quinta-feira, 30 de abril de 2015

Azymuth - Aurora [2011]

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Por Rafael Sartori em Território da Música

Trio brasileiro pouco conhecido pelos jovens de sua pátria, mas cultuados no exterior, o Azymuth está desde 1970 na estrada mesclando com muita propriedade elementos de jazz, soul, funk e, claro, samba e mpb. No novo álbum “Aurora”, aliás, os ritmos e as percussões brasileiras ganharam ainda mais espaço, deixando um pouco de lado os metais tão em evidência tempos atrás.

Quase todo instrumental, o trabalho mostra mais uma vez o incrível entrosamento de José Roberto Bertami (teclados), Ivan Conti (bateria) e Alex Malheiros (baixo e guitarra), sendo que esse último acaba assumindo naturalmente a frente do negócio.

O repertório é variado e traz, além da progressiva faixa-título e da já citada fusão de diversos gêneros, algumas totalmente disco e retrô como “É Mulher”, a experimental “Crazy Clock” e as suaves e belíssimas “In My Treehouse Prelude 1” e “In My Treehouse Prelude 2”.

“Aurora” não é exatamente um álbum moderno nem surpreende pela inovação (pelo menos para quem já ouviu outras gravações do grupo). Mas tem a combinação explosiva de talento, técnica e pegada brasileira, no melhor sentido da palavra, que não se encontra assim tão facilmente. Isso significa que o Azymuth continua com uma vibração, uma energia e uma criatividade que vão deixar muito gringo morrendo de inveja e se perguntado: “How it’s possible?”.


1. Aurora
2. In My Treehouse (Na Minha Casa na Árvore)
3. Tá Nessa Ainda, Bicho (Are You Still IN It, Dude?)
4. Isso É Partido Alto (This Is Partido Alto)
5. Carnaval Legrand
6. Diz no Pé (Say with Your Foot)
7. Meu Mengô (My Mengo)
8. Crazy Clock (Relógio Maluco)
9. Que Bom (How Nice)
10. É Mulher (Is Woman)
11. In My Treehouse Prelude 1
12. In My Treehouse Prelude 2

terça-feira, 28 de abril de 2015

Quarto Astral - Na Quinta Dimensão [2014]

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A Quarto Astral busca explorar o rock em sua essência, sob forte influência do início talvez de sua história: psicodelia, rock n' roll e progressividade regadas com muitos solos de guitarra e improvisos, sem o rumo tradicional de início, meio e fim, mas sim com um início... e um fim na hora certa. As letras tratam do elemento natural e humano, suas interferências e discrepâncias, das quatro dimensões universais, indo além da realidade e do misticismo, cantadas em inglês ou português...

1. Falta de Ar
2. Travação
3. Tremor
4. Virgem
5. Boa Noite


domingo, 26 de abril de 2015

Gal Costa - Gal [1969]

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Gal, de 1969 é o mais ousado disco da carreira de Gal Costa. Em nenhum outro momento a cantora repetiu o que ouvimos neste álbum. Gal, mais conhecido como o álbum psicodélico, a começar pela capa, com um desenho típico dos vôos sem céu do fim dos anos 1960. Na contra capa aparece uma imagem desfocada da cantora, com o seu cabelo “juba de leão”, já anunciando a sua fúria. O momento é de raiva. Seus amigos e companheiros da Tropicália, Gilberto Gil e Caetano Veloso, após a prisão em dezembro de 1968, seriam libertados na quarta-feira de cinzas de 1969, sendo escoltados até Salvador, de onde partiriam em Julho para o exílio em Londres. Gal Costa ficava sozinha com a sua raiva. Da menina bossa nova de “Domingo” (álbum de lançamento da sua carreira, em 1967) não resta nada. Suas interpretações e posturas, até então intimistas e contidas, tornam-se mais agressivas. A cantora junta-se a Jards Macalé e à guitarra de Lanny Gordin, o resultado é este álbum único, com apenas nove faixas, mas que não houve outro registro igual na música brasileira.

Do Rock Psicodélico ao Grito de Protesto

O álbum começa com “Cinema Olympia“ (Caetano Veloso), onde, sem maiores rodeios, ela já nos avisa:

“Não quero mais
Essas tardes mornais, normais”

Na década de 60 todas as grandes cidades tinham o seu cinema Olympia (Belém, São Paulo, Rio, Salvador – talvez o cinema que Caetano se refere, seja o Olympia da Baixa dos Sapateiros, famoso por suas matinés para a burguesia local, que nos anos 1960 passava filmes de westerns dos anos 40 de Tom Mix e Buck Jones). Caetano Veloso deixou esta música em demo, com o seu exílio nunca a gravou, sendo lançado recentemente um álbum com a versão demo e com inéditas do autor numa caixa comemorativa. Ao cantar “Cinema Olympia”, a voz jovial da cantora não nos indica a leoa enfurecida que está por vir.
”Tuareg” (Jorge Ben) parece nos levar para oásis e desertos orientais, mas o ano é de 1969, a guerrilha urbana está no auge, assaltos a bancos, o seqüestro do embaixador norte-americano pela resistência guerrilheira, assassínio nas ruas de São Paulo de Carlos Marighela. Os versos de Jorge Ben não soam tão ingênuos, mas provocativos:


“Pois ele é guerreiro
Ele é bandoleiro
Ele é justiceiro
Ele é mandingueiro
Ele é um tuareg”


Seria um tuareg dos desertos? Ou um guerrilheiro das ruas das cidades brasileiras? A música fez parte da trilha do filme "O Diamante Cor-de-Rosa", de Roberto Farias, 1969, com Roberto Carlos e Erasmo Carlos.

É a partir de “Cultura e Civilização” (Gilberto Gil) que começam os gritos, as mixagens sujas, o canto rascante da leoa enfurecida.


