terça-feira, 4 de novembro de 2014

O Terço - Mudança de Tempo [1978]

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Por Gibran Felippe no ProgBrasil

Obra-prima, irretocável

Esse trabalho é emblemático na carreira do O Terço, depois de conceberem verdadeiras preciosidades com formações distintas e principalmente o trabalho 'Criaturas da Noite', disco prestigiado com destaque inclusive no exterior, o grupo novamente estava reunido com outra formação, dessa vez sem um dos seus principais integrantes, o tecladista e compositor Flávio Venturini, responsável pela criação de grandes músicas dos álbuns anteriores, mais notadamente '1974', a obra-prima do grupo.

Sem a presença do músico mineiro, muitas dúvidas pairavam no ar sobre a continuidade do trabalho da banda e se a mesma teria fôlego para a manutenção da sua grande qualidade musical, porém da mesma forma que diversos grupos importantes dos anos setenta, a perda de um elemento fundamental não acarretou na perda de sua identidade sonora já estabelecida, até porque os outros membros permaneceram e com essa formação sólida: Sérgio Hinds - guitarra e vocal, Sérgio Magrão - baixo, Sérgio Caffa - teclados e baixo, Cezar de Mercês - guitarra, violão, flauta e vocais e Luís Moreno - bateria e vocais o grupo lançou 'Mudança de Tempo'. Os arranjos ainda contaram com a presença do mestre Rogério Duprat, peça imprescindível nas engrenagens do grupo.

A faixa inicial 'Não Sei Não' já apresenta o leque de variações que O Terço ainda dispunha para mostrar, com uma introdução bem interessante através de uma sequência vibrante nos teclados, sendo acompanhada no fundo por uma guitarra matadora e a bateria do Moreno impressiona pela categoria e elegância, quebrando o tempo inteiro. Depois temos um clássico desse álbum, a esplendorosa e pungente 'Gente do Interior', em que ritmo e letra casam com rara harmonia. Para aqueles que vivem ou já viveram no interior, essa música emociona de fato, pois a sensibilidade da letra remete à simplicidade, ingenuidade e liberdade da vida longe das metrópoles: 'Quem tem o sol das manhães e os pés descalços no chão / Conhece a hora certa na luz da porta aberta / Tem sempre aberto o coração.' Mas não é apenas a letra que é inspirada, o instrumental dessa canção é divino, a combinação dos teclados com violinos orquestrais é magnífica, o dedilhado da viola encanta e as intervenções da guitarra do Hinds arrepiam, aqui vale uma observação, pois se em termos de composição Sérgio Hinds não teve presença marcante, ficando praticamente todas as composições a cargo do Cezar de Mercês, em termos instrumentais trata-se de um dos seus melhores desempenhos durante todo disco e por que não, um dos melhores trabalhos de um guitarrista brasileiro, já que sua técnica não perde nem um pouco para o seu feeling que é exacerbado. Outra curiosidade a se atentar é que em 'Gente do Interior' não há bateria e praticamente não se percebe a ausência da mesma diante da qualidade instrumental verificada.

'Terças e Quintas' é o set instrumental do disco onde mais uma vez o trabalho de guitarras é muito criativo e os teclados executados pelo Caffa são vibrantes, esse é outro aspecto que diferencia 'Mudança de Tempo' para os anteriores, a poderosa energia dos teclados de Caffa que mostra personalidade ao suprir a ausência do Venturini. 'Minha Fé' possui uma introdução instigante nos baixos do Magrão que até então estava somente marcando, mas aqui a timidez fica de lado e a partir desse ponto finalmente temos as linhas de baixo marcantes desse grande músico. A curiosidade fica por conta da presença da Rosa Maria nos vocais e nos minutos finais um solo matador do Hinds para não passar em branco.

A música título chega na sequência e a vejo como uma das melhores músicas de todo o rock progressivo brasileiro. 'Mudança de Tempo' é responsável direta por elevar o conceito desse álbum acima da nota nove, pois uma composição dessa envergadura não surge a todo momento. As linhas de baixo estão formidáveis, a quebrada da bateria é hiper criativa, os violões estão ótimos e as intervenções incidentais da guitarra durante os vocais dão um toque todo especial. Pra fechar segue um set instrumental de quatro minutos em que as variações e alternâncias impostas pelos teclados estão alucinantes, criando uma atmosfera única para a guitarra do Hinds. Depois mais uma vez Sérgio Caffa mostra sua personalidade através da obtenção do seu espaço junto ao grupo para uma composição própria, a quebradíssima 'Descolada' em que o nome casa perfeitamente com o instrumental, atenção para a flauta do Mercês.

A seguir 'Pela Rua' apresenta uma linha mais tradicional do rock progressivo inglês, principalmente pela influência do Yes, o coro dos vocais lembra muito algumas composições do quinteto inglês, aliás, é possível perceber ecos do Yes por toda carreira do grupo, desde os primórdios até os dias atuais, porém essa influência fora sempre acrescentada de diversos outros elementos que formaram a malha original do O Terço. Exemplo disso é 'Blues Do Adeus', quebrando compassos para um blues tradicional, com a marcação característica dos teclados que tanto fizeram parte da carreira de nomes como Eric Clapton e BB King. Os destaques aqui são algumas intervenções sutis nos sintetizadores e o solo de guitarra final do Hinds que é maravilhoso, porém acredito que essa música poderia ser reduzida, para as características do disco, ela acabou destoando por ser longa demais numa mesma sequência sonora.

O álbum se encerra com 'Hoje É Domingo' mantendo o nível elevado, sinceramente essa canção é adorável. A letra é muito boa e assim como 'Mudança De Tempo' tem estreita relação com o período que o país vivia, com a ditadura militar tolhindo a liberdade das pessoas, o direito de ir e vir e censurando textos, arte e atitudes. A mistura de violões com guitarras é sensacional e a bateria do Moreno está deslumbrante, aqui temