domingo, 1 de dezembro de 2013

Wood & Stock – Sexo, Orégano e Rock’n’Roll [2007]

Mega 128Kbps


De Deck

Disco que reúne o fino da psicodelia musical brasileira, a trilha sonora do filme “Wood & Stock – Sexo, Orégano e Rock’n’Roll” une representantes da música setentista, como Rita Lee, Tom Zé, Novos Baianos e Arnaldo Baptista, a novos representantes da lisergia musical, como Júpiter Maçã e Mopho. Um deleite aos ouvidos de quem curte rock e MPB de todos os tempos.

1. Um Lugar do Caralho - Júpiter Maçã
2. Woody Woodpecker - Arnaldo Baptista
3. Um Oh! E um Ah! - Tom Zé
4. Quando Você Me Disse Adeus - Mopho
5. A Marchinha Psicótica de Dr.Soup - Júpiter Maçã
6. Hulla-Hulla - Rita Lee
7. Canção Para Dormir - Júpiter Maçã
8. Ferro Na Boneca - Novos Baianos
9. Paranormal - Matheus Walter
10. Querida Superhist X Mr.Fro g- Júpiter Maçã
11. As Mesmas Coisas - Júpiter Maçã
12. Chão de Estrelas - Rita Lee
13. The Freaking Alice (Hippie Under) - Júpiter Maçã
14. Eu Vou Me Salvar - Rita Lee

segunda-feira, 25 de novembro de 2013

A viagem psicodélica de Satwa faz 40 anos

Lailson e Lula Côrtes terminaram de gravar o primeiro disco psicodélico independente do país um dia 31 de janeiro
Por José Teles, publicado em 31/01/2013 no Jornal do Commercio

Há exatos 40 anos, nos estúdios da Rozenblit, os músicos Lailson e Lula Côrtes (1959-2011) finalizavam Satwa, o primeiro disco de rock psicodélico independente gravado no Brasil.

O independente, no caso de Satwa, vai de ser realmente um trabalho de artistas sem vínculo com uma gravadora, até a estética deste trabalho, totalmente na contramão do que se lançava até então no mercado nacional: “Não tentamos a Rozemblit antes. Viajamos na ideia do disco e Lula e Kátia falaram com seu Zé Rozemblit, pra saber o custo de estúdio, prensagem e impressão de capa. Nunca encontrei seu Zé Rozemblit. Pra ele, acho que éramos só uns meninos malucos que haviam alugado a fábrica. Kátia conhecia mais ele, pois são da comunidade judaica e o pai de Kátia era muito conceituado”, conta Lailson.

Tanto ele quanto Lula Côrtes foram apresentados a um estúdio de gravação no dia 20 de janeiro de 1973, quando começaram a aventura de Satwa. Uma aventura mesmo, porque todos nela envolvidos eram marinheiros de primeira viagem: “Condições muito básicas. Se fizéssemos o overdub muito distante da mesa, dava delay. Sério. Mas era bem espaçosos e era muito legal. Era a primeira vez que eu entrava em um estúdio de verdade, só conhecia estúdio de televisão. Eu falei pra Lula, na época, que a gente estava fazendo História, porque era bem claro que uma maluquice daquelas era algo fora do comum e todo mundo que tinha ouvido a gente tocar lá na casa dele ou escutado as fitas que ele tinha gravado quando a gente tocava lá, ficava desbundado. Então, o termo folk psicodélico ainda não havia sido criado, era só música, um terceiro som resultante do encontro das escalas ocidentais e orientais como teorizávamos nos papos cabeça que rolavam continuamente”, continua Lailson.

Quatro décadas depois, Satwa ainda continua sendo um projeto avançado até mesmo para os tempos atuais. Criado ad lib., ou seja, na hora, sem melodias assoviáveis, diminutas probabilidades de tocar no rádio, e com um título que não facilitava. Satwa, no máximo, poderia ser entendido como referência a sativa, de cannabis, a erva: “Coincidência sonora, claro! Só porque tem uma música fazendo a transcendente questão "Can i be Satwa?" surgem essas especulações... Nunca que tal associação de ideias passaria pela cabeça de dois artistas completamente normais como Lailson & Lula Côrtes em 1973” ironiza Lailson. Uma das definições de Satwa, encontrada no google: Satwa (do sânscrito), Deusa. O mesmo que sattva, ou pureza. Uma das trigunas, ou três divisões da natureza”.

Naturalmente, Satwa é um reflexo do seu tempo. Em 1973, para se usar um termo da época, o “desbunde” chegava ao auge (na ditadura, ou se era engajado, ou desbundado. Hippies, por exemplo, eram desbundados). Filosofias orientais, alucinógenos e “viagens” musicais eram uma das caraterísticas dos desbundados. Satwa foi a trilha sonora do desbunde. Um disco totalmente na contramão da MPB ativista de então

"Acrescentaria o fato de que o texto do disco (títulos das músicas e o resto da ficha técnica) são as letras do disco. Explicando melhor: como não usaríamos letras, os títulos tinham que deixar clara a proposta psicodélica (ou hippie, ou underground, ou de contracultura) da obra. Daí que elas contam a história daqueles tempos como a Valsa dos cogumelos ou o Allegro Piradíssimo (que eu traduzi na versão americana para Allegro Freakoutissimo para passar a mesma ideia)", ratifica Lailson.

"Outras músicas, como Lia Rainha da Noite e Amigo, surgiam das conversas entre eu e Lula. Quando a gente fez Amigo, ele achava que a música era como se dois amigos estivessem se encontrando no meio da rua, um vindo de um lado, o outro do outro e começava o papo. E era isso mesmo. Cada vez que a gente tocava, era a mesma música, mas a conversa era diferente”.

