branco, mas é assinada por Sérgio Britto em parceria com o vocalista/guitarrista Paulo Miklos e o guitarrista Tony Bellotto.

Sentiu falta de alguma música romântica? Como aquelas que marcaram presença nos últimos discos do grupo? Bem, temos "Flores Para Ela". Sem melosidades, a banda entrega uma crônica da vida de um casal cujo marido é dominante e autoritário com sua esposa mas ainda assim manda "flores para ela".

Das quatro últimas faixas, três são bem diretas: "Não Pode", nítida crítica ao excesso de regras e leis; "Senhor", que juntamente a "República dos Bananas" traz sinais de "Dívidas", faixa não tão famosa do Cabeça; e "Quem São os Animais?" bela e atual mensagem contra o preconceito, que só podia ter sido assinada por quem já lançou músicas como "Igual a Todo Mundo" em sua carreira solo: Sérgio Britto. A penúltima faixa, "Baião de Dois", é pesada e traz uma letra complexa, típica de Paulo Miklos.

Algumas coisas ficam claras e cristalinas no disco: em primeiro lugar, os Titãs estão de volta às suas raízes, e ponto. Em segundo lugar, a ausência de metade dos membros da formação clássica é sentida sim, mas os paulistas conseguiram mostrar (finalmente) que quatro podem valer por oito - não em termos de criatividade e diversidade, o que seria humanamente impossível, mas em termos de qualidade e habilidade. Em terceiro lugar, a influência do disco Cabeça Dinossauro é tão óbvia que fica até repetitivo falar disso. E, acima de tudo, os Titãs conseguiram superar seu maior desafio: provar que ainda é uma banda relevante para o rock nacional.

O som do disco (dedicado à falecida esposa de Paulo, Rachel Salém) segue razoavelmente consistente do começo ao fim. O baterista convidado Mario Fabre tem muita habilidade e faz jus à vaga deixada por Charles Gavin. Tony Bellotto, agora acompanhado por Paulo Miklos nas guitarras, entrega riffs pesados e técnicos - juntos, são o maior destaque instrumental aqui. Nem o sereno violão, tão comum nos álbuns do grupo, está presente aqui. Sérgio Britto dosou bem seus teclados, com seu característico órgão dando as caras quando conveniente. Branco Mello, baixista em todas as faixas exceto as quatro em que canta (nessas, é Sérgio quem assume as quatro cordas), tem alguns momentos de inspiração, mas, na maior parte do álbum, limita-se a acompanhar a guitarra (e Sérgio fez o mesmo) - convenhamos, as linhas de Nando Reis eram mais inteligentes. Mas este pequeno detalhe não chega a comprometer a qualidade geral do trabalho.

Depois de chegar ao ponto de ter o encerramento de suas atividades sugerido por críticos em 2009, decepcionados com o fraco Sacos Plásticos, os Titãs definitivamente dão a volta por cima com seu melhor disco desde a virada do milênio. Letras inteligentes e diretas aliadas a um som curto e grosso: tão curto que os meros 37 minutos de música foram distribuídos em 14 faixas. Só quatro delas passam dos três minutos.

Track-list:
1. "Fardado"
2. "Mensageiro da Desgraça"
3. "República dos Bananas"
4. "Fala, Renata"
5. "Cadáver Sobre Cadáver"
6. "Canalha"
7. "Pedofilia"
8. "Chegada ao Brasil (Terra à Vista)"
9. "Eu Me Sinto Bem"
10. "Flores pra Ela"
11. "Não Pode"
12. "Senhor"
13. "Baião de Dois"
14. "Quem São os Animais?"

quarta-feira, 14 de maio de 2014

Paulo Schroeber - Freak Songs [2011]

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Por Junior Frascá no Whiplash

Paulo Schroeber é um guitarrista de renome na cena metálica nacional, por suas passagens nas bandas Hammer 67, Astafix e, em especial, o Almah. Possuidor de um talento nato para as seis cordas, Paulo sempre se mostrou um músico virtuoso, mas de muito bom gosto, o que fica mais evidente neste seu primeiro disco solo, totalmente instrumental.

O disco possui uma sonoridade bem complexa, técnica e variada, com influências que vão do jazz e fusion ao funk, passando pelo metal e pela música brasileira, tudo de forma harmônica e com muita maturidade. Isso porque, além de Paulo, ainda participaram das gravações do baixista Felipe Andreoli, que dispensa apresentações, e o baterista Rodrigo Zorzi, um verdadeiro monstro das baquetas.

A produção também é ótima e, por óbvio, mesmo havendo um maior destaque para as guitarras, todos os demais instrumentos também dão suas caras em prol da musicalidade, não sendo um daqueles trabalhos de mera exibição de virtuosismos desnecessários.

O encarte do álbum também possui as explicações de Paulo para cada faixa, nas quais demonstra suas inspirações, bem como outros fatores que o influência ao compor.

É claro que nem tudo são flores, pois algumas faixas são um pouco longas demais, como “Neoclassical Party”, mas nada que tire os méritos do trabalho, que é um prato cheio para os apreciadores da boa música instrumental, e para os guitarristas que pretendem ouvir um disco desafiador e criativo.

terça-feira, 13 de maio de 2014

Raul Seixas - O Dia Em Que A Terra Parou [1977]

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Por Rogério em Abstinência dos Sentidos

O dia em que a Terra parou Raul Seixas era um grande cinéfilo e por varias vezes usufruiu dessa cultura de massas em suas letras, aliás, o maior mérito dele na história da música brasileira foi justamente a popularização do rock no Brasil. Não é estranho um rockstar às avessas ser também um ícone popular?
Pois bem. A música “O dia em que a terra parou” do disco homônimo de 1977 foi composta por Raul depois que ele assistiu ao filme, mas ele visualizou na idéia do planeta paralisado outra coisa, o colapso do sistema.

