quarta-feira, 16 de abril de 2014

Wander Wildner -"Eu Sou Feio... Mas Sou Bonito!" [2002]


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Por Abonico R. Smith.
publicado em 11 de abril de 2008 no Mondo Bacana

Trovador de alma punk

Além de voltar a ocupar o lugar de vocalista dos históricos Replicantes, Wander Wildner viaja pelo país com sua própria banda divulgando seu terceiro álbum solo. “Eu sou feio... Mas Sou Bonito!” é o resumo da essência dos dois trabalhos anteriores. Do festejado Baladas Sangrentas ele trouxe a veia trovadora, os versos confessionais, por vezes sarcásticos, quase sempre escritos em tonalidade loser. De Buenos Dias!, trouxe a vitalidade, o punch, a visceralidade, a distorção, a altura. E, sobretudo, os acordes maiores – que preenchem dez das onze novas faixas.

Wander Wildner continua demonstrando todo seu desprezo pela estagnação promovida pela música brasileira overground.

Existem certos artistas que deveriam ser tombados e preservados como patrimônio histórico da cultura nacional, mas que por alguma conjuntura (astrológica, talvez; ideológica, com certeza) acabou relegados a vigésimo plano, tendo sua obra de primeira grandeza restrita à marginalidade da grande massa e em contato direto com apenas alguns interessados em proporção minúscula.

Wander Wildner é um destes caras. Seguidor da trajetória de um seletíssimo grupo – entre os quais estão incluídos Raul Seixas, Walter Franco, Itamar Assumpção, Jorge Mautner e seu conterrâneo Frank Jorge – ele traça pelos submundos da inteligentzia o futuro da música brasileira. Demonstra todo desprezo pela estagnação promovida por gente e corporações de cunho comercial e procura tocar lá no fundo dos corações despertos, seja com a agressividade herdada pelos tempos punk de Sangue Sujo e Replicantes (histórico grupo ao qual retornou há poucos meses) ou então empunhando o violão e fazendo baladas sinceras, pessoais e apaixonadamente escancaradas (que, com muita ironia, compõe a segunda parte do nome de seu selo/produtora/apelido, Punk Brega).

Há mais de duas décadas na estrada – como artista solo, vocalista do Replicantes ou iluminador de boa parte da nata da MPBC (Música Popular Brasileiro-Carioquense) – Wander voltou para o frio de Porto Alegre e de lá continua abastecendo, agora com mais regularidade, a sua carreira com novidades. Além da volta aos Replicantes – substituindo outra figura ímpar na cultura gaúcha, o ex-baterista/cineasta/professor Carlos Gerbase, também integrante da formação original do quarteto – o alemão de olhos verdes também encara umas viagenzinhas pelo país para divulgar, com sua banda de apoio, seu terceiro álbum solo, gravado no ano passado e lançado pela dobradinha [Punk Brega/Barulhinho]. Neste sábado, dia 7 de setembro, ele volta a Curitiba para uma grande celebração à independência. O local não poderia ser outro, senão o maior de todos os tempos alternativos da cidade, o 92 Graus – mais detalhes na agenda de shows.

“Eu Sou Feio... Mas Sou Bonito!” é o resumo da essência dos dois trabalhos anteriores. Da festejada estréia solo Baladas Sangrentas, de 1996, ele trouxe a veia trovadora, os versos confessionais, por vezes sarcásticos, quase sempre escritos em tonalidade loser – receita que na última década tem dado muito certo e atraídos fãs às pencas, como provam o sucesso de gente como Beck, Christina Ricci e Belle & Sebastian. De Buenos Dias!, gravado em 1999 com o trio punk Chulé de Coturno, trouxe a vitalidade, o punch, a visceralidade, a distorção, a altura. E, sobretudo, os acordes maiores – que preenchem na íntegra dez das onze faixas novas.

“Mantra das Possibilidades” abre o disco dando um chute na porta das infelicidades da vida. É apenas a repetição de três acordes básicos (dó, sol, fá – ou tônica, quinta e quarta) e três versos não menos básicos (“Minha vontade é ser bonito, mas eu não consigo, eu sempre volto atrás/ Sonho em ter cabelo comprido, mas eu não consigo, eu sempre corto mais/ Meu desejo é estar contigo, mas eu não consigo, eu sempre fico em paz”). O mantra começa no violão e segue com o acompanhamento do trio de apoio (no qual toca guitarra outra grande lenda do rock gaúcho, o jornalista/multiinstrumentista Jimi Joe).

