terça-feira, 4 de outubro de 2016

Labirinto - Gehenna [2016]


Por Gabriel Rolim em MonkeyBuzz

Muita vezes e de forma errônea, a música instrumental pode ser considerada “simples” ou de “fácil expressão” - dado que a canção não precisa de uma letra como fio condutor e suas portas se abrem para um universo gigantesco em que, basicamente, tudo é possível. Justamente por isso, pela folha em branco, que caminhamos para uma opinião contrária: é muito difícil criar uma música instrumental em que forma e conteúdo se tornem um só elemento, ou seja, criar a arte que te prenda justamente pela narrativa de instrumentos orquestadores meticulosamente.

Dentro de um espectro amplo dentro da música brasileira, temos diversos exemplos de bandas bem sucedidas em tais narrativas e Labirinto é uma delas - a ponto de realizar turnês cada vez mais frequentes ao exterior e intercambiar ideias (como o split lançado pelo grupo em 2014 junto com o canadense This Quiet Army). Vislumbrar a capa de Gehenna traz muito sobre o conteúdo que iremos encontrar, uma trilha-sonora pós-apocalíptica que consegue capturar toda a essência da destruição e, ainda sim, trazer beleza em momentos essenciais.

Construído ao redor de alguns gêneros como o Post-Metal e o Post-Rock, o grupo soube realizar uma obra que prende o ouvinte do começo ao fim e se torna mais prazerosa a cada nova audição - a faixa título pode muito bem sintetizar todo o disco ao longo de seus doze minutos de duração. Construções progressivas vão trazendo camadas por camadas: linhas soltas de guitarra primeiro, quase em câmera lenta, antecedem a destruição, mas, não obstante, o anúncio do desastre vem através de um baixo cuidadosamente colocado. Após ele, temos a contemplação de uma das faixas mais interessantes de todo o disco. Ao vivo, se torna o tipo de experiência necessária uma vez na vida, ao menos.

Não faltam motivos para agradar fãs de Metal, como Mal Sacré e Enoch, faixas adequadas paraheadbangs e moshes, mas também satisfaz os fãs de Rock com Locrus ou Alamut. Ao mesmo tempo, não se pode negar que os momentos em que temos maior contemplação e respiros vem com o Post-Rock, pontuados milimetricamente dentro do disco para que o peso de faixas anteriores não não torne tudo muito excessivo. Os melhores momentos do disco residem nas transições bonitas de faixas, como a ótima Avernus, que poderiam aparecer com mais frequência.

Dentro do espectro de gêneros que Labirinto se insere, podemos considerar os detalhes de produção, escolha de timbres e narrativa como muito bem feitos e mostram um trabalho impressionante. Mesmo que o Metal possa assustar uma galera por simplesmente ser um rótulo com diversas direcões, quem se arriscar dentro do desconhecido tenderá a se prender ao longo de mais uma hora de duração do álbum para saber o que acontecerá.

Se o único acompanhamento visual para a obra é sua capa nebulosa, não restam outras formas de se alcançar o imaginário do ouvinte se não pela música proposta aqui - extremamente visual e cinematográfica. Para quem foi recentemente no show realizado pelo Monkeybuzz de Deafheaven, será certamente um prato cheio e, ao mesmo tempo, constatar que tal qualidade é encontrada em territorio brasileiro torna Gehenna ainda mais recompensadora.

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