quarta-feira, 25 de setembro de 2013

Mel Azul - Luz Alem [2012]

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Felipe Blanco

Mel Azul é um quarteto instrumental formado por baixo, bateria, guitarra e teclado. Unindo o peso do rock, a improvisação do jazz, texturas eletrônicas e o groove do funk, o grupo percorre atmosferas em músicas que começam e terminam sem respirar.

Formada em 2009 por Alexandre Silveira, Antonio Carvalho, Antonio Paoliello e Gustavo Prandini, a banda lançou no começo de 2011 o seu primeiro trabalho, um EP com cinco músicas, intitulado como Mel Azul, um registro de sessões de total improviso. No segundo semestre de 2011 o grupo se concentrou na criação de seu primeiro álbum, que reúne sete composições gravadas e produzidas pela própria banda no estúdio Freak. O resultado é o disco Luz Alem, um trabalho com uma estética que marca uma nova fase na carreira do Mel Azul.

“Mel Azul te cozinha em fogo alto para te servir no prato cheio de uma bateria biônica, enquanto o contrabaixo vibra criando uma base que por si só existe e coexiste com uma guitarra aflita e urgente em meio a uma tempestade elétrica de teclados.”


#3. Mel Azul - IndoVindo from Dois84 on Vimeo.


Veja também:
Mel Azul - EP [2011]

terça-feira, 24 de setembro de 2013

Quantum [1983]

Download FLAC


Postado por Mercenário Maldito
publicado no Progressive Downloads

No Brasil, não basta ser brilhante, competente ou exímio instrumentista. O músico que pretende dedicar-se exclusivamente a música instrumental só tem duas saídas. Custear do próprio bolso o projeto independente e sofrer com a distribuição e divulgação, ou ir embora do Brasil e lá, no exterior, tentar concretizar seus objetivos.

Mas algumas vezes, ocorre que alguns teimosos heróis, enfrentam todas as dificuldades "impostas" e acabam conseguindo, a duras penas, concretizar pelo menos em parte, alguns de seus sonhos. Esse é o caso do Quantum, que nos presenteia com esse exemplar e inigualável álbum inaugural.

Certamente, quem ainda não teve o privilégio de conhecer essa exemplar banda brasileira, que funde com absoluta maestria e muita competência o jazz rock e o progressivo, vai ficar profundamente impressionado com a qualidade sonora, a magistral técnica, a criatividade nos arranjos e a beleza das melodias que transbordam infinitamente por todo esse magnífico trabalho, uma verdadeira pérola da música instrumental brasileira, capaz de rivalizar com absoluta facilidade com qualquer outra banda estrangeira.

"Tema Etéreo" nos traz uma incomparável aula de como se deve fundir com sabedoria, habilidade e elegância o jazz rock e o progressivo. São mais de 9 minutos repletos de pura inspiração, habilidade e qualidade técnica de todos os seus integrantes. É uma faixa para se ouvir no volume máximo, pena tratar-se de uma gravação independente e por tal razão, não pôde ser melhor explorada, tendo em vista os elevados custos com estúdio. A faixa "Inter Vivos" é um verdadeiro clássico do bom e velho progressivo. Consiste-se numa clara e inequívoca declaração de amor ao progressivo, onde fica evidente a homenagem ao Genesis (na sua melhor fase). "Sonata", outra jóia desse álbum, é simplesmente uma das mais belas composições que já tive o privilégio de ouvir. Suave, profunda e emocionante. A faixa "Quantum", poderia ser entendida como uma "micro suite", repleta de uma beleza inicialmente contida, que se desdobra sutilmente nos dois primeiros minutos, para logo depois, revelar-se explosiva e catastrófica, para num terceiro momento, "reinventar" o cíclico e eterno processo da criação, com temas absolutamente cativantes, inteligentes e geniais.

Quero deixar expresso, aqui nesse meu insignificante Mukifu e limitado texto, meus sinceros respeitos e profunda admiração por todos os integrantes dessa genial banda brasileira, que com sua habilidade, criatividade e exemplar competência, desenvolveram um dos melhores álbuns que já tive a oportunidade e o privilégio de ouvir e tenho certeza que o álbum só não ficou melhor (do que já é) por absoluta falta de suporte e apoio financeiro.

Trata-se de um álbum exemplar, perfeito e merecedor de grande destaque na discoteca de qualquer apreciador do jazz rock e do progressivo. E quem não concordar, que faça melhor! Pois falar é fácil, realizar é tarefa hercúlea.


QUANTUM (1983)

Músicas:
01. Tema Etéreo
02. Chuva***
03. Acapulco
04. Inter Vivos**
05. Sonata
06. Quantum
07. Presságio [faixa bônus lançada junto com a reedição do álbum em 1993]*

Músicos:
Marcos G Rosset (Gringo): guitarra e violão (baixo em "Inter Vivos")**
Reynaldo Rana Jr. (Dinho): guitarra e violão de 12 cordas
Fernando Costa: teclados (guitarra em "Chuva")***
Segis C. Rodrigues: baixo
Paulo Eduardo Naddeo: bateria e percussão
Rolando Castelo Jr.: bateria em "Inter Vivos"**
* Felipe Carvalho: baixo em "Presságio"

domingo, 22 de setembro de 2013

Herod - Umbra [2013]



Por Victor de Almeida

“Onde não há luz, não há sombra…”

Uma das poucas bandas que eu conheço bem é a Herod. Acompanho o trabalho deles desde 2010 e posso dizer que vi o Umbra nascer e se transformar. Vi toda a empolgação juvenil (algo muito em falta no cenário musical nacional), dedicação e resistência de uma banda que está junta desde 2006, mas que parece que está começando agora. E eu posso dizer, a Herod está apenas começando.

Minha relação com a banda começou em 2010. Eu lembro do Elson Barbosa me entregando em mãos, aqui em Maceió, uma cópia do CD que a Herod estava lançando. Absentia era um disco de pós-rock composto e gravado por um trio – além do Elson no baixo, a banda contava com Sacha na guitarra e Johnny na bateria. Os temas instrumentais, sem grandes adereços, produções ou orquestras fez minha cabeça durante alguns meses. Tanto que começamos a pensar num plano para trazer o show do disco para Maceió.

Um ano mais tarde, eu produzi a terceira edição do Festival LAB aqui em Maceió e, com a defasagem de um ano, fizemos o lançamento do álbum Absentia, já após a entrada do Lucas Lippaus (guitarra) na banda. Lembro que durante esse show a Herod apresentou uma “música que estaria no novo disco”. A música era “Silencio” e pode ser encontrada em um vídeo do YouTube gravado ao vivo durante o show. Ouvindo agora a versão final gravada, lembro com saudade (e bastante orgulho) do dia em que tiramos algumas lascas de cimento da parede do Armazém Uzina, casa em que realizamos o festival.

Mas de 2011 para cá muita coisa aconteceu. Esbarrando nas dificuldades de toda banda independente, a banda criou seu próprio site para buscar através do financiamento coletivo bancar parte da produção do álbum. O Buzzker foi bem sucedido e gerou uma grana que possibilitaria uma gravação com uma estrutura maior do que eles estavam habituados. E maior também foi o público com o qual tiveram a chance de testar seu repertório novo, frente a trinta mil pessoas, abrindo os shows da turnê brasileira do The Cure no início de 2013.

Umbra nasce, então, como uma obra coletiva. Seja por já trazer, desde o seu começo, a ideologia do crowd-funding ou mesmo pela abertura para participação de outras pessoas dentro do processo de criação do disco. A Herod que você vai ouvir nesse álbum não é um quarteto e, sim, um octeto. Digo isso porque a banda soube aprender com cada uma dessas trocas e tirar o melhor de cada um deles.

