quarta-feira, 16 de outubro de 2013

Brazilian Guitar Fuzz Bananas: Tropicalista Psychedelic Masterpieces, 1967 - 1976 [2010]

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Por Alexandre Galvão
publicado em 28 de outubro de 2010 no Uivos, Sussuros & Gritarias

Ontem estava dando aquela olhada diária no jornal e me deparei com uma matéria que me deixou interessado em saber o resultado da obra. O título da matéria era: "Coletânea reúne faixas dos primórdios lisérgicos do rock brasileiro".

Tentei procurar no cérebro alguma banda brazuca que poderia se encaixar aí. "Casa Das Máquinas? Mutantes não vale. Um amigo me falou de uma banda, mas... esqueci o nome. Hmmm, vamos ver esse negócio."

Assim como acontece com os "verdadeiros" grandes músicos brasileiros como o Mutantes citado, Tom Zé ou Villa Lobos, só lá fora alguém dá atenção, se impressiona e a primeira cousa que faz é editar e gravar um disco que, no final, terá grande repercussão, matérias positivas e, aí sim, vem pro Brasil. Aconteceu novamente.

O brasileiro Joel Stone, que vive em Nova Iorque e tem um sebo com o ótimo nome de Tropicália In Furs ("The best record shop on Earth", diz o sítio ou "Não há em nenhum lugar no mundo onde você pode encontrar gravações como aquelas", nas palavras do DJ Egon) acabou de montar uma coletânea que é a mais impressionante que já ouvi, juro! O nome é esse que está no título acima (Brazilian Guitar Fuzz Bananas: Tropicalista Psychedelic Masterpieces, 1967 - 1976) . Felicidade pura.

São 16 músicas louquíssimas, totalmente desconhecidas da maioria dos seres vivos. O cara fez um verdadeiro garimpo que nem Indiana Jones teria chegado perto.

Assim, conhecido, apenas o "comedor da Janis" Serguei com a música "Ouriço" ("Esse bicho é muito louco e quer me morder", canta). De resto, mas não menor que esse figura do r'n'r: Fábio, Celio Balona, Tony E O Som Colorido, The Pops, Marisa Rossi e assim vai.

Lisergia até no nome: "Lindo Sonho Delirante", "Som Imaginário de Jimi Hendrix", "Vou Sair Do Cativeiro", "As Turbinas Estão Ligadas", "Que é isso?"...

E mais. O CD simples ou vinil duplo vem com um livro colorido em inglês e português, pôster em três dimensões acompanhado do óculos e mais um vídeo com comentários. Desde que ouvi, sonho em ter esse trabalho físico em minhas mãos.

Concordo com o que disse Marcus Preto na matéria: "o material é uma espécie de elo perdido da nossa história musical."


A1. Célio Balona – Tema de Batman
A2. Loyce e Os Gnomos – Era uma nota de 50 cruzeiros
A3. The Youngsters – I Want To Be Your Man
A4. Serguei – Ourico

B1. Fábio – Lindo Sonho Delirante (L.S.D.)
B2. Tony e Som Colorido – O Carona
B3. 14 Bis – God Save The Queen
B4. Banda De 7 Léguas – Dia De Chuva

C1. Ton e Sérgio – Vou Sair do Cativeiro
C2. Ely – As Turbinas Estão Ligadas
C3. Os Falcões Reais – Ele Século XX
C4. Marisa Rossi – Cinturão de Fogo

D1. The Pops – Som Imaginário De Jimmi Hendrix
D2. Loyce E Os Gnomos – Que é Isso?
D3. Piry – Herói Moderno
D4. Mac Rybell – The Lantern

sexta-feira, 11 de outubro de 2013

Som: entre a fidelidade e a nostalgia

Por Eduardo Pinheiro
publicado em 30 de janeiro 2013 no Papo de Homem

Você com certeza já se deparou com aquele defensor do vinil, dos amplificadores valvulados, com aquele crítico do som digital, mas será que é assim mesmo? Qual o fundamento para a preferência de um ou outro formato? Qual é objetivamente melhor?
Jack White é um defensor do vinil. Mas isso é por conta do tipo de música que ele ouve e a maneira com que ele veio a conhecer esse tipo de som. Abaixo, explico melhor
A segunda lei da termodinâmica simplesmente impede que haja um dia reprodução verdadeiramente 100% fiel de um som. Além disso, filosoficamente falando, um som não é só uma mistura de vibrações, substâncias, reflexos e impactos. Também não é só a posição de nossa cabeça no mundo, e os vários fatores do ambiente físico; as fontes de som importam, mas ouvir ocorre em contexto, é um ato interpretativo, portanto exige participação e engajamento e, assim, também varia muito.

O aspecto mais importante da criação e reprodução, principalmente de música é que este é, desde o princípio, um processo artificial. Esse é um ponto importante, porque isso muitas vezes é esquecido, mas lembrar disso nos ajuda a desbaratar boa parte das confusões com relação ao que é melhor em termos de som. Em outras palavras, existe uma diferença entre fidelidade, que é reproduzir o som o mais próximo possível do que ele foi produzido, e o que efetivamente “soa melhor” para nós.

Muitas vezes não estamos em busca de fidelidade, e não há nenhum problema com isso.

Por exemplo, as pessoas que preferem o vinil louvam suas qualidades orgânicas e, em particular, como os graves são envolventes. Isto é totalmente verdade. No entanto, o som digital, como ele é registrado num CD, por exemplo, é efetivamente mais fiel (isso pode ser fisicamente medido).

Os graves envolventes do vinil são resultado de distorções eletromecânicas: e aí que está, o tal grave envolvente é um “artefato” introduzido pelo modo de reprodução, ele não é fiel a música que é produzida normalmente (a não ser que ela seja produzida de forma a exatamente imitar esse artefato). Porém, o que ocorre é que os artefatos digitais existem e, embora sejam mais sutis, nós, ao longo do tempo (e também pela questão de hoje ser mais incomum) criamos uma relação emocional com os artefatos do vinil.

Então o vinil tem um som diferente, menos fiel, com mais artefatos (além da distorção nos graves, os estalidos, e muitos outros tipos), mas que pode nos soar melhor por uma série de razões. E, de fato, podemos argumentar que certas músicas, particularmente as antigas, foram pensadas para serem ouvidas nesse meio – e que, portanto, existe uma “fidelidade” no sentido de ouvirmos como era ouvido no passado.
Link YouTube | Entendeu agora a graça do cara? As canções antigas que ele tanto preza soam melhor em seu contexto

Sem dúvida, para um purista, ouvir Charlie Patton no Youtube não faz juz aos cilindros de metal em que suas músicas foram gravadas, algumas delas recuperadas como forro de um galinheiro. Quem tem oportunidade de ouvir uma bolacha 78 de Skip James em um gramofone, como no filme Ghost World, por favor o faça.

No entanto, é preciso frisar, embora o som digital, mesmo nas taxas de amostragem de um CD (taxas estabelecidas numa era em que a computação caseira era milhares ou milhões de vezes menos potente do que hoje), é mais fiel. Se gravamos um mesmo instrumento, num mesmo recinto e com as mesmas características, num dispositivo analógico e num digital, e medimos os resultados, isso se tornará claro.

Poderia ser argumentado que nos testes cegos de audição, pode haver uma tendência para o vinil: mas tal teste só seria possível com alguém que não foi de nenhuma forma acostumado com nenhum dos formatos. Ou, talvez, com o som de um vinil gravado no CD: se não houver uma tendência, ainda assim, para o vinil, estará provado que o CD é mais fiel.

Mas só isso: que é mais fiel. E parece sensato, fisicamente falando, pensar que é mais fiel.

Porém, nem só de taxas de amostragem e espectros de frequência vive o som digital: é fato que os primórdios da internet trouxeram à tona a compressão de áudio com perda, através da psicoacústica.

Sim, estou falando do MP3, que ainda é o som que você vai encontrar na maioria dos serviços de streaming, como o Youtube ou o Rdio, bem como na vasta maioria do material pirateado que pode ser encontrado na rede.

O MP3 é um saco de gatos. No geral, se você puder evitar e conseguir um arquivo em FLAC (um modo de compressão sem perda), isso é o melhor. Se um MP3 vai resultar em uma boa audição ou não, isso vai depender de vários fatores, o principal deles, sua capacidade de ouvir e interpretar som.

De modo geral, mesmo os mais bem feitos MP3, com grande bitrate, na faixa de 320 não variável, possuem um pouco menos do que em áudio se chama “espaço aural”. Em outras palavras, o principal artefato do MP3 é efetivamente retirar do som aspectos “espaciais” dele que, a bem dizer, para a maioria das pessoas, são imperceptíveis.

Afinal, muita gente ouve música pensando e prestando atenção em muita coisa, menos na música

O MP3 foi, de fato, desenvolvido tendo em mente que certas coisas nunca vão ser ouvidas ou percebidas por certas pessoas. Assim, a não ser que você treine seus ouvidos de audiófilo, um MP3 de boa qualidade, em geral, não vai ser muito distinguível de um FLAC ou outro padrão de som digital sem perda por compressão (CD, Apple Lossless, etc). Também vai depender muito da música sendo comprimida: quaisquer sons que contenham estruturas muito aleatórias, tais como chuva, os pratos e muitos outros instrumentos percussivos são particularmente distorcidos nos formatos comprimidos tais como o MP3.

Além de os engenheiros deliberadamente alterarem o som para ele ficar digitalmente menor e mais fácil de transitar pela Internet discada de mais ou menos 1996, e usarem noções subjetivas tais como a psicoacústica para fazer essas alterações, as pessoas que geraram esses MP3 a partir de seus CDs e outras fontes, na maior parte dos casos, não eram engenheiros de som.

