sexta-feira, 23 de maio de 2014

Di Melo, O Imorrível [2011]



Cultuado 'soulman' pernambucano dos anos 70, Di Melo é redescoberto em clipe dos Black Eyed Peas, disco novo e filme

Por Carlos Albuquerque
Publicado em 30 de junho de 2011no globo.com

RIO - Quem é "imorrível" sempre aparece. Fazendo jus ao estranho apelido, que ganhou após sobreviver a um acidente de moto, o cultuado soulman Di Melo faz uma rápida aparição no vídeo da música "Don't stop the party", dos Black Eyed Peas. Com imagens da mais recente passagem do grupo americano pelo Brasil, o clipe dá um close na capa do único disco que o cantor e compositor pernambucano gravou, em 1975, hoje considerado uma raridade.

O culto se explica. Trazendo as participações de Hermeto Pascoal, Heraldo Do Monte e Cláudio Beltrame, "Di Melo" caiu nas graças de DJs na Europa e EUA, nos anos 90, graças à inclusão de uma das suas músicas (a balançante "A vida em seus métodos diz calma"), na coletânea "Blue Brazil", da Blue Note.

Assista ao clipe de 'Don't stop the party', do Black Eyed Peas o álbum Di Melo aparece aos 6:07.

- Encontrei o vinil desse disco numa loja na Holanda, há alguns anos, à venda por um dinheirão - lembra Di Melo, que mora em São Paulo. - Quando me apresentei ao vendedor, ele quase caiu para trás. Disse que adorava minhas músicas, mas que achava que eu tinha morrido. Eu disse que era imorrível, mas ele não entendeu direito.

A fama procede. Mais de 35 anos depois do seu isolado début, Di Melo volta à cena, não apenas pelas lentes de will.i.am e cia. Cultuado por rappers como Emicida, ele prepara um novo disco e vê sua errante trajetória se transformar num filme - o documentário "Di Melo - O imorrível", de Alan Oliveira e Rubens Pássaro (dimeloimorrivel.com.br), previsto para ficar pronto em agosto. Uma excursão pelo Brasil com sua nova banda e uma volta à Europa também estão nos planos.

Fã de James Brown, Jimi Hendrix, Jackson do Pandeiro e Luiz Gonzaga, Di Melo migrou de Recife para São Paulo pela primeira vez no fim dos anos 1960. Manteve-se tocando na noite local até gravar "Di Melo", que, esgotado, chegou a ser relançado, em CD, em 2002, dentro da coleção "Odeon 100 anos", coordenada por Charles Gavin.

- Esse disco é realmente incrível - conta Gavin sobre o trabalho. - Ele tem uma coisa rara por aqui, que é o clavinete, instrumento usado por Stevie Wonder e outros astros do soul e funk dos anos 1970. Ele dá um balanço todo especial ao disco. E deve ser destacado o fato de ele ter sido muito bem gravado para a época. O som é ótimo.

Depois daquele disco, porém, Di Melo, imaturo, "se perdeu por aí", como diz, abandonando a carreira e voltando para Recife.

- Eu era muito jovem, estava naquela onda de curtir a vida. Aí, fumei umas coisas e resolvi ir embora - lembra ele.

Durante esse tempo em sua terra natal, acabou sofrendo o acidente de moto que lhe deu a fama sobrenatural.

- Me machuquei bastante e fiquei um tempo no hospital - conta ele. - Quando voltei a São Paulo, algum tempo depois, já estavam rolando esses boatos de que eu tinha morrido. Foi quando criei essa expressão, "imorrível".

Decepcionado com a industria fonográfica, o "imorrível" soulman passou a se dedicar às artes plásticas ("Sou meio um marchand", gaba-se) e voltou a cantar na noite.

- Posso me considerar um arteiro nato, tudo o que mexe com arte me emociona. Mas nunca deixei de compor e criar durante o tempo em que sumi. Tenho 400 músicas inéditas no baú lá em casa - garante ele, que para provar, cantarola uma delas, pelo telefone.

Em 2009, ao voltar a Pernambuco, para se apresentar em um festival em Garanhuns, Di Melo conheceu os fãs Alan Oliveira (de Recife) e Rubens Pássaro (de São Paulo), que sonhavam, separadamente, fazer um filme sobre ele.

- Foi engraçado, porque nos encontramos no festival e descobrimos que queríamos fazer o mesmo filme. O Di Melo nos apresentou e acabamos nos unindo num projeto só - conta Pássaro, que gravou aquele show e depois vários depoimentos sobre o cantor. - O filme é sobre a mitologia em torno da figura do Di Melo e desse disco, além de mostrar a rotina dele hoje em dia.

A tal rotina do pernambucano inclui levar a filha, de 4 anos, ao colégio. Foi a criança quem despertou nele o desejo de retomar a carreira artística.

- Quando eu vi aquela criatura no berço, pequenininha, totalmente dependente dos pais, me deu uma chacoalhada, como se ela dissesse: "Ei, velho, acorda pra vida". Aí, eu acordei mesmo - diz ele, que se apresentou recentemente na Virada Cultural de São Paulo. - Logo surgiu essa história do filme, vieram os shows e, agora, o disco. O filme ficou muito bonito, do tipo que engravida o coração. E o disco vem aí, todo transado e rebuscado, com a participação do Emicida e de alguns outros amigos. Tenho certeza de que vai agradar a fulanos, sicranos e beltranos.

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