Além de produzir o disco, Joaquim Prado também participa tocando sintetizador em “Penumbra”, “Blinder”, “Antumbra” e “Umbra”, bem como, guitarra em “Collapse”, “Limbo” e “Umbra”. Ouvir Jair Naves gritando sem voz, como nos tempos do Ludovic, é um dos presentes que o disco traz. Foram feitos três takes vocais para “Limbo”; No terceiro, Jair já estava sem voz, falhando nos gritos e rouco. É justamente esse take que foi escolhido, casando com o clima claustrofóbico e desesperado da letra. Ainda participam: Cadu Tenório, da banda Sobre A Máquina (RJ), com os noises em “Penumbra”, e Filipe Albuquerque, da Duelectrum (SP), com o vocal em “Blinder”.

Em 05 de setembro de 2013, Umbra vai nascer definitivamente e será lançado para download gratuito pelo selo virtual Sinewave (www.sinewave.com.br). Um disco construído em cima de temas sombrios e pesados, referência ao título que significa “escuridão e sombras” em latim. Umbra também é um álbum baseado em melodias, no lado bonito e obscuro da escuridão, mesclando elementos do pós-rock, drone, rock progressivo e noise. Mixado por Joaquim Prado, no Panda Amarelo Estúdios, e masterizado por Sérgio Soffiatti, em O Grito Estúdios, Umbra também mostra uma evolução técnica no processo de gravação em estúdio. É um álbum que eu acredito ser um divisor de águas na discografia da Herod, mas que também mostra para outras bandas independentes que sim, é possível fazer algo com qualidade técnica superior nesses tempos. As ferramentas estão postas para todos, é saber aproveitar.

Mas acredito que, mais importante do que tudo que eu falei, Umbra não é um álbum que mostra a Herod de hoje. É um álbum que irá mostrar novos caminhos para uma banda que acabou de começar. De novo.


Sacha: guitarras, drone, vocais
Lippaus: guitarras
Elson: baixo
Johnny: bateria

quarta-feira, 18 de setembro de 2013

Recordando o Vale das Maçãs - As Crianças da Nova Floresta [1978]

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Por Mairon Machado

O ano de 1977 viu nascer no Brasil um dos grupos mais fantásticos do rock progressivo nacional. Através do álbum As Crianças da Nova Floresta, o Recordando o Vale das Maçãs estabeleceu-se como um dos principais nomes da música na virada da década de 70 e para os 80, com canções que remetiam para as origens do rock progressivo, mas sem exagerar em técnica ou virtuosismo, apenas empregando letras sensacionais em arranjos belíssimos e encantadoramente trabalhados.

Recordando o Vale das Maçãs
O Recordando o Vale das Maçãs foi formado em 1973, em Santos (SP) através dos amigos Fernando Pacheco (violões e voz), Fernando Motta (violões e percussão) e Domingos Mariotti (flauta, voz), com a ideia de tentar mostrar o som da natureza através da música. Motta e Pacheco já haviam tocado juntos nos grupos Os Lobos e End Up Six.

Com o passar dos anos novos músicos uniram-se ao grupo, sendo que Domingos saiu em 1977. Pacheco, Motta, Luis Aranha (violino), Moacir Amaral (flautas), Eliseu de Oliveira (teclados), Ronaldo Mesquita (baixo) e Milton Bernardes (bateria) gravaram As Crianças da Nova Floresta, gravado em 1977, mas lançado em 1978, e que é considerado por muitos (eu incluso) o melhor disco de rock progressivo brasileiro já lançado (na frente de qualquer um de O Terço, Mutantes, O Som Nosso de Cada Dia e Módulo 1000). 

O grupo em ação

De uma forma geral, o disco apresenta letras similares às do Yes, contando histórias de alegria, superação, força de vontade e também alguns momentos de misticismo, sempre passando um lado “natureza” em todas as faixas, destacando o excelente trabalho entre flauta, violões e percussão. As canções do Lado A de As Crianças da Nova Floresta, tratam sobre esperança (“Rancho, Filhos e Mulher”, mitologia (“Besteira”), loucura (“Olhar de Um Louco”) e vida (“Raio de Sol”).

Jornal divulgando matéria sobre o RVM

Mas é justamente quando você coloca a agulha no lado 2 que você sente o diferencial do Recordando o Vale das Maçãs para as demais bandas do rock progressivo nacional daquela época. Tudo bem, “1974″ é um clássico do Terço, “O A E O Z” é uma canção que caberia muito bem em qualquer disco do Yes, mas “As Crianças da Nova Floresta” está muito acima de todas as citadas. 

O começo suave, com a flauta e os violinos sendo introduzidos ao mesmo tempo do violão e do baixo (que merece destaque em todo o álbum), dão sequência ao estribilho de teclados que leva ao início a letra (“quando eu penso nas voltas, que a vida, nos leva a dar …”). O ritmo lento, com a flauta fazendo intervenções junto com a voz, é simplesmente encantador. A bateria segura de Milton marca a canção quase com uma precisão cirúrgica, enquanto a letra vai descorrendo sobre como se livrar dos problemas, vendo que outras pessoas tem problemas piores que você, que você precisa mudar algumas situações/opiniões para ser mais feliz. Enfim, um quase “Close to the Edge” brasileiro. 


Recordando o Vale das Maçãs, ao vivo na TV

As harmonias vocais juntamente dos tecados vão aumentando o ritmo da canção, até chegarmos no momento onde você “encara os problemas de frente”, com um belo solo de baixo seguido por uma sequência de solos de teclado e baixo. A flauta soa mais forte, acompanhada pelo violão de 12 cordas de Pacheco, onde as verdades que precisam ser vistas são mostradas. 

“Olhe tudo do jeito que você quiser ver, mas antes olhe pra dentro de você, o caminho começa por aí” é o ponto mais forte da canção, que segue no mesmo ritmo, com o baixo tomando conta da canção juntamente com a letra e os acompanhamentos dos violões. Por fim, “unam-se as mãos e venham conhecer essas crianças, por que essas crianças são vocês” encerra a letra, mostrando que todos somos crianças, que temos que evoluir e não criar problemas, mas sim aprender a solucioná-los. Uma bela letra para uma bela canção, que termina com uma voz feminina angelical, que não dá pra saber se é de uma mulher ou de uma menina, mas que fecha com chave de ouro essa canção. Esses vocais foram feitos pela cantora Cristina Lobão, que saiu do grupo ainda em 1977.

O grupo acabou sendo contratado exclusivo da TV TUPI, chegando inclusive a ter um clipe que passava 6 vezes por dia na TV, durante 3 meses. Paralelo a isso, o Recordando o Vale das Maçãs participou regularmente de um dos maiores programas de audiência na época, “Almoço com as Estrelas”, apresentado por Lolita Rodrigues e Airton Rodrigues.

Em 1982, o grupo lançou o compacto “Sorriso de Verão/Flores na Estrada”, que segue a mesma linha do LP lançado quatro anos antes, agora com o baterista Lourenço Gotti, mas infelizmente a banda não atingiu o sucesso que merecia. A TV TUPI já havia fechado, e o Recordando o Vale das Maçãs passou a gravar especiais para TV Cultura, e participando de programas na Bandeirantes e Globo, com “Sorriso de Verão” levando-os ao primeiro lugar nas rádios (FM) de Santos, onde permaneceram durante 6 meses.