“Contanto que me deixem meu cabelo belo
Meu cabelo belo
Como a juba de um leão”


“Com Medo, Com Pedro” e “Objeto Sim, Objeto Não” (aqui se registra o ápice da viagem psicodélica) são as outras duas canções de Gilberto Gil que entram no álbum. Gilberto Gil deixara as canções em demo no dia que embarcou para o exílio, para que Gal Costa pudesse saber como cantá-las.
O ano de 1969 também é o ano do festival de Woodstock, que reuniria em um sítio mais de 300 mil hippies e entraria para a história. A influência de Janis Joplin no início da carreira de Gal Costa é literalmente gritante nas faixas “The Empty Boat” (Caetano Veloso) e “Pulsars e Quasars” (Capinam – Jards Macalé), esta última encerra o álbum e mostra a insatisfação da cantora com os acontecimentos políticos, que a transformam na última representante da Tropicália, a sua fúria é refletida nas distorções da guitarra ácida de Lanny Gordin, nos versos que chamam e clamam pelos amigos exilados:


“O inverso, um ser mutante universal
Meu ingresso para as touradas do mal
Dos sóis, Cá e Gil me mandem notícias logo
A sós, pulsos abertos, eu volto
Sem voz, ye ye, sem voz”


Há tempo para aquela que seria por muitos anos, a música mais lembrada de Jorge Ben, “País Tropical“, numa participação especial de Gilberto Gil e Caetano Veloso. Resta a pergunta, esta participação foi feita em estúdio? Provavelmente não, pois desde que saíram da prisão Gilberto Gil e Caetano Veloso foram escoltados até Salvador, até o embarque para o exílio não pisaram mais no Rio de Janeiro e nem em São Paulo. Apesar de ser uma das mais belas e contundentes interpretações de “País Tropical”, a canção explodiu não com Gal Costa e seus convidados, mas através de Wilson Simonal, sendo esta versão durante anos conhecida apenas pelo público da cantora, recuperada bem mais tarde pela MPB.

O destaque do álbum vai para “Meu Nome é Gal” (Roberto Carlos – Erasmo Carlos), a dupla maior da Jovem Guarda fazia para Wanderléa músicas românticas, ingênuas. Para Gal era diferente, refletia uma mulher contestando a sua época, mostrando o amor livre de então, não importando cor, crença ou tradição. A canção mostra uma Gal Costa libertária, com seus ruídos vocais, os agudos aqui indomáveis diante da guitarra, mudando as oitavas. A cantora encerrava o lado A do disco com esta canção, rasgando a música na metade e se apresentando:


"Meu nome é Gal, tenho 24 anos
Nasci na Barra Avenida, Bahia
Todo dia eu sonho alguém pra mim
Acredito em Deus, gosto de baile, cinema
Admiro Caetano, Gil, Roberto, Erasmo,
Macalé, Paulinho da Viola, Lanny,
Rogério Sganzerla, Jorge Ben, Rogério Duprat,
Waly, Dircinho, Nando,
E o pessoal da pesada
E se um dia eu tiver alguém com bastante amor pra me dar
Não precisa sobrenome
Pois é o amor que faz o homem"


Ao fechar o lado A do LP, ninguém mais se esqueceria daquela que gritava “Meu Nome é Gal”.

Na época Gal Costa refletia os dois lados da sociedade brasileira: a mulher que era reverenciada por uma juventude massacrada pela ditadura, remanescentes dos ventos vindos do Maio de 1968, de Paris, que trazia cabelos e roupas exóticas, que ousava confrontar os costumes e abraçar as novas tendências do mundo, que era convidada para fazer o show de moda Stravaganza, ao lado de Raul Cortez, na Fenite, e a mulher odiada pelos conservadores, que falavam para as suas filhinhas bem-comportadas: “Se não pentear os cabelos vai virar uma juba que nem os da Gal Costa”.

“Gal”, o psicodélico, é tropicalista? É. É rock? É. É o Woodstock tupiniquim? É. É hippie,jopliniano? É tudo isto e mais um pouco. É Gal. O que faz o álbum “Gal”, o psicodélico, diferente do primeiro álbum solo da cantora? O romantismo. Nele não há tempo para as músicas românticas. É tempo de sobreviver, de gritar, contestar, portanto não há espaço para as músicas românticas. É a grande diferença dos dois álbuns de 1969 de Gal Costa.

”Gal” 1969 é a intervenção mais radical da carreira de Gal Costa. Mostra uma cantora ímpar e sem limitações de carreira. No distanciamento do tempo, é um álbum amado ou odiado, sem meios termos. De uma atualidade incondicional. Virou o álbum mais cult da carreira da cantora. Depois deste álbum nada mais fez sentido na Tropicália. Encerrou-se aqui!


Release do Disco – Por Caetano Veloso

Você precisa saber que Gal Costa é um dos acontecimentos mais importantes da música brasileira de hoje. Na Bahia havia a Graça e uma sala profunda, enraizada, recôncava de cachoeiras mortas, uma voz guardada apenas ali, absoluta. Gal nunca teve medo. Eu não tenho medo de saber que é difícil para o artista assumir sua própria grandeza. Ela ouviu João Gilberto mais e melhor do que ninguém. Não acredito que alguém ainda tenha medo de guitarras elétricas. WOW! Acho que o nosso trabalho não estabelece um universo para Gal que o nosso experimentalismo necessariamente desorganizado... SNIF, SNIF, tudo é perigoso, "Why Each time Superman appears at that window, Clark Kent is not at his desk?", Janis Joplin, Jackson do Pandeiro, Cool, Paulinho da Viola, a legião dos Sub- heróis. Mas Gal EXPLODIU sozinha, muito acima de tudo. João Gilberto havia se comovido com a Graça, descobrindo sua voz guardada. Ninguém pode deplorar nosso Vale-Tudo: quando Gal canta, ele vale-nada. Gal EXPLODIU sozinha. Só vale Gal.
Eu sei que é assim
Caetano Veloso


Ficha Técnica:

Gal
Philips
1969

Direção da produção: Manuel Barenbein
Arranjos e direção musical: Rogério Duprat
Técnicos: João Kibelkstis e Stélio Carlini
Estúdio: Scatena - SP
Fotos da contracapa: Freitas
Capa: Dicinho

Músicos Participantes:
Baixo, guitarra solo e guitarra base: Lanny Gordin
Bateria: Eduardo Portes de Souza e Diógenes Burani Filho
Violão: Jards Macalé
Baixo: Rodolpho Grani Júnior

Faixas:

1. Cinema Olympia(Caetano Veloso)
2. Tuareg (Jorge Ben)
3. Cultura e civilização (Gilberto Gil) 
4. País tropical (Jorge Ben) Participação: Caetano Veloso / Gilberto Gil
5. Meu nome é Gal (Erasmo Carlos - Roberto Carlos)
6. Com medo, com Pedro (Gilberto Gil)
7. The empty boat (Caetano Veloso)
8. Objeto sim, objeto não (Gilberto Gil)
9. Pulsars e quasars (Capinan - Jards Macalé)

sexta-feira, 24 de abril de 2015

Lula Côrtes e Zé Ramalho - Paêbirú [1975]


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Nem só de "Avohai" e "Chão de Giz" viveu Zé Ramalho. A doideira atingiu o cantor, assim como diversos outros ao redor do mundo, mas aqui ocorreu antes da fama, mais precisamente no ano de 1974. Ali, Zé Ramalho, ao lado de Lula Côrtes, registrou um dos mais originais álbuns da musicultura brasileira, o raríssimo Paêbirú.