Das dez faixas do álbum, só uma não tem apenas Lula Côrtes e Lailson. O blues do cachorro muito louco (grafado “blue” nos créditos do disco), com a participação de Robertinho do Recife, uma celebridade local, primeiro guitar hero do Recife: “O Blues do cachorro muito louco era blues no sentimento, nos uivos, Mad Dog mesmo, mas um Dog muito Crazy, não exatamente um blues no estilo. Mas com a guitarra de Robertinho ganhou muito, ficando bem o contraponto do lirismo do resto do disco”, finaliza Lailson.
Download do álbum no post:
Lula Côrtes & Lailson - Satwa [1973]

Deus Nuvem - Waving At Us, We've Provoked [2012]

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Em seu CD de estreia "Waving at us, we've provoked" (lançado em fevereiro de 2012 e disponível gratuitamente), o Deus Nuvem passa por diversos territórios misturando cellos, metais, guitarras distorcidas, pianos e etc. Suas influências passam pelo Experimental, Fusion, Progressivo, Post-Rock, Jazz, Nu-Jazz, Psicodelismo e até mesmo o Clássico e temas Africanos. Prato cheio para quem gosta de música excêntrica e sem limites, literalmente sem limites.

"Tivemos um trabalhão para gravar esse disco e estamos muito felizes com o resultado. Foi um prazer materializar esses impulsos criativos. Espero que a galera goste do resultado e que todos os interessados em nosso som nos apoiem, pois devido às condições de pouco incentivo e espaço para músicas mais experimentais no Brasil, o Deus Nuvem acaba se tornando um "projeto ambicioso". Por isso contamos com a ajuda de todos que curtem o nosso som para nos ajudarmos com a divulgação (quanto mais gente sabendo do Deus Nuvem, mais chances teremos de tocar na sua cidade e também é um grande incentivo para continuarmos com esse projeto.)" - Leo

O CD conta com diversos músicos interessantes: O mestre violoncelista Lui Coimbra; Iuri Nicolsky (sax) e Antônio Neves (trombone), ambos do Nova Lapa Jazz; a cantora Bárbara Coelho e a percussionista Jéssica Araújo.

A banda disponibilizou o CD de estreia gratuito no site DeusNuvem.com, tanto para download quanto para ouvir online.

Atualmente seus shows são formados pelos músicos:
Thiago "Dagotta" Cereno - Bateria
Leo M Pe - Composições, Clarone, Guitarra e Synth
Fernando César - Baixo
André Fernandez - Violino
Michel Moro - Sax alto
Pedro Cabral - Teclado

Incluindo algumas participações especiais:
Nanda O Nanda - Voz
Juan Munhoz - Alfaia

sexta-feira, 22 de novembro de 2013

Mutantes - Tecnicolor [1990]

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Este álbum dos Mutantes foi gravado em Paris quando o grupo fez uma temporada de shows no final de 1970. Com quase todas as músicas cantadas em inglês, o disco lançaria a banda na Inglaterra e na França. Mas por algum motivo, a Polydor inglesa não se interessou pelo álbum. Não tendo sido lançado também no Brasil, essas gravações permaneceram inéditas até 1999, quando finalmente foi lançado em CD. Todas as faixas já haviam sido gravadas anteriormente pelo grupo em seus idiomas originais.


Arnaldo Dias Baptista - teclados, vocal
Ronaldo Leme - percussão, bateria
Sergio Dias Baptista - guitarra, vocal
Arnolpho Lima Filho - baixo
Rita Lee - vocal

1.Panis et Circenses - 2:13 - (Gilberto Gil/Caetano Veloso)
2.Bat Macumba - 3:19 - (Gilberto Gil/Caetano Veloso)
3.Virginia - 3:25 -(Arnaldo Baptista/Rita Lee/Sérgio Dias)
4.She's My Shoo Shoo - 2:55 - (Jorge Ben)
5.I Feel a Little Spaced Out - 2:53 - (Arnaldo Baptista/Sérgio Dias/Rita Lee)
6.Baby - 3:39 - (Caetano Veloso)
7.Tecnicolor - 3:57 - (Arnaldo Baptista/Sérgio Dias/Rita Lee)
8.El Justiciero - 3:54 - (Arnaldo Baptista/Sérgio Dias/Rita Lee)
9.I'm Sorry Baby - 2:45 - (Arnaldo Baptista/Rita Lee)
10.Adeus Maria Fulô - 2:42 - (Sivuca/Humberto Teixeira)
11.Le Premier Bonheur du Jour - 2:49 - (Jean Renard/Frank Gerald)
12.Saravah - (Arnaldo Baptista/Sérgio Dias/Rita Lee)
13.Panis et Circenses (Reprise) - 1:24 - (Gilberto Gil / Caetano Veloso)

domingo, 10 de novembro de 2013

Ludov - Eras Glacias [2013]

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Por André Felipe de Medeiros
publicado no Monkey Buzz

Em menos de quinze minutos, Ludov entrega uma obra consistente com uma ótima faixa e outras três que, ainda que menos memoráveis, não desagradarão em nada quem conhece e se interessa pelo som que a banda fez ao longo de sua década de carreira.

E foi como parte das comemorações do décimo aniversário que veio Eras Glaciais, conforme o próprio grupo anunciou durante seu show no Lollapalooza 2013. As quatro músicas aqui reúnem as boas letras de sempre e o instrumental caprichado, tudo muito bem estrelado pelo ótimo vocal de Vanessa Krongold.

Eras Glaciais, além de batizar o EP, tem a missão de abrir o repertório - tarefa cumprida com honras. Leve na melodia e densa na lírica, a composição fala sobre o passar do tempo e o aprendizado que veio com ele sobre ter alguém ao seu lado: “Não sirvo mais pra viver só, a solidão me ensinou um bocado, mas foi só”, como canta o refrão. Boas como poucas canções de apelo Pop desta temporada.

Contêiner parece uma versão light de We’re On the Run da Gold Motel e traz rimas simples em uma poesia bacana. Ela logo emenda em Essa Bandeira, já mais animadinha e a mais curta do disco. Gostosa e despretensiosa, ela preenche bem o espaço antes da última música.

Zen, como o nome já sugere, vem mais calma que as anteriores e poderia ficar muito bem ao lado de Black Spot da Local Natives em uma playlist. Mais etérea que as outras, ela aproveita para tocar em temas mais amplos da vida e, em um belo final, conclui: “Olhe para frente agora”, apontando a uma conclusão indefinida e abrindo caminho para futuros lançamentos na discografia da banda.