Elas usaram softwares diversificados, alguns muito bons e seguindo especificações de engenheiros, outros feitos nas coxas, e ao usar esses softwares para converter seus CDs, o fizeram com diversas capacidades de configuração e entendimento do que estavam fazendo. Daí elas distribuíram para a internet, e muito desse conteúdo permanece circulando na Internet desde a década de 90.

Portanto, se você baixa um MP3 (ou ouve no Youtube e outros serviços), é provável que ele seja de baixa qualidade, ou que, pelo menos, ele podia ser melhor. Ainda assim, você hoje acha a maioria das coisas também em FLAC, até mesmo algumas vezes gravadas de vinil.

Outro âmbito em que há discussão com relação ao som é no de amplificadores valvulados. Os sistemas de som geralmente reconhecidos como tendo melhor qualidade são os valvulados. Novamente, estritamente falando, entre o estado sólido e a válvula, há diferenças, mas essas têm menos a ver com fidelidade do que com preferência por diferentes artefatos ou distorções.

As válvulas, em geral, quando bem construídas (e bem caras, requerendo bem mais manutenção, em todos os casos, do que os equipamentos sem elas), produzem distorções mais harmônicas. Reitero novamente que boa parte do que achamos “bom” no som é com base em artefatos e não em fidelidade: no caso em geral, preferimos a distorção das válvulas, que também é um artefato.

Embora os dispositivos de estado sólido (transístores, circuitos integrados) tendam a ter uma distorção mais aleatória, e, portanto, menos harmônica e menos atraente enquanto artefato para a maioria de nós, eles (numa relação preço/qualidade com as válvulas) tendem a ter menos distorção geral. Menos artefatos, mais fidelidade.

O problema maior é que os dispositivos valvulados atuais raramente vão ser completamente valvulados, então você provavelmente vai encontrar os dois tipos de artefatos, de eletrônica convencional, e a de tubos. Ás vezes, em muitos casos dá para dizer, até o terceiro artefato estará envolvido: fontes digitais, ou alguma parte do circuito operando por conversão digital. Todos os artefatos possíveis presentes. Isso não quer dizer que o som necessariamente acabe ruim.

Como estamos falando de grana preta, todos esses sons são bons. O difícil mesmo é quando você tem um orçamento e precisa pesar objetivamente qual o melhor equipamento que você pode comprar: aí, meu amigo, você vai ter que fazer um doutorado em engenharia elétrica e outro em engenharia de som, fazer muita pesquisa, e talvez também meditar muito para se livrar de ideologias, apegos, marcas, publicidade, símbolos de status, e assim por diante.

Sem falar que se você entrar nessa, você vai ter que começar a pensar em coisas como alterações de materiais no seu ambiente, ângulos de caixas de som, equalizações por canal, aparelhos caros para medir os reflexos nas diversas faixas de frequência em cada ponto do recinto, qualidade das caixas, e assim por diante. Ou, para escapar desta parte, usar sempre apenas bons fones de ouvido.

Não reclame do seu celular. Ele faz muito mais que qualquer tecnologia imaginada há 25 anos

De fato, o irônico é que qualquer dispositivo (tipo o seu smartphone) com um bom fone de ouvido, tocando um formato sem perda, vai lhe dar uma qualidade de som quase inimaginável de tão cara na década de 80 (Apenas atente: o Android a partir da versão 3.2 tem o FLAC como formato nativo – todos os players tocam, o iPhone só vai tocar o Apple Lossless, bem mais difícil de encontrar em versão pirata. Mas você sempre pode pagar: se quiser além de tudo não poder copiar sua música para seus amigos). Se me lembro dos primeiros equipamentos de som onde ouvi Led Zeppelin, é possível que eu chore. O hiss (ruído branco na faixa dos agudos) era tão alto num volume relativamente baixo que era impossível dormir com o som ligado, sem música tocando.

Ainda assim, quando esquecia as imperfeições e não comparava com o som dos meus amigos ricos, estava tudo muito bem. Mas muitas vezes quando estou ouvindo música no meu notebook com fones de ouvido e percebo a qualidade, lembro com certa satisfação como era caro e difícil ter um som bom naquela época.

O aspecto final da questão válvula vs estado sólido é em instrumentos como a guitarra. Nesse caso, a não ser que você tenha uma preferência esquisita pelos artefatos do estado sólido, é evidente que a válvula é a melhor opção. Isso ocorre porque não só a distorção (mesmo com som “limpo”) valvulada é mais harmônica, mas porque ela interage através de feedback eletromecânico com os componentes. Em outras palavras, o som faz vibrar os componentes da válvula e essa vibração mecânica produz alterações no conjunto elétrico da coisa toda. Então é difícil uma guitarra soar como esperamos e queremos que uma guitarra soe sem um amplificador valvulado.

Mas espere, e os simuladores digitais de amplificadores? Ah, daí a coisa complica mesmo. Em testes às cegas, particularmente nos sons distorcidos, engenheiros de som não consequiram distinguir softwares como o Amplitube dos amplificadores que ele estava simulando!

E, de fato, a não ser que você seja rico como o David Gilmour e tenha um vasto galpão cheio de equipamento vintage de guitarra, a flexibilidade que tais ferramentas proporcionam é incomparável. Na verdade, Gilmour deve ter que pagar uma equipe só para ficar montando e desmontando conjuntos de equipamentos que você facilmente (e, segundo engenheiros, com qualidade) pode simular no computador.

Porém, tudo isso tem mais a ver com orçamento, status/moda e praticidade do que com som. Algumas vezes encontramos algum “xiita” do vinil ou outro fundamentalista os simuladores de amplificadores de guitarra, mas embora haja motivos para curtir a experiência do vinil, eles não são motivos objetivos, em todo caso.

Como eu disse, seu smartphone tocando FLAC está mais do que bom.

quarta-feira, 9 de outubro de 2013

Somos Tão Jovens [2013]

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Thiago Mendonça busca Renato Russo em trilha de Somos tão jovens 
Por Marcos Sampaio
publicado em 27 de junho de 2013 no O Povo On Line

Um dos filmes mais aguardados de 2013, Somos tão jovens (Antonio Carlos Fontoura) contou a história do ídolo Renato Russo (1960 – 1996), desde sua adolescência até a formação da Legião Urbana. A difícil tarefa de reviver uma das vozes mais poderosas do rock nacional caiu sobre os ombros de Thiago Mendonça, ator carioca que já tinha interpretado o sertanejo Luciano em 2 filhos de Francisco. Cumprindo bem sua tarefa, Thiago construiu bem seu Renato Russo, apesar das muitas cobranças que já eram esperadas. Com o mesmo cuidado e responsabilidade usados nas telas, ele agora assume o papel do cantor na trilha oficial do filme, lançada pela gravadora Universal. Claro que, nem de longe, a reinterpretação de clássicos da Legião por parte do elenco de Somos tão jovens se equipara aos originais. No entanto, creio, não era essa a intenção da homenagem. Ainda mais, colocar Thiago para cantar Que país é esse?, Fátima, Eu sei e outras canções foi uma atitude acertada e corajosa. Se tivessem trazido os registros originais da Legião, a trilha de Somos tão jovens não passaria de uma coletânea. Além de Thiago Mendonça, também participam das 17 faixas do disco Nicolau Villa-Lobos (filho do Dado), Carlos Trilha (fiel colaborador dos legionários), Dengue (baixista da Nação Zumbi) e outros. Em alguns momentos, o disco Somos tão jovens é até capaz de empolgar, como na instrumental Benzina. Ou seja, se você é um fã ardorosa da Legião, pode comprar e elogiar. Se não, assista o filme e ouça os originais.

Veja as faixas da trilha sonora de Somos tão jovens:

1. Tempo Perdido ... Thiago Mendonça
2. Ainda é Cedo ... Thiago Mendonça
3. Benzina ... Instrumental
4. O Reggae ... Instrumental
5. Tédio (Com Um “T” Bem Grande Pra Você) ... Thiago Mendonça
6. Tic-Tac ... Instrumental
7. Por Enquanto ... Thiago Mendonça
8. Piano Tempo ... Instrumental
9. Taguatinga – Variação Sobre Faroeste Caboclo ... Instrumental
10. Eu Sei ... Instrumental
11. Movimento do Tédio ... Instrumental
12. Blitz da Rockonha ... Instrumental
13. Rock N’ Roll Rocket ... The Royal Bastards
14. Geração Coca–Cola ... Instrumental
15. Que País é Esse? ... Instrumental
16. Fátima ... Instrumental
17. Variação Sobre Tempo Perdido ... Instrumental

terça-feira, 8 de outubro de 2013

O Que é FLAC e Suas Vantagens

Por DoctorBR
publicado em 15 de maio de 2008 no Hardware.com.br/comunidade 

FLAC é um codec de áudio e a abreviação significa Free Lossless Audio Codec (Compressor/Descompressor de Áudio Livre de Perdas) e é um formato similar ao MP3, mas infinitamente superior em termos de qualidade, já que não existe perda. O FLAC é comparável ao formato WAV em termos de qualidade e ainda tem algumas vantagens, como você verá abaixo.

A compressão feita pelo codec FLAC não remove qualquer informação nos dados, como acontece com codecs como MP3, AAC, Vorbis e outros, que cortam freqüências (entenda como instrumentos musicais) e removem informações no áudio, descartando assim dados importantes da música.

FLAC usa um processo similar ao usado pelo WinZip, WinRAR e tantos outros programas que comprimem dados sem descartar nenhuma informação, exceto pelo fato de que com FLAC a compressão é muito melhor porque ele foi programado especificamente para áudio e você pode ouvi-lo em muitos aparelhos e softwares, como por exemplo, o Windows Media Player, o Winamp ou qualquer outro aplicativo que utilize o filtro Directshow. E isso acontece em tempo real e sem forçar seu sistema, exatamente como um MP3.