Compacto de “Sorriso de Verão”

Depois disso, o grupo separou-se. Em 1987, Fernando Pacheco lançou o excelente Himalaia, que conta com a participação de alguns músicos do RVM no lado A. Com certeza eu irei falar desse disco aqui em breve.

As Crianças da Nova Floresta II

Nos anos 90, voltaram a fazer shows pelo Brasil, culminando no lançamento de As Crianças da Nova Floresta II (1994), o qual resgata canções de As Crianças da Nova Floresta e também de Himala, porém em versões instrumentais. O grupo foi descoberto na europa e no Japão, já que As Crianças da Nova Floresta havia sido lançado por lá, em 1994, os leitores da revista francesa Big Bang elegeram As Crianças da Nova Floresta II como o melhor álbum de progressivo daquele ano, recebendo então o convite, através da embaixada francesa, de participar do Fête de la Musique em Paris, em 1997. Em 2006, foi lançado Spirals of Time, que apesar de não conter o nome do grupo, foi gravado pelos mesmos integrantes que mantém o nome Recordando o Vale das Maçãs na ativa.

Atualmente a banda faz shows em Minas Gerais,ao mesmo tempo que Domingos e Motta acabaram de lançar o excelente Reunião, mantendo o charme e a pureza dos anos 70, cultivadas através da semigual suíte “As Crianças da Nova Floresta”

terça-feira, 17 de setembro de 2013

Robertinho de Recife - Jardim da Infância [1977]



Por Mercenário Maldito
publicado no Progressive Downloads

Enquanto tentava recuperar os dados de um velho HD, encontrei uma preciosidade brasileira que ficou esquecida pela absoluta falta de tempo em aprimorar sua qualidade sonora.

Infelizmente a matriz em MP3 (que deixo de consignar a origem por não ter tomado a cautela de anotar) estava gravada em apenas 128 kbps, o que por si só, já limita qualquer tentativa de aperfeiçoamento sonoro. Fiz o que foi possível, milagre não faço.

Após uma cuidadosa seção de Sound Forge, acho que deu para recuperar pelo menos em parte a qualidade do LP (que diga-se de passagem, também não é das melhores).

Robertinho de Recife, sem sombra de dúvida, foi um dos guitarristas brasileiros mais injustiçados pelo público, pela critica e principalmente pelas gravadoras. Ao longo de sua carreira já fez de tudo um pouco, acompanhou vários grandes nomes da MPB, passou por uma fase heavy, formou a “Bunda”, oops, digo, banda Yahoo (com o evidente intuito de colocar uns trocados no bolso), enfim, o cara é “cascudo” e hoje é produtor musical, arranjador e ao que parece nem pensa em voltar aos palcos (lamentavelmente).

Essa obra inaugural tem de tudo e muito mais e é a prova cabal dessa irremediável injustiça. Robertinho consegue mesclar e impor com maestria os ritmos brasileiros ao Jazz e ao Jazz-rock, é uma verdadeira façanha no que se refere a arranjo, composição e execução. É de uma beleza, complexidade e competência técnica e artística exemplar.

Preste atenção à música “Chamada”, é magnífica a fusão do som brasileiro com o mais genuíno jazz- rock ao estilo Mahavishnu. A perfeita integração do cello, do baixo acústico, do trumpete com a guitarra e a guitarra portuguesa é obra de quem sabe das coisas. Outras que impressionam são “Sinais”, “Idade Perigosa”, “Ao Romper D’Alva” e “Agrestina”.

Fagner foi o produtor dessa jóia e escolheu a dedo os músicos que participam desse trabalho, que conta com: Chico Batera, Marcio Montarroyos, Sivuca, Itiberê, Jamil Joanes, Nivaldo Ornellas, Wagner Tiso dentre muitos outros.


Veja também:
Robertinho de Recife - Rapsódia Rock [1990]

sexta-feira, 13 de setembro de 2013

Marcelo Nova - 12 Fêmeas [2013]



Postado por Alexandre Campos Capitão
publicado no Blog oficial do Marcelo Nova

Após O Galope do Tempo, Marcelo Nova se colocou numa sinuca de bico, pois como iria suceder aquela que é considerada sua obra-prima? Marceleza passou o giz e numa tacada de mestre não apenas encontrou uma saída para esse momento da sua carreira, como também concretizou 12 Fêmeas como o trabalho em que elevou a música que emoldura a grandiosidade dos seus textos ao mesmo patamar do conteúdo das suas palavras. Seu novo disco apresenta um Marcelo Nova tendo suas emoções, dramas, histórias e poesia em voz e caneta também interpretadas com complexidade e riqueza de detalhes musicais sem precedentes em sua obra.

Drake Nova, como já escrevi em outra oportunidade, deixou o papel de guitarrista para encarnar o de cenógrafo, compondo o ambiente ideal que cada texto, cada sentimento, e cada situação pede. Drake é o maior responsável pela complexidade de cores, nuances, ruídos, harmônicos e todo tipo de dinâmica contida nesse álbum. Não bastasse isso, ainda é responsável pela arte gráfica do álbum. Sim, meus amigos, o gênio encontrou o parceiro ideal.

Marcelo Nova entrou no New Studio em São Paulo, que se transformou no seu Abbey Road, com 12 canções definidas e planos de fazer um disco apenas com violões e guitarras. Mas ao longo do processo as participações foram se ampliando, inicialmente as intervenções começaram através de Luiz de Boni, uma espécie de Ian Stuart marcelonovista. Mas esse processo se ampliou de tal forma, que até surgiram contribuições internacionais bastante inusitadas.

A trindade Marcelo Nova/Drake/De Boni formou a base do álbum, com De Boni assumindo o papel de multi instrumentista, tocando baixo, percussão, além do órgão e piano. Os membros da banda que acompanham nos shows há vários anos, Leandro Dalle (baixo) e Célio Glouster (bateria), também se fazem presentes em 3 faixas.

Mas o acaso também teve sua participação. Você pode chamar de sorte, destino ou do que preferir.

O rei do rock jantava num shopping da capital paulista quando começou uma apresentação de música escocesa executada com a tradicional gaita de fole. Marceleza se aproximou e convidou um dos músicos para gravar uma participação no álbum. Acabou descobrindo que se tratava de um autêntico escocês, Aindan Drummond. Drummond como Marcelo Drummond Nova, seu nome completo. O que poucos sabem é que a origem do sobrenome Drummond de Marceleza(pronuncia-se Dramom) também é a Escócia. E assim dividiram as coincidências e a canção A Morte Da Mão Que Afaga. Das highlands para São Paulo, assim se escreveu mais um capítulo do disco.

Num outro dia, chegando ao estúdio encontrou um grupo de monges tibetanos que viajava pelo mundo gravando canções e arrecadando fundos para o movimento de libertação do Tibet. Estava definida mais uma participação internacional, com tambores artesanais quase impossíveis de nominá-los. Não pense em percussão étnica tibetana, hare krishna, do tipo que George Harrison utilizou. Mas antes, próximo ao que fazia John Bonham. Logo Marcelo o rei do rock e dos apelidos passar a chamar o monge Goba Wangka de “Prachanska”, ou você acha que ele perdoaria um serviçal do Dalai Lama? Do Himalaia para São Paulo, 12 Fêmeas seguia evoluindo. Quase como se tivesse vida própria, mas sempre comandado pelas rédeas firmes do seu mentor.