É nítido o quanto Ludov não precisa fazer qualquer esforço adicional para demonstrar sua maturidade perto de tantas bandas novas com quem divide espaço no cenário brasileiro. Eras Glaciais, a música, tem tudo para entrar nas listas de músicas preferidas de muita gente, enquanto Eras Glaciais, o EP, pode ser apreciado sem moderações.

terça-feira, 5 de novembro de 2013

Som Nosso de Cada Dia - Som Nosso [1977]

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Por Cláudio Fonzi
publicado em Sui Generis

Era lançado então o álbum “Som Nosso”, onde o Lado 1 recebeu o nome de “Sábado” e o Lado 2 de “Domingo”. O “Sábado” com sonoridade Funk, apropriada para “Os Embalos de Sábado a Noite” e o “Domingo” com músicas belamente Progressivas, perfeitas para o relaxamento e sossego de um “domingão”.

A idéia foi brilhante e o disco razoavelmente bem sucedido, mas, por diversas razões, a banda acabou se desfazendo. Como último suspiro, lançaram apenas mais um compacto, mas este teve a grata realização de o título de uma de suas músicas ter inspirado o nome de uma nova banda: a BANDA BLACK-RIO, famosa e histórica banda carioca de Funk instrumental.

P.S.: Importantíssimo ressaltar que este tipo de Funk setentista NADA, absolutamente NADA tem a ver com o “funk” existente hoje no Brasil…

domingo, 3 de novembro de 2013

Vespas Mandarinas - Animal Nacional [2013]


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Por Vitor Ferrari em Monkey Buzz
Quem disse que o Rock Nacional morreu? Bom, quem disse isso primeiramente está equivocado, e em segundo lugar, com certeza não conhece bandas como Cascadura, Vivendo do Ócio, Vespas Mandarinas, entre outras. Como dito em seu site oficial, as Vespas não são uma banda Indie, nem Punk, nem de Hardcore, são uma banda de Rock Nacional. E é isso que vemos em seu primeiro disco, Animal Nacional, músicas que se apresentam tanto ríspidas e diretas, quanto trilham caminhos mais líricos e poéticos, mas sempre com a alma intensa do Rock.

Gravado parte nos estúdios Tambor, no Rio de Janeiro, e parte no paulistano Costella, do guitarrista e vocalista Chuck Hipolitho, o álbum continua trazendo as influências oitentistas do Rock nacional somadas à doses poéticas, que observávamos nas compilações que antecederam o disco. O título da obra é retirado de um poema de Bernardo Vilhena, importante poeta e letrista, que já trabalhou ao lado de Lobão, Cazuza, Cássia Eller e que agora empresta seu talento como co-autor da faixa Santa Sampa. Outra parceira presente no álbum, fica por conta do titã Arnaldo Antunes, responsável por auxiliar na letra de A Prova.

A primeira faixa do disco já é conhecida dos antigos fãs. Cobra de Vidro já figurava no tracklist do EP Da Doo Ron Ron de 2010. Com leves alterações em relação à versão do compacto, como maior destaque para a linha de baixo no pré-refrão, a música cumpre bem a função de primeira faixa, recepcionando bem o ouvinte e sendo um single rico tanto no instrumental, quanto em sua letra urbana, uma das caracterísitcas mais fortes da banda, sempre citando situações do cotidiano e ilustrações poéticas de pontos da capital paulistana e que também podem ser ampliadas para demais grandes cidades do país. Não Sei o Que Fazer Comigo, cover da banda uruguaia El Cuarteto de Nos, remete a mais uma influência das Vespas, o Rock latino como já vimos em Antes Que Você Conte Até Dez - cover da banda espanhola Fito & Fitipaldis, presente no EP Sasha Grey, de 2011. Sua letra é noventa por cento fiel à original, os outro dez são alterações precisas e muito bem colocadas como referências a partido políticos, gírias e expressões de nossa cultura e que tornam a boa canção ainda mais próxima do ouvinte brasileiro.

Uma das mais intensas e encorpadas do disco, é O Inimigo que já é do repertório pré-Animal Nacional. A música já era executada pela banda em 2010 numa versão recheada de participações como Fábio do Cascadura, Victor Rocha da Black Drawing Chalks, Jajá Cardoso da Vivendo do Ócio e Pitty. A canção merece destaque por saber aliar um Rock mais denso à uma composição mais poética. Mesmo sendo direta e ríspida, a música apresenta uma construção lírica em um molde mais declamado, sem se pautar em modelos tidos como mais tradicionais do Pop e do Rock como repetição de versos. Tal formato dá à canção, que já é boa por si só, um toque a mais e um diferencial que podemos observar na banda.

Outra faixa que também vem do passado é Um Homem Sem Qualidades, música originalmente da Banzé, ex-banda de Thadeu Meneguini, guitarrista e vocalista das Vespas. Já apresentada em shows passados das Vespas, a música é pedrada e se mostrou bem recebida pelo público, que se não a conhecia dos tempos de Banzé, acabou conhecendo na atual execução. Boa tanto para se ouvir no volume máximo em casa, melhor ainda para uma versão ao vivo. Ouvi-la e ficar parado é simplesmente impossível.

Mais uma canção a ir para o lado poético é Distraídos Venceremos, que leva o nome de um livro do escritor e poeta Paulo Leminski - mais uma influência dos anos 80 brasileiro - e ganha coautoria de Adalberto Rabelo Filho, responsável também - entre tantas outras letras - por auxiliar Thadeu em Radioatividade da Vivendo do Ócio. Mesmos paras os que não conhecem o trabalho de Adalberto, ambas as músicas são provas de que as Vespas tiveram participação de mais um grande artista em seu álbum de estreia.

Fechando o disco temos O Herói Devolvido, anteriormente divulgada no canal oficial da banda no Youtube em vídeo, gravado no estúdio Costella em Maio do ano passado. A faixa, que já funcionava bem como single e na época já atraia a atenção do público para o primeiro trabalho da banda que estava por vir, continua com seu valor, agora dentro da obra.