Muitas histórias existem a respeito desse disco. A principal delas, e que acabou levando o álbum a ser famoso, é a questão da sua raridade. Conta a lenda que o álbum ficou armazenado dentro do estoque da gravadora Rozenblit, principal companhia da região, a qual localizava-se ao lado do rio Capiberibe, em Pernambuco, e onde o trabalho havia sido gravado durante a primavera de 74. Porém, uma sequência de chuvas torrenciais começou a atingir Pernambuco, fazendo o rio transbordar, levando casas, vidas e o lote de discos que estava no galpão. De todo o material que havia sido gravado, conta-se que somente pouco mais de 300 cópias da versão original restaram com qualidade boa para o lançamento, as quais haviam sido levadas para a casa de Lula, e que, devido principalmente pela qualidade do material, acabaram sendo vendidos a preço de ouro, parando na mão de diversos colecionadores, principalmente no exterior.


Segundo uma entrevista de Lula Côrtes, isso tudo é lenda. O álbum acabou vendendo pouco e, devido ao alto custo de se fabricar o disco, já que o mesmo era duplo e contava com um belíssimo encarte-livreto, a gravadora preferiu não lançar mais, mas ninguém sabe se a história real é essa.

O que sim, se sabe, é que o álbum inovava em termos sonoros e visuais. Dois anos antes o Módulo 1000 havia feito algo similar com o "Não Fale Com Paredes", com sua capa tripla e com o trabalho perfeito da prensagem, mas Paêbirú trazia mais. Além do formato duplo, o encarte-livreto continha fotos, imagens e pinturas próprias dos álbuns progressivos internacionais, coisa que não havia sido vista no Brasil ainda, e tão pouco seria vista em muitos anos.

A qualidade psicodélica do som da dupla também era algo anormal para a época. Até o lançamento de Paêbirú, Zé Ramalho estava formando carreira ao lado de Alceu Valença, tendo tocado em diversos grupos na época da Jovem Guarda, dentre eles Os Quatro Loucos, o mais importante de todo o Nordeste, e registrado outra raridade brazuca, o conceitual "Marconi Notaro no Sub Reino dos Metozoários". Lula Cortês havia gravado somente o disco "Satwa" (1973), ao lado de Lailson, que trazia canções como "Alegro Piradíssimo", "Blues do Cachorro Muito Louco" e "Can I Be Satwa", uma pérola nacional garimpada, e muito, pelos quatro cantos do planeta. Vale a pena ressaltar que somente esses três LPs (Marconi Notaro ..., Satwa e Paêbirú) valem juntos mais de 4.000 reais em suas versões originais.


No início de 74, Zé Ramalho foi apresentado a Lula Côrtes, e de cara o ácido fez com que ambos viajassem juntos, afim de gravar um LP em homenagem à Pedrá do Ingá e ao sítio arqueológco de Ingá do Bacamarte. A obra conceitual começou a ser elaborada rapidamente, sendo gravada em quatro partes: Terra, Ar, Fogo e Água.

O lado A traz a Terra em seus mais de treze minutos da viajante "Trilha do Sumé - Culto a Terra - Bailado das Máscaras". Barulhos de mata, percussões indígenas e sopros que imitam moscas dão espaço para uma viajante flauta que sola sem compromisso, acompanhada por palmas e por Zé Ramalho entoando o nome de alguns planetas e a complicadíssima letra da canção. Um saxofone forte entra solando do nada, enquanto a música muda seu ritmo, onde aí sim a viagem pega solta, com diversos gritos e solos de guitarras sem o mínimo de sentido, somente a mais pura piração. Disparada, essa é a faixa mais psicodélica já gravada no Brasil, quase uma "Interstellar Overdrive". Finalmente, um belo piano acompanha um lindo solo de flauta, esse sim, sem ser viajante, que encerra a faixa acompanhado por um violão que começa a solar, dando entradas para violas caipiras que duelam de forma magnífica.

O lado B traz o Ar, agora com "Harpa dos Ares". Aqui, o violão de Zé Ramalho lembra os antigos grupos de chorinho. Sons de pássaros intercalam a bela sessão instrumental, que é regada ainda por flautas e crianças brincando. Segue "Não Existe Molhado Igual ao Pranto". O início da faixa, com o violão e viola baixinhos, cercado por gritos e sopros, leva a uma sessão lenta dos violões intercaladas por saxofones e gritos, e por mais violões que, por horas, parecem um berimbau. A letra é entoada em meio a gritos e solos de saxofone. "Omm" encerra o lado B com barulhos de animais cercados pela marcação lenta do violão e da flauta, que viaja pelo mais distante rincão acompanhando um saxofone maluco que intervém de vez em quando durante os solos de viola e violão. Simplesmente fantástico. A faixa termina com uma delirante participação do piano, bem similar aos solos de Keith Jarrett, e com muitos sons externos.


O lado Fogo abre com "Raga dos Raios" e os violões acompanhados por uma guitarra super distorcida. O clima muda totalmente nesse lado. A guitarra furiosa sola como um peão lutando contra uma tourada, enquanto o violão apenas marca o ritmo da canção, bem no estilo cancioneiro da caatinga nordestina. São dois minutos de tirar o fôlego de muito guitarrista. 

Segue a bateria e a percussão de "Nas Parede da Pedra Encantada, Os Segredos Talhados por Sumé". Essa já é uma canção mais rock'n'roll, com uma boa levada de bateria e baixo, que fazem a cama para teclados solarem independentemente. O ritmo da canção lembra as músicas dos anos oitenta, como New Order, Depeche Mode, entre outros, mas claro, soando aqui bem psicodélica. A esquisita letra é entoada entre barulhos de saxofone, teclados e a marcação de baixo e bateria. A tecladeira toma conta, com saxofones, apitos e flautas viajando ao fundo da letra e do refrão, que repete o nome da canção. A instrumental "Maracas de Fogo" encerra o lado C com uma levada flamenca do violão e da percussão, acompanhados por gritos e intervenções de guitarra e os berros de "Ah, Ah, Ah, Maracatu!!".

