segunda-feira, 14 de agosto de 2017

Motormama - Fogos de Artifício [2017]

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Por Fernando Augusto Lopes em Floga-se

Quando a batida e o rife espacial de “Te Vejo Na Cosmopista” começam, seguidos pelo baixo e a voz bêbada e um tanto afetada que declara que “eu vou sem direção, nessa louca estrada da vida, perdida, amor”, a impressão é que será impossível segurar o corpo, que se inquieta em busca de movimento.

Vivemos na era das tags, as etiquetas que ajudam as pessoas a identificar que tipo de música está por vir assim que se aperta o “play”. Aparentemente, é necessário, é uma das ferramentas mais úteis. Não por preguiça do ouvinte ou desconhecimento, é um facilitador em tempos em que não há tempo pra ouvir discos inteiros, apreciar um álbum por completo.

Não há uma tag pra “diversão”, porém essa deveria ser a tag do Motormama, quinteto de Ribeirão Preto, em seu quarto disco, “Fogos De Artifício”. Régis Martins, o cabeça da banda, até tenta expor essa ou aquela inspiração pro disco – é folk, é rock, é pop, é soul… Nada é suficiente.

Ou, por outra, cada ouvinte vai fazer uma ligação qualquer. A primeira que vem à minha cabeça é o Charlatans. “Fogos De Artifício” poderia ser uma boa peça da discografia do Charlatans.

O Charlatans pós-“Wonderland” (2001) é tudo isso – rock, pop, soul, indie – e uma música como “Te Vejo Na Cosmopista” poderia estar em qualquer disco dessa fase do grupo britânico. Não só ela: a faixa-título, um rock mais acelerado; “Não Sou Mais O Mesmo Sujeito”, um rock-soul; “Foi Pelo Dinheiro/Foi Por Diversão”, um “baiãozinho com arranjo complexo”, desses bem inocentes, com um balanço convidativo; “Rocket’s Tail”, o protagonismo da guitarra; todas elas tem o mesmo DNA básico que deu origem ao Charlatans. Em suma e preguiçosamente, é o que poderia chamar de “pop-rock”.

Não, a Motormama não se inspirou da turma de Tim Burgeess pra criar “Fogos De Artifício”. Martins cita de Clube Da Esquina a Stills, Nash & Young pra sublinhar que a sua arte é cosmopolita, é mundial, e portanto está na mesma gigantesca tigela do Charlatans, como do Pixies, do Wilco, do Replicantes, dos Mutantes e do Jupiter Maçã (homenageado em “Se O Mundo Desmoronar (Nunca Perca A Cabeça)”). Como identificar essa mixórdia?

São oito músicas e as oito são um prisma de possibilidades. Em comum é que elas são irresistivelmente chacoalhantes.

O Motormama é velho de guerra. “Fogos De Artifício” é o quarto disco em dezoito anos de carreira. É uma banda bissexta, como se vê. O disco anterior, “Aloha Esquimó”, é de 2009. Mas é nesse novo trabalho que, soltinha, a banda parece ter dado uma banana pra qualquer regra e caído na diversão. Régis Martins (guitarra e voz), Gisele Zordão (voz, teremim e maraca), Joca Vita (baixo) e dois novos integrantes Alessandro Perê (teclado e voz) e Thiago Carbonari (bateria), a essa altura do campeonato, não devem estar muito preocupados com a repercussão, quantos “curtir” ou “tuítes” vão levar.

Misturando inglês e português em algumas faixas (como “Vôo Número Zero” e “Rocket’s Tail”), a Motormama tampouco tenta parecer “profunda” ou “inteligente”. São letras simples, mas bem construídas, encaixadas.

“Não sou mais o mesmo sujeito que um dia dobrou a esquina / Se o espaço se expande, eu também quero caminhar nessa vida / Se eu cantar, não chores não / Não sou mais o mesmo sujeito que um dia te deixou sozinha / Levou o dinheiro, o cigarro, o isqueiro numa caixa vazia / Se eu voltar, não chores não” (seguido de um previsível e, ainda assim, irresistível solo de guitarra), sobre amadurecimento, em “Não Sou Mais O Mesmo Sujeito”.

“Se você pensa em ficar / Quero que você entenda / Tudo aquilo que você sonhar / Talvez nunca aconteça / Mas se o mundo for desmoronar / Nunca perca a cabeça / Siga em frente sem se preocupar / Se esse crime ainda compensa”, sobre frustrações, em “Se O Mundo Desmoronar (Nunca Perca A Cabeça)”.

“Meia-noite eu vou cantar um versinho popular”, no refrão de “Foi Pelo Dinheiro / Foi Por Diversão” é o resumo dessa facilidade de compreender e apreciar a própria simplicidade.

Quando se faz uma música tão solta e, arrisco dizer, “despretensiosa”, as expectativas são mais reais e palpáveis. Até mesmo uma possível pretensão de Martins – colocar “Longa Estrada Da Vida”, do Milionário & José Rico, e “A Estrada Perdida”, do David Lynch, na mesma frase, em “Te Vejo Na Cosmopista” – soa tão engraçada quanto inusitada.

Pode ser um disco perecível por toda essa facilidade de acesso, mas quem se importa? A única coisa a se fazer diante de “Fogos De Artifício” é se divertir junto.

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