O balanço final é de um primeiro álbum coeso e que soube trabalhar muito bem as influências de peso da banda, assim como ótimas letras e a boa conexão Rock x poesia, onde os dois lados conversaram bem, sem ofuscar um ao outro, sendo grande mérito da banda e de seus letristas. Tal belo trabalho resulta em uma prova contundente de que o bom e velho Rock nacional se encontra vivo e com qualidade.

quarta-feira, 30 de outubro de 2013

Azymuth - Outubro [1980]

 
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Por Ouveaê

Esse disco é a consagração do trio instrumental carioca formado no começo da década de 70 por José Roberto Betrami (teclado e percussão) Alex Malheiros (baixo e guitarra) e Ivan Conte (bateria e sintetizadores). Insistindo num bossa jazz samba fusion puramente instrumental na época em que a MPB era sinônimo de cantores, eles permaneceram às margens da popularidade na terra natal, embora tenham emplacados temas em novelas, como Linha do Horizonte, de 1975. Em 1978, graças a Airto Moreira, que os chamou para fazer algumas composições e acompanhar uma turnê de Flora Purim, fecharam contrato com a gravadora gringa Black Sun. Após o também ótimo Light as Feather, lançado em 1979, veio este Outubro, que mostra de maneira impecável o "samba de gringo doido" que mistura percussão afro from hell, guitarra roqueira, baixo fusion e sintetizadores a la Herbie Hancock fase Headhunters. Enfim, sonzera!



01 - Papasong
02 - 500 Miles High
03 - Pantanal (Swamp)
04 - Dear Limmertz
05 - Carta pro Airto (Letter to Airto)
06 - Outubro (October)
07 - Maracanã
08 - Um Amigo (A Friend)
09 - Dear Limmertz Prelude

segunda-feira, 28 de outubro de 2013

Márcio Mello - Ao Vivo No Rio Vermelho [2012]

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MÁRCIO MELLO NO OLHO DA RUA
Por Franchico no Rock Loco em 3 de janeiro de 2012

Cantor lança DVD gravado ao vivo na rua, em plena festa de Iemanjá, no Rio Vermelho - e dispara a metralhadora verbal contra o estado das coisas em Salvador

Márcio Mello dispensa apresentações. O cantor / compositor, que já namorou com o mainstream (na época de Nobre Vagabundo, hit na voz de Daniela Mercury), iniciou sua carreira no underground local, na banda Rabo de Saia. E é ali que ele, orgulhosamente, continua.

O testemunho inegável desta afirmação está no DVD independente que ele acaba de soltar: Márcio Mello Ao Vivo no Rio Vermelho. De cara, o que se pode dizer é que se trata do mais precioso documento audiovisual a sair do cenário do rock / música independente local.

Gravado no dia 2 de fevereiro de 2010, em plena festa de Iemanjá, o vídeo é o documento definitivo do show gratuito que ele faz todos os anos, desde 1998 (data que ele mesmo lembra, mas não tem certeza) na varanda da empresa gráfica Venture, no Rio Vermelho.

É um vídeo primoroso nos quesitos espontaneidade / verdade. Com diversas câmeras espalhadas em cima do palco e no meio da plateia, ele capta todo o clima de bagunça do evento, transportando o espectador para o meio do povo, entre doidões, gatinhas, roqueiros, malucos de rua, ônibus, carros e caminhões abrindo caminho no meio da multidão a todo momento – além de convidados inusitados, como o ator Fábio Lago (dando uma canja no pandeiro) e o ex-baixista do Camisa de Vênus, Robério Santana.

Porém, mesmo feliz com o resultado do DVD, Márcio anda muito descontente com Salvador – e com todo direito. No DVD, o baterista é seu amigo Paulo Perrone, que respira por aparelhos desde julho, após ser baleado durante um assalto.

Márcio já queria gravar um DVD ao vivo há muito tempo. Mas faltava uma oportunidade realmente bacana, com a sua identidade, para a coisa andar. “Cheguei a pensar em fazer de forma careta, em um teatro. Mas também tinha esse show no Rio Vermelho, que é demais”, diz.

Seus sócios foram contra. “Acharam a ideia ruim, o lugar sem estrutura e tal, até por que a gente não faz passagem de som para esse show”, conta.

”Mas, pô, nos anos 1970 era assim mesmo. Se ficasse ruim, não tinha essa de tocar a mesma música de novo e de novo. Era a coisa real. E é isso que eu quero. Se ficar ‘bagunçado’, dane-se”, acrescenta Márcio.

A coisa ficou tão divertida e espontânea que o espectador corre o risco de achar que certas passagens do vídeo foram “combinadas”, mas não: era só o caos conspirando a favor. “Tem uma hora que a lâmpada de um poste estoura, você acha que é fogo de artífício”, ri.

Ele conta que já fez shows de divulgação do DVD em São Paulo, Belo Horizonte, Curitiba e Porto Alegre com o Bizarromóvel, um caminhãozinho adaptado para shows.

“O executivo de marketing de uma operadora de telefonia viu o Bizarromóvel no Rio Vermelho e pirou. Detalhe: do marketing de Belo Horizonte. Os caras da mesma operadora daqui de Salvador não estão nem aí”, diz.

No dia 2 de fevereiro ele faz o show de lançamento do DVD, no mesmo lugar. A nota triste é que este deverá ser o último ano do evento que já rolava há mais ou menos 15 anos, já que a Venture, empresa dona do “palco improvisado”, já avisou a Márcio que está deixando o local.

Em 2012, Márcio pensa em gravar um álbum com músicas inéditas, seguindo o mesmo padrão despojado: “Vou fazer um acústico. Voz, violão e só. Hoje é tanta ‘mistura’ indigesta, tudo tem que ter DJ, VJ, toneladas de percussão, mas a verdade é que tudo começa ali, no violão”.

“Tá na hora de ter coragem, de fazer guerrilha. Salvador tá careta demais”, constata. “A cidade toda está em crise total faz tempo. E é crise artística. Tá na hora de expulsar a meia dúzia de mauricinhos que produzem o mercado e ditam o que todo mundo vai ouvir”, dispara.