Se o FLAC for comparado com um formato como WAV, a principal vantagem está na redução no tamanho do arquivo, proporcionando então um melhor armazenamento, que geralmente fica de 40% a 50% menor. Além disso, o FLAC tem a habilidade de embutir MetaData ou Tags (dados sobre os dados) dentro do arquivo de áudio, que são similares às IDE3 Tags dos MP3, o que não é possível no WAV. Essas Tags ou rótulos são usados para armazenar informações importantes tal como o nome do artista, da música, a fonte, o ano, imagem da capa e etc. Você deve incluir estas Tags ou rótulos sempre que extrair (ripar) um CD, para que seja possível organizar e encontrar facilmente as músicas nas suas bibliotecas digitais. Clique aqui para ver como o FLAC se comporta no Windows Media Player quando comparado ao WAV.

Se o codec FLAC for comparado ao MP3, a maior diferença está na integridade da fonte do áudio, que é mantida no FLAC, o que não acontece no MP3. E como mencionei, você pode usar suas músicas codificadas com o codec FLAC normalmente no seu computador, como se fossem MP3.

FLAC é o mais popular e eficiente formato usado por proprietários de CDs que desejam preservar suas coleções e ou tornar sua biblioteca digital, perfeita. Se o CD original for perdido ou arranhado, uma cópia em FLAC das faixas do CD garantirão uma exata duplicação deste em qualquer momento. Uma restauração a partir de um arquivo como MP3 é impossível. Se o Exact Audio Copy (EAC) for usado para extrair as faixas do CD, como mostrado no guia Como Ripar CD Corrretamente com o Exact Audio Copy (EAC), que você pode ler clicando aqui, um arquivo CUE será criado e permitirá, entre outras coisas, gravar um CD que será idêntico ao original, incluindo a ordem das músicas, CD-Text e muito mais, como se fosse uma imagem ISO reduzida severamente no tamanho.

Clique aqui para ver uma página comparando os codecs que não descartam dados ou informações das músicas (codecs lossless). Esta página foi criada pelo site HYDROGEN AUDIO, que é muito respeitado por profissionais, em termos de informações sobre áudio.

Não se esqueça que existem muitos programas que convertem FLAC para MP3 ou outro formato. Mas faça a conversão em uma cópia, de forma que o arquivo FLAC seja mantido para futuras conversões e ou arquivamento, afinal ele é o arquivo máster. E para este trabalho sugiro um utilitário excelente, que é o dBpowerAmp Music Converter R12.4 REFERENCE, que além de super leve, e funcionar em qualquer versão do Windows, é muito fácil de usar. Para aqueles que usam DAW (Digital Audio Workstation), o codec FLAC pode ser usado normalmente com a ajuda de plugins ou filtros.

É interessante mencionar que um arquivo codificado com alto bit rate permite downsample, que em português quer dizer reduzir o bit rate, e conseqüentemente o tamanho do arquivo sem gerar artifícios de compressão tão evidentes, e uma música codificada com um baixo bit rate não permite upsample, ou seja, aumentar o bit rate sem perder qualidade no áudio e sem gerar artifícios de compressão.

Informações Técnicas e Detalhes Sobre Codificações

Para aqueles que gostam de informações técnicas, serei breve nos exemplos e explicações sobre o processo de compressão de arquivos de músicas.

Muitos codificadores usam um Low Pass Filter para codificar (a partir de agora usarei a abreviação LPF). O filtro é configurado para cortar freqüências acima de certo ponto e deixar outras freqüências passarem. A razão pelo qual eles foram programados para fazerem isso é que freqüências altas são mais difíceis de codificar, e como a maioria dos computadores da década passada (década do surgimento do MP3) eram lentos, a única solução foi essa.

Codificadores configurados em 128 Kbps tipicamente usam um LPF ajustado para cortar em 15 kHz e muito raramente em 16 kHz, dependendo do fabricante do codec. Isso significa que as freqüências mais lindas, ou os instrumentos mais agradáveis são cortados. Quando se aumenta ou se configura o bit rate (bitragem) para 192 Kbps, por exemplo, o LPF é configurado para cortar as freqüências acima de 17 kHz. Mas mesmo um MP3 com bit rate de 320 Kbps, que é a máxima configuração para codecs MP3, e que se aproxima do limite de freqüências que nós humanos conseguimos ouvir, que é 20 kHz, ainda aplica muita compressão no áudio, e é possível notar claramente a diferença se comparado a um FLAC, que é encorpado, enquanto que o MP3 com 320 Kbps deixa muito a desejar, como você verá nas imagens abaixo.

As codificações mostradas nas imagens abaixo foram todas feitas usando o dBpowerAmp Music Converter, e o codec LAME mp3 v3.97, que é o melhor codec de MP3 da atualidade, principalmente por também ter o código aberto, como o FLAC.

As imagens servirão de base para um futuro tutorial ou para aqueles que queiram se aprofundar no assunto. Existe uma pequena diferença entre a imagem 1 e as outras, e isso se deve ao fato de que a resolução do monitor usado para capturar a imagem 1 é diferente do monitor usado para capturar as outras. Mas não deverá ser um problema ou dificultar nenhuma comparação, e caso isso aconteça, poderei fazer outros testes e editar esta postagem. Clique em cada link para ver as imagens:

Imagem 1 - codificada com FLAC

Imagem 1 - codificada com LAME 128kpbs

Imagem 3 - codificada com LAME 192kpbs

Imagem 4 - codificada com LAME 320kpbs

Se forem comparadas, as imagens 1 e 4, facilmente a diferença entre um FLAC e um MP3 com 320 Kbps codificado com o codec LAME mp3 será notada. Você também conseguira visualizar os artifícios da compressão facilmente.

O codec FLAC foi programado para ser flexível e ajustável aos avanços tecnológicos futuros, e além de ter o código aberto, tem todas as vantagens que mencionei aqui e muitas outras, que não convém citar neste momento. FLAC é o codec lossless do futuro, e assim que a massa descobri-lo forçará os fabricantes a adotá-lo como o codec padrão para áudio, como aconteceu com o MP3 a mais de 10 anos atrás, quando a internet era discada e exigia que as músicas fossem codificadas tão severamente para que fossem adicionadas em páginas na internet.

As músicas continuarão sendo produzidas como são, mas os codecs não. Se você quer arquivar e ou fazer backups dos seus CD, ou criar bibliotecas digitais, altamente sugiro começar a usar o codec FLAC, que lhe servirá para todos os propósitos!

Perdoem-me se cometi muitos erros, sou apenas um profissional de áudio e vídeo, não um escritor ou redator.

Abraços a todos e aproveitem o codec FLAC.

Humberto Gessinger - Insular [2013]

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Por Anderson Nascimento
publicado em 26 de setembro de 2013  no Galeria Musical

“...Daqui pra frente estou decidido, nada será como tem sido...ter escolhido este caminho só faz sentido sem pressa e para sempre...” canta Humberto Gessinger em “Terei Vivido”, faixa de abertura de seu primeiro álbum solo – se considerarmos “Humberto Gessinger Trio” como um álbum de banda -, o recém lançado “Insular”.

Por mais que Humberto divague sobre a própria existência já na faixa inicial de seu disco – “Provavelmente terei vivido mais da metade de minha vida no século passado” -, ecos dessa própria existência coabitam algumas das faixas de seu novo disco. Logo na segunda faixa, por exemplo, a boa “Sua Graça” traz fortes referências sonoras no seu primeiro riff à “Loteria da Babilônia” (1974) de Raul Seixas, em um improvável elo que obviamente rolou sem conhecimento de causa.

No geral, “Insular” é mesmo um disco solo de Humberto e jamais poderia ser estampado com o rótulo “Engenheiros do Hawaii”, salvo em alguns poucos momentos como a explosiva “Plano B”, “Bora”, e o certeiro single “Tudo Está Parado”, que já está rolando nas rádios e é certamente o grande destaque do álbum.

Talvez pelo fato de esse ser um disco solo, Humberto está bastante à vontade no disco, gravando músicas de sonoridades tipicamente sulistas, casos de “Milonga do Xeque-Mate” e “Segura a onda, DG”. Não que isso seja uma novidade na obra de Humberto, haja vista canções salpicadas em vários discos de sua famosa banda. Mas aqui as canções menos na praia do Pop-Rock são as que mais caracterizam o disco.

Nessa onda, entram também a belíssima “A Ponte Para o Dia”, que traz Luke Faro dividindo os vocais com Humberto, em canção que poderia estar no último álbum da banda “Novos Horizontes” (2007), e “Recarga”, canção escrita com Duca Leindecker, que ganha a voz e o acordeon de Rafael Bisogno.

Os fãs dos Engenheiros vão gostar das referências à banda ao longo do disco. A já citada “A Ponte Para o Dia”, por exemplo, traz o riff de “Pampa no Walkman”, do GLM (1992), já a baladona “Tchau Radar, A Canção”, traz em seu nome a referência à um disco responsável por trazer os Engenheiros de volta para o grande público.

Com saldo positivo, “Insular” é disco agradável, cheio de boas canções e belas composições, que se caracteriza pela saudável mistura de música regional, folk e Pop-Rock.

segunda-feira, 7 de outubro de 2013

Eloy Fritsch - Cyberspace [2000]




Quarto disco do tecladista da banda Apocalypse lançado pela Rock Symphony. De todos este é o mais new age, com passagens calmas e pastorais. É claro que existem os momentos progressivos do disco (principalmente as três primeiras músicas). Virtuoso, com claras influências de Vangelis, Jarre e Wakeman, este disco tem tudo para agradar aos ouvintes que adoram desde solos perfeitos à cama de teclados.

domingo, 6 de outubro de 2013

Alta Tensão - Nigéria [1990]

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Atendendo pedido anônimo, disponibilizo o terceiro e último álbum dessa excelente banda de metal sul-mato-grossense que não teve o reconhecimento nacional que deveria.