Finalmente, o lado D, a Água, abre com "Louvação à Iemanjá", que como o nome diz, trata-se de uma louvação pasra a rainha do mar. Sons de água então dão espaço para a viola e orquestras acompanharem um solo de guitarra novamente bem distorcido, mas dessa vez sem tanta fúria como em "Raga dos Raios", mas bem mais viajante, terminando com os barulho de água que abrem a faixa "Beira-Mar", com um belo duelo de viola caipira. "Pedra Templo Animal" tem sua levada caipira construída em cima do baixo, viola e marcação do côco. Gritos intercalam a letra, que fala sobre sereias, cachoeiras e águas cristalinas. Finalmente, temos somente a sessão de "Trilha do Sumé", com os violões que encerram o lado Terra concluindo belíssimamente esse grande álbum.

O disco contou com a participação de Paulo Rafael, Robertinho de Recife, Geraldo Azevedo e Alceu Valença, entre outros, mas acabou ficando cercado mesmo pela sua sombriedade, e também pela marcante história. Porém, para aqueles que hoje acessam e fazem downloads na internet, vale a pena conferir cada segundo desse incrível álbum, do qual tive o prazer de ver um, na versão original, através de um amigo meu que pagou a bagatela de mais ou menos 2.000 reais para tê-lo em sua coleção.


(Nota: para quem se interessar, a gravadora inglesa Mr Bongo lançou uma reedição dePaêbirú em vinil de 180 gramas em 2007, já um pouco rara, que é vendida por no mínimo 200 reais entre os colecionadores. Essa versão da Mr Bongo é linda de morrer, já vi uma pessoalmente e ela mantém todo o conceito gráfico original. Vá atrás que vale a pena! Existe ainda uma versão em CD, lançada em 2005 pela gravadora alemã Shadoks, mas essa eu nunca tive o prazer de pegar na mão.)

segunda-feira, 20 de abril de 2015

Cidadão Instigado - Uhuuu! [2009]


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Por Cleber Facchi em Miojo Indie

Um delírio sob controle. Contrariando a própria esquizofrenia da banda, Uhuuu!, terceiro registro em estúdio da cearense Cidadão Instigado, é um passeio pela psicodelia sem esquecer do pop. Obra mais coesa e ainda assim aventureira já assinada por Fernando Catatau e seus parceiros de banda, o álbum segue de onde o grupo parou em 2005, com E O Método Túfo De Experiência, fazendo da brega O Tempo um sentido de direção para as canções. Com os dois pés cravados na década de 1970 e a cabeça nas nuvens, o disco se esparrama em inventos psicodélicos (O cabeção), colagens excêntricas (Deus é uma viagem) e um doce romantismo melancólico (Dói). Sem medo de arriscar, a banda exagera nos sintetizadores (Contando Estrelas) e brinca com o passado em um sentido de comunicação com o presente (Como as luzes), mecanismo que faz do álbum um típico registro pop, porém, interpretado às avessas. Sustentado pela evidente aproximação entre os integrantes, Uhuuu! vai além de um mero grito de exclamação, trata-se de uma passagem direta para um universo paralelo em que Fagner e Pink Floyd partilham dos mesmos princípios líricos e lisérgicos.

quinta-feira, 16 de abril de 2015

Zé da Flauta e Paulo Rafael - Caruá [1980]

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Por Bonniwell de Magalhães no Saqueando a Cidade

Ex-flautista e pifarista do Quinteto Violado, Zé da Flauta se destaca dos outros músicos nordestinos não só por sua seriedade, mas por sua técnica incomparável. Paulo Rafael é, junto com o artista supracitado, um dos principais responsáveis pela qualidade musical das obras do aclamado Alceu Valença. Qual seria o resultado da união dessas duas personalidades musicais? Certamente, música para nossos ouvidos! Ok, agora pense que, além desses dois, participam do disco o gênio Lula Côrtes (criador das pérolas psicodélicas Paêbirú e Satwa), Lenine e ainda Luciano Pimentel (baterista do já citado Quinteto Violado). É, meu caro leitor, é isso mesmo que você está pensando. Música de excelente qualidade.

Essencialmente instrumental (com uma exceção, a buliçosa "Zé Piaba", uma das primeiras obras vocais de Lenine), o disco investe na tradicionalidade da musica nordestina mesclada com o acid-rock e o progressivo europeus (não há como não perceber, por exemplo, as influências de Robert Fripp nas guitarras de Rafael). Não há como não se animar com músicas como "Sai uma Mista", ou até mesmo relaxar ouvindo "Tema da Batalha".

Pérola, assim como a maioria das obras do Udigrudi nordestino, Caruá é um disco único, que vale a pena ser ouvido e divulgado. Afinal de contas, música séria tem que ser encarada com seriedade!

Faixas:
1. Sai uma Mista
2. Rebimbela da Parafuseta
3. Baião da Barca
4. Ponto de Partida
5. Tema da Batalha
6. Fora de Órbia
7. Entardecer
8. Zé Piaba
9. Gôta Serena

segunda-feira, 13 de abril de 2015

Ivinho - Ao Vivo [1978]


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Por Abílio Neto em Overmundo

A chamada nata da música brasileira já se apresentou no charmoso Festival de Montreux, mas poucos falam no artista pioneiro que pisou naquele palco famoso. Em parte, isso se deve ao sumiço do grande artista. Seu nome? Ivson Wanderley Pessoa, porém famoso no mundo todo simplesmente como Ivinho. 

A sua fabulosa apresentação no Montreux Internacional Jazz Festival em 1978 lhe rendeu um precioso LP. Pouco tempo depois daquela impecável apresentação, refez a sua simples mala de viagem e embarcou para a Suíça a fim de dar nomes às sua perolas gravadas ao vivo que iam ser lançadas em disco.

