domingo, 5 de abril de 2015

Marconi Notaro - No Sub Reino dos Metazoários [1973]

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Por Tiago Ferreira no Na Mira do Groove

Um olhar panorâmico sobre a secura da caatinga já exala cansaço. Aquele amarelo pálido adornado por galhos solitários e mandacarus espinhosos forma o cenário adequado para um embate quase diário: deus versus diabo.

Guimarães Rosa e Glauber Rocha falaram bem sobre isso como observadores distanciados usando personagens como apoio. Marconi Notaro me parece se juntar a esses personagens com este clássico No Sub Reino dos Metazoários.

Você está claramente diante de um herdeiro desse ambiente tão complexo quanto a caatinga. Não há menção ao trabalho, sol, família e dificuldades financeiras. A herança é entregue num verso de “Fidelidade”: ‘Permaneço fiel às minhas origens/Filho de deus, sobrinho de satã’. Não há cenário melhor para entender o parentesco entre Deus e o Diabo.

Lançado na obscuridade em 1973 e hoje tido como um clássico da psicodelia nordestina, No Sub Reino dos Metazoários é um trabalho bem substancial. Tanto, que não sei dizer se seria justo chamá-lo de psicodélico. (Talvez essa catalogação esteja viva por ter sido um lançamento do selo Rozenblit, de Recife, que tem em seu catálogo obras de Lula Côrtes, Lailson e os trabalhos psicodélicos de Zé Ramalho – Côrtes e Ramalho participam do disco, bom lembrar.)

Não há uma linearidade no disco. Começa com um samba divertido com “Desmantelado”, crônica botequeira de um viciado na ‘bola 7’ que ‘escova os dentes com cerveja’.

O andamento do álbum vem com “Ah, Vida Ávida”: começa com um barulho de chocalho indicando sonho. É um sonho com águas limpas (‘água na cacimba de Itamaracá’, diz o encarte), como dá a entender a sonoridade. Entra a realidade com os acordes de violão e da cítara: aí vêm barulhos de bichos como urubus numa sonoridade aberta que entrega a vastidão do cenário.

É ouvir de primeira que logo nos remetemos ao ambiente de um Vidas Secas, de Graciliano Ramos.

Quando somos apresentados ao rock de “Made in PB” ou às divagações de “Não Tenho Imaginação Pra Mudar de Mulher”, logo percebemos que estamos diante de um músico inserido no contexto dessa vastidão. Mesmo que sem querer.

Então, não entenda o rock de “Made in PB” como uma faixa mal produzida; entenda aquele ofuscamento como um recurso de afastamento. O cruzamento irascível de guitarras com os vocais lá ao fundo justificam o que se convenciona de psicodelia. Se é assim, então entenda aquele campo de vastidão como cenário perfeito para o gênero (e também para os experimentalismos subversivos de “Antropológica I” e “Antropológica II”).

Diz o dicionário que os ‘metazoários’ são um conjunto de animais pluricelulares diferenciados, sejam vertebrados e invertebrados. Quando Marconi faz essa classificação, o que vem para o ouvinte é a colocação: onde estão todos eles? Como se agrupam? Conseguem sobreviver?

E, novamente, surge no imaginário aquela vastidão pálida.


1. Desmantelado
2. Ah Vida Ávida
3. Fidelidade
4. Maracatú
5. Made in PB
6. Antropológica
7. Antropológica II
8. Sinfonia em Ré
9. Não Tenho Imaginação pra Mudar de Mulher
10. Ode a Satwa

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