Veja também:
Alta Tensão - Portal do Inferno [1986]

sábado, 5 de outubro de 2013

The Baggios - Sina [2013]

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Por Carlos Eduardo Lima; 24/09/2013
publicado em 24 de setembro de 2013 no Monkey Buzz
Um dos motivos da inconstância do rock nacional de boa qualidade é a incapacidade das bandas e artistas locais em se apropriarem da linguagem americana mestiça original e torná-la o mais brasileira possível. Claro que há formações capazes de emular sonoridades gringas que têm trabalhos de qualidade, mas é sempre mais interessante quando surge alguém que torna o que nasceu lá nos anos 50 do século XX, algo "novamente novo".

Com The Baggios é assim. Oriundos de São Cristóvão, estado do Sergipe, Julio Andrade (guitarra e voz) e Gabriel Carvalho (bateria), já têm certa quilometragem, materializada em alguns EP's e num disco de estreia. Sina é o segundo, lançado neste ano, que já traz uma ousada visão conceitual, além de uma produção de gente grande. Os vocais de The Baggios lembram esses iluminados que fizeram o Rock parecer brasileiro, principalmente Raul Seixas, que, em algumas passagens, parece ter retornado do além para participar. É justamente essa aparência 100% nacional que salva a dupla de parecer uma mera imitadora estética de duos econômicos ruins (White Stripes) e mesmo bons (Black Keys), especialistas em revitalizar as raízes do Rock lá fora.

Destaques absolutos para a abertura com Afro, que serve como uma câmara de descompressão da mesmice e mediocridade reinantes e conduz o ouvinte para um mundo empoeirado, na beira dos trilhos de uma ferrovia que vai do nada para lugar algum, que parece ser o cenário ideal para as aventuras de Sina. Em Esturra Leão, metais e andamento híbrido de xote e rock, dão o caminho pela estrada, enquanto Um Rock Para Zorrão pega pesado no chamado blues primordial e enfia uma bateria pesada pela goela do ouvinte abaixo, para chegar em Domingo, uma balada Seixas-hendrixeana e no andamento que tangencia Creedence Clearwater Revival em Tardes Amenas para chegar no final psicodélico de Descalço.

The Baggios fogem, não só da bundamolice do Rock de matriz clonada de Los Hermanos, como amplia o terreno para novas bandas que desejem saber onde tudo começou, na lama movediça do Blues e, no caso deles, da aridez natal. Sina parece forjado no perrengue, no peito e na raça, com grande resultado. Parabéns a todos os envolvidos.

terça-feira, 1 de outubro de 2013

Titãs - Titanomaquia [1993]


Por Lucas Troglio
publicado em 30 de julho de 2012 no Whiplash

Os TITÃS são um dos maiores nomes do rock nacional. Sendo responsáveis por clássicos como "Cabeça Dinossauro", "Õ Blésq Blom", "Acústico MTV Titãs" e "Jesus Não Tem Dentes No País Dos Banguelas", estes paulistanos lançaram em 1993 um disco que viria a sacudir a indústria musical nacional, o "Titanomaquia".

Para entendermos o "Titanomaquia" devemos saber o que aconteceu anteriormente. Em 1991 os TITÃS lançaram um disco que foi muito incompreendido: "Tudo Ao Mesmo Tempo Agora". O álbum de produção da própria banda, recebeu duras críticas, sendo classificado como um álbum imaturo e de baixa qualidade. O grupo que era responsável pelos melhores lançamentos da época produziu "Titanomaquia" juntamente com Jack Endino (que já trabalhou com artistas como NIRVANA e BRUCE DICKINSON), para responder à crítica do trabalho anterior. Além disso, ARNALDO ANTUNES deixava a banda para dedicar-se à seus trabalhos individuais, como sua carreira solo e a literatura.

Titanomaquia não foi um sucesso comercial, mas não chegou a ser um fracasso, já que fãs de música pesada começaram a se interessar pela banda, e os antigos gostaram dessa grande atitude dos paulistanos. Naquele período as vendas chegaram a 150 mil cópias.

É interessante percebermos a perda de popularidade que a música nacional sofreu nos anos 90 com o crescimento do grunge. Os olhos da indústria fonográfica se voltaram para o estrangeiro, e bandas nacionais buscaram retomar a atenção do público de diversas formas. Os TITÃS deram peso ao seu material.

Nas duas primeiras faixas, "Será Que É Isso O Que Eu Necessito?" e "Nem Sempre Se Pode Ser Deus", já se compreende que a banda não estava se importando com o que a crítica dizia, e estava preocupada apenas em fazer a música que acreditava. Ambas são respostas aos críticos.

"Hereditário" é a única cantada por NANDO REIS, que não encontrou na musicalidade do disco algo que ele se encaixasse. "Estados Alterados Da Mente" e "Agonizando" são de peso, e com letras fortíssimas. "A Verdadeira Mary Poppins" é uma das grandes do disco, instrumental preciso e muito trabalhada na bateria, vale perceber a grande influência grunge da faixa. "Dissertação Do Papa Sobre O Crime Seguida De Orgia" é simplesmente genial, uma letra que cospe na cara do próprio ser humano, atitude muito rock and roll. Finalizando com "Taxidermia" o disco fica como um registro do peso que os TITÃS podem ter, e um prato cheio para os metaleiros de plantão. As faixas não citadas não deixam a desejar, todas se mantêm no nível do disco, tanto na musicalidade como na qualidade.

Embora seja o período que ARNALDO ANTUNES deixava a banda, e NANDO REIS colaborou menos, Charles Gavin se superou na bateria, e neste disco podemos perceber arranjos fantásticos e bem trabalhados. Iniciava-se aqui o trabalho do selo "Banguela Records", um projeto dos titãs juntamente com o jornalista CARLOS EDUARDO MIRANDA que revelou grandes nomes da música brasileira. Como por exemplo: GRAFORRÉIA XILARMÔNICA, RAIMUNDOS e MASKAVO ROOTS.

Hoje os TITÃS estão consagrados na música popular brasileira. E embora haja ressalvas, seus trabalhos continuam com a mesma qualidade na composição. Com o passar dos anos a sonoridadevariou muito, de fato. Mas ainda temos muito a aproveitar dos novos trabalhos, caso você não perceba isso, eu só tenho a lamentar.


Faixas:

1- Será Que É Isso O Que Eu Necessito?
2- Nem Sempre Se Pode Ser Deus
3- Disneylândia
4- Hereditário
5- Estados Alterados Da Mente
6- Agonizando
7- De Olhos Fechados
8- Fazer O Quê?
9- A Verdadeira Mary Poppins
10- Felizes São Os Peixes
11- Tempo Pra Gastar
12- Dissertação Do Papa Sobre O Crime Seguida De Orgia
13- Taxidermia

sábado, 28 de setembro de 2013

Gal Gosta - Fa - Tal - [1971]


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Por Jeocaz Lee-Meddi


FA-TAL - GAL A TODO VAPOR: O ÁLBUM DA GERAÇÃO DO DESBUNDE


Há momentos sublimes da criação do artista, cujo carisma é assimilado por uma legião de pessoas em busca de uma definição de ideais, sonhos ou apenas identificação na essência mais primária da composição do retrato humano. Quando esse momento acontece em uma determinada obra do artista, esta lhe é arrebatada (quase usurpada) e feita voz, ícone e representação. Assim aconteceu com “Os Sofrimentos do Jovem Werther”, de Joahnn Wolfgang van Goethe em 1774, livro símbolo de uma geração de jovens na Europa do romantismo, que fizeram dos sofrimentos e da forma de estar na vida do jovem Werther, o modelo a ser seguido.

No Brasil da fase pós-AI-5, promulgado em 13 de dezembro de 1968, o endurecimento da ditadura deixou uma geração calada e sem rumo. Uma geração que passou pelos suspiros das contestações de 1968, pelo psicodelismo embriagante do roque do fim dessa década, pelas drogas, a Tropicália, o movimento Flower Power e pelo histórico espetáculo de Woodstock; essa mesma geração chega ao início da década de setenta mergulhada em um vazio e em uma lacuna deixada pelo silêncio de quem pensava e via as palavras caladas pela força bruta.

Essa geração sem heróis ou ídolos para exaltar e refletir o espelho de Narciso, encontra-se em 1971 com Gal Costa, que com a sua voz de sereia, estreava o show que seria o símbolo dessa geração: “Gal a Todo Vapor”. Nessa simbiose entre artista e público, a geração que ficaria para sempre conhecida como a do desbunde, faz do show um momento de fuga e sonho, de poder dizer não às convenções de uma sociedade de um país calado pela repressão, mas mutante em seus costumes. O show estréia em novembro de 1971 no Teatro Tereza Raquel, no Rio de Janeiro, dirigido por Waly Salomão. Com ele a geração do desbunde elege a sua musa, Gal Costa. O espetáculo torna-se obrigatório durante todo o verão de 1972.

Do show surge o álbum duplo “Fa-tal: Gal a Todo Vapor”. O disco, assim como "Werther" de Goethe, é arrebatado da cantora para se tornar o hino cultural da geração do desbunde.