“Chega da música baiana com cara de jingle da Bahiatursa, essa caricatura do negão feliz rebolando de óculos escuros. A verdade é que o negro baiano continua sendo vendido como escravo, só que em outro patamar. Se antes eram escravos do senhor de engenho, hoje eles tem de rebolar pra enriquecer os donos de bloco e das bandas, que são todos meninos branquinhos, ex-alunos de escola particular. Nada mudou”, diz.

“Outro dia um cara me perguntou se eu ouvia pagode. Eu disse que não. Ele estranhou: ‘E você ouve o quê?’, como se só existisse isso. Percebeu o nível da mediocridade?”, pergunta.

Márcio acredita que essa mediocridade já contaminou todas as instâncias da sociedade. “O axé não deixou nada para cidade, só destruição. Acabou com o Carnaval, a noite, até a arquitetura. A cidade está feia. A conclusão que eu tiro é que uma cidade com música ruim é uma cidade ruim de se viver”, afirma.

“Aí fica todo mundo com cara de Carlinhos Brown. Tem uns 15 anos que aturamos um cataclisma de Carlinhos Browns, todo mundo igual. Ninguém pensa em fazer um trabalho artístico. Só pensa em se dar bem”, lamenta.

Márcio confessa que não tem mais prazer em estar na cidade, ainda mais depois do que aconteceu com o baterista Paulo Perrone.

“O cara tá semimorto no hospital por que foi tirar 300 contos no banco. Poderia ser eu ou você. A música que as pessoas insistem em ouvir de forma ensurdecedora nas ruas é estressante. Você não consegue tomar uma cerveja em paz nessa cidade. A gente tem que ficar trancado em casa, por que Salvador nos tortura o dia inteiro”, desabafa.

Com isto, só resta desejar boa sorte aos desavisados turistas...
Assista o show na integra no youtube:

domingo, 27 de outubro de 2013

Little Quail And The Mad Birds - Lírou quêiol en de méd bãrds [1994]


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Banda brasiliense formada em 1988 por Gabriel Thomaz (guitarra e vocais) Zé Ovo (baixo e vocais) e Bacalhau (bateria). Tocando psychobilly com letras hilárias e apesar de reconhecimento no underground, nunca alcançou sucesso comercial e acabou em 1996 após o lançamento de dois álbuns, Lírou Quêiol en de Méd Bârds (1993) e A Primeira Vez Que Você Me Beijou (1996) além de uma EP (1998).

Gabriel Thomaz hoje está no Autoramas, Bacalhau no Ultraje a Rigor e Zé Ovo acabou por não tocar em outra banca se tornando roadie do Maskavo Roots.

A música “Aquela”, sucesso na voz do Raimundos, na verdade é do Little Quail.

Esse álbum é tão raro que nem Gabriel Thomaz tem o original.



1 Stock Car
2 1,2,3,4
3 Berma Is A Monster
4 Família Que Briga Unida Permanece Unida
5 Samba Do Arnesto
6 Baby Now
7 O Sol Eu Não Sei
8 Mamma Mia
9 Cigarette
10 Essa Menina
11 Azarar Na W3
12 Aquela
13 Silly Billy
14 Bom-Bom
15 Sex Song
16 Pump Up The Bird



sexta-feira, 25 de outubro de 2013

Bandas independentes revigoram a cena do rock instrumental brasileiro


Internet é aliada importante para gravar e divulgar discos, enquanto festivais formam público para o gênero
Por Tristão Girão no Divirta-se
Vendo 147
Uma banda afirma que suas influências vão de Robert Johnson a Luiz Caldas, passando por Slayer; a outra cita pintura, design e literatura como fontes de inspiração. Há quem não tenha o menor receio em rotular seu trabalho como instrumental pop e há quem aposte no clone drum (dois bateristas tocando na mesma bateria). Um acha que DVD é o melhor suporte para lançamentos, enquanto o outro acaba de lançar CD por selo sul-coreano. Uns tocam pouco e outros vivem da estrada.

A nova cena do rock instrumental brasileiro está exuberante, com talentos surpreendentes de norte a sul do país – literalmente. Talvez, isso se deva a fato de não ser ditada por regras ou compromissos comerciais.

De Natal, vem a Camarones Orquestra Guitarrística. O objetivo do quinteto é tocar música divertida para dançar. “Nossas principais referências são temas de desenhos animados antigos, filmes, paisagens sonoras ou acontecimentos do cotidiano. Não temos o menor problema em ser pop instrumental. Talvez isso tenha criado uma aura de simpatia e alguma conexão com as pessoas ‘além-cena independente’”, define o tecladista Anderson Foca. O trabalho mais recente é 'O curioso caso da música invisível', que chegou à praça este ano.

Com três discos lançados (virtualmente e em CD), a banda comemora seus mais de 300 shows desde 2008, somadas três turnês em todas as regiões brasileiras, além da Argentina e do Uruguai. “O momento é ótimo. Vivemos uma pequena crise no país, a estagnação da economia influencia todas as áreas, mas as marolas estão aí para a gente surfar. Cabe a cada um achar a prancha ideal”, garante ele.

A potiguar Camarones Orquestra Guitarrística faz música para dançar
Comportamento
Para André Ramiro, guitarrista da banda curitibana Ruído/MM, o momento é o de de sempre: “Grupos com música difícil têm seus fiéis seguidores. Instrumentais fáceis ganham alguns fãs a mais”. Fora isso, todos os integrantes têm empregos fora do palco (André mora no Rio de Janeiro), o que torna a agenda de shows complicada. “Às vezes, tentamos emendar tours, mas nunca dá certo. Fins de semana são sempre bem-vindos, mas quando o show é interessante, damos um jeito para tudo”, diz ele.

Isso não o desanima. André vibra ao se lembrar de shows no Recife e em Maceió, onde conheceu fãs, e de apresentação durante o carnaval belo-horizontino, quando os paranaenses venderam muitos discos. Aliás, já são quatro os álbuns lançados pelo grupo (o último é 'Introdução à cortina do sótão', de 2011), influenciados por gama de referências que vai de Debussy a Stephen Malkmus e poderia se encaixar na definição um tanto vaga de post-rock.