“Damas da Noite” vem na seqüência com um country folk que remete a uma certa psicodelia não fosse o encorpamento de distorção agregado pelo meio do arranjo. Na voz de Wander, uma singela homenagem à mais antiga profissão do mundo. “Eu vejo mulheres na chuva da noite/ Entregando seus corpos pra qualquer um/ A velhos e gordos mais podres que a noite/ (...) Entregando seus corpos pra qualquer um/ Às duas da tarde, cinco da manhã/ Na cama, em qualquer lugar/ Sempre a postos pra saciar alguém/ São máquinas de sexo e prazer/ É tudo tão fácil pra você gozar/ Estão sempre prontas pro que der e vier, quem vier/ Eu admiro as mulheres que usam seus homens/ Fazem de tudo o que querem/ Por dinheiro ou prazer”.

Ainda no mesmo terreno de personagens não muito afortunados, Wildner escancara de vez em “Milonga Para Um Homem de Poucos Dentes”, única faixa do álbum a registrar um acorde menor (óbvio, pois acordes menores trazem a sensação de melancolia e tristeza e milonga sem chororô não seria uma milonga). “Mordo com vontade a carne que me sobra com poucos dentes que me restam/ Carrego dentro de mim a fina estampa que os meus tortos dentes não mostram/ Mas se a minha gargalhada te assusta não se preocupe, as aparências enganam/ Lembre-se que de perto ninguém é normal/ E a melhor companhia é só um cara legal/ Dentes bonitos me dizem pra Ter/ Um sorriso colgate pra sair com você/ Mas eu pergunto até quando você não vai ver/ Que a verdade está nesses dentes mordendo você/ Não vou gastar meu dinheiro no dentista pra te agradar/ Nem colocar dentadura postiça só pra te conquistar”, diz a fantástica letra. Wander ainda arruma tempo e espaço para zombar de si próprio, de sua marca registrada – que é o sorriso peculiaríssimo com a falta de alguns dentes de trás.

Wander também sabe se apropriar de composições alheias com muita identidade. Sarjetas e arrotos também aparecem em “Delírio 32”, cover de Nei Lisboa que ganha arrebatadora cara alt-psicodélica (o que é a combinação entre os berros e o deslizar do slide na guitarra durante o riff?). “Sétimo Céu”, de Jimi Joe, cai como uma luva na galeria de personagens losers do vocalista – além de atordoar os ouvidos quando a turbina dos pedais é ligada no refrão e transforma a música em grande hino grunge desgarrado de Seattle. Através de “Narciso Invertido”, feita por outro músico egresso da Barata Oriental (Nenung, hoje na dupla pop budista Os The Darma Lóvers), Wildner desencava sua veia puramente rock’n’roll. Entremeando riffs stoneanos vêm versos firmes e irônicos como “Keith Richards, Iggy Pop, é como eu quero estar/ O troféu e a champanhe talvez não seja eu que ganhe/ Não vou ser página da Caras e isso é muito bom/ Vejo as marcas no meu rosto e acho bem legal/ Veja, tudo vem e tudo passa, isso é natural/ Saca só o meu kit de beleza/ É meu coração, sim, com certeza/ Que se está feliz vê o universo todo se alegrar/ Veja só... esse sou eu!”.

E ele ainda se mostra insaciável na capacidade de criar grandes baladas. “O Sol Que Me Ilumina”, revestida de batidinha jingle-jangle (o que inevitavelmente deixa a faixa com cara de Byrds – e isso não é má coisa), é uma música de amor diferente. Descreve a admiração por uma menina comum, que faz terapia, sonha seguir carreira de atriz, rala trabalhando como estagiária e não perde tempo para falar sobre astrologia e filosofia. No encerramento, na quase-milongueira “Anjos & Demônios”, Wander finalmente se entrega às referências autobiográficas. Fala de um viajante hippie-cyber-punk que cede às tentações apenas porque sabe que seu caminho é seguir em frente em sua caminhada rumo à sua própria verdade. “Vasculhei o meu passado/ Vivo no presente/ E com quem tá do meu lado/ Anjos & demônios passam por mim/ Cruzam os céus e zombam de mim/ Anjos & demônios estão dentro de mim/ Eles sabem e vão comigo até o fim”.

Este é Wander Wildner, alguém que já foi capaz de instaurar um clássico hino punk dentro de uma gravadora multinacional (a BMG, que tem em seu catálogo três álbuns do Replicantes gravados para o selo Plug, não sabe o que ela está perdendo ao deixar de relançar “Surfista Calhorda”...) e hoje permanece com sua alma criativa, pulsante e intocável. No dia em que o Brasil descobrir seus trovadores contemporâneos, o país com certeza vai ser um lugar mais divertido e inteligente.

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