Geração Desbunde

A moda à época do show “Gal a Todo Vapor” é a dos cabelos compridos. Aquela geração de cabeludos órfãos da Tropicália e de Woodstock torna-se a Geração do Desbunde. O termo desbunde foi denominado pela esquerda radical. Era tido como um movimento individualista e sem propósito ideológico. Seus participantes eram vistos como politicamente alienados e alienantes. Seguiam a cultura underground sugerida pelo tropicalismo e pelo movimento hippie. A cultura vista como marginal e de ruptura estética. É a contracultura.

A contracultura surgiu com a publicação do poema “Howl”, de Allen Ginsberg (1956). Ginsberg foi o representante máximo do que ficou conhecido como a beat generation. Os beats foram os precursores ideológicos dos hippies, que surgiram nos anos sessenta. Os dois movimentos incitavam à filosofia do Drop Out: não lutar por mudanças no sistema, mas sim debandar (desbundar) e “curtir a vida” como lhes apetecesse, longe de princípios a ser seguidos, indiferentes às críticas e aos preconceitos dos “caretas”. A palavra de ordem era "não ser careta".

A geração de poesia marginal ou geração desbunde da década de 70, surge no eixo Rio-São Paulo. É um movimento de artistas (escritores, cineastas, cantores, pintores) independentes, que não possuem plataforma estética explícita, o que lhes tira o caráter histórico de movimento. No movimento modernista era comum a exaltação dos símbolos nacionais. No desbunde a exaltação é o homem e o seu existencialismo angustiado, a sexualidade rompe com os tabus. É a importação dos moldes americanos com o existencialismo europeu de Jean-Paul Sartre.

Glauber Rocha, dizia sobre as juventudes do desbunde e a juventude armada do final da década de sessenta: "a luta da granada contra o rock".

O desbunde trava o discurso do corpo, a festa, a droga. Procura novas formas de percepção, vocifera uma liberdade existencial convulsiva e prazerosa. Traz no underground a contestação.

No Rio de Janeiro, essa geração freqüentava no início da década de setenta o Píer, local que se tornou moda, criado por causa de um Emissário Submarino e ficava entre as Ruas Farme de Amoedo e Teixeira de Melo. Proporcionou boas ondas no mar e sensação nas areias de Ipanema. Ali nasceram as dunas do barato, ou dunas da Gal, local predileto da cantora. O ambiente descontraído reunia surfistas, artistas, hippies e intelectuais.

Fa-tal – Gal a Todo Vapor: o Disco

“Fa-tal – Gal a Todo Vapor” foi lançado pela Philips antes do natal de 1971. Primeiro álbum duplo da carreira de Gal Costa, traz dezenove faixas e dezessete canções, que foram imortalizadas no show. Na
capa é destacada a boca vermelha da cantora ao microfone, que a partir de então, seria símbolo e ícone da sua carreira, juntamente com os cabelos. Quando lançado em CD teve as disposições das músicas alteradas em relação ao LP e até a capa veio adulterada. Na versão do CD, é respeitada o início do show, com Gal Costa, intimista, ao violão. No LP, o disco inicia na segunda parte, com a cantora e a banda no palco.

Como completa tradução de uma geração calada e perdida em suas próprias dúvidas, é um disco de canções existencialistas e de sentimentos rasgados à flor da pele. Grandes nomes da MPB identificados à época como representantes do underground, assinam as faixas.

“Dê Um Rolê” (Galvão – Moraes Moreira) inicia o canto que arrebatará a geração dos cabeludos. Vinda de músicos da banda Novos Baianos, é um rompimento de quem traduz no amor os anseios de uma vida, maior do que a força do dinheiro. Ser “amor da cabeça aos pés” é ser maior do que o modelo da sociedade capitalista tão bem representada pelo “milagre brasileiro”, então no seu auge.

Mas se “Dê Um Rolê” é superior ao momento vivido, “Mal Secreto” (Jards Macalé – Waly Salomão) é a própria sombra dilacerante da força bruta que cala um país, uma juventude. Visceral, inquietante, protesto sufocado e silêncio diluído nos medos, mascarar e massacrar a dor, uma realidade social ou do amor.

“Pérola Negra” (Luiz Melodia) é a ousadia da nova forma de amar que a década trazia, “tente saber tudo mais sobre o sexo”, porque já se pode falar sobre sexo, estamos diante da geração que no final da década de sessenta descobrira o amor livre, que descobriu ser possível levá-lo para dentro dos brandos costumes da sociedade. Gal Costa quase que grita com o seu canto, esse momento tão arrancado de dentro de quem vivia a fase de transição da mudança de tais costumes. A música cresce, a voz da cantora é aqui guerreira, mostrando porque aquela geração a havia escolhido para musa. Quem ousava na época cantar a relação rasgando a camisa e as roupas? Com esta canção um novo compositor fica conhecido no cenário musical brasileiro, Luiz Melodia. Gal Costa revisitaria “Pérola Negra” na comemoração dos seus trinta anos de carreira, no álbum “Acústico MTV”, em 1997, em dueto com o compositor da música.

Duas faixas do “Legal” (1970), álbum anterior, são registradas aqui: “Hotel das Estrelas” (Duda – Jards Macalé) e “Falsa Baiana” (Geraldo Pereira). A primeira é uma canção que descreve a juventude que vê amigos mortos pela ditadura e pela droga. A juventude que se sente tolhida e ameaçada. Nem a ditadura nem a droga oferecem saídas, mas a segunda alivia um pouco mais os tormentos. É a solidão dos anos vista pela janela e pela distância:

“Dessa janela sozinha
Olhar a cidade me acalma
Estrela vulgar a vagar
Rio e também posso chorar
Oh, e também posso chorar...”

A segunda, música de 1944, leva uma roupagem estilo bossa nova que se perpetuou ao repertório de Gal Costa, uma verdadeira baiana. Teria uma terceira versão no "Acústico MTV".

Um momento intimista do disco, quebrando um pouco o seu canto instigante, acontece com “Assum Preto” (Humberto Teixeira – Luiz Gonzaga). Aqui Gal Costa usa a sua voz de sereia como arma da mais profunda beleza e tristeza, como os olhos da ave cegada para cantar melhor. Como a cantora se sentia com o exílio dos amigos da Tropicália. A interpretação comove. O disco segue na linha da saudade e da homenagem aos amigos: “Bota a Mão nas Cadeiras” (Folclore Baiano), homenagem à Maria Bethânia, que cantava a canção em seu show ”Rosa dos Ventos”. “Maria Bethânia” (Caetano Veloso) reflete a homenagem à cantora homônima. “Não se Esqueça de Mim (Chuva, Suor e Cerveja)” (Caetano Veloso) é uma lembrança aos amigos Caetano e Gil, que estão do outro lado do Atlântico, em Londres.

“Como Dois e Dois” (Caetano Veloso) aparece em duas faixas. A canção foi gravada naquele ano por Roberto Carlos, tornando-se sucesso de público na interpretação do cantor. O registro de Gal Costa é mais intimista, apesar de aparecer duas vezes no álbum, não marca o seu repertório e nem se torna uma interpretação essencial. E como o tempo é de sofrimento existencialista, “tudo vai mal” ou tudo está perfeito “como dois e dois são cinco”, Caetano Veloso fizera a música no auge do seu exílio na Europa.

Ainda percorrendo o universo intimista do álbum, esbarramos com a canção “Fruta Gogóia” (Folclore Baiano), que “Como Dois e Dois”, também aparece em duas faixas. Recuperada do vasto folclore da eterna magia baiana, “Fruta Gogóia” é daquelas canções que por algum motivo se prendeu para sempre ao mundo musical de Gal Costa, não se separando mais. A canção volta a ser incluída no álbum “Gal Costa ao Vivo”, de 2006. E cumprido a promessa, samba que Gal Costa ensaiar o mestre não olha.

Na calma momentânea do álbum passamos rapidamente por “Charles Anjo 45” (Jorge Ben), outra alusão ao amigo Caetano Veloso.

Na sua visita de homenagens à saudade, traz de volta “Coração Vagabundo” (Caetano Veloso), primeiro quase sucesso de sua carreira em 1967, do álbum de estréia “Domingo”. E alguns anos depois, o coração não se cansava em tempos difíceis, de ter esperança de um dia ser tudo.

Desfilando pela MPB, Gal Costa recupera uma antiga canção, “Antonico” (Ismael Silva), que até então já ninguém mais se lembrava, depois desse registro, ninguém mais se esqueceu. “Antonico” tornou-se uma canção cultuada pelos críticos e fãs da cantora. Em algumas fases da recente história brasileira, a canção foi assimilada no cotidiano brasileiro com o nepotismo e com a política de favores. Assim como “Fruta Gogóia”, também voltaria a ser regravada no álbum “Gal Costa ao Vivo”.

O auge do intimismo do álbum é alcançado com “Sua Estupidez” (Erasmo Carlos – Roberto Carlos), uma das interpretações mais definitivas da carreira da cantora. A canção tinha sido lançada por ela em um compacto simples no início de 1971. A melodia, a poesia da letra, a melancolia saudosista e a sua beleza ímpar, tudo cai com perfeição à voz da cantora. “Sua Estupidez” consegue algo raro, ser diferente e lírica em todas os registros que há na interpretação de Gal Costa. Além das duas versões de 1971, ao vivo e em estúdio, ela reaparece em 1997 no “Acústico MTV” e no dueto com Roberto Carlos em seu tradicional programa de fim de ano na Rede Globo; em 2006 numa participação especial no álbum de Wagner Tiso, “Wagner Tiso 60 Anos – Um Som Imaginário”. Nos cinco registros Gal Costa emociona nas interpretações desta canção.