De toda forma, acredita André, há que se reconhecerem mudanças na cena do rock: “Hoje, temos meios mais eficientes para liberar o esporro musical instrumental. Banda nem lança mais CD, é preciso ter DVD e cada faixa ser trilha sonora para um filme bacana. A música instrumental ‘não masturbável’ serve para isto: dar vida ao imaginário das pessoas”.

Por falar em público, Dimmy “O Demolidor”, um dos dois bateristas da banda baiana Vendo 147, que lançou o álbum 'Godofredo' recentemente, alegra-se em constatar que o estilo rompe barreiras: “Temos grupos que conseguem tocar para plateias imensas, que atingiram espaço que não se imaginava. Um fator que contribuiu para isso foi a mudança do comportamento do próprio público, mais aberto a novas experiências sonoras”.

Robert Johnson, Luiz Caldas, Slayer e Led Zeppelin estão na lista de influências da banda, caracterizada também por contar com dois instrumentistas tocando a mesma bateria. Eles compartilham o bumbo, sentados um de frente para o outro. O quinteto lançou um EP e um álbum nos formatos físico e virtual, e faz pelo menos 50 shows por ano em todas as regiões do país. O público é formado por “pessoas de 3 a 80 anos”, conta Dimmy.

Sem obrigações 

Paranaenses da Ruído/MMse dividem
entre a carreira e outros empregos
Considerado inviável e complicado por alguns, o rock instrumental parece estar mesmo transcendendo essas concepções. “Nunca nos prendemos a conceitos, premissas ou obrigações. A nossa única obrigação é com a gente, fazer algo de que realmente gostamos. Nunca nos preocupamos se algo é certo, errado ou inviável”, observa Thivá Fróes de Souza, guitarrista do The Tape Disaster, de Porto Alegre (RS).

Apreciadores das bandas dos anos 1960 e 1970, do rock alternativo e também de pintura, design e literatura, os gaúchos começaram a divulgar seu trabalho só pela internet. Para o lançamento conjunto dos dois EPs, receberam oferta do selo sul-coreano Onion Records, o que resultou no CD físico 'The Tape Disaster compilation'.

“Pessoas do círculo underground nos apoiam muito, assim como gente de diferentes círculos. Há música que parece ser acessível para todos. Ou assim esperamos. Sempre vai ser o momento certo de mostrar algo verdadeiro, significativo e positivo”, conclui Thivá.

Palavra de especialista

Edu Pampani -
colecionador de discos

Há demanda


A partir dos anos 2000, aumentou consideravelmente o número de bandas fazendo rock instrumental no Brasil. Compro discos há 36 anos, já tive loja durante 18 anos, sou representante de CDs independentes há 11 e nunca vi a cena do rock instrumental brasileiro tão fortalecida. Cada banda com seu estilo próprio. Elas surgem de todos os estados e vêm conseguindo visibilidade por conta dos festivais. São nomes como Pata de Elefante (RS), Burro Morto (PB), Banda de Joseph Tourton (PE), Macaco Bong (MT), Chimpanzé Clube Trio (SP), Hurtmold (SP), Caldo de Piaba (AC) e Aeromoças e Tenistas Russas (SP), todas com público formado e informado. Se elas aparecem, é porque há demanda. BH não fica atrás: temos 4Instrumental, Iconili, Di Bigode, Constantina e Lise. Desculpe se esqueci alguém. O grupo que deu uma boa alavancada no rock instrumental foi o Macaco Bong, expoente do Circuito Fora do Eixo, que transitou por todos os festivais do país durante alguns anos.



Rock de Sabará para o planeta

Com músicas como 'A fuga das mulheres ruivas para Vênus' e 'A lage, o sofá e o asfalto' no repertório, a banda 4 Instrumental, de Sabará, na Grande BH, não tem público-alvo. Quem afirma é o tecladista, pianista e flautista Tiago Salgado. “Recentemente, fizemos um show em São José dos Campos (SP). Tinha de criança de colo a senhores de mais de 60 anos. Foi uma satisfação muito grande para nós”, afirma.

Ouvintes de música erudita e de heavy metal, os quatro integrantes se sentem livres para criar. Em 2009, eles lançaram o primeiro EP; em 2011, partiram para o disco de estreia, 4.1, gravado em Buenos Aires, na Argentina, e mixado em BH. “Nosso maior interesse é divulgar o trabalho. A internet nos permite fazer isso no mundo todo sem sair de casa”, justifica o músico.

O maior desafio do rock instrumental não é ter público, mas palco e condições para tocar. “As pessoas estão mais abertas às novas bandas. Isso é bom, mas pouquíssimas casas de shows são abertas ao autoral independente. Por outro lado, temos os festivais, que nos permitem chegar ao grande público”, diz Tiago.

O grupo tem feito cerca de 12 shows por ano. Tiago considera essa média baixa e diz que os custos (passagens aéreas, hospedagem, alimentação e traslado) dificultam a contratação de artistas. “Uma banda independente consegue, sim, fazer muito mais shows, mas nem sempre as condições para isso são honestas. Ainda é muito caro circular por outros estados. Uma viagem para o Nordeste para quatro pessoas custa cerca de R$ 5 mil, só de passagem”, conclui. 

quinta-feira, 24 de outubro de 2013

Suely e Os Kantikus - Que Bacana/Esperanto [1968]


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Por Roberto
publicado em Jovem Guarda - Recorda É Viver

Suely e Os Kantikus, grupo de Suely Chagas, que contava com a participação dos guitarristas Lanny Gordin e Rafael Vilardi.

Tratava-se de um grupo de São Paulo que, juntamente com outras bandas como Os Baobás, esteve na origem de Os Mutantes.

Gravou apenas este single (compacto 1968), com as músicas 'Que Bacana' e 'Esperanto'. O tema 'Que Bacana' ganhou o Festival Universitário realizado pelo Canal 4, de São Paulo.

É um disco autenticamente “garageiro”, liderado pela voz evocativa de Suely, mas enquadrada do começo ao fim no fuzz.