A figura excêntrica de Raulzito somada ao que ele representa para o rock brasileiro as vezes acaba por ocasionar pequenos desvios biográficos. Por exemplo, é muito comum idealizar Raul como um agitador político, quando na verdade o máximo que ele era é um náufrago a deriva dos desmandos ditatoriais. Protestava porque era da sua natureza protestar e não por haver um real interesse nos destinos da política nacional.
A história mais conhecida e continuamente contada por ele mesmo nos shows é da música “Rock das Aranhas” que narra uma insólita transa lésbica. Na época a censura distribuía aos cantores um livreto, o “dicionário da censura”, com todas as palavras proibidas por um motivo ou outro, palavras inocentes como “povo”, “gente” e vejam só: “aranha”. Mas Raul não sofreu mais com a censura do que qualquer outro cantor, Chico Buarque mesmo foi impiedosamente perseguido e para escapar da censura ludibriava-a genialmente metaforizando suas letras mais subversivas. Na verdade, a loucura dos censores era tanta que o lema era “na dúvida, proíba”. Difícil mesmo era escapar ileso aos cortes e recortes e avisos de “censurado”.

Mas uma coisa eu reconheço, ninguém era mais estremo que Raul no palco. Um dos episódios mais clássicos foi quando ele incitou a galera a enfrentar os policiais que fiscalizavam o show. Nada mais subversivo que um show do Raul em plena ditadura. Era um artista de varias faces, não por acaso uma espécie de Bob Dylan brasileiro. Realmente, é fácil se confundir.

Então, voltando ao assunto inicial.

A grande maioria das músicas realmente exclamativas do Raul são do período pós ditadura, portanto – fora o exílio imposto graças à concepção de uma Sociedade Alternativa em território brasileiro que na pratica é a mesma sociedade concebida pelo Anarquismo – nunca houve um confronto direto entre cantor e generais. Mas Raulzito sempre inseriu em suas músicas e conversas e futuros projetos uma deformidade da civilização capitalista, o monstro Sistema.
Ah, finalmente cheguei onde queria.

Hoje em dia é muito comum ver certos roqueiros estereotipados falando do vilanesco Sistema como uma modalidade de McDonalds em escala global. Raul foi provavelmente o primeiro a abordar o assunto na música “O dia em que a terra parou”. O sistema como um relógio, onde cada engrenagem deve estar funcionando perfeitamente para manutenção de algo maior e regulação do tempo. E a paralisação de apenas uma dessas engrenagens significa a paralisação de todo o sistema. Em outras palavras, a ordem dos fatores altera o resultado.

Alguém poderia pensar que o berço do Sistema, como o conhecemos, foi a revolução industrial onde acontece a mecanização do trabalho e a revelação de um sistema controlador, mas na verdade tudo esta interligado. Até onde sei o sistema é anterior a ditadura, anterior a civilização e vou além, anterior até ao próprio big bang. O sistema é um emaranhado de perguntas sem respostas.

domingo, 11 de maio de 2014

Matanza - A Arte do Insulto [2006]

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Por Thiago El Cid Cardim
publicado em 21 de novembro de 2006 no Whiplash

Se você não conhece os cariocas do Matanza e não faz sequer idéia do que raios é o seu som, segue uma historinha elucidativa. Lá estava eu, com meu crachá de imprensa, nos bastidores do Video Music Brasil 2004. A apresentação final do programa foi uma jam session entre os músicos do grupo e mais Pitty, Rogério Flausino (Jota Quest), Dinho Ouro Preto (Capital Inicial) e integrantes do CPM 22, reunidos para cantar e tocar Rock and Roll All Nite, do Kiss. Quando saíram do palco, foram direto para a sala de imprensa, onde seriam fotografados. Entre um flash e outro, Dinho tentou uma aproximação com Jimmy London, o gigantesco vocalista do grupo. "Vem aqui, meu, vamos todos nos abraçar para as fotos". E o barba ruiva rapidamente respondeu, com sua voz de trovão: "Sai fora. Eu não abraço nem a minha mãe". E ficou lá, no fundão, braços cruzados e cara de mau. Isso é justamente o que se pode esperar de "A Arte do Insulto", o mais novo CD de inéditas do Matanza: pura testosterona em um dos melhores CDs nacionais do ano.

Iniciando a bolacha já em altíssima velocidade com a faixa-título, uma ode sem papas na língua aos bebuns mais chatos do boteco, o Matanza continua sem concessões em seu som - um hardcore de caminhoneiro, poderoso e mal-educado com levadas country (daquele tipo mais sombrio, a la Johnny Cash) e boas pitadas de irreverência e da violência de sons como Motörhead (cujo vocalista, Lemmy, leva uma vida que lembra e muito as letras do Matanza, aliás).

Prepare-se para ouvir, no volume máximo, os temas favoritos do grupo em canções devastadoras: a canalhice ("Clube dos Canalhas", que presta reverência ao pulador de cerca profissional), a autodestruição ("Sabendo Que Eu Posso Morrer"), a jogatina ("Quem Perde Sai"), a porradaria ("Meio Psicopata"), o modo de vida anti-social ("Eu Não Gosto de Ninguém"). E, é claro, a boa e velha bebedeira, homenageada em "Ressaca Sem Fim" (se você estiver com aquela dor-de-cabeça típica da ressaca, melhor pular esta faixa), "O Chamado do Bar" (com seu antológico refrão "Devo nada pra ninguém / Bebo se estiver afim / A minha vida é minha / E a sua que se foda") e a ótima "Whisky Para um Condenado". Tudo isso quase sem intervalos entre uma canção e outra. Respire se puder.

"A Arte do Insulto" ainda permite que o Matanza revisite o Velho Oeste e seus bandidos sujos e malvados, tão presentes nos anteriores "Santa Madre Cassino" e "Música Para Beber e Brigar", com "O Caminho da Escada e da Corda" - na qual dá para visualizar claramente um vilão sendo enforcado ao pôr do sol do Alabama - e com a balada de despedida "Tempo Ruim". E olha só, ainda tem espaço até para a reflexiva "Quem Leva a Sério o Quê?", que cabe tanto para os críticos da grande imprensa ("A verdade é que não há verdade / Tudo é porque não há não ser") quanto para os pentelhos de plantão que adoram levantar discussões inúteis nos fóruns internéticos ("Desconheço quem tenha razão / Acho perda de tempo qualquer discussão").