Após as canções intimistas, voltamos à essência do álbum com “Luz do Sol” (Waly Salomão – Carlos Pinto). Novamente o protesto implícito da geração sufocada pelo medo e pelos perigos do regime. Aqui já não se grita que tudo é perigoso, ou divino maravilhoso, os tempos são outros. Tempo de silêncio e tortura, de sobrevivência. E quem sobrevive só pensa em ver a luz do sol brilhar novamente nas trevas dos tempos e da história do Brasil.

Mas é “Vapor Barato” (Jards Macalé – Waly Salomão) a canção que se irá tornar o hino oficial da Geração do Desbunde. A canção tinha sido lançada em compacto no início de 1971, em uma versão rock, totalmente diferente da versão ao vivo. A canção reflete essa juventude intelectualmente consciente do momento vivido, mas presa às limitações do regime e da droga. É na contestação da sexualidade imposta e do amor livre proposto que extravasam essas limitações. Os amores são fugazes, por isso vividos intensamente. Seguir à deriva dos sentimentos, partir sem olhar para trás em um navio ou outro veículo qualquer, sem as imposições do dinheiro, aqui novamente desprezado em relação aos sentimentos, visceralmente vividos.

"Oh, sim, eu estou tão cansado
Mas não pra dizer
Que eu não acredito mais em você
Com minhas calças vermelhas
Meu casaco de general
Cheio de anéis
Vou descendo por todas as ruas
E vou tomar aquele velho navio"

E “Fa-tal – Gal a Todo Vapor”, termina como começou, após um grande role, imerso no vapor barato em fuga, encerrando um dos mais emblemáticos e belos álbuns da MPB. O álbum é poesia underground, é marginal, de um existencialismo convulsivo. Fez parte de um movimento cultural que tomou o canto de Gal Costa como hino. Ver o show Gal a Todo Vapor e ouvir o disco era sinônimo de não ser careta, de pertencer a esse movimento.


Ficha Técnica:

Fa-tal - Gal a Todo Vapor
Philips
1971

Direção geral: Waly Salomão
Direção de produção e estúdio: Roberto Menescal
Técnico de gravação: Jorge Karan (gravação ao vivo)
Assistente de produção: Paulo Lima
Arranjos: Lanny
Capa: Luciano Figueiredo e Oscar Ramos
Fotos: Edison Santos e Ivan Cardoso

Músicos Participantes:

Direção musical e guitarra: Lanny
Baixo: Novelli
Bateria: Jorginho
Tumba: Baixinho

"Fa-tal": título extraído do poema homônimo, incluído no livro "Me Segura Que Eu Vou Dar Um Troço" de Waly Salomão

Faixas:

Versão do LP:

Disco 1

Lado 1
1 Dê um role (Moraes Moreira - Galvão), 2 Pérola negra (Luiz Melodia), 3 Mal secreto (Jards Macalé - Waly Salomão), 4 Como dois e dois (Caetano Veloso)

Lado 2
1 Hotel das estrelas (Jards Macalé - Duda), 2 Assum preto (Humberto Teixeira - Luiz Gonzaga), 3 Bota a mão nas cadeiras (Folclore Baiano), 4 Maria Bethânia (Caetano Veloso), 5 Não se esqueça de mim (Chuva suor e cerveja) (Caetano Veloso), 6 Luz do sol (Waly Salomão - Carlos Pinto)

Disco 2

Lado 1
1 Fruta gogóia (Folclore Baiano), 2 Charles anjo 45 (Jorge Ben), 3 Como dois e dois (Caetano Veloso), 4 Coração vabundo (Caetano Veloso), 5 Falsa baiana (Geraldo Pereira), 6 Antonico (Ismael Silva)

Lado 2
1 Sua estupidez (Erasmo Carlos - Roberto Carlos), 2 Fruta gogóia (Folclore Baiano), 3 Vapor barato (Jards Macalé - Waly Salomão)

quinta-feira, 26 de setembro de 2013

Eloy Fritsch - Exogenesis [2012]

 
Por Anderson Nascimento
publicado em 28 de agosto de 2012 no Galeria Musical

Em seu décimo álbum solo, Eloy Fritsh, conhecido músico que também faz parte da clássica banda de Rock Progressivo “Apocalype”, traz trezes novas faixas gravadas em seu estúdio caseiro entre 2011 e 2012, com a força de instrumentos eletrônicos e sintetizadores.

Com arte criada por Maciej Rebisz e MIrek Drozd, artistas europeus especializados em ilustrações de ficção científica, que remetem à criação do cosmos, e a viagem por esses confins, a jornada instrumental inicia com a bela canção “Gaia” que, apesar de ser a primeira estação da viagem, já traz tons épicos.

O disco é recheado de momentos que lembram canções de otimismo, que poderiam muito fazer parte de trilhas de grandes eventos esportivos, por exemplo. Esse é o caso de “Neutron Star”, belíssima faixa inspirada em filmes Sci-fi, que chega aos seis minutos de duração, te envolvendo e empolgando ao longo de toda a sua execução.

Já “Sunshine” tem elementos que remetem ao fim dos anos setenta e início dos anos oitenta, quando os sintetizadores dominavam boa parte dos territórios que haviam sido recentemente explorados pelo Rock Progressivo e pelo Punk.

A saga continua na faixa que dá nome ao disco. “Exogenenis” é inspirada na criação do universo, e na possibilidade de existir vida fora da Terra. Dividida em quatro partes, onde cada uma delas apresenta um movimento distinto, mas que pode ser dividida em momentos mais progressivos (primeira e terceira parte), e mais eletrônicos (segunda e quarta parte).

“Mayan Temple” é carregada de sensações, que chegam a criar um possível cenário ao longo da faixa, urdida com sons de pássaros e gongo, que parece anunciar a chegada de algo ou, quem sabe, alguém.

Entre a beleza de faixas como “Far Above The Clouds”, a Space Music de “Moonwalk”, que chega até a ser um pouco Pop, a tensa “The Ice Sea of Enceladus”, a esperançosa “New Dawn”, e a reflexiva “The Immensity of The Cosmic Ocean”, o disco atravessa nuances distintas, carregando de emoção e sentimentos ao ouvinte que busca sensações que vão além da canção.

Assim é o trabalho de Eloy, músico conceituado, detentor de importantes prêmios, mas que apesar de toda essa experiência, continua cultivando de grande inquietação artística, transformando em músicas suas aspirações e seu incrível talento para tocar e para compor.


Veja também:

Meu Nome Não é Jhonny [2008]

 


Por Catia Dechen 
publicado em 28de fevereiro de 2008 no Território da Música

A trilha sonora de “Meu Nome não é Johnny” é fiel. Ao escutá-la, é possível rever o filme mentalmente. Até mesmo a canção “Outra Vez” entrou na trilha com a voz de Selton Mello, da mesma forma interpretada no filme. Além disso, o próprio João Estrella, personagem principal do filme, apresenta sua composição “Para Onde se Vai”.

Na tela, uma das festas patrocinadas por João Estrella teve como fundo musical “It’s a Long Way”, de Olivia Broadfield. A música “deprê” interagiu perfeitamente com as cenas que mostram um bando de jovens alucinados, viajando pelos caminho tortuosos da cocaína.

A história de João Estrella se passa no Rio de Janeiro dos anos 80, época marcante para a música e de grandes transformações culturais. Dessa forma, não poderiam faltar as grandes referências como Titãs e Lobão.

Entre músicas incidentais e grandes ‘hits’, a história de João Estrella é contada com harmonia no pop nacional e internacional.

A trilha nos leva por uma deliciosa viagem, passando pela urbanidade de Sá, Rodrix & Guarabyra, pelo pop de David Bowie, além de new wave, rock’n roll e até o romantismo de Roberto Carlos. Enfim, toda a rica diversidade característica dos anos 80, além das composições do produtor Fabio Mondego.

Vale a pena ver e ouvir “Meu Nome não é Johnny”. 

quarta-feira, 25 de setembro de 2013

Colírios, isqueiros e inspiração

Colírios, isqueiros e inspiração

A edição número 126 da Revista Fórum traz um amplo dossiê sobre a questão das drogas no Brasil, no qual apresenta matérias que tratam da importância de se discutir este tema, a descriminalização e a legalização, o tratamento da dependência química e o impacto do tráfico de drogas no sistema penitenciário brasileiro. Entretanto, a questão das drogas também está presente em manifestações culturais no país, em especial na música.

A matéria “Colírios, isqueiros e inspiração”, escrita por Pedro Alexandre Sanches , traça um amplo panorama de como a música brasileira abordou a temática das drogas desde 1950, com o samba “Chico Brito”, do carioca Wilson Batista, até atualmente com o funk “Cadê o Isqueiro”, do também carioca Mr. Catra.

Você pode encontrar a edição 126 da Revista Fórum nas bancas de jornais e agora também em todas as lojas da Livraria Cultura.

Leia abaixo a matéria sobre como a temática das drogas foi abordada na música brasileira (Obs: Você pode conhecer individualmente cada música citada na matéria clicando nos links, ou então conferir o playlist que a Fórum preparou com todas as músicas no final da matéria)

 
Colírios, isqueiros e inspiração
A temática das drogas, de forma cifrada ou explícita, faz parte de letras e canções brasileiras há décadas. Relembre algumas das obras dessa longa história

Por Pedro Alexandre Sanches
publicado em 21 de setembro de 2013 na Revista Fórum


A canção “Chico Brito”, composta por Wilson Baptista e celebrizada na voz de Dircinha Batista (na foto junto com a irmã, Linda), foi regravada por Paulinho da Viola
na década de 1970

Lá vem Chico Brito descendo o morro na mão do Peçanha/ é mais um processo, é mais uma façanha/ o Chico Brito fez do baralho seu melhor esporte/ é valente no morro/ e dizem que fuma uma erva do norte.” Em 1950, a paulista classe média Dircinha Baptista cantava o samba “Chico Brito”, do carioca do morro Wilson Baptista, ousando uma rara menção explícita da música brasileira a uma droga provavelmente ilegal, provavelmente maconha.

