terça-feira, 13 de maio de 2014

Raul Seixas - O Dia Em Que A Terra Parou [1977]

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Por Rogério em Abstinência dos Sentidos

O dia em que a Terra parou Raul Seixas era um grande cinéfilo e por varias vezes usufruiu dessa cultura de massas em suas letras, aliás, o maior mérito dele na história da música brasileira foi justamente a popularização do rock no Brasil. Não é estranho um rockstar às avessas ser também um ícone popular?
Pois bem. A música “O dia em que a terra parou” do disco homônimo de 1977 foi composta por Raul depois que ele assistiu ao filme, mas ele visualizou na idéia do planeta paralisado outra coisa, o colapso do sistema.

A figura excêntrica de Raulzito somada ao que ele representa para o rock brasileiro as vezes acaba por ocasionar pequenos desvios biográficos. Por exemplo, é muito comum idealizar Raul como um agitador político, quando na verdade o máximo que ele era é um náufrago a deriva dos desmandos ditatoriais. Protestava porque era da sua natureza protestar e não por haver um real interesse nos destinos da política nacional.
A história mais conhecida e continuamente contada por ele mesmo nos shows é da música “Rock das Aranhas” que narra uma insólita transa lésbica. Na época a censura distribuía aos cantores um livreto, o “dicionário da censura”, com todas as palavras proibidas por um motivo ou outro, palavras inocentes como “povo”, “gente” e vejam só: “aranha”. Mas Raul não sofreu mais com a censura do que qualquer outro cantor, Chico Buarque mesmo foi impiedosamente perseguido e para escapar da censura ludibriava-a genialmente metaforizando suas letras mais subversivas. Na verdade, a loucura dos censores era tanta que o lema era “na dúvida, proíba”. Difícil mesmo era escapar ileso aos cortes e recortes e avisos de “censurado”.

Mas uma coisa eu reconheço, ninguém era mais estremo que Raul no palco. Um dos episódios mais clássicos foi quando ele incitou a galera a enfrentar os policiais que fiscalizavam o show. Nada mais subversivo que um show do Raul em plena ditadura. Era um artista de varias faces, não por acaso uma espécie de Bob Dylan brasileiro. Realmente, é fácil se confundir.

Então, voltando ao assunto inicial.

A grande maioria das músicas realmente exclamativas do Raul são do período pós ditadura, portanto – fora o exílio imposto graças à concepção de uma Sociedade Alternativa em território brasileiro que na pratica é a mesma sociedade concebida pelo Anarquismo – nunca houve um confronto direto entre cantor e generais. Mas Raulzito sempre inseriu em suas músicas e conversas e futuros projetos uma deformidade da civilização capitalista, o monstro Sistema.
Ah, finalmente cheguei onde queria.

Hoje em dia é muito comum ver certos roqueiros estereotipados falando do vilanesco Sistema como uma modalidade de McDonalds em escala global. Raul foi provavelmente o primeiro a abordar o assunto na música “O dia em que a terra parou”. O sistema como um relógio, onde cada engrenagem deve estar funcionando perfeitamente para manutenção de algo maior e regulação do tempo. E a paralisação de apenas uma dessas engrenagens significa a paralisação de todo o sistema. Em outras palavras, a ordem dos fatores altera o resultado.

Alguém poderia pensar que o berço do Sistema, como o conhecemos, foi a revolução industrial onde acontece a mecanização do trabalho e a revelação de um sistema controlador, mas na verdade tudo esta interligado. Até onde sei o sistema é anterior a ditadura, anterior a civilização e vou além, anterior até ao próprio big bang. O sistema é um emaranhado de perguntas sem respostas.

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