Para encerrar, o quarteto desacelera o tom e apela para a deliciosa "Estamos Todos Bêbados", uma inacreditável balada irlandesa (não por acaso, o povo mais beberrão do planeta) com bandolins e tudo mais, de refrão que não dá para ficar sem cantar junto. Definitivamente, não haveria canção melhor para fechar um CD como este. Insulto pouco é bobagem.

Se você acha que o rock nacional está perdido nas mãos da Pitty, dos Detonautas e do Charlie Brown Jr., estes quatro malucos do Rio de Janeiro podem ajudar a desandar o molho com a sua bem-vinda criatividade e autenticidade. No fim das contas, é rock nacional com culhões de verdade. Graças a Deus.

Line-up:
Jimmy London - Vocal
Donida - Guitarra
China - Baixo
Fausto - Bateria

Tracklist:
1. A Arte do Insulto
2. Clube dos Canalhas
3. O Chamado do Bar
4. Sabendo que Eu Posso Morrer
5. Quem Perde Sai
6. Meio Psicopata
7. Eu Não Gosto de Ninguém
8. O Caminho da Escada e da Corda
9. Ressaca sem Fim
10. Tempo Ruim
11. Quem Leva a Sério o Quê?
12. Whisky para um Condenado
13. Estamos Todos Bêbados

segunda-feira, 5 de maio de 2014

Salário Mínimo - Beijo Fatal [1987]

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Por Manfio em Metal Brasil

Olá, pessoal. Hoje vou postar sobre a banda paulistana Salário Mínimo que foi formada em 1977. A banda gravou em 1984 uma coletânea com outras três bandas paulistas com o nome “SP Metal” e em 1987 lançou o álbum “Beijo Fatal” e assim conseguindo grande exposição na mídia e vários shows pelo país, se consagrando como uma das mais importantes bandas do rock pesado nacional na época. Mesmo assim a banda parou em 1990 e voltou em 2004.

Finalmente em 2009 lançaram o seu segundo álbum, “Simplesmente Rock” que não é exatamente um álbum de Heavy Metal, pois a sonoridade está bem mais para o hard rock e o rock n roll. Mas vamos falar então sobre o primeiro álbum do grupo, esse sim um clássico do hard/heavy nacional.

Dama da Noite abre o álbum em grande estilo com riffs certeiros, boas linhas de baixo e um refrão marcante. Difícil escolher algum destaque na música, mas o vocal de China Lee é marcante e talvez seja o grande destaque. Em seguida temos a música Beijo Fatal com um ótimo solo de guitarra e um bom refrão. Destaque para as guitarras. Jogos de Guerra é mais veloz que as anteriores e acaba sendo impossível escolher um destaque tamanho a competência de todos da banda, mas a bateria nessa música acaba se sobressaindo um pouco mais que nas anteriores. A seguir vem Rosa de Hiroshima, um poema de Vinicius Moraes que foi transformado em música pela banda Secos e Molhados e depois regravada por uma infinidade de artistas. Linda letra e música que dá uma acalmada no álbum.

Noite de Rock é bem o hard dos anos 80, empolgante e com um refrão desgraçado que não sai da cabeça. Anjos da Escuridão tem como destaque as guitarras, mas peca um pouco pelo refrão fraco em comparação ao resto do álbum. Doce Vingança que o refrão lembra o Manowar (um verdadeiro crime comparar o Salário Mínimo ao tosco Manowar, mas não tenho culpa, o refrão instantaneamente me lembrou o Manowar) tem como destaque o baixo e as guitarras. Sob o Signo de Venus finaliza o álbum de forma cadenciada, é a música que menos gostei no álbum, longe de ser uma música ruim, mas não me atraiu muito.

Um ótimo álbum, um verdadeiro clássico do rock pesado nacional que qualquer amante do estilo e da boa música deveria conhecer.

sexta-feira, 2 de maio de 2014

Ludov - Caligrafia [2009]

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Por Iberê Borges
publicado 7 de agosto de 2009 no PopMata

Mauro Motoki desenvolveu uma certa habilidade invejável. Ele parece conseguir fazer a música que quer, da forma que quer. Parece conseguir idealizar algo, e tornar isso real. E isso é algo admirável. Ele passeia no pop como quem passeia num set de cinema e isso vai além das referências presentes nas canções. Atinge diretamente os temas delas, que variam e criam diversas sensações e te coloca em diferentes atmosferas.

Imagine você ter uma ideia de um filme, de um livro ou de uma música, e conseguir transformá-la em algo real, "palpável", da exata maneira como imaginou.

Ok, não imagine. Ouça.

Motoki é o principal compositor do Ludov, uma das mais competentes bandas do cenário nacional. Lançando seu terceiro álbum, eles provam, ainda mais, que o limite para criação de canções, no âmbito pop, não existe. Visitam e aproveitam de várias referências para criar músicas em diferentes estilos, e conseguem, com classe, transformar todas essas canções bem aceitáveis, bem saborosas e de fácil degustação. E esse é o verdadeiro desafio.

O Ludov utiliza daquilo que as canções pedem e, na maior parte do tempo, elas parecem implorar por guitarras enérgicas mas, nem sempre, só isso basta. Sabendo disso, a banda cria arranjos sempre interessantes e utilizam de diferentes elementos que funcionam como pano de fundo para as canções, como se elas fossem cenas de cinema (ou de um livro). Chegando até o ponto em que deixaria Chico Buarque muito orgulhoso: "Não Me Poupe", a música brasileira mais tocante e triste que ouvi esse ano.

"Caligrafia" não retrata exatamente uma banda "escrevendo" tudo certinho, dentro das regras e seguindo o que a cartilha pede. O caderno aqui, tem mais rabiscos e traços de uma banda que faz tudo a sua maneira, faz os seus desenhos, faz suas letras e faz com que, tudo isso, faça o maior sentido para você.