Chico Brito era “muito estimado” na favela, mas se encarregava de reproduzir, em confusa primeira pessoa, uma antiga lição de moral: “‘A vida tem seus reveses’/dizia Chico, defendendo teses/ ‘se o homem nasceu bom/ e bom não se conservou/ a culpa é da sociedade que o transformou’.” O indivíduo parecia se confessar passivamente “culpado”, ao mesmo tempo em que brincava (e isso lá é brincadeira?) de atirar a dita “culpa” daquilo que o envergonhava no outro, no próximo, no vizinho, na sociedade, no amorfo.

A canção dos Baptista que não eram parentes voltaria à baila em 1979, na voz de um dos artistas brasileiros mais bem-comportados (ao menos publicamente), o carioca Paulinho da Viola. Separadas pelo intervalo de 29 anos, as duas menções à “erva do norte” são soluços que confirmam um oceano de interdições – entre Dircinha e Paulinho, o tabu continuou governando a MPB, ainda mais a partir do advento de mais uma ditadura civil- militar no País. Embora a intoxicação tenha sido sempre um combustível da criação musical, continuou praticamente impossível citar o tema sem subterfúgios.

É óbvio que não iriam ser os generais-presidentes a liberalizar os costumes e permitir que a maconha (menos ainda outras drogas) soprasse solta pela boca da juventude. O rock em versão tropical e a jovem guarda passaram praticamente batidos pela questão – ou não, se considerarmos “É proibido fumar” (1964), de Roberto Carlos, como uma guimba largada à beira do caminho: “É proibido fumar/ diz o aviso que eu li/ é proibido fumar/ pois o fogo pode pegar/ mas nem adianta o aviso olhar/ pois a brasa que agora eu vou mandar/ nem bombeiro pode apagar.”

Por paradoxal que pareça (e seja), o AI-5, de 13 de dezembro de 1968, expulsou artistas mais, digamos, exaltados do Brasil, mas deixou atrás de si um rastilho de distensão simbólica, que daria origem ao hoje tão famoso confronto de bastidores brasilienses entre compositores “subversivos” e censores ultraconservadores.

Um marco de ruptura, aí, se daria na tropicália paulista dos Mutantes, que inscreveram num festival da canção de 1969 um rock viajandão chamado “Ando meio desligado”: “Ando meio desligado/ eu nem sinto meus pés no chão/ olho e não vejo nada/ eu só penso se você me quer.” Repressão à solta, começaríamos a tentar falar dos temas proibidos pela linguagem da brecha, da fresta, da grinfa, da bagana, do baurets.

Os ex-jovem-guardistas (negros) cariocas Golden Boys pegaram a senha dos roqueiros paulistas branquelos e soltaram o “Fumacê” num samba-rock baforado no ano terrivelmente acista e repressivo de 1970: “Ê, ê, ê, fumacê/ ah, ah, ah, fumaçá/ fumaceira tá saindo do lado de lá/ tem alguém queimando coisa/ tá botando pra quebrar.”

O samba-soulman pernambucano (negro) Paulo Diniz testou no mesmo ano o torpor movido a contracultura, em “Ponha um arco-íris na sua moringa”: “Ponha um arco-íris na sua moringa/ fique lelé da cuca num dia de sol/ praia de Ipanema, Simonal sorrindo/ (…) é lúcido, é válido, inserido no contexto”.

O soulman carioca (negro) Tim Maia entrou na onda viajandona via “Chocolate” (1971) e “Cristina” (1970). “Eu só quero chocolate/ não adianta vir com guaraná pra mim/ é chocolate o que eu quero beber/ não quero chá, não quero café, não quero Coca-Cola, me liguei no chocolate”, dizia o primeiro funk, mais inocente impossível. A semente da dúvida seria plantada em 1989, quando a carioca Marisa Monte regravou “Chocolate” inserindo nela alguns cacos, como “não quero pó, não quero rapé, não quero cocaína, me liguei no chocolate” e, ao final, um providencial “é proibido fumar”. Será? “Legalize marijuana”, explicitava Marisa em outro caco, seis anos antes do discurso sem subterfúgio do Planet Hemp – mas vamos com calma.

A outra deixa de Tim, “Cristina”, era ainda mais inocente (ou cifrada): “Vou-me embora agora pra longe/ meu caminho é ida sem volta/ uma estrela amiga me guia/ minha asa presa se solta/ eu vou ver Cristina.” Onde estaria a referência às drogas nesse romantic baião-soul? Reza a lenda que dizer “vou ver Cristina” era eufemismo da turma de Tim para dizer “vou fumar maconha”. Os consumidores de “Cristina”, a canção, ficavam (será?) por fora. Era tempo de brincar (brincar?) de esconde-esconde.

A MPB “desbundada”

Vinte e um anos depois de “Chico Brito”, o carioca Jards Macalé e o baiano Waly Salomão subiam os morros no Rio e traziam na descida “Vapor barato” (1971), tristíssimo hino contracultural divulgado pela baiana Gal Costa na ausência dos parceiros tropicalistas Gilberto Gil e Caetano Veloso. O que seria um “vapor barato”? Um “velho navio” a vapor? O vapor que escapa do cigarro de maconha? Vapor, o menino do morro utilizado como intermediário em tráficos leves e pesados? As dunas da Gal evaporavam na dúvida, enquanto os “rebeldes” que não aderiam à “guerrilha” ou ao “terrorismo” derivavam para o “desbunde”. O eufemismo, aqui, seria o da fuga da “vida real” por vias químicas.

Outro marco do mesmo momento Fatal de Gal é “Dê um rolê” (1971), dos Novos Baianos: “Não se assuste, pessoa,/ se eu lhe disser que a vida é boa/ enquanto eles se batem, dê um rolê”. “Dar um rolê” seria, para os Novos Baianos, senha escamoteadora de outra prática. Os Novos Baianos, pilhados, ao que reza outra lenda, pelo conterrâneo bossa-novista João Gilberto, desbundaram geral no álbum Acabou chorare (1972), e em especial na faixa “A menina dança”, dominada por uma Baby Consuelo de pupilas dilatadas: “Quando cheguei, tudo, tudo, tudo estava virado/ apenas viro, me viro, mas eu mesma viro os olhinhos/ […] no canto, no cisco, no canto do olho, a menina dança/ dentro da menina/ a menina dança/ e se você fecha o olho a menina ainda dança”.



A MPB “desbundada” seria transbordante em referências tácitas (que hoje soam comovedoramente diretas) ao uso das drogas, a começar por “Maria Joana”, assinada, acredite, pelo capixaba Roberto Carlos em dupla com o carioca Erasmo Carlos – e lançada pelo segundo sob arranjo alucinógeno forrado de sapinhos coachantes: “Só ela me traz beleza nesse mundo de incerteza/ quero fugir mas não posso/ esse mundo inteirinho é só nosso/ eu quero Maria Joana”. Erasmo (e Roberto) queria(m) Maria Joana, a menina, ou marijuana, a erva? “Eu vejo a imagem da lua/ refletida na poça da rua/ e penso na minha janela/ eu estou bem mais alto que ela.”

Para audição de pouquíssimos, o futuro “maldito” paulista Walter Franco seguia a pista dos Mutantes em “Tire os pés do chão” (1971): “Tire os pés do chão/ vamos flutuar/ longe da razão/ sem pressa pra voltar.” Em 1975, ele seria mais cirúrgico na concretista “Eternamente”: “Eternamente/ é ter na mente/ éter na mente.”

Gilberto Gil voltou motorizado do exílio, dando bandeira em “Expresso 2222” (1972), “Barato total” (1974, cantada por Gal) e na chapadíssima “Abra o olho” (1974): “Ele disse ‘abra o olho’/ caiu aquela gota de colírio/ eu vi o espelho/ ele disse ‘abra o olho’/ eu perguntei como é que andava o mundo/ ele disse ‘abra o olho’/ o telefone tocou/ soando como um grilo de verdade/ eu ouvi o grilo/ o grilo cantando/ tava eu no mato de novo/ no mato sem cachorro/ eu pensei ‘tá direito’/ que eu nunca tive cachorro ao meu lado/ ele disse ‘abra o olho’/ eu disse ‘aberto’, aí vi tudo longe/ ele disse ‘perto’/ eu disse ‘está certo’/ ele disse ‘está tudinho errado’/ eu falei ‘tá direito’/ tudo numa gota de colírio/ ele disse ‘é delírio’/ navegar nas águas de um espelho/ ‘nego, abra o olho’”.

O colírio virou vedete, também em “Como vovó já dizia” (1974), do baiano da pá virada Raul Seixas: “Quem não tem colírio usa óculos escuros”. O ano de 1974 marcaria o desbunde do desbunde, movido às mais variadas drogas, das químicas às religiosas. O ex-mutante Arnaldo Baptista ficou “lóki”, “numa boa, pescando pessoas no mar”. A ex-mutante Rita Lee foi para o pasto procurer cogumelos de zebu. Raul se integrou à Sociedade Alternativa. Tim Maia entrou no Universo em Desencanto. Jorge Ben se convenceu de que os alquimistas estavam chegando. Roberto Carlos se aprofundou na picada aberta, em 1970, pelo “Jesus Cristo, Jesus Cristo, Jesus Cristo, eu estou aqui”.

O acreano João Donato (em dupla incrível com Gil) foi fumar plantas exóticas, como contaria em “Bananeira” (1975): “Bananeira não sei, bananeira sei lá/ bananeira sei, não, a maneira de ver/ bananeira não sei, bananeira sei lá/ bananeira sei, não, isso é lá com você.”