E com simplicidade franciscana, este pernambucano que eu não sei quando e onde nasceu, cumpriu a sua missão desta forma:

Lado A
Faixa 1: Teimosia
Faixa 2: Cartão Vermelho
Faixa 3: Meditação (10 min. E 35 seg.)
Faixa 4: Frevo Único

Lado B
Faixa Única: Partida dos Lobos (23 min. E 56 seg.)

Todas as faixas são instrumentais e de autoria de Ivinho.

Quando o disco foi distribuído, o impacto causado pela capa não foi menor do que a incrível capacidade deste músico de arrancar belíssimos postais sonoros de uma viola de 12 cordas que apresentava um visível buraco na madeira do instrumento. Teoricamente, aquilo poderia ter uma influência extrema na sonoridade que o músico dela extraía, mas aos gênios tudo é possível por uma provável conspiração divina.

E somente com este disco, Ivinho gravou de forma indelével o seu nome entre os maiores músicos do mundo, mas da mesma forma que apareceu de forma grandiosa em Montreux, também desapareceu.

Aí entra uma coisa que quem escreve jamais deveria enveredar por este caminho: a vida pessoal do artista. No caso dele, é preciso que se coloque o mínimo de informações possíveis para que o leitor compreenda o porquê do seu sumiço do meio artístico depois dessa ascensão fora do Brasil.

Ivinho era figura carimbada entre os grandes músicos pernambucanos que ficaram conhecidos pelo país afora na década de 70. Quando se escuta a música “Avôhai” (avô e pai), de Zé Ramalho, e seus ouvidos são presenteados com aquela viola maravilhosa, era Ivinho que estava tocando. E Zé Ramalho foi muito justo: “ela foi arranjada pelo violonista pernambucano Ivson Wanderley. São dele os acordes inaugurais.”

Mas antes disso Ivinho tinha sido personagem de Paêbirú - Caminho da Montanha do Sol - idealizado anos antes por Lula Côrtes & Zé Ramalho. Neste disco, com sua potente guitarra, na melodia de “Maracas de Fogo”, um "heavy maracatu" conduzido pela sua palheta, o estúdio da gravadora Rozenblit testemunhou o seu enorme talento.

Solista de dedos ágeis, Ivinho também manejava uma guitarra-rock. É só conferir em "Geórgia a Carniceira" e "Corpo em Chamas", gravadas no único álbum do importantíssimo grupo Ave Sangria (ex-Tamarineira Village) do qual foi um dos fundadores.

Quando Alceu Valença apresentou no Festival Abertura, da Rede Globo, a música intitulada “Vou Danado pra Catende”, Ivinho era um daqueles estranhos cabeludos que tocavam no conjunto que o acompanhava.

Por que Ivinho não se transformou num Paulo Rafael ou Robertinho do Recife, já que em termos de talento musical não deve nada a ambos? Acho que faltou a Ivinho aquilo que hoje se chama “inteligência emocional”. Vejo um profundo desrespeito pelo artista quando alguns afirmam que ele “pirou”. Pessoas que se acham normais deveriam saber que a normalidade das pessoas é aquilo que faz a loucura delas, antes de saírem divulgando bobagens. Ivinho é do tempo do sexo, drogas (álcool incluído), rock e ditadura. Isso chegou até a matar gente porque era uma combinação fatal. Não sei nem por que Ivinho está vivo ainda! Veja o que ele disse de Israel Semente, músico contemporâneo seu, ex-integrante do Ave Sangria, respondendo a seguinte pergunta: foi você quem encontrou Israel Semente morto na rua?

“- Na rua não. Foi no quarto dele. Ele estava caído lá no chão, com a porta aberta. Mas quem o encontrou foi quem morava lá. A polícia já estava lá e já tinham dado como suicídio e eu não acredito que naquele ambiente tenha havido suicídio. Foi homicídio! Ele não tinha necessidade de se suicidar. Por isso que eu digo: eu vejo a faca tratando da galinha e cortando a carne e o pão, mas não vejo esses homens com fome e com a faca pra fazer o quê com a faca? Eu falo para um, para dois ou pra nenhum ou até para todos: quando eles disserem que é o meu violão, é o meu violão. Se eles disserem que é o seu revólver, é o seu revólver. Eu uso o quê? O meu violão. Quando pego no violão é pra fazer música, quando pego na faca é pra quê? É pra mexer na cozinha. E quem tem um revólver é pra quê? Pra matar! Olha, Israel só entrava lá se estivesse com o aluguel de 150 reais pago. Então? Israel era quatro paredes e um bujão de gás. Não sei se você me entende.” Nós entendemos, Ivinho.

Sobre como surgiu o famoso rombo na sua viola de 12 cordas, Ivinho falou o que se segue, em resposta à pergunta: Na capa do disco dá pra notar o buraco que você fez na viola. O quê danado te fez a viola?

“- Foi gravando “Anjo de Fogo” de Alceu. Foi uma discussão dentro do estúdio Som Livre, no Rio. Eu só gosto de levar as coisas pro estúdio depois que estão ensaiadas, pra não ficar discutindo com o cantor: É assim. Não é assim? É como? Aí tinha uma frasezinha errada… (Ivinho declama rapidamente toda a letra de “Anjo de Fogo”) 'Eu sou como o vento que varre a cidade/ Você me conhece e não pode me ver/ Presente de grego, cavalo de Tróia/ Sou cobra jibóia, Saci Pererê/ Um anjo de fogo endemoniado/ Que vai ao cinema, comete pecado/ Que bebe cerveja e cospe no chão/ Um anjo caolho que olhou os dois lados/ Dormiu no presente, sonhou no passado/ Olhou pro futuro e me disse que não…' Quando ele disse que “não”, não foi “não”, foi um nããããão mesmo! Com uma intensidade super alta, mudou a dinâmica da música (imita os sons da guitarra, da bateria, do baixo). Paulo Rafael não estava conseguindo fazer essa frase e eu com a viola estava conseguindo. Aí eu parei para apontar o erro e até hoje estão dizendo que quem estava errado era eu e não Paulo Rafael, mas como é que vou provar?”