Só que esse condutor apresenta-se sob o nome de Marcelo Nova. Um homem que quando ouve falar em auge, Correndo o Risco, A Panela do Diabo, Quem é Você?, O Galope do Tempo, respira fundo e sobe mais um degrau. Preserva tudo que tornou seu trabalho tão notório, como também mantém sua dialética profunda e viva, adicionando amplitude e profundidade. Quando o ouvinte se entrega para 12 Fêmeas é possível sentir como se as dores e os dramas cantados fossem seus, ou contassem a sua própria história, uma espécie de bônus track interior. O sangue respingado no espelho ainda parece quente. Suspiros e gemidos ecoam pelos cômodos... Marcelo Nova é capaz de fazer isso. O maior letrista desse país.

Marceleza continua sendo também um produtor do primeiro time. Auxiliado por Drake e De Boni, por trás dos botões da mesa de som, um incansável perseguidor da qualidade, com o ouvido apurado pela sua coleção de CDs, LPs, e a dinâmica quem reconhece o elevado nível do próprio trabalho. E para a masterização foi escalado Ricardo “Franja” Carvalheira, também responsável pelo O Galope do Tempo.

12 Fêmeas é mais do que uma experiência sonora, é mais do que uma experiência sentida, é mais para Are You Experienced?, sendo também uma experiência visual. Num trabalho gráfico primoroso, a começar pela capa, bela e fora do lugar comum de se relacionar com o título, passando por várias telas que evoluem ao longo do encarte, muito mais para um livreto. Trabalho da artista plástico, esposa, mãe (você escolhe a ordem), Inêz Nova. Família que trabalha unida, bota pra fudê unida.

Marcelo fez mais que canções, criou 12 atos que traduzem o espírito do seu trabalho.

Faixa a faixa:

Claro Como a Luz (Escuro Como Breu)

A faixa de abertura já dá a tônica do que está por vir. Não se trata de um álbum do tipo 1,2,3 e o pau come. 12 Fêmeas é para ser ouvido com o cérebro e não com a cintura. Drake coloca o dedo em nossa cara e mostra logo a que veio. A passagem em que a sua guitarra simula bandolins pode ser colocada junto dos momentos instrumentais mais célebres de toda obra de Marcelo Nova. O violoncelo tocado Antonieta Minella adiciona mais drama. E a percussão do monge de “Dalai Nova” quebra os últimos paradigmas que restavam. Dona de um refrão privilegiado, ainda traz a frase que não me sai da cabeça “meu sótão está lotado de macacos”.

Inverno Impiedoso

Um riff tenso de blues vai se repetindo de forma neurótica. A evolução dessa canção lhe dá uma sensação de entrar sanatório em formato espiral, e que a cada passo a saída se torna mais distante. Vem o órgão, vem o tímpano. Marcelo canta “esse deve ser o inverno mais impiedoso que já vi”. Eu penso que essa é a canção mais impiedosamente outsider que já ouvi. Doentiamente genial.

Eu Lhe Vejo Em Sonhos

Essa canção ganhou um lyric vídeo. Um rock estradeiro daqueles que dá vontade de ligar o carro e pisar fundo. Marcelo ao volante, Drake no bando da frente, Leandro, Celio, De Boni e você no banco de trás. Entre uma troca de marchas e outra, o motor v8 se enche de potencialidade: “Sempre penso em você quando vou me deitar, pois só no mundo dos sonhos posso lhe encontrar”. Mas com Marcelo Nova sempre tem mais “Meu anjo de olhos de fogo e língua de querosene”. Acabamos multados...

Anjo Doce Anjo

O drama volta à pauta. Violão e órgão conduzem as imagens construídas. De mãos dadas com a tensão, o violoncelo também retorna. “A sua criança está de volta, quase irreconhecível, a dor ainda é a mesma, ela só aumentou de nível”. A canção termina e você ainda aguarda a resposta: “anjo doce anjo, me responda se é visível”.

A Minha Inveja

“Eu invejo o sol, que derrete seu gelo, faz seus dias mais longos, aquece seus pelos”. Entre muitos violões e muitas guitarras, Marcelo e Drake celebram a primeira parceria musical.

Blue Eyes

O baixo chama e um belo trabalho de bateria começa. Blue Eyes tem um dos grandes solos de guitarra do álbum. “Então seus dedos tocaram os meus e roçando me deixaram mudo, me pegando desprevenido quando estar preparado é tudo”. Marceleza sempre nos pega desprevenidos.

O Nome do Jogo

A capacidade da descrição transporta você para aquele quarto de hotel. Cuidado com o que leva na mala. O aviso lá está: “paixão é um jogo violento e perigoso, com seus arames farpados, seu terreno pantanoso”. As descrições continuam, você segue pelos cenários criados e se depara com uma constatação dolorosa: “eu sigo quebrando o que não sei consertar”. Que belo violão. Que bela canção.

Temporada No Inferno

Marcelo nos recepciona: “bem vinda à outra temporada no inferno”. E atenção, a pausa contida nessa canção é outro momento memorável. Drake não perde oportunidade de mostrar competência. Ele não costuma perder gol dentro da área. Atrai a atenção da zaga e livre de marcação deixa Marceleza chutar no ângulo, indefensável: “nós somos a prova viva do imenso mal gosto de Deus”. Poderia terminar aí, mas não termina, sorte nossa.

O Ódio da Mão Que Afaga

A única canção não inédita de 12 Fêmeas. Lançada anteriormente no ao vivo Hoje no Bolshoi, ela ganha sua versão definitiva. Os violões estão lá, as guitarras também, o órgão, o piano, e Aindan Drummond solando com sua gaita de fole. Que final épico.

Mistério Para Mim

O sabor jazzy é adotado pela décima fêmea. Drake conversando fluentemente com De Boni. “Com a cabeça fez que não, mas acabou dizendo sim, nada que esclarecesse o seu mistério para mim”. Mas quem disse que todo mistério deve ser resolvido? Por exemplo, por onde andou Drake nos últimos 20 anos?

Não Consigo Escapar de Você

Marcelo não pede permissão e novamente te transporta: “era o último minuto do ano e os fogos bailavam no ar”. Imediatamente você se vê numa daquelas tantas noites de réveillon. Novas imagens vão sendo descritas, sem que se encontre uma solução. “Lembrar daquele beijo roubado me deixou algemado, impossível me locomover, todos os trens já partiram, e eu não consigo escapar de você”. Um belo solo de piano no meio da canção e um de guitarra que culmina com um final original e caótico, daqueles que você não consegue escapar.

Sinais de Fumaça

Para falar da canção que fecha 12 Fêmeas preciso cometer uma heresia, mas afinal quem pode escrever algo relevante sem alguns bons pecados? Sinais de Fumaça é uma espécie de A Ferro e Fogo sem orquestra. Talvez não tão lírica, mas igualmente ousada e longa, com muita dinâmica, e com todos os ingredientes para também se transformar em clássico. Ao invés dos clarins, a microfonia da Gibson Chet Atkins de Marceleza introduz o que vem a seguir. Ao invés do mar, o fogo. O refrão “Tem algo queimando baby, tem algo cheirando mal” será cantado nos shows pelas mesmas vozes que cantam “bota pra fudê”. Um longo solo de órgão mostra todo o gabarito de De Boni. E no solo de guitarra surge outro candidato a melhor performance do álbum. Os tambores se apresentam de forma única, trazendo ainda mais personalidade para a composição. “Deus está roendo as unhas em sua suíte nas alturas, contemplando toda a insanidade das suas próprias criaturas”.