01 - Luta Livre
02 - Vinte Por Cento
03 - Sob a Neblina da Manhã
04 - Madeira Naval
05 - Mecanismo
06 - Paris, Texas
07 - Reprise
08 - O Seu Show É Só Pra Mim
09 - Terrorismo Suicida
10 - Não Me Poupe
11 - Magnética
12 - Notre Voyage

quinta-feira, 24 de abril de 2014

Quarto Astral - Árvore [2012]

 
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Por Quarto Astral no facebook oficial

A Quarto Astral busca explorar o rock em sua essência, sob forte influência do início talvez de sua história: psicodelia, rock n' roll e progressividade regadas com muitos solos de guitarra e improvisos, sem o rumo tradicional de início, meio e fim, mas sim com um início... e um fim na hora certa.

As letras tratam do elemento natural e humano, suas interferências e discrepâncias, das quatro dimensões universais, indo além da realidade e do misticismo, cantadas em inglês ou português.

Já em seu primeiro EP (2009), essa essência é mostrada nos improvisos e na escolha do tipo de gravação (ao vivo), produzido no estúdio Via Brasil sob o comando de Fábio Casé, também responsável pela mixagem e masterização. O segundo EP, homônimo, gravado no Lumo Estudio, ponto Fora do Eixo no Recife, foi captado e pré-mixado por Carlinhos Carvalho; mixado e masterizado no Estúdio Casé, ainda com Fábio Casé, e sob tratamento do engenheiro musical Peter Noya.

A banda reuniu uma equipe formada por cerca de vinte profissionais, envolvidos na cadeia produtiva cultural, interessados em colaborar na construção desse projeto, com a meta de produzir a gravação de um material autoral de alta qualidade, transportando o clima inóspito e vulcânico da província de Nápole, Itália, para a paradisíaca praia do Paraíso (redundante mesmo) assumindo a estética tropical brasileira.

Técnicos de som, fotógrafos, publicitários, jornalistas estiveram juntos nessa empreitada, apostando nesse projeto que já está disponível para venda no formato duplo (CD + DVD) e também pode ser visto no youtube.

quarta-feira, 23 de abril de 2014

Aline Ridolfi, Ana Paula Canestrelli e Tatiana K. de Mello Dias - Psicodelia Brasileria: Um Mergulho na Geração Bendita [2007]

Liberando a psicodelia brasileira: o livro agora está disponível online
Por eissoaibicho publicado em 27 de junho de 2012 no Psicodelica Brasileira

São mais de 200 páginas de relatos, fotos, recortes e letras de músicas dos artistas que compuseram a tal cena psicodélica brasileira dos anos 60 em diante.

Apuramos e escrevemos este livro em 2007, como nosso trabalho de conclusão de curso na Faculdade Cásper Líbero. Foram mais de 60 entrevistas feitas em vários estados do país e de todas as maneiras possíveis. São dezenas e dezenas de fotos, recortes e depoimentos de pessoas que acreditaram no nosso trabalho.

O TCC foi aprovado com nota 10 pela banca avaliadora. Imprimimos pouquíssimas cópias do livro e pensamos muito (quase cinco anos) antes de disponibilizá-lo na web porque ele foi, afinal, apenas um trabalho acadêmico.

Mas, mesmo depois de todo esse tempo, ainda recebemos semanalmente pedidos de acesso à obra. Costumamos responder caso a caso, mas desta vez resolvemos liberar para que o livro possa ser livremente consultado.

Como o trabalho foi feito com a confiança e o apoio das dezenas de entrevistados, que nos contaram preciosidades de suas vidas, optamos por restringir o acesso parcialmente: apenas a republicação e divulgação estão liberados. Qualquer outro uso (obras derivadas, fins comerciais) é vedado. Todas as imagens incluídas neste livro foram gentilmente cedidas por entrevistados e outros colaboradores para serem utilizadas exclusivamente neste trabalho acadêmico.

Não podemos deixar de agradecer também ao designer Thiago Silvestrini, que virou algumas madrugadas diagramando a obra em um projeto gráfico incrível.

Nós gostaríamos de ter dado um exemplar da obra para todo mundo que contribuiu com ela. Mas isso foi impossível. Então, virtualmente, aqui fica o nosso trabalho e a nossa gratidão. Esperamos que o livro ajude a reconstruir uma cena que ficou por muito tempo esquecida, e que inspire outras pessoas a redescobrirem o nosso passado, tão rico e interessante.


quarta-feira, 16 de abril de 2014

Wander Wildner -"Eu Sou Feio... Mas Sou Bonito!" [2002]


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Por Abonico R. Smith em  Mondo Bacana

Trovador de alma punk

Além de voltar a ocupar o lugar de vocalista dos históricos Replicantes, Wander Wildner viaja pelo país com sua própria banda divulgando seu terceiro álbum solo. “Eu sou feio... Mas Sou Bonito!” é o resumo da essência dos dois trabalhos anteriores. Do festejado Baladas Sangrentas ele trouxe a veia trovadora, os versos confessionais, por vezes sarcásticos, quase sempre escritos em tonalidade loser. De Buenos Dias!, trouxe a vitalidade, o punch, a visceralidade, a distorção, a altura. E, sobretudo, os acordes maiores – que preenchem dez das onze novas faixas.

Wander Wildner continua demonstrando todo seu desprezo pela estagnação promovida pela música brasileira overground.

Existem certos artistas que deveriam ser tombados e preservados como patrimônio histórico da cultura nacional, mas que por alguma conjuntura (astrológica, talvez; ideológica, com certeza) acabou relegados a vigésimo plano, tendo sua obra de primeira grandeza restrita à marginalidade da grande massa e em contato direto com apenas alguns interessados em proporção minúscula.

Wander Wildner é um destes caras. Seguidor da trajetória de um seletíssimo grupo – entre os quais estão incluídos Raul Seixas, Walter Franco, Itamar Assumpção, Jorge Mautner e seu conterrâneo Frank Jorge – ele traça pelos submundos da inteligentzia o futuro da música brasileira. Demonstra todo desprezo pela estagnação promovida por gente e corporações de cunho comercial e procura tocar lá no fundo dos corações despertos, seja com a agressividade herdada pelos tempos punk de Sangue Sujo e Replicantes (histórico grupo ao qual retornou há poucos meses) ou então empunhando o violão e fazendo baladas sinceras, pessoais e apaixonadamente escancaradas (que, com muita ironia, compõe a segunda parte do nome de seu selo/produtora/apelido, Punk Brega).