No Rio de Janeiro, Ivinho foi requisitado para outras gravações, porém teve problemas numa delas, com Beth Carvalho, quando o produtor do seu disco distribuiu as partituras com os músicos e Ivinho que nunca as soube ler, achou que aquilo era uma provocação. Quase sai na porrada com o homem. Depois daquele incidente, Ivinho sobrou para tudo. Seu inferno astral atingiu o máximo quando foi internado várias vezes. Ele falou disso também:

“- Nos sanatórios não tem bebida alcoólica, mas tem drogas pesadas, como Flufenan, Dienpax, Gardenal e as leves com apenas cinco miligramas de tranqüilizantes. Tem café da manhã, almoço, janta, roupa lavada, mas não tem você sozinho, tem você com um bando de pessoas viciadas, pobres, alcoólatras jogados pra dentro de uma área fechada encarando uma psicóloga, encarando um psiquiatra. Começar todo dia tudo de novo, como há dezesseis anos atrás, é uma coisa que eu não quero mais! Se você é músico, você é músico, se você é policial, é policial, mas se é deficiente mental é o quê? É porque é doido? É porque não sabe fazer nada ou porque não tem uma profissão? É porque não conseguiu ganhar dinheiro com aquilo que sabe fazer?”

É não, Ivinho. É porque você fazia música por doação. Na verdade, acho que nunca passou pela sua cabeça ficar rico com a música. Aí está o seu grande mérito como artista: dar de graça, em forma de energia, aquele imenso talento que de graça também recebeu. Recebeu dele, de Deus!

Ivinho, antes de colocar aqui suas palavras finais, eu quero registrar as minhas: esta pequena viola arrombada que você levou da Vila dos Comerciários, no Recife, para Montreux, na Suíça, na certa você já a havia carregado por outros vales e colinas de onde tirou melodias que se tornaram eternas. Suas valiosas dádivas musicais caíram sobre nossos ouvidos e as conservamos na memória até hoje. Lembre-se de que as eras passam, mas você está vivo e pode continuar a nos dar outros presentes porque na música ainda há muito espaço para ser preenchido.

Agora,sim, suas palavras finais sobre como é o Ivinho hoje:

“- Ivinho hoje é mais pra melhor do que pra pior. Porque se ele continuasse mais um dia no centro da cidade, ele ia se lascar! Um dia eu matava um ou um ia querer acabar comigo. Um casal é dois pratos sobre a mesa, ela de olho nele e ele de olho nela, e uma criança como contrapeso na vida deles. Mas no meu caso não tem mais isso. Já casei, já descasei, eu já tive mulheres como dizia aquela música de Martinho da Vila. Mas agora na minha porta, no meu almoço não tem nenhuma! Eu não sei onde ficaram as mulheres. Hoje eu não tenho obrigação de ver homens internados, homens presos, homens de lá do centro da cidade. Hoje eu tenho a minha paz aqui, na Cidade Universitária, nesse espaço todo.”

Ivinho mora de aluguel no bairro chamado Cidade Universitária no Recife. Quem o conhece poderá encontrá-lo passeando pelo campus da UFPE (instituição onde já foi tese de mestrado) solto como uma ave liberta.

quinta-feira, 9 de abril de 2015

Flaviola e o Bando do Sol [1974]

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Outro representante da geração nordestina pós-tropicalismo, que teve em Paêbirú, de Lula Côrtes e Zé Ramalho, sua expressão mais radical. Também pernambucano, Flaviola e o Bando do Sol gravou apenas um álbum, lançado pelo selo local Solar, em 1974. Com base em ritmos regionais, produziram um raro mix de folk-rock-psicodelia, que permanece com extrema atualidade. Instrumental rico, na base de violões, violas, guitarras, flautas e percussão.

Basicamente acústico, com uma poesia ímpar, o disco é mais um exemplo da energia, da vontade de crair algo novo, que abundava no Recife. Uma comparação com os ingleses de "The Incredible String Band" não é de todo absurda.

Participam do disco Flávio Lira (o Flaviola), Lula Côrtes, Pablo Raphael, Robertinho do Recife, e Zé da Flauta.


1. Canto Fúnebre
2. O Tempo
3. Noite
4. Desespero
5. Canção do Outono
6. Do Amigo
7. Brilhante Estrela
8. Como os Bois
9. Palavras
10. Balalaica
11. Olhos
12. Romance da Lua
13. Asas

terça-feira, 7 de abril de 2015

Alceu Valença - Vivo! [1976]

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Do site oficial Alceu Valença

Minhas apresentações ao vivo passaram a fazer sucesso. Com produção de Guto Graça Mello, registramos o show “Vou Danado pra Catende”, durante temporada de dois meses no Teatro Tereza Rachel, no Rio. Gravamos com dois microfones, um amarrado no outro. Um voltado para os músicos, outro para a platéia. Eu me vestia de homem-sanduíche e, ao lado de Zé da Flauta, saía pelas ruas divulgando o show. “Sol e chuva”, “Punhal de Prata”, “Pontos Cardeais”, “Papagaio do Futuro”, além de uma parceria com Geraldo Azevedo, “Edipiana”, estão no repertório.


1- Casamento da Raposa Com o Rouxinol
2- Descida Da Ladeira
3- Edipiana Nº 1/Emboladas
4- Você Pensa
5- Punhal de Prata
6- Pontos Cardeais
7- Papagaio do Futuro/Emboladas
8- Sol e Chuva


Ficha Técnica

Coordenação Geral: João Araújo
Direção de Produção: Guto Graça Mello
Montagem: João Mello
Técnicos de Gravação: Deraldo, Célio e Luiz Paulo
Arranjos: Alceu Valença
Fotos: Mário Luiz Thompson
Capa: Mauro Luiz e Alceu Valença com a colaboração da Cuca
Arte: Mário Luiz e Flávio Thompson
Produção do Show: Benil Santos, Wellington Luiz Carlos Fernando e Sigla
Flauta: Zé da Flauta
Guitarra: Paulo Lampião Rafael Ukulêle, Viola de 10 e 12
Cordas: Zé Ramalho da Paraíba
Bateria e Percussão: Israel
Percussão: Agrício Noya
Baixo: Dicinho
Viola e Violinha: Alceu Valença

Gravado ao Vivo no Teatro Tereza Rachel durante a realização do show "Vou Danado Pra Catende" de Alceu Valença.
Nas Faixas "Edipiana Nº 1" e "Papagaio do Futuro" Participação Especial de Zé Ramalho da Paraíba.

domingo, 5 de abril de 2015

Marconi Notaro - No Sub Reino dos Metazoários [1973]

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Por Tiago Ferreira no Na Mira do Groove

Um olhar panorâmico sobre a secura da caatinga já exala cansaço. Aquele amarelo pálido adornado por galhos solitários e mandacarus espinhosos forma o cenário adequado para um embate quase diário: deus versus diabo.