12 Fêmeas possui um defeito grave, e vou te contar agora qual é: ele possui um fim. Pois esse é daqueles que discos que você gostaria que nunca acabasse. Mas Marcelo Nova encerra 12 Fêmeas sem guardar o melhor para o final. O melhor está em cada segundo desse que já é o melhor álbum de 2013.

quarta-feira, 11 de setembro de 2013

Wander Wildner - Baladas Sangrentas [1996]



Por Lucas Vieira

O primeiro disco do ex-Replicantes não poderia ter um título melhor. Com um som cru e um vocal rasgante, o rockeiro gaúcho Wander Wildner fez realmente baladas sangrentas em seu estereotipado “Punk brega”. O rótulo deve relacionar-se ao seu som muito influenciado pelo punk e suas letras com temáticas melancólicas, além do uso de alguns elementos, como cordas, que os mais fanáticos devem condenar. Ao longo do disco, Wildner além de cantar em português, flerta com o espanhol, que se faz presente ao longo da sua carreira. Isso já pode ser notado no início do disco, com “Ustê”, o punk violento que traz o título com a versão “portunhol” da palavra “usted” – “senhor” em espanhol. A segunda faixa, é uma balada muito interessante, com um ar meio triste e que depois de três anos do lançamento do disco, veio a ficar famosa na regravação do grupo Ira!. “Bebendo Vinho” é regida por um violão seguido de um arranjo de cordas ao fundo. Wander grava no disco uma tradução de Marcelo Moreira para a animada “Lonely Boy”, dos Sex Pistols, que ficou muito fiel à original lançada no disco The Great Rock N’ Roll Swindle – que diga-se de passagem, é um título que faz jus a banda. As letras de “Empregada” e “Freira Desalmada” são bem sacanas. A primeira é da turma da Graforréia Xilarmônica e a segunda é do Wander, com timbres que lembram bastante os anos 80. O clássico extraordinário “Eu Tenho Uma Camiseta Escrita Eu Te Amo”, vem na sexta faixa, com timbres médios, som pesado e a letra sobre um rapaz e seu amor platônico. Em uma das passagens da música aparece uma linha de cordas, dando um clima mais calmo à musica. Em seguida, o clássico “Lugar do Caralho”, do seu conterrâneo Júpiter Maçã, recebe um arranjo eliminando seu caráter psicodélico e assumindo uma característica mais beat. “La Playa” é mais um punk descompromissado, com a letra no estilo dos Ramones e a segunda aparição do espanhol no disco. Seguindo em espanhol, “Burgues” é uma crítica irônica e de som pesado ao capitalismo – de praxe, se tratando de punk. Pagando de “macho mauzão”, Wander aparece com “Maverickão”, de Zicco Cardoso, uma canção bem agitada, falando sobre o amor a um carro Maverick. Referência aos beatniks aparece em “On The Road”, canção que tem o mesmo título do livro do escritor Jack Kerouac, expoente do estilo literário. A letra lembra a temática dos beats, de estar sempre pronto para partir, com a mochila à mãos e coisas assim. A sonoridade pesada fica por conta da guitarra rápida e distorcida, o baixo com som bem estalado e a marcação da bateria no prato de condução. Por último, “Ganas de Vivir”, traz outra vez o espanhol, com um som bem latino e apenas o violão e um slide. Baladas Sangrentas não é nenhum disco clássico, vanguardista ou genial, mas ele é um ótimo álbum, com um punk rock escrachado e é a pura expressão do rock gaúcho na mão de um de seus grandes criadores.

segunda-feira, 9 de setembro de 2013

Wander Wildner - Buenos Dias! [1999]


Por Davi Ferreira
publicado em Punknet

Em seu segundo disco solo, Wander Wilder, ex-Replicantes, continua mantendo seu estilo punk brega. O álbum Buenos dias! é repleto de baladas que não irão agradar em nada aos punks mais radicais. No entanto, o disco conta também com músicas punks no melhor estilo Ramones. Vale destacar a presença da ótima banda gaúcha Chulé de Coturno, que acompanhou Wander Wildner em toda a gravação do disco. Destaque para "Quase um alcoólatra", clássico do Chulé de Coturno, "Rato de porão", "Passatempo" e, a engraçadíssima, "Eu queria morar em Beverly Hills".

domingo, 8 de setembro de 2013

Trem do Futuro - O Tempo [2008]


Por Nathan Petrin
publicado em 17 de maio de 2011 no Cometa Rock

Esse é o segundo álbum do Trem do Futuro. A banda voltou a produzir depois de um hiato de 12 anos.

Usando diversos intrumentos, como flautas, violinos, bandolim, piano, gaita, além dos tradicionais instrumentos de uma banda de Rock, o Trem do Futuro produz um som bastante peculiar, principalmente quando o analisamos sob a ótica do cenário nacional.

Pelo uso constante da flauta e uma melodia muito rica, pode-se dizer que a sonoridade da banda se assemelha bastante com a sonoridade do Jethro Tull, a diferença fica por conta do peso. O Tempo é mais pesado, apesar de possuir seus momentos mais calmos.

Um grande disco, de grandes letras e ótima performance instrumental.

01 - Seres Imaginários
A música começa ao som de uma bela flauta acompanhada por um bandolim e violão. Depois o som ganha corpo. Seres Imaginários prossegue oscilando momentos pesados e calmos, enquanto Rossglow fala de seres inexplicáveis pela razão.

02 - Saga
Um dos destaques do álbum. Saga fala da necessidade de seguir em frente, "mesmo que seja em zigue-zague".

03 - O Som do Silêncio / A Porta
Mais uma belíssima introdução. A música ganha bastante peso quando começa o vocal de Rossglow. A letra é confusa e de difícil compreensão. Fala de atravessar uma porta, que no final descobre-se não existir.

04 - Búfalos Audazes
Búfalos Audazes tem uma melodia um pouco mais simplificada do que as anteriores. É outra música de grande destaque no álbum. Os búfalos da letra parecem ser uma metáfora para os humanos, que vivem desafiando Deus em um jogo suicida.

05 - Lamento das Horas / O Tempo
Uma introdução bastante Folk é a marca da quinta faixa, Lamento das Horas / O Tempo. Depois entram os vocais, e é impossível não lembrar de Pink Floyd em The Great Gig in the Sky. Também há presença de guitarras seguindo escalas espanholas, que lembram uma tourada.
Após quase três minutos, entram vocais rasgando (literalmente) a melodia, que adota uma postura bem mais pesada e agressiva.

06 - Ainda que Tarde
Ainda que Tarde começa colada na faixa anterior. O grande destaque dessa música fica por conta da letra. Ainda que Tarde confunde e perturba.

07 - Trem do Futuro
Uma pegada mais Hard Rock em alguns momentos, e belas presenças de violino no meio da música.Trem do Futuro, a faixa que dá título ao álbum, possui uma poesia dadaísta que forma uma sonoridade incrível com suas "papoulas e matemática nas bocas dos canhões" e "inquilinos de Plutão".

08 - Olho do Tempo / Onda Brava / Tempo Nu
A linha dadalista segue nessa faixa. O problema do dadaísmo, é que quando usado em exagero, perde o efeito surpresa e o caos das rimas que confundem a cabeça do ouvinte. Essa faixa pouco acrescenta ao álbum.

09 - Na Trilha do Diabo
Aqui a banda arrisca um Blues. É verdade que Na Trilha do Diabo foge da proposta do álbum, mas é bom para quebrar a pegada e mostrar que sabem muito bem como transitar por outros gêneros sem perder a qualidade.

10 - O Homem Antigo
Para finalizar, em O Homem Antigo a banda adota uma linha mais pesada e rápida. É uma faixa que talvez não agrade os fãs de Rock Progressivo, mas certamente agradará aos que curtem mais "punch" e um som mais crú.
A letra é bastante interessante, pois acaba traçando um paralelo com as músicas dadaístas Nela é falado de um homem antigo, que contava histórias malucas e impossíveis de serem compreendidas.