Há mais de duas décadas na estrada – como artista solo, vocalista do Replicantes ou iluminador de boa parte da nata da MPBC (Música Popular Brasileiro-Carioquense) – Wander voltou para o frio de Porto Alegre e de lá continua abastecendo, agora com mais regularidade, a sua carreira com novidades. Além da volta aos Replicantes – substituindo outra figura ímpar na cultura gaúcha, o ex-baterista/cineasta/professor Carlos Gerbase, também integrante da formação original do quarteto – o alemão de olhos verdes também encara umas viagenzinhas pelo país para divulgar, com sua banda de apoio, seu terceiro álbum solo, gravado no ano passado e lançado pela dobradinha [Punk Brega/Barulhinho]. Neste sábado, dia 7 de setembro, ele volta a Curitiba para uma grande celebração à independência. O local não poderia ser outro, senão o maior de todos os tempos alternativos da cidade, o 92 Graus – mais detalhes na agenda de shows.

“Eu Sou Feio... Mas Sou Bonito!” é o resumo da essência dos dois trabalhos anteriores. Da festejada estréia solo Baladas Sangrentas, de 1996, ele trouxe a veia trovadora, os versos confessionais, por vezes sarcásticos, quase sempre escritos em tonalidade loser – receita que na última década tem dado muito certo e atraídos fãs às pencas, como provam o sucesso de gente como Beck, Christina Ricci e Belle & Sebastian. De Buenos Dias!, gravado em 1999 com o trio punk Chulé de Coturno, trouxe a vitalidade, o punch, a visceralidade, a distorção, a altura. E, sobretudo, os acordes maiores – que preenchem na íntegra dez das onze faixas novas.

“Mantra das Possibilidades” abre o disco dando um chute na porta das infelicidades da vida. É apenas a repetição de três acordes básicos (dó, sol, fá – ou tônica, quinta e quarta) e três versos não menos básicos (“Minha vontade é ser bonito, mas eu não consigo, eu sempre volto atrás/ Sonho em ter cabelo comprido, mas eu não consigo, eu sempre corto mais/ Meu desejo é estar contigo, mas eu não consigo, eu sempre fico em paz”). O mantra começa no violão e segue com o acompanhamento do trio de apoio (no qual toca guitarra outra grande lenda do rock gaúcho, o jornalista/multiinstrumentista Jimi Joe).

“Damas da Noite” vem na seqüência com um country folk que remete a uma certa psicodelia não fosse o encorpamento de distorção agregado pelo meio do arranjo. Na voz de Wander, uma singela homenagem à mais antiga profissão do mundo. “Eu vejo mulheres na chuva da noite/ Entregando seus corpos pra qualquer um/ A velhos e gordos mais podres que a noite/ (...) Entregando seus corpos pra qualquer um/ Às duas da tarde, cinco da manhã/ Na cama, em qualquer lugar/ Sempre a postos pra saciar alguém/ São máquinas de sexo e prazer/ É tudo tão fácil pra você gozar/ Estão sempre prontas pro que der e vier, quem vier/ Eu admiro as mulheres que usam seus homens/ Fazem de tudo o que querem/ Por dinheiro ou prazer”.

Ainda no mesmo terreno de personagens não muito afortunados, Wildner escancara de vez em “Milonga Para Um Homem de Poucos Dentes”, única faixa do álbum a registrar um acorde menor (óbvio, pois acordes menores trazem a sensação de melancolia e tristeza e milonga sem chororô não seria uma milonga). “Mordo com vontade a carne que me sobra com poucos dentes que me restam/ Carrego dentro de mim a fina estampa que os meus tortos dentes não mostram/ Mas se a minha gargalhada te assusta não se preocupe, as aparências enganam/ Lembre-se que de perto ninguém é normal/ E a melhor companhia é só um cara legal/ Dentes bonitos me dizem pra Ter/ Um sorriso colgate pra sair com você/ Mas eu pergunto até quando você não vai ver/ Que a verdade está nesses dentes mordendo você/ Não vou gastar meu dinheiro no dentista pra te agradar/ Nem colocar dentadura postiça só pra te conquistar”, diz a fantástica letra. Wander ainda arruma tempo e espaço para zombar de si próprio, de sua marca registrada – que é o sorriso peculiaríssimo com a falta de alguns dentes de trás.

Wander também sabe se apropriar de composições alheias com muita identidade. Sarjetas e arrotos também aparecem em “Delírio 32”, cover de Nei Lisboa que ganha arrebatadora cara alt-psicodélica (o que é a combinação entre os berros e o deslizar do slide na guitarra durante o riff?). “Sétimo Céu”, de Jimi Joe, cai como uma luva na galeria de personagens losers do vocalista – além de atordoar os ouvidos quando a turbina dos pedais é ligada no refrão e transforma a música em grande hino grunge desgarrado de Seattle. Através de “Narciso Invertido”, feita por outro músico egresso da Barata Oriental (Nenung, hoje na dupla pop budista Os The Darma Lóvers), Wildner desencava sua veia puramente rock’n’roll. Entremeando riffs stoneanos vêm versos firmes e irônicos como “Keith Richards, Iggy Pop, é como eu quero estar/ O troféu e a champanhe talvez não seja eu que ganhe/ Não vou ser página da Caras e isso é muito bom/ Vejo as marcas no meu rosto e acho bem legal/ Veja, tudo vem e tudo passa, isso é natural/ Saca só o meu kit de beleza/ É meu coração, sim, com certeza/ Que se está feliz vê o universo todo se alegrar/ Veja só... esse sou eu!”.