Mais tarde, Suely Chagas abandonou o grupo e emigrou para os Estados Unidos, perdendo-se a sua pista.

terça-feira, 22 de outubro de 2013

Camarones Orquestra Guitarrística - O Curioso Caso da Música Invisível [2013]

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Por Ildrimarck Rauel
publicado em 06 de maio de 2013 no Esquina

A Camarones Orquestra Guitarrística evolui a cada novo disco que lança. Se o primeiro estava aquém do que se espera de uma banda de rock instrumental – justamente que a ausência de um vocalista não seja sentida pelo público –, “Espionagem Industrial”, de 2011, é uma espécie de transição, com ótimas músicas dividindo espaço com outras mais difíceis de engolir.

Em “O Curioso Caso da Música Invisível”, o quinteto atinge o seu melhor momento em cinco anos de carreira. São 11 faixas que passeiam por diversos estilos, do rocksteady ao rockabilly, e que refletem bem as experiências (porque não, aprendizagens) acumuladas nas recentes turnês pelo Brasil e pela América Latina.

As guitarras ainda são protagonistas nesta “orquestra”, mas já permitem a utilização de outros instrumentos, digamos, menos comuns ao rock – como a exótica percussão indígena usada nas gravações. Mesmo assim, tudo foi pensado para funcionar também no palco, o ponto forte da banda, reconhecido pelos próprios integrantes.

Foram os shows que fizeram da Camarones um nome conhecido no cenário independente, por isso alguns temas podem soar melhor quando forem reproduzidos ao vivo – esse é o caso de “Pigmalião” e “O Sapo”. Já “Corra Bátima”, “Cabron” e “Gloom” (composta em parceria com Niela e que faz uma homenagem à banda da qual ela é vocalista) se encaixam bem no álbum e prometem promover uma festa na plateia.

O grupo sofreu uma mudança de baterista no período entre o segundo e esse terceiro disco. Saiu Xandi Rocha e entrou Artur Porpino (conhecido também pelo seu projeto pessoal Ar, Tu & o Vendaval). O novato já estava muito bem adaptado à banda, antes mesmo de começarem as gravações – tocando em boa parte da turnê do “Espionagem Industrial”. Porém, ainda restava saber qual seria sua participação no processo criativo do novo trabalho. Entre as composições que assina junto com Léo Martinez (guitarrista), estão as boas “Bravo Xerife Bonzo” e “Tony Silverado”. Além de aparecer bem em “Flecha Ligeira”, uma das melhores da setlist.

Para quem gosta da parte mais visual dos discos, apenas um último detalhe que pode ser interessante: a capa de “O Curioso Caso da Música Invisível” foi produzida mais uma vez por César Valença – responsável também pelo projeto gráfico do álbum anterior. A ilustração foi inspirada no futebol, mais precisamente no belo mosaico organizado pela torcida do Borussia Dortmund durante uma partida da Liga dos Campeões da Europa.

O novo trabalho da Camarones Orquestra Guitarrística foi gravado no Estúdio Dosol, em Natal, e produzido por Anderson Foca (além da co-produção realizada pela própria banda e por Henrique Geladeira).

segunda-feira, 21 de outubro de 2013

Plebe Rude - Mais Raiva do Que Medo [1992]

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Por André Mueller
publicado em X da Questão

A Gravação de Mais Raiva do Que Medo

Mais Raiva do Que Medo tinha tudo para ser o disco perfeito da Plebe Rude, que havia retornado ao seu núcleo original, Philippe e André X. Muita gente esquece que nós dois tocamos meses juntos, na biblioteca da casa do Philippe no Lago Norte, onde compusemos Pressão Social e Nada (versão original) entre outras. Isso no início dos anos 80s. Depois que entraram o Gutje e, meses depois, o Jander. Nós que cunhamos o conceito “Plebe Rude”, seu som e sua direção.

Voltando ao tema, nos vimos de novo como sendo a Plebe, depois de três disco, vários sucessos, shows a rodo, duas brigas internas que geraram baixas, de queridinhos da gravadora a ser despedido sem nenhuma explicação. Então foi baixar a cabeça e fazer um exercício de lição aprendida. E aprendemos. Nas novas composições, o resgate das origens pós-punk e punk 77, temperadas com o que estava surgindo na cena naquela época. Lembro-me que ouvíamos muito Soundgarden, Body Count, Nirvana, Mudhoney e, pasmem, Metallica. Nada de tentar provar a destreza musical, nos focamos em compor canções fortes, que fizessem a cabeça balançar e pensar ao mesmo tempo.

Foi uma época que me lembro com muito carinho. O Philippe morava a algumas quadra da minha casa. Ia para lá a pé, ele pegava o violão, seu caderninho de idéias e a gente ficava horas compondo. Estávamos confiantes e entusiasmados com a possibilidade de gravar um novo disco, dessa vez pela independente Natasha Records, que seria distribuída pela Sony.

Fizemos tudo certinho, só entramos no estúdio com as músicas redondas e prontas. Escolhemos um produtor novato, o Paulo Junqueiro, que já havia trabalhado em outras gravações de bandas nacionais, mas nunca como produtor. O estúdio seria o famoso Nas Nuvens. Todas as cartas indicavam que seria um discasso.

Então o que houve de errado? No produto final não transparece a força das canções, o som meio pífio, o que aconteceu? Acho que o que matou a grandeza do disco foi a produção do Paulo Junqueiro. Cheguei à conclusão que técnico de som nunca dará um bom produtor – a parte técnica fala mais alto do que a artística. No caso do Paulo, nem suas habilidades técnicas foram usadas, ele simplesmente não se interessou. Acostumado com Barão Vermelho e Kid Abelha, não sabia o que fazer com aquelas músicas e deu o mesmo tratamento dado às bandinhas pop com quem havia trabalhado.

Durante o mês de gravação, não deu um pitaco sequer. Isso nos assustou, pois imaginávamos que seria igual ao Hebert, que atuou como produtor, psicólogo e amigo. O Paulo foi a antítese disso! Quando chegou a hora de gravar os vocais, fomos mostrar as letras e ele não quis ler! Disse que letra não importa!!! Foi aí que sacamos que tinha algo errado no ar.