Integrantes: Alan Kardec Filho (baixo), João Victor (teclado), Marcelo M. Leitão (guitarra), Marcos Bye Bye (bateria), Paulo Rossglow (vocal), Sidarta Guimarães (violino), Ulisses Germano (flauta e bandolim).


Veja também:
Trem do Futuro - Trem do Futuro [1995]

sexta-feira, 6 de setembro de 2013

Selvagens À Procura de Lei [2013]



Por David Oaski
publicado em 27 de agosto de 2013 no Ideologia Rock

Todos aqueles que acompanham de perto o mundo do rock se depararam nos últimos dias em portais de notícias, blogs, rádios online e afins com o nome de uma banda cearense que acaba de lançar seu segundo e mais recente álbum: Selvagens À Procura de Lei.

Por ter sido elogiada por grandes nomes do rock nacional, como Dinho Ouro-Preto, Tico Santa Cruz e Dado Villa Lobos, a banda vem sendo taxada como a nova salvadora da lavoura do rock nacional, carga de responsabilidade exagerada e desnecessária a ser carregada pelos rapazes.

O Selvagens À Procura de Lei (ou SAPDL) foi formado em 2009 e conta com Rafael Martins (vocalista e guitarrista), Gabriel Aragão (vocalista e guitarrista), Caio Evangelista (baixo) e Nicholas Mgalhães (bateria). 

Desde o início a banda se diferencia por mesclar influências de rock com MPB, música nordestina e soul music. Mesmo que no início essas influências não transparecessem no som da banda, os caras fizeram questão de mostrar seu amadurecimento no aguardado lançamento de seu segundo álbum, o primeiro por uma grande gravadora, a Universal.

O álbum se desenvolve através de um teor melancólico, com melodias mais arrastadas como em “Despedida”, que possui ótimo auxílio nos vocais do baterista Nicholas e como o nome sugere narra o triste fim de um relacionamento. “Sr. Coronel” tem um quê de soul, com teclados permeando a melodia, assim como “Crescer Dói”. Já “Mar Fechado” é uma canção triste, que lembra o Los Hermanos e possui um belo solo de guitarra. 

A banda se mostra muito entrosada com as guitarras costurando o embrião das melodias, transpirando energia e disposição e a cozinha se mostra coesa, mostrando a química entre os integrantes. Tal química é vista transbordar nos pontos altos do play: “Massarrara”, que lembra o indie rock do começo dos anos 2000, de Strokes, Arctic Monkeys e Franz Ferdinand; “Brasileiro” é o primeiro single e possui ótimo riff e letra, que mostra algumas características não tão invejáveis de nosso país e nosso povo; “Enquanto Eu Passar Na Sua Rua” é uma balada pop com ótimo refrão, bela melodia e vocais entrelaçados em vários momentos; e “Mucambo Cafundó” traz à tona toda vocação pro rock dos nordestinos, cujo título se refere a um personagem e suas desventuras na terra natal da banda, Fortaleza.

A diversidade de influências e maturidade da banda ainda é notada na viajante e psicodélica melodia de “Juventude Solitude”, na melodia que remete à Weezer de “Carrossel Em Câmera Lenta” e na balada também repleta de teclados com visão otimista fechando o disco “O Amor Existe, Mas Não Querem Que Você Acredite”.

Tenho visto um misto de reações ao se analisar o álbum do SAPDL, de forma que muitos esperando ouvir a salvação do rock nacional se mostram frustrados. Outros exaltam a banda como tal e a compara à geração de ouro do rock feito no Brasil nos anos 80. A meu ver, as análises não podem ir nem tanto ao céu, nem tanto a terra, pois se trata de uma banda recente, que já se mostrou talentosa e promissora, porém por ainda estar no seu segundo lançamento, o primeiro com produção mais elaborada e que marca a mudança da banda para as grandes metrópoles, ainda tem muito a evoluir.

Particularmente, prefiro a pegada rock das canções dos cearenses em relação à melancolia, no entanto a banda tem o mérito de retratar de forma plausível e original os anseios e angústias do jovem brasileiro moderno, já que esse segmento é muito mal abordados pelos seus contemporâneos que narram dramas de Facebook e shopping center.

Mais uma grata surpresa no rock nacional, os garotos mostram que idade não tem nada a ver com qualidade das letras e melodias, pois fizeram um álbum honesto, com diversas mensagens marcantes, como cantam em “Brasileiro” (..Desculpe se a letra está ficando difícil é que eu nunca treinei para fazer comício...).

Que eles mantenham esse espírito e sigam levando rock n’ roll Brasil afora.


Veja também:
Selvagens a Procura da Lei - Aprendendo a Mentir [2011]

quarta-feira, 4 de setembro de 2013

O Grande Ogro [2013]

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Por Rafael A. em Feira Moderna Zine

Sabe aquelas bandas que você deseja que muito mais gente ouça simplesmente pelo fato de serem excelentes? Pois bem, é basicamente essa sensação que bateu neste que vos escreve ao dar de cara com a O Grande Ogro. Já havia ouvido alguns sons da banda, mas agora saiu o EP! Este novo lançamento, disponível para download gratuito, traz quatro sons instrumentais incríveis! “Metal Frio”, “Sou Mais Esperto que a Maioria dos Ursos”, “Obscecado Pela Vida Preferiu Alimentar-se Para não Morrer” e “Robert Garcia” são a garantia de uma viagem e tanto! Não é à toa que Jackson(guitarra), Cesar Carlos (bateria), Andre Astro (guitarra) e Genésio Alves (baixo) mencionam nomes como At The Drive-In, The Mars Volta e Fugazi como influências do trabalho. Altamente recomendado, ok?

quarta-feira, 21 de agosto de 2013

Plebe Rude - Plebe Rude III [1988]

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Por Bianca Salgado
publicado em 21 de novembro de 1988 na Revista Amiga

Ná oito anos, em Brasília, havia uma turma jovem, cujo principal elo era o punk rock. Os rapazes se reuniam para ouvir novos ritmos estrangeiros e depois saíam tocando pelas esquinas da capital. Daí, surgiram bandas como Capital Inicial, Legião Urbana e Plebe Rude. Agora mais maduro e articulado, chega o terceiro disco da Plebe. Jander Bilaphra, André X, Philippe Seabra e Gutje, integrantes do grupo, garantem grandes mudanças nesse novo trabalho. "Estamos menos contestadores. Atualmente, fazemos músicas que a gente gosta. Esse disco é um trabalho muito heterogêneo, com várias propostas. Não é 100% rock, como os dois primeiros. Neste, estamos usando vários sotaques", explica Jander.

Sem perder o senso crítico, que tanto agrada ao seu fiel público, além de ter se tornado a marca registrada da banda, eles pretendem quebrar o mito de que não são músicos de mercado. "A gente quer ser comercial, sem ter que mudar para isso. Nós não vamos fazer músicas para tocar em rádio, porque isso não faz nossas cabeças e decepcionaria as pessoas que acreditam na gente, mas não significa que não queremos ouvir nossas músicas tocando em todos os lugares", acrescenta Jander. A proposta desse novo LP é basicamente "levar música consciente para os jovens que serão o futuro do país. É tarde para mudar a cabeça dos políticos, temos que tentar mudar essa geração que ouve Plebe Rude", concordam todos.

terça-feira, 20 de agosto de 2013

Azimüth [1975]



Por zarcecosta no Woodstock Sound

História
O grupo nasceu junto com a cervejaria Canecão em três palcos diferentes Zé, Alex e Mamão atuavam com seus grupos,revezando as apresentações Mamão com os “Youngsters”, Alex com um trio de bossa-nova e Zé Roberto resolveu se juntar com os caras que ele admirava outros pinguins. Maestro arranjador Zé Roberto Bertrami não parava nunca,hora escrevendo, hora gravando,hora tocando.