E ele ainda se mostra insaciável na capacidade de criar grandes baladas. “O Sol Que Me Ilumina”, revestida de batidinha jingle-jangle (o que inevitavelmente deixa a faixa com cara de Byrds – e isso não é má coisa), é uma música de amor diferente. Descreve a admiração por uma menina comum, que faz terapia, sonha seguir carreira de atriz, rala trabalhando como estagiária e não perde tempo para falar sobre astrologia e filosofia. No encerramento, na quase-milongueira “Anjos & Demônios”, Wander finalmente se entrega às referências autobiográficas. Fala de um viajante hippie-cyber-punk que cede às tentações apenas porque sabe que seu caminho é seguir em frente em sua caminhada rumo à sua própria verdade. “Vasculhei o meu passado/ Vivo no presente/ E com quem tá do meu lado/ Anjos & demônios passam por mim/ Cruzam os céus e zombam de mim/ Anjos & demônios estão dentro de mim/ Eles sabem e vão comigo até o fim”.

Este é Wander Wildner, alguém que já foi capaz de instaurar um clássico hino punk dentro de uma gravadora multinacional (a BMG, que tem em seu catálogo três álbuns do Replicantes gravados para o selo Plug, não sabe o que ela está perdendo ao deixar de relançar “Surfista Calhorda”...) e hoje permanece com sua alma criativa, pulsante e intocável. No dia em que o Brasil descobrir seus trovadores contemporâneos, o país com certeza vai ser um lugar mais divertido e inteligente.

sexta-feira, 11 de abril de 2014

Entre O Sonho & O Som [2014]

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Ainda em homenagem a Belchior, após a releitura de Alucinação no álbum Ainda Somos Os Mesmos, é lançado esse EP contendo outros clássicos do artista gravados em outros discos. Entre as seis canções destacam-se Medo de Avião, Todo Sujo de Batom e Paralelas.

quarta-feira, 9 de abril de 2014

Ainda Somos Os Mesmos [2014]

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Por Wilame Prado
publicado em 26 de março de 2014 no odiario.com

Bandas fazem releitura contemporânea de “Alucinação” (1976), álbum clássico de Belchior
 

“Quem são os loucos? Nós, que chegamos às nove da manhã e ficamos até as sete da noite em redações, agências etc pra ganhar salários destinados, na maior parte, a pagar dívidas e nos permitir continuar acordando cedo, indo pro trabalho, comendo, pagando dívidas… nesse ciclo eterno, ou alguém que decide romper com isso?”

A indagação é do jornalista carioca Jorge Wagner, quando perguntado o que achava do sumiço de Belchior. Ele, que organizou em outubro de 2012 “Jeito Felindie”, um tributo ao Raça Negra, é idealizador e curador do projeto “Ainda Somos os Mesmos”, releitura do disco “Alucinação” (1976), um dos grandes trabalhos do músico cearense e que reúne, entre suas dez ótimas canções, sucessos retumbantes como “Apenas Um Rapaz Latino Americano”, “Como Nossos Pais” e “A Palo Seco”.

“Ainda Somos os Mesmos”, que, além das faixas de “Alucinação”, conta com bônus de outras cinco músicas de Belchior, tem lançamento previsto para esta quarta-feira (26), no site Scream & Yell. O trabalho, segundo Jorge Wagner, não tem fins lucrativos. As faixas e o streaming estarão disponíveis gratuitamente pelo site.

Para o disco, o jornalista convidou bandas e artistas da cena independente e que, por uma via ou outra, assumem ter influências “belchioranas” na hora de compor. Participam do trabalho, em ordem de faixas: Dario Julio & Os Franciscanos, Manoel Magalhães, Phillip Long, Nevilton, Lucas Vasconcellos, Bruno Souto, Lemoskine, Fábrica, Transmissor, Marcelo Perdido, Nana, Jomar Schrank, Ricardo Gameiro, João Erbetta e The Baggios.

“Fui, a princípio, em busca de artistas que eu mesmo gostasse e que, de alguma forma, fosse pela poética ou pela sonoridade, se identificassem com o trabalho do cearense. Não queria que o trabalho do Belchior fosse um mundo estranho pra nenhum deles”, diz.

Para a reportagem, o organizador do disco disponibilizou a faixa “Fotografia 3×4”, tocada pela banda Transmissor, e um teaser com pequenos trechos de outras três canções do disco. Pela sonoridade, o que se percebe é um respeito absoluto com as canções de Belchior por parte dos músicos, que, no entanto, dão roupagem nova às clássicas canções, apostando nas características sonoras da própria banda.

Em “Fotografia 3x4”, por exemplo, se Belchior faz introdução com coro, violão e teclado, os músicos da Transmissor já iniciam, em ritmo mais acelerado, a canção de ótima letra com um destaque para riffs da guitarra e bateria suave; no entanto, reconhece-se facilmente ali a linguagem poética de Belchior.

Gênio
Para o músico curitibano Dary Jr. (ex-Terminal Guadalupe), Belchior é um gênio. Ele participa de “Ainda Somos os Mesmos” tocando com a banda Dario Julio & Os Franciscanos nada mais nada menos que “Apenas Um Rapaz Latino Americano”.

“‘Alucinação’ é um álbum clássico. Regravá-lo é mexer em vespeiro, mas as novas gerações precisam conhecê-lo. Ouvir Belchior é quase um dever cívico. Suas canções, assim como o rock de Brasília dos anos 1980, abriram muitas portas para mim. Para além do prazer estético, Belchior te faz pensar sobre as relações afetivas, sociais e políticas em tempos bicudos. Ele é um gênio”, decreta o músico.

Rodrigo Lemos participa do tributo ao lado de sua banda, a Lemoskine. Ele, que também é guitarrista d´A Banda Mais Bonita da Cidade, fala sobre poder interpretar no disco “Não Leve Flores”, outra grande canção de Belchior: “Há uma perspectiva muito interessante e irônica em torno do ‘envelhecer e permanecer jovem’ e do ‘novo, que sempre vem’. Identifico-me totalmente.”

Mais do que homenagear o músico Belchior, os envolvidos com o projeto torcem também para que o disco chegue, de uma maneira ou de outra, nas mãos do cearense, onde quer que ele esteja neste momento. Quem sabe, rememorando “Alucinação” em vozes novas – assim como um dia já se arriscaram em seu cancioneiro Elis Regina, Los Hermanos, Engenheiros do Hawaii e tantos outros – o bigodudo resolva voltar a cantar.