Guimarães Rosa e Glauber Rocha falaram bem sobre isso como observadores distanciados usando personagens como apoio. Marconi Notaro me parece se juntar a esses personagens com este clássico No Sub Reino dos Metazoários.

Você está claramente diante de um herdeiro desse ambiente tão complexo quanto a caatinga. Não há menção ao trabalho, sol, família e dificuldades financeiras. A herança é entregue num verso de “Fidelidade”: ‘Permaneço fiel às minhas origens/Filho de deus, sobrinho de satã’. Não há cenário melhor para entender o parentesco entre Deus e o Diabo.

Lançado na obscuridade em 1973 e hoje tido como um clássico da psicodelia nordestina, No Sub Reino dos Metazoários é um trabalho bem substancial. Tanto, que não sei dizer se seria justo chamá-lo de psicodélico. (Talvez essa catalogação esteja viva por ter sido um lançamento do selo Rozenblit, de Recife, que tem em seu catálogo obras de Lula Côrtes, Lailson e os trabalhos psicodélicos de Zé Ramalho – Côrtes e Ramalho participam do disco, bom lembrar.)

Não há uma linearidade no disco. Começa com um samba divertido com “Desmantelado”, crônica botequeira de um viciado na ‘bola 7’ que ‘escova os dentes com cerveja’.

O andamento do álbum vem com “Ah, Vida Ávida”: começa com um barulho de chocalho indicando sonho. É um sonho com águas limpas (‘água na cacimba de Itamaracá’, diz o encarte), como dá a entender a sonoridade. Entra a realidade com os acordes de violão e da cítara: aí vêm barulhos de bichos como urubus numa sonoridade aberta que entrega a vastidão do cenário.

É ouvir de primeira que logo nos remetemos ao ambiente de um Vidas Secas, de Graciliano Ramos.

Quando somos apresentados ao rock de “Made in PB” ou às divagações de “Não Tenho Imaginação Pra Mudar de Mulher”, logo percebemos que estamos diante de um músico inserido no contexto dessa vastidão. Mesmo que sem querer.

Então, não entenda o rock de “Made in PB” como uma faixa mal produzida; entenda aquele ofuscamento como um recurso de afastamento. O cruzamento irascível de guitarras com os vocais lá ao fundo justificam o que se convenciona de psicodelia. Se é assim, então entenda aquele campo de vastidão como cenário perfeito para o gênero (e também para os experimentalismos subversivos de “Antropológica I” e “Antropológica II”).

Diz o dicionário que os ‘metazoários’ são um conjunto de animais pluricelulares diferenciados, sejam vertebrados e invertebrados. Quando Marconi faz essa classificação, o que vem para o ouvinte é a colocação: onde estão todos eles? Como se agrupam? Conseguem sobreviver?

E, novamente, surge no imaginário aquela vastidão pálida.


1. Desmantelado
2. Ah Vida Ávida
3. Fidelidade
4. Maracatú
5. Made in PB
6. Antropológica
7. Antropológica II
8. Sinfonia em Ré
9. Não Tenho Imaginação pra Mudar de Mulher
10. Ode a Satwa

sábado, 4 de abril de 2015

A beat-psicodelia recifense dos anos 60 & 70, com discografia selecionada

Por  Fernando Rosa no Senhor F

Em 1978, o lançamento de 'Avohay' com Zé Ramalho (ex-'da Paraíba') consolidava a presença da moderna música nordestina no cenário musical brasileiro, que cresceu e tornou-se parte definitiva do mix sonoro nacional. Antes dele, em 1972, Alceu Valença e Geraldo Azevedo já tinham se aventurado pelo centro do país em busca de espaço, gravando, com ajuda de Rogério Duprat, um raro álbum anunciando as novas sonoridades nordestinas, ainda ignoradas. Em 1972, também chegava às lojas o primeiro álbum do Quinteto Violado que, apesar de trazer uma versão quase progressiva de 'Asa Branca', ainda estava preso às formas musicais mais tradicionais da música da região.

Nesse meio tempo, Alceu Valença, com a trilha de 'A Noite do Espantalho' (de Sérgio Ricardo), 'Molhado de Suor' (seu primeiro álbum) e, ainda, 'Vivo', gravado ao vivo, em 1974, apontou as possibilidades mercadológicas daqueles novos sons. 'Vivo', especialmente, registro de shows realizados no Rio de Janeiro e em São Paulo, talvez tenha sido a primeira demonstração - para os ouvidos do centro do país - do que estava sendo, ou já tinha sido, gestado em Recife naqueles primeiros anos da década de setenta. Na mesma música, havia a linguagem poética nordestina, o instrumental típico da região, mas também um jeito 'rock and roll' de cantar, e a energia roqueira da época, principalmente por conta da guitarra do genial Ivinho.

Esse movimento, espécie de "invasão nordestina", no entanto, teve antecedentes, ainda hoje praticamente ignorados pela história e discografia oficiais da música brasileira - exceto pelo ótimo e indispensável livro 'Do Frevo ao Manguebeat', do jornalista pernambucano José Teles. Entre os anos de 1972 e 1974, especialmente, a cidade de Recife, capital de Pernambuco, viveu uma grande agitação cultural, com destaque para a produção musical, que deixou raros e clássicos registros em vinil. Na raiz da produção musical recifense, estavam a influência da Jovem Guarda e da beatlemania, com seus diversos grupos locais, e, também, ou principalmente, a psicodelia original pós-Woodstock, e sua versão nacional, traduzida pelo tropicalismo.

Entre o final dos anos sessenta e o início dos anos setenta, Recife foi agitada por grupos como Os Ermitões, Os Bambinos, Os Moderatos (os três com participação de Robertinho de Recife), The Silver Jets (de Fernando Filizola, depois Quinteto Violado) e Os Selvagens (de Ivinho e Almir Oliveira, depois Ave Sangria), entre outros. Zé Ramalho, por exemplo, também passou pela experiência, tocando com Os Quatro Loucos, em substituição a Vital Farias e, depois, nos The Gentlemans, que faziam a ponte João Pessoa-Recife. No início dos setenta, foi a vez de grupos como Laboratório de Sons Estranhos (Aristides Guimarães), Arame Farpado (de Flávio Lira, depois Flaviola), Phetus (de Paulo Rafael, Lailson e Zé da Flauta) e, o mais famoso, Tamarineira Village (de Marco Polo, Almir Ferreira, Paulo Rafael e Ivinho, entre outros), que deu origem ao Ave Sangria.