Contratado pela Philips (posteriormente Phonogram) os três gravavam e arranjavam as bases dos sucessos da época, entre eles estavam Raul Seixas, Tim Maia , Erasmo Carlos, MPB-4, Marcos Valle, Erlon Chaves, Sérgio Sampaio , Gonzaguinha e muitos outros o que totalizava 4 entre seis músicas que tocavam na Rádio Mundial e Tamoio em 1974.

Em 1970 faziam apresentações ao vivo com o grupo “Seleção” onde pretendiam fazer bailes que acabavam com o público sentado, ouvindo e aplaudindo como se fosse um show. Anos depois resolveram gravar um disco independente influenciados por seu amigo Tim Maia que já estava em estúdio fazendo, porém quando o LP ficou pronto a produção foi vendida a gravadora novata Som Livre que tratou de colocar a faixa “Linha do horizonte” na novela “Cuca Legal” o único sucesso cantado pelo grupo. O grupo passou a se chamar Azymuth por sugestão de Paulo Sergio Valle durante as gravações da trilha sonora do filme “O Fabuloso Fittipaldi”.

Em 1975 gravam “Melô da Cuíca”, música integrante da trilha sonora da novela “Pecado Capital“, o fusion samba funk trouxe o convite para o grupo participar do Festival de jazz de Montreaux na Suíça (foram os primeiros brasileiros então convidados para o evento). Logo depois de ser chamado para arranjar uma faixa do disco da Ella Fitzgerald, a cantora brasileira Flora Purim que havia recebido o prêmio demelhor cantora de jazz (Estados Unidos) daquele ano contratou o grupo para uma tourné por todo o país.
Ivan Conti: Baterista

Carinhosamente apelidado de “Mamão”, nascido na Tijuca no Rio de Janeiro iniciou-se em música tocando guitarra. Mas foram os solos de Gene Kruppa que o levou a trocar de instrumento. Sua coordenação motora e seu completo domínio nos tambores é impressionante. Já se apresentou com Ray Brown, Dizzy Gillespie, Milt Jackson, Elis Regina, Gal Costa, Erasmo e Roberto Carlos, Eumir Deodato, Rita Lee. Participou da orquestra Internacional do maestro Paul Mauriat que o incluiu em duas temporadas em que fez shows no Japão.

O álbum
Sonzera de primeira grandeza, power trio com um groove unico e nada de excesso de virtuosismo, a banda começou acompanhando o gênio Marcos Valle (com quem gravou discos e trilhas sonoras de filmes e novelas) e depois tomou vida prórpia e ficando mais famosa nos EUA e Europa que aqui onde não valorizam muita a música instrumental.

A maior parte do disco é instrumental, mas temos vocais em algumas como Faça de conta e Linha do Horizonte que é o hit da banda no Brasil, esses caras já faziam em plena década de 70 o que hoje é chamado de Longe Music , ou seja uma música relaxante, com harmonias belas e um groove que não deixa ninguém parado.

José Roberto Bertrami (Teclados)
Alex Malheiros (Baixo)
Ivan Conti ”Mamão” (Bateria)

sexta-feira, 16 de agosto de 2013

Metal nacional: público quer tudo de graça e músico não se valoriza

Por Marcelo Moreira
publicado em 19 de junho de 2013 no Combate Rock

“Cultura e arte não valem nada. Ninguém mais dá valor, ninguém tá nem aí com quem toca ou com quem produz. É uma geração que se acostumou mal no século XXI, achando que tudo é de graça e que é um absurdo pagar por cultura. É gente que quer tudo de graça, e que se dane os custos de quem produz arte e cultura.” O desabafo é de um um produtor artístico em vias de abandonar a atividade, durante o minifestival de heavy metal ocorrido no domingo à noite em São Bernardo.

Não foram muitos os abnegados que saíram de casa à noite, no frio intenso, para ver Ratos de Porão, Nervosa, Forka e Bioface no Princípios Bar, no centro de São Bernardo, no ABC. Com ingressos na porta a R$ 50, o evento atraiu menos gente do que o esperado, mesmo em dia de jogo da Espanha contra o Uruguai pela Copa das Confederações.

O quase ex-produtor cultural pediu para não ter seu nome divulgado porque ainda tem alguns contratos a cumprir e teme represálias por suas posições, já que ainda não recebeu pela realização dos próximos eventos. “Hoje só é viável produzir cultura com razoável qualidade e alguma condição quando o poder público está envolvido, patrocinando ou organizando eventos. E estes geralmente são gratuitos. A galera acha que esse é o padrão. Não se incomoda em gastar R$ 300 para ver o Black Sabbath ou o Iron Maiden, mas se recusam a pagar R$ 50 para ver quatro bandas boas, uma delas o Ratos de Porão.”

A queixa tem a sua razão de ser. O Princípios Bar, na principal rua comercial de São Bernardo, teve público abaixo do esperado, e alguns incautos circulavam na rua, nas imediações, na tentativa de ouvir alguma coisa do som e tomar bebida alcoólica barata. “Jamais pagaria R$ 50 para ver banda nacional, seja quem for. É um roubo”, diz Renato Campos, office-boy de 20 anos que afirma gostar de rock pesado.

Já o auxiliar de escritório Carlos Henrique Medeiros, de 22 anos, teve disposição para sair da vizinha Santo André e ir ao Princípios, mas não entrou. “Vim encontrar os amigos e tomar uma pinga, mas não vou entrar. É ridículo pagar R$ 50 para ver uma banda velha e outras que nunca ouvi falar. Só vejo banda de graça, e ainda tem de ser muito boa”, fala com orgulho, provavelmente se referindo ao projeto Rock na Rua, da prefeitura de Santo André, que voltou com força em 2013, onde patrocina shows de rock ao vivo e gratuitos em alguns pontos da cidade, uma vez por mês.

“Todos nós nos desacostumamos a gostar de música”, sentencia Alexandre Barros Júnior, empresário de 30 anos e ex-guitarrista da banda Karpatos, de São Bernardo. Ele estava indeciso se entrava ou não para ver o minifestival. “Só me interessa o Ratos de Porão, mas teria interesse de ver as outras bandas se o evento não fosse terminar tão tarde.”

Barros afirmou que os músicos também têm culpa pela falta de interesse em artistas novos. “Nós nunca nos valorizamos como deveríamos, principalmente no rock e principalmente no heavy nacional. Nos anos 90 tinha gente que não tinha pudor em pagar para tocar em festivais grandes ou pequenos, ou mesmo para abrir shows de bandas internacionais de terceira categoria. Com o tempo teve gente que pagava até mesmo para abrir para bandas nacionais com algum nome. Essa concorrência predatória chegou aos barzinhos: bandas tocavam de graça em troca de espaço e, cúmulo do cúmulo, tinha banda pagando para tocar nos bares mais legais e mais concorridos. Ninguém pode reclamar hoje.”