“Se o próprio Belchior não chegar a ver, alguém entre as pessoas que sabem onde ele está vai acabar contando. Sobre o que ele vai pensar: espero que entenda o sentido de homenagem e acredito que algumas versões, como a do Phillip Long, por exemplo, possam agradá-lo bastante”, diz, esperançoso, Jorge Wagner.

Vida paralela

O músico Belchior deixou de se apresentar publicamente em 2009, quando foi considerado desaparecido após ter se separado da mulher, com quem estava casado há 35 anos, não dar notícias para os amigos e abandonado os palcos e as gravações musicais.

Segundo reportagem publicada na revista Época em dezembro do ano passado, assinada pelo jornalista Marcelo Bortoloti, Belchior abandonou a tudo e a praticamente todos para viver uma vida paralela ao lado da namorada, a produtora cultural Edna Assunção de Araújo, 46.

De acordo com a reportagem, passados cinco anos do sumiço, o músico nordestino de 67 anos atualmente vive escondido com Edna em Porto Alegre-RS e não pode sair em público porque é procurado pela polícia. Pesam contra Belchior, informa Bortoloti, dois mandados de prisão pelo não pagamento de pensões alimentícias.

Belchior também é cobrado na Justiça por um processo trabalhista contra ele no valor de R$ 1 milhão, sem possibilidade de recorrer. Segundo a Época, as contas de Belchior estão bloqueadas, e os imóveis que tinha, comprometidos.

Por causa da falta de dinheiro, Belchior e Edna já se abrigaram numa instituição de caridade e moraram de favor na casa de fãs desconhecidos.

segunda-feira, 7 de abril de 2014

Violeta de Outono - Volume 7 [2007]

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Por Diego Camargo no Progshine

Formado em 1984, o grupo paulista Violeta de Outono surgiu após o término do grupo de BRock Zero. Se consagrou no país, durante a década de 80, por trabalhos como Violeta de Outono (1987) e Em Toda Parte (1989). Entre idas e vindas, o grupo permanece na ativa, liderado pelo guitarrista e vocalista Fabio Golfetti.

Este é o sétimo disco da discografia geral do grupo (antes, além dos dois citados estão Mulher na Montanha, Ilhas, Eclipse e Live at Rio ArtRock Festival ’97), e estão, além de Fabio, os músicos Claudio Souza (bateria), Gabriel Costa (baixo) e Fernando Cardoso (teclados).

Volume 7 abre com “Além Do Sol”. Apesar de ser o Violeta De Outono que conhecemos, a banda ganhou uma sonoridade completamente diferente. Em parte pelos teclados, principalmente o órgão Hammond de Fernando. O baixo de Gabriel também é influência direta, já que existe uma grande diferença entre o estilo de Ângelo Pastorelo (baixista original da banda) - que toca com palheta - e Gabriel que toca com o Pizzicato (dedos). A gravação ao vivo privilegiou, e muito, a sonoridade concisa da banda.

O chamado Canterbury, som fundado por bandas como Soft Machine e Camel, tomou sua forma total nesse disco. Não que a atmosfera psicodélica de Pink Floyd e Gong tenham sumido. De maneira nenhuma! Elas ainda estão presentes, mas de uma outra maneira.

“Caravana” tem um clima espacial, calmo, tranquilo. Pelo menos até chegarmos perto do segundo minuto da música, quando o Hammond toma conta do som e a banda engata um ritmo mais enérgico. A guitarra de Fabio é sempre um caso à parte! Cortante, correta, precisa. Gosto do som que ele tira de suas Fenders. Os vocais etéreos fazem você viajar, literalmente, sem nenhum aditivo. Basta sentar-se confortavelmente pra escutar a faixa que soa como uma homenagem direta a banda inglesa Caravan.

Se eu não conhecesse a banda, não diria que ela é brasileira. ”Broken Legs”, terceira faixa, foi composta por Fernando Alge (assim como a próxima do disco) e tem um ritmo sincopado mais alegre, incluindo alguns trechos em que Fabio utiliza a técnica do glissando (técnica que consiste em utilizar um objeto metálico nas cordas da guitarra para se obter diferentes sons).

Em “Eyes Like Butterflies“, uma coisa é certa: Fernando faz uma diferença enorme no som da banda. Quem, assim como eu, ouviu os discos anteriores, sabe do que eu estou falando. O uso do Hammond ficou perfeito com a sonoridade das canções. O refrão é uma beleza sublime… “Eyes of the morning sun…”, perfeito! Gosto muito da sequência de baixo e bateria logo após o primeiro refrão! A dupla Gabriel / Claudio conduz muito bem a melodia que acompanha o verso e, na sequência, o maravilhoso refrão. Uma das minhas preferidas do disco.

Pouco depois dos três minutos de canção, Fernando souza ataca um poderoso solo eom seu Hammond. Definitivamente, a gravação nos estúdios MOSH (um dos melhores da América Latina) fez diferença.

Parceria entre Fernando e Fabio, “Em Cada Instante”, traz o que mais me chamou atenção no disco: a unidade que a banda conseguiu. Volume 7 não soa como um disco de canções à parte. Mesmo quando sabemos que três das oito músicas foram compostas bem antes desse disco ficar pronto. Muitas vezes ouvi discos em que todas as músicas parecem uma só. Não me refiro a discos conceituais como The Wall (1979) do Pink Floyd, por exemplo. Me refiro a discos em que todas as canções soam como uma só mesmo.

O Violeta De Outono conseguiu manter uma unidade tão grande que o disco toca sem percebermos que as canções estão passando. Isso, meus caros amigos, é o que chamo de um disco que flui com perfeição.

“Pequenos Seres Errantes” foi composta originalmente para o projeto Invisible Opera Company Of Tibet e utiliza na sua totalidade a técnica glissando. É incrível a sonoridade da faixa. Poética (sem nem mesmo ter palavras), psicodélica, espacial, viajante, ondular… Por algum motivo, essa palavra me veio à mente enquanto eu ouvia essa faixa.