Além de centro cultural da região, a capital de Pernambuco era a sede da gravadora Rozenblit, que nos anos sessenta fora uma espécie de porta-voz da produção alternativa nacional, gravando grupos de garagem, como Beatniks, De Kalafe e A Turma, Os Baobás e artistas que se firmaram anos depois, como Zegê (Zé Geraldo). Mas, a gravadora fundada em 1954 pelos irmãos José, Isaac e Adolfo Rozenblit cresceu e afirmou-se com a produção de música regional, especialmente o frevo, lançada ainda no tempo do 78rpm, no mercado regional. Nos anos sessenta e setenta, a gravadora também ampliou seu cast com artistas da MPB, como Jorge Ben, e ainda passou a editar intérpretes e grupos estrangeiros, a maioria alternativos para a época, como os americanos Lovin' Spoonful, por exemplo.

Esse caldeirão de influência resultou em obras tão geniais quanto ainda desconhecidas, do que é maior expressão o álbum duplo 'Paêbirú', que reunia Lula Côrtes & Zé Ramalho, em uma viagem psicodélica inédita para os padrões musicais brasileiros. Dividido em quatro partes - água, fogo, terra e ar - o som radicaliza todos os conceitos da psicodelia, fundindo guitarras distorcidas a la Hendrix com as cores, ritmos e alegorias regionais, como nem o tropicalismo ou os Mutantes com Rogério Duprat tinha ousado fazer. São ainda dessa época, além de 'Paêbirú', os discos 'Satwa' com Lula Côrtes & Lailson, 'No Sub Reino dos Metazoários' com Marconi Notaro (que marcou a estréia de Zé Ramalho em disco), 'Flaviola e o Bando do Sol', com Flávio Lira (mais toda a turma, destacando Lula Côrtes, Paulo Rafael, Robertinho de Recife e Zé da Flauta) e, ainda, 'Ave Sangria', com o Ave Sangria.

Sobrepondo-se às dificuldades técnicas da época, a música contida nesses poucos mas fundamentais álbuns é mais do que um registro da cena de uma determinada região, mas a prova material da influência profunda e definitiva que aqueles sons produziram na música jovem nacional. Todos clássicos, esses álbuns traduzem um dos momentos mais ricos, inventivos e alucinados da criação musical brasileira, tão desconhecido no país, quanto reverenciado por colecionadores em todo o mundo, que pagam pequenas fortunas pelos LPs originais. Inéditos em CD, os álbuns vêm sendo resgatados pelos CDrs, que se espalham de mão em mão pelo país, democratizando a acesso das novas gerações à informações essenciais para a compreensão da evolução global da moderna música brasileira.

Discografia selecionada

'Geraldo Azevedo & Alceu Valença', com Geraldo Azevedo e Alceu Valença (72) 
'No Sub Reino dos Metazoários', com Marconi Notaro (73) 
'Satwa', com Lula Côrtes & Lailson (73) 
'Paêbirú', com Lula Côrtes & Zé Ramalho (74) 
'Flaviola e o Bando do Sol', com Flaviola e o Bando do Sol (74) 
'Ave Sangria', com Ave Sangria (75) 
'Molhado de Suor', com Alceu Valença (75) 
'Vivo!', com Alceu Valença (76) 
'Espelho Cristalino', com Alceu Valença (77) 
'Avohay', com Zé Ramalho (77) 
'Jardim de Infância', com Robertinho de Recife (78) 
'Ivinho ao Vivo (em Montreux)', com Ivson Wanderley (Ivinho) 
'Bicho de 7 Cabeças', com Geraldo Azevedo (79) 
'Caruá', com Zé da Flauta e Paulo Rafael (80) 
'Rosa de Sangue', com Lula Côrtes (80, inédito) 
'O Gosto Novo da Vida', com Lula Côrtes (81) 
'Bom Shankar Bolenajh', com Lula Côrtes & Jarbas Mariz (1988)

Literatura

'Do Frevo ao Manguebeat', de José Teles (Editora 34)



*Resgatei esse artigo pois no decorrer das semanas será feito um especial com postagens referentes a psicodelia recifense e nordestina.

quarta-feira, 1 de abril de 2015

Wael Daou - Ancient Conquerors [2013]

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Por Leandro Nogueira Coppi no Brasil Metal História

O Brasil é um país que embora não dê muito valor a música instrumental, pode se dar ao luxo de contar com uma diversidade enorme de músicos que escolheram esse formato para expor suas inspirações e emoções. E quem disse que um instrumentista não consegue contar histórias ou transmitir mensagens através apenas de suas melodias? O guitarrista paraense, Wael Daou (ex-Alma Cog e Madame Saatan), conseguiu provar o oposto nesse EP conceitual, abordando temas a respeito de alguns conquistadores da história da humanidade, começando pela bela capa, feita pelo renomado artista Gustavo Sazes (Sodom, Morbid Angel, Manowar etc). Filho de árabes, na adolescência morou no Líbano, de onde trouxe muitas influências locais na bagagem, além da música clássica, o jazz e o heavy metal. Wael soube equilibrar muito peso ao trabalho, usando guitarras de oito cordas e partes bem climáticas e melódicas, como em “Attila The Hun” - que foi inspirada na “Sinfonia N°9 em mi menor (Op. 95)”, popularmente conhecida como “Sinfonia do Novo Mundo”, uma obra erudita de Antonín Dvořák - e também na grandiosa “Xerxes I” - baseada no rei persa da dinastia Aquemênida, que foi assassinado por membros de sua corte, um momento que para os gregos, marcou como o fim desse império. O próprio Wael cuidou da produção, das guitarras e programações presentes em “Ancient Conquerors”, contando apenas com a ajuda do baixista, Marcos Saraiva. O músico ainda teve o cuidado de apresentar no encarte, um resumo da história de cada conquistador revisitado nas composições. Uma bela obra que conseguiu reunir, boa música e a cultura de outros povos.


1. Genghis Khan
2. Salah El Dine
3. Atilla the Hun
4. Xerxes I
5. Domitian
6. Hiram I


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