segunda-feira, 5 de junho de 2017

Airto - Natural Feelings [1970]

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Por Daniel Guedes em Linha Imaginária

É muito comum o emprego da expressão “divisor de águas ”em resenhas, críticas e outros gêneros discursivos no mundo do jornalismo cultural. No universo musical, em alguns casos a atribuição deste rótulo é discutível, afinal este processo implica na banalização do termo, que com o tempo foi perdendo sua força de expressão. Contudo, há trabalhos em que nem o mais exigente, questionador e subversivo ouvinte - aquele que em qualquer discussão musical com amigos sempre apela para as referências máximas do objeto em questão - consegue “contestar” o uso apropriado desse jargão. A obra “Natural Feelings” de Airto Moreira consegue se enquadrar perfeitamente nele.

Afinal um álbum que conta com a participação de um time composto por “amadores” do quilate de Sivuca - neste caso, pasmem, no violão, Ron Carter (até então integrante da banda de Miles Davis) no baixo, Hermeto Pascoal (piano, Flauta, Orgão e Harpischord) e capiteaneado por Airto, um dos grandes compositores da musica instrumental brasileira, não poderia deixar de ser sinônimo de pioneirismo e genialidade, não?

Contra-capa do àlbum / (Divulgação)
Depois de integrar bandas como Sambalanço Trio - juntamente com César Camargo Mariano e Humberto Cláiber, Quarteto Novo e participar da gravação do álbum Bitches Brew de Miles Davis, Airto resolveu gravar este que seria uma espécie de “embrião” do que viria a ser seu futuro conjunto denominado Fingers. Em parceria com sua esposa, Flora Purim, que juntamente com ele “assina” os vocais, o álbum é um perfeito “amálgama” da música brasileira com experimentalismos vanguardistas resultando em uma mistura um tanto exótica e transgressora para a época.

Logo de cara, este sincretismo se manifesta. Em Aluê, a primeira faixa do play, o balanço do baião “come solto”, sendo o substrato rítmico perfeito para o complexo trabalho de cordas executados pelo mestre Sivuca. Em Xibaba, a bola da vez é o samba temperado por fraseados de "bossa nova” e um show de improvisação de Hermeto com seu Fender Rhodes. Uma curiosidade são os estranhos nomes de algumas músicas. 

Xibaba e Liamba são denominações de ervas alucinógenas derivadas da Cannabis (talvez isto explique a inspiração de nossos amigos neste trabalho). Em Terror, os arranjos sofisticadíssimos do jazz moderno, que aliás são a tônica do álbum, ficam apenas como pano de fundo para o casamento insólito e genial das histriônicas flautas (que parecem reportar um ritual xamânico andino) com a alucinada percussão de Airto - cortesia de quem entende muito do assunto. 

Outros destaques são Bebê - tema que também faz parte de seu “debut” (aqui no Brasil lançado com o título " A Música Livre de Hermeto Pascoal"), Andei - típica fusão dos sons das rodas de capoeira (com seus berimbaus atrevidos) com a suntuosidade do Harpischord, acompanhados pelos leves e descompromissados vocais de Flora, Tunnel - pelo inicio lisérgico que descamba quase num ensaio de maracatu e a fantástica Frevo, que ao contrário do que sugere o próprio título, está longe de ser um mero pastiche desse ritmo e sim um bem aventurado tributo a esse magnânimo ritmo nordestino. 

Natural Feelings é mais do que mera tentativa de fundir os “distantes”, é uma daquelas maravilhosas provocações aos ortodoxos teóricos musicais de outrora que defendiam a segregação infame entre o erudito e o popular, entre o global e o tupiniquim e que por tabela redesenhou os rumos do jazz e da World Music.

A1 - Alue
(Airto Moreira e Flora Purim)
A2 - Xibaba [She-ba-ba]
(Airto Moreira)
A3 - Terror
(Hermeto Pascoal)
A4 - Bebê
(Hermeto Pascoal)
B1 - Andei
(Hermeto Pascoal)
B2 - Mixing
(Airto Moreira)
B3 - The Tunnel
(Hermeto Pascoal)
B4 - Frevo
(Hermeto Pascoal)
B5 - Liamba
(Airto Moreira)

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