O empresário diz que abandonou logo o sonho de tocar rock com sua banda de heavy/classic rock ao perceber que o público não tenha interesse em sua música e na dos colegas na mesma situação. “Minha banda durou pouco e fez poucos shows realmente dignos de nota. As apresentações eram caóticas, em locais cada vez mais fuleiros, sem apoio de ninguém, muito menos do público. As bandas, em vez de se ajudarem, brigavam por nacos e migalhas, para ver quem se sobressaía mais em um ambiente de caos e penúria. Desisti rápido disso, de tão enojado que fiquei. Vendi todo o equipamento e nem me lembro quando peguei em uma guitarra pela última vez. Não tenho saco nem mesmo para ensinar meu filho de 6 anos e meu sobrinho de 10 a tocar violão”.

Barros concorda com o produtor cultural desiludido sobre as “facilidades” imaginadas pelo público, mas enfatiza a culpa dos músicos pela situação ruim. “A era da internet trouxe mesmo uma cultura ruim de que tudo é fácil e de graça. Hoje só tem um pouco de atenção quem toca cover, e olhe lá. Por que os músicos deixaram que isso acontecesse? Porque não se valorizaram, queriam tocar de qualquer maneira, a qualquer custo e pisando em todos. Taí o resultado: o público ignora bandas novas e faz questão de ignorar, quer ouvir e ver de graça para ver se vale a pena, algum dia, voltar a ver essas bandas. Bato palmas para o Princípios Bar e para as bandas que estão tocando, mas o quadro é desolador, são idealistas que estão dando murro em ponta de faca.”

Prika Amaral, guitarrista do Nervosa, e João Gordo, vocalista do Ratos de Porão, nos bastidores do Princípios Bar, em São Bernardo


Beco estreito

Falta de originalidade, de qualidade, ingressos com preços altos, falta de estrutura e preferência por bandas internacionais estão entre os motivos apontados por espectadores e apreciadores de rock pesado para a fuga do público dos shows de grupos nacionais. As lamentações são muitas, mas infelizmente há poucas pessoas preocupadas em encontrar soluções ao menos amenizar os problemas.

Tem de ser respeitada a posição de alguns músicos que bradam “tocar de graça jamais”. É legítimo, afinal músico também é uma profissão e tocar custa, ou seja, quem toca e se apresenta ao vivo tem despesas para viabilizar o seu trabalho. É legítimo um instrumentista ser remunerado por sua arte.

O problema é a realidade está demolindo conceitos e princípios. Não é de hoje que o público se recusa a pagar R$ 50 para ver um minifestival com quatro boas bandas, como o que ocorreu no último domingo em São Bernardo. Não se trata de discutir ser o valor é alto ou baixo. Trata-se de constatar a realidade: o fã de rock brasileiro, em especial o de rock pesado, só sai de casa para ver “jogo com resultado garantido”. Isso quando sai de casa.

Muita gente adora criticar as bandas e o público em si e não hesita em cravar: o brasileiro não tem maturidade para gostar de música e apreciar arte.

Claro que há um evidente exagero, mas quem diz isso não está totalmente errado. O fá brasileiro de rock guarda semelhança com a maioria dos brasileiros que vão hoje a um estádio de futebol ver o seu time jogar: as pessoas não gostam realmente de futebol, gostam apenas de ver o seu time ganhar. Se isso não acontece, abandonam sem pestanejar os estádios, algo muito diferente do que ocorre na Argentina.

Tem gente que sugere algo parecido com o que ocorre na Suécia e na Finlândia, onde o governo banca a cena musical do país, em qualquer estilo. Uma grande insanidade defender esse tipo de coisa em um país que ainda precisa utilizar programas assistenciais (e assistencialistas) como o Bolsa Família para tirar parte da população da miséria absoluta – e que não consegue pagar aposentadorias dignas aos trabalhadores idosos.

Suécia, Noruega, Dinamarca e Finlândia são países desenvolvidos, bem administrados e com relativa folga de caixa para investir na educação musical de seu povo. Segundo Andre Matos, ex-vocalista do Angra e do Shaman e que hoje mora na Suécia, os países escandinavos têm projetos educacionais que estimulam o ensino de música nas escolas.

A Finlândia, além disso, investe dinheiro do Estado no financiamento de festivais de rock, de equipamentos para as bandas e até mesmo, dependendo do caso, no aluguel de estúdios e na gravação de CDs. Há dinheiro público também para estimular a produção literária e de artes plásticas. E o que é melhor, tudo isso aprovado pelo Parlamento, sem intenções eleitoreiras ou demagógicas. Tudo está inserido dentro de um projeto educacional bem elaborado e aprovado pela sociedade. Uma realidade de outro planeta, na comparação com o Brasil.

Alemanha, Holanda e Inglaterra não têm nada parecido com o que existe na Escandinávia, mas existem programas específicos e projetos artísticos e educacionais específicos para o estímulo da arte, seja diretamente com dinheiro público ou por meio de incentivos fiscais a quem apoia. É por isso, entre outras coisas, que ainda existem cenas roqueiras bem interessantes naqueles países.

Não posso deixar de dar razão a quem afirma sem medo que as nossas deficiências educacionais nos impedem de formar grupos organizados e politizados, que ao menos consigam produzir conteúdo decente e criar uma cena – os recentes protestos contra o aumento de tarifas de transporte público e contra os gastos da Copa do Mundo são exemplos da bagunça e da falta de foco que reinam quando se organiza qualquer manifestação por aqui.

Tirando um breve período envolvendo os punks de São Paulo, nos anos 80, nunca houve de verdade qualquer cena musical neste país, muito menos entre os roqueiros. O metal nacional dos 80 em São Paulo, Rio de Janeiro e Belo Horizonte foi esporádicos e não sobreviveu como um todo à chegada dos anos 90.

Os medalhões logo seguiram seu caminho e nunca fizeram questão de apoiar e fomentar uma cena – é clássica a passagem do documentário “Ruído das Minas”, sobre o rock pesado mineiro, onde Max Cavalera comenta, lá nos anos 90, que existia somente o Sepultura no heavy metal nacional, e nada mais, quando perguntado por um repórter estrangeiro se havia uma cena importante do metal brasileiro.

Está claro que quem gosta de rock no Brasil hoje e que tem algum interesse em bandas nacionais de metal não está disposto a pagar por CDs e por shows. Portanto, é necessário rever os custos e os preços cobrados para começar a atrair novamente o público.

R$ 50 para ver quatro bandas, entre elas a excelente Ratos de Porão e a emergente Nervosa, não é caro, pelo contrário. Mas parte expressiva do público acha que é. Será que é viável fazer rock no Brasil com custos mais baixos do que estes? Será que as bandas terão de voltar a se apresentar de graça, sem ganhar nada, para ter alguns minutos de atenção?

Os Baobás - Bye Bye My Darling/Pintada de Preto [1966]



Por Roberto Iwai em The Freakium

O primeiro compacto d'Os Baobás é constantemente lembrado pela antológica versão de "Paint It, Black" dos Rolling Stones, vertida aqui por Ricardo Contins (guitarra e principal compositor da banda) e Arquimedes (percussão) para "Pintada de Preto" ("A minha vida é toda cheia de defeito/Ela para mim é toda pintada de preto"), mas o disco é composto também pela ótima "Bye Bye My Darling", de autoria original da banda, via Contins. 

Versando sobre uma relação à distância, originado por uma viagem de um dos interlocutores ("Bye bye my darling, goodbye/I'm going away just for a ride/And before this ride I'll be back again", canta o refrão) sobre uma base instrumental que já difere sutilmente de algumas ingenuidades da Jovem Guarda, tal música forma sua existência já na inusitada natureza de composição d'Os Baobás: o de lançar as suas próprias composições em idioma inglês.