O órgão presente tão densamente nas faixas anteriores é trocado pelos sintetizadores. Sons são disparados ora aqui, ora ali. Coisa de quem já tocou muito Rock Progressivo (Fernando já tocou em bandas cover de Yes e Rush). O solo que aparece perto do sétimo minuto de canção nos mostra isso claramente. Descansem seus corpos, relaxem e viajem um pouco dentro de suas cabeças.

Em “Ponto De Transição“, o piano dá o som. Bela melodia! A voz de Fabio é frágil, é isso que dá a beleza que ela tem. Nunca gostei de bandas que tem vocalistas de verdade. Na minha opinião, os melhores vocalistas são pessoas que não tem voz para cantar como Geddy Lee (Rush), Roger Waters (Pink Floyd), Peter Gabriel (Genesis) ou, saindo um pouco do campo Progressivo, Ozzy Osbourne (Black Sabbath). Fabio Golfetti está nessa lista!

O disco encerra-se com “Fronteira“. Acredito que esta seja influência direta de Camel. O baixo, a bateria, os teclados, o estilo melódico, totalmente Camel da fase Mirage (1974) e Moonmadness (1976). Não uma cópia, influência direta mesmo.

O órgão aos 3:20 chega a dar medo com tamanha quebra de melodia que o mesmo causa. Em seguida, a música toma forma completamente diferente com riff em tempo quebrado e apocalíptica. Quando voltam ao tema original, quem chama atenção é Claudio com sua bateria intrincada e quebrada. A repetição da parte estranha vem ainda mais estranha, torta, fora do tempo e bem soturna. Ótima faixa! Junto com “Eyes Like Butterflies” é minha faixa preferida. Terminamos o disco com a sensação de que acabamos de ouvir um dos melhores discos dos últimos 20 anos. Parabéns à banda!

Acho que não é necessário dizer que esse, pra mim, é o melhor disco da banda. E o melhor disco no estilo já lançado por terras brasileiras. Se o Violeta De Outono tivesse nascido na Inglaterra, seria um clássico mundial!

O CD vem com uma faixa extra em formato vídeo gravado nas sessões do álbum. Trata-se de uma música do Santana: “Let The Children Play”. Vocês podem ver esse vídeo aqui.

Track list

1. Além Do Sol
2. Caravana
3. Broken Legs
4. Eyes Like Butterflies
5. Em Cada Instante
6. Pequenos Seres Errantes
7. Ponto De Transição
8. Fronteira

quinta-feira, 3 de abril de 2014

Anno Luz - Anno Luz [1987]

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Por Marcos A. M. Cruz em Whiplash

Uma das grandes vantagens da era digital em que vivemos é o relançamento de preciosidades, cujos velhos LP's, nem sempre em tão bom estado de conservação, eram disputados a tapa nos sebos, mas que hoje podem ser encontrados em CDs remasterizados com excelente qualidade sonora, muitos deles ainda contendo faixas adicionais.

Dentre estes relançamentos, um dos mais aguardados pelos fãs do Rock Progressivo brazuca era o do único auto-intitulado álbum do "ANNO LUZ", formado em 1987 na cidade de Petrópolis (RJ), que na verdade se tratava de um duo constituído pelos músicos Guilherme Orcutt (teclados, programação, efeitos e voz) e Paulo Loureiro (violão, efeitos e voz), além de diversos artistas convidados, com destaque para o flautista Marco Aureh (atualmente no Lummen) na faixa "Novo Mundo".

Mesclando admiravelmente as sonoridades "cósmicas" dos sintetizadores com a pureza dos instrumentos acústicos, Guilherme e Paulo conseguiram a façanha de criar um estilo próprio, alternando momentos de profunda suavidade e beleza, com momentos de alto nível energético.

Entre as influências musicais de seus membros, as mais claras são as oriundas dos mestres alemães do Tangerine Dream, mas o ANNO LUZ vai muito além, aproximando-se do estilo sinfônico dos austríacos do Gandalf e dos húngaros do Solaris, artistas totalmente desconhecidos para eles naquela época.

Difícil destacar apenas uma faixa, mas podemos considerar como sendo a mais importante a suíte "Titanic", de cerca de 16 minutos divididos em cinco partes extremamente criativas e propícias a imaginação, constituindo-se em um verdadeiro filme sonoro.

Entretanto, não podemos deixar de citar a belíssima "Infinitas Terras" e seus climas absolutamente oníricos, a lisérgica "Inocência", também repleta de significados e possibilidades de interpretação e, finalizando, a magnífica "Novo Mundo", uma verdadeira sinfonia progressiva.

Enquanto o LP original possuía apenas cinco faixas, este relançamento em CD traz outras duas preciosidades inéditas gravadas no mesmo período: a psicodélica e experimental "O Templo" e a atmosférica "Encontros da Alma".

Tendo encerrado suas atividades antes mesmo do LP ser lançado (fato ocorrido em agosto de 1988), o ANNO LUZ foi mais um grupo de vida efêmera naquele período tão difícil para a Música Progressiva. Apesar disso, este trabalho obteve imediato reconhecimento no mercado internacional, notadamente nos EUA, Alemanha, Inglaterra, França e Japão, países que absorveram quase a totalidade da prensagem.

Esta formidável penetração, mereceu, além das mais elogiosas críticas, a honra de ser incluído no mais completo arquivo discográfico de rock europeu e norte-americano existente em formato de livro: o famoso ROCK RECORD, editado na Inglaterra e já em sua 7ª edição. Detalhe deveras importante é que, em meio a mais de 115.000 títulos ali registrados, os únicos brasileiros também presentes como solistas são o Sepultura e o Eumir Deodato.ANNO LUZ marcou também o surgimento da primeira gravadora especializada em Progressivo no Rio de Janeiro, a "Som Interior Produções Artísticas", de propriedade do Produtor Musical e Empresário Claudio Fonzi, um dos maiores divulgadores do Progressivo no país, colaborador de diversos veículos de comunicação - dentre eles o Whiplash, onde assina a coluna Horizonte Progressivo, proprietário da Renaissance Discos, e também o responsável pelo resgate digital desta preciosidade.