Gil e Rita pagaram pela trupe inteira. Em 1976, durante turnê dos Doces Bárbaros (com Caetano, Gal e Maria Bethânia), Gil acabou detido por porte de drogas – foi preso, julgado, punido, publicamente humilhado etc. Rita também pegou cana por porte de drogas, grávida, para ser visitada em solidariedade solitária pela (supostamente) caretona gaúcha Elis Regina. Caetano proclamaria aversão histórica às drogas, mas isso não o impediu de fundir cucas lelés com “Odara” (1977): “Deixa eu dançar pro meu corpo ficar odara/ minha cara minha cuca ficar odara”. Quem não dançava segurava as crianças.

Novo marco aconteceria em 1980, nada menos que na tela da então “platinada” (?) Rede Globo, durante uma tentativa de ressuscitar os festivais da canção, a bordo de uma travessura da dupla-casal Baby Consuelo & Pepeu Gomes, ex-Novos Baianos. Era tarde demais quando a ditadura percebeu o que o reggae “O mal é o que sai da boca do homem” queria dizer ao dizer o seguinte: “Você pode fumar baseado/ baseado em que você pode fazer quase tudo/ contanto que você possua/ mas não seja possuído/ porque o mal nunca entrou pela boca do homem…/ porque o mal é o que sai da boca do homem…”

O nome fora pronunciado: “baseado”. “Chico Brito” estava de volta, surpreendentemente audacioso – e a repressão cobraria seu preço, desancando a Globo, a gravadora Som Livre, o Pepeu e a Baby. Possuída (será?) pelo espírito dos anos 1990, Baby viraria pastora evangélica empenhada no discurso de combate às drogas.


De cima para baixo, álbuns
emblemáticos de Jorge Ben
(A tábula esmeralda - 1974);
Tim Maia (Chocolate - 1971);
Bezerra da Silva (Cocada Boa
- 1993); Utraje a Rigor (Nós
vamos invadir sua praia -1985)


Os oitenta e as drogas,
de forma explícita, nos noventa


A década de 1980, de proclamada abertura política, seria estranhamente recatada musicalmente, à parte um “Lança perfume” (Rita Lee, 1980) aqui, um alcoólico “Louras geladas” (RPM, 1985) acolá. A chegada de uma nova geração roqueira, ainda sob marcação cerrada da censura oficial, traria poucas menções mais corajosas, a exemplo de “Mim quer tocar” (1983), do grupo paulista Ultraje a Rigor, que tratava de (quase) rimar dinheiro com maconheiro. “Mim é brasileiro/ mim gosta banana/ mas mim também quer votar/ mim também quer ser bacana/ mim gosta tanto tocar/ mim é batuqueiro”, cantava em moldes autocomiserativos, meio “Chico Brito”, o hoje conservadoríssimo Roger Moreira, ao que o coro replicava, gostosamente: “Conheiro!”

“Parece cocaína, mas é só tristeza”, lamentaria Renato Russo, da brasiliense Legião Urbana, em “Há tempos” (1989), refletindo barras mais pesadas. Nele, no carioca Cazuza e (anos mais tarde) na brasiliense Cássia Eller, a doidice química se confundira perigosamente, venenosamente, com sexualidade e homossexualidade, aids e morte. A mensagem não seria alvissareira para jovens dos anos 1980 e 1990.

O samba oitentista também se aventurou pelos tabus, principalmente graças ao impagável pernambucano Bezerra da Silva, que preferia quase sempre falar de cocaína (Cocada boa seria o título do CD de 1993), mas é intérprete do clássico “A semente”, na melhor (e nem por isso bem-sucedida) tradição “não compre, plante”: “Meu vizinho jogou/ uma semente no seu quintal/ de repente brotou/ um tremendo matagal/ quando alguém lhe perguntava ‘que mato é esse que eu nunca vi?’/ ele só respondia ‘não sei, não conheço, isso nasceu aí’/ mas foi pintando sujeira, o patrão estava sempre na jogada/ porque o cheiro era bom e ali sempre estava uma rapaziada/ os homens desconfiaram ao ver todo dia uma aglomeração/ e deram um bote perfeito, levaram todos eles pra averiguação.” O guarda Peçanha estava de volta à carga para aterrorizar Chico Brito, com garras particularmente pontudas e afiadas.

No mesmo 1987, o carioca Zeca Pagodinho vinha beliscar os tabus, de modo defensivo, em “Maneiras”: “Se eu quiser fumar eu fumo/ se eu quiser beber eu bebo/ pago tudo que eu consumo com o suor do meu emprego/ confusão eu não arrumo/ mas também não peço arrego/ eu um dia me aprumo/ tenho fé no meu apego…”

Os sambistas faziam prenúncio para os rappers dos anos 1990, que, com Racionais MC’s e Mano Brown na liderança, trariam o tema das drogas ao primeiro plano, de modo explícito, sem nenhuma meia palavra. Não que não se tenha tentado, vezes incontáveis, mas como as forças repressivas se atirariam sobre artistas que estavam denunciando, mais que louvando o flagelo social carreado com as drogas? O rap abriu as portas para que as palavras que não se pronunciam começassem a ser pronunciadas.

Os pernambucanos Chico Science & Nação Zumbi cantaram “Macô” (1996). Apadrinhados por Waly Salomão e regravando “Vapor barato”, os cariocas d’O Rappa fizeram “A feira” (1996), de modo admiravelmente transparente: “É dia de feira, quem quiser pode chegar/ vem maluco, vem madame, vem maurício, vem atriz/ pra comprar comigo/ tô vendendo ervas que curam e acalmam/ tô vendendo ervas/ que aliviam e temperam…” O rap-roqueiro paulista Chorão, com seu Charlie Brown Jr., seguiria nessa pista em tons fortes, de títulos como “Zóio de Lula” (1999), “Não deixe o mar te engolir” (1999), “Fichado” (2000), “Com a boca amargando” (2002), “Cheirando cola” (2004)…

Provavelmente nenhum deles ousaria tanto se não tivesse surgido antes um elemento emergente carioca, o Planet Hemp de Marcelo D2, Black Alien e BNegão, primeira iniciativa brasileira a adotar o “legalize já” como bandeira ao mesmo tempo musical e ideológica. Os três discos de estúdio da banda de rock-rap eram retos, diretos e repletos de reivindicações pró-maconha: 1995 – “Não compre, plante!”, “Legalize já”, “Maryjane”, “Fazendo a cabeça”, “Skunk” e “Porcos fardados”; 1997 – “Queimando tudo”, “Biruta”, “Se liga”; 2000 – “Ex-quadrilha da fumaça”, “Quem tem seda?”, “O sagaz Homem-Fumaça”.

A repressão policial partiu com tudo para cima da nação Hemp, possivelmente exercida por sobrinhos dos delegados e promotores, que, em 1976, passavam lição moral no futuro ministro da Cultura Gilberto Gil. Perseguição, proibições, prisão, processos – de tudo tiveram de enfrentar os rappers que, aos olhos das forças repressivas, faziam “apologia” ao crime. A cultura de polícia administrativa venceu, e a banda se dissolveu após a terceira tentativa. D2 seguiu em suas convicções, mas obrigado a se abrandar mais e mais.
É temerário tentar medir, até por falta de distância histórica, mas em certa medida a perseguição ao Planet Hemp surtiu alguns dos efeitos desejados pelo ideário tradição-família-propriedade-repressão. Nas gerações mais recentes, é costumeiro o discurso roqueiro abstêmio, de ídolos rebeldes que apreciam declarar que não bebem, não fumam etc. Os novos forrozeiros e sertanejos mandam brasa, mas preferem se deter às bebidas alcoólicas. O tecno-sertanejo “Eu te amo e open bar” (2011), é tema-símbolo, na voz do paranaense Michel Teló: “Tudo que eu quero ouvir/ eu te amo e open bar.”

A pertinácia, atualmente, fica por conta de gêneros musicais marginalizados e de periferia, notadamente o funk carioca e o rap (sempre ele), inclusive em versos de denúncia como os de Criolo, em “Linha de frente”, “Bogotá”, “Sucrilhos” (sucrilhos valem como droga?) etc., todos do celebrado álbum Nó na orelha (2011).



No funk carioca, o iconoclasta Mr. Catra é explícito em “Cadê o isqueiro?” (2011): “Minha memória é pouca, mas tem expansão/ eu vou dizer, pode entender/ minha inspiração vem do THC/ que invade os pulmão, invade os cano da circulação/ que assim de repente invade a mente, deixando você todo dormente/ neurônios, são poucos que restam/ neurônios que sobram são poucos/ o que vou fazer com aqueles que restam queimar,/ como eu fiz com os outros?”

São 61 anos de separação entre “Chico Brito” e “Cadê o isqueiro?”. Pouca coisa parece ter sido resolvida nesse setor, de lá para cá. O funkeiro (negro) Mr. Catra se desprende do Wilson Baptista de outrora ao se autoafirmar mais dono dos próprios neurônios que produto de uma sociedade conservadora amorfa, localizada sempre lá fora, nunca aqui dentro. Os meninos do asfalto, eternos compradores desses outros, parecem preferir se esquivar e fazer de conta de que não participam da geleia geral. Mas Mr. Catra ocupa o vácuo em ritmo de funk-candomblé, sem poupar-nos, os garotos (brancos) do asfalto, da denúncia de um velhíssimo e resistente “chicobritismo” autovitimizador: “Por que prender o usuário?/ por que matar o varejista?/ hipocrisia é discriminar/ cabeça feita é ser realista/ […] falso moralismo de doidão, caô”.