Outro bola na trave que fizemos foi não entrosar os bateristas que fariam a gravação o suficiente antes de entrar nos estúdios. Teve músicas que eles pegaram na hora, e isso não é bom na interpretação.

Uma historinha sobre o Paulo. Tinha outra banda gravando no Nas Nuvens, cujo nome esqueci, mas era bem rock comercial, o contrário de tudo que a Plebe era. Ele tinham um pôster que penduraram na cantina. No pôster, uma mulher pelada. Coisa de adolescente mesmo. Um dia, vendo aquilo, desenhei umas imagens pornoeróticas em cima. Acho que também desenhei em cima do logo da banda. Os moleques ficaram ofendidos! Foram reclamar para o Paulo, que ao invés de me defender, mostrando a tempestade em copo de água que estavam fazendo, me fez ligar e pedir desculpas. Imagine a situação: “olha, desculpa pelas pirocas e peitos que desenhei no seu logo, enxuguem as lágrimas, nunca mais vou expor vocês a imagens tão fortes, eu prometo.” Foi ridículo.

Noutra noite, eu estava defendendo que o De Falla era melhor que o Midnight Blues Band (banda de blues do Barão/Kid Abelha) e o Paulo ficou ofendido. Como que um cara que acha que MBB é melhor que De Falla pode sequer pensar em gravar a Plebe? Desastre total.

Na mixagem, minha primeira filha, Alice, veio ao mundo. Isso foi em novembro de 1992. Gozado que cada disco da Plebe significa um marco na minha vida. Dediquei todo o esforço colocado na obra à ela.

Insisto, as músicas do MRDQM são muito fortes. Aurora, por exemplo, ganhou um gás com a interpretação do Txotxa e Clemente. Sem Deus Sem Lei, Mais Tempo Que Dinheiro, são músicas que, gravadas de outro jeito, poderiam estar entre os clássicos da Plebe. Aos poucos, quero salvar algumas em shows futuros.

Resumindo, planejamento perfeito, execução dúbia. Assim que vejo esse nosso quarto disco, do qual gosto muito. Foi importante, pois afirmou a determinação minha e do Philippe de continuar com a Plebe Rude.

sexta-feira, 18 de outubro de 2013

Marília Pera - Feiticeira [1975]

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Por Mauro Ferreira
publicado em 28 de agosto de 2011 no Notas Musicais

Em 1975, Marília Pêra teve a primazia de lançar o cantor e compositor carioca Eduardo Dussek em disco. Então ilustre desconhecido, Dussek teve sua marchinha Alô Alô Brasil gravada com esfuziante alegria pela atriz-cantora e incluída no álbum de estúdio que registrava músicas do espetáculo Feiticeira. Com sua mistura de música, poesia e teatro, Feiticeira foi fracasso histórico na trajetória gloriosa de atriz. A mistura de música, poesia e teatro - urdida em roteiro assinado pelo diretor Fauzi Arap com Nelson Motta, sob a direção de Aderbal Jr. - descontentou o público, à época mais seduzido por espetáculos engajados (o próprio Nelson Motta considera hoje que o tom íntimo e pessoal do espetáculo era inadequado para aqueles tempos de resistência). Mas o fato é que o disco é bom. A oportuna chegada de Feiticeira ao CD - em reedição produzida por Thiago Marques Luiz para a gravadora Joia Moderna, do DJ Zé Pedro, fã do disco - atesta que os poderes musicais de Feiticeira foram subestimados por público e crítica em 1975. Ouvido 36 anos após sua fracassada edição original, o disco resiste bem ao tempo e se revela até visionário pela reunião em sua ficha técnica de talentos emergentes. Com interpretação precisa da atriz, que expõe a fragilidade e a força aparente do narrador da letra, a paranoica O Medo - uma das poucas músicas que expressava o sentimento da face mais consciente de um Brasil amordaçado pela ditadura - evoca algo dos cantadores nordestinos e, não por acaso, é da lavra de Alceu Valença, então pouco conhecido, apesar de na época já ter no currículo dois álbuns, um deles dividido com Geraldo Azevedo, adaptador do repente A Natureza (Zé Vicente da Paraíba e Passarinho do Norte). Também em início de carreira, Azevedo toca violão na faixa, uma das melhores do disco, como enfatiza com razão o DJ Zé Pedro no texto que escreveu sobre Feiticeira para o encarte da reedição. O disco foi produzido por Guto Graça Mello e Nelson Motta, autores de cinco das 13 músicas do álbum. A melhor delas é o bolero A Cara do Espelho, que - também não por acaso - passaria 23 anos depois pelo crivo severo de Nana Caymmi, que reviveu o tema em seu álbum Resposta ao Tempo (1998). Já Dança da Feiticeira é valorizada pela participação de Walter Franco, então em seu auge criativo, enquanto o rock Avô do Jabor - assinado somente por Nelson - teve seu pegada anos 50 realçada na gravação feita por Marília com o lendário trio Vímana, formado por Lobão, Lulu Santos e Ritchie, três nomes que o Brasil ouviria com atenção a partir da década de 80. Mas os tempos eram outros e Estado de Choque capta a agonia dos porões sangrentos do país em gravação pontuada pelo trompete de Márcio Montarroyos (1949 - 2007). Parceria de Jards Macalé com Duda que seria incluída por Macalé em seu álbum Contrastes, de 1977, Sem Essa reverbera essa mesma tensão típica dos claustrofóbicos anos 70. Mas Feiticeira tem também leveza. É com suavidade vocal que Marília Pêra caiu no Samba dos Animais (Jorge Mautner) e ressaltou o clima bucólico de Bentevi, tema da dupla Luhli e Lucina, convidada da faixa. Em contrapartida, a atriz-cantora abriu a voz e a veia histriônica ao reviver Canção pra Inglez Ver com toda a verve exigida pela música de Lamartine Babo (1904 - 1963). Enfim, Feiticeira tinha, sim, poderes musicais que foram (injustamente) desprezados em 1975, mas que saltam aos ouvidos nesta bem-vinda reedição de 2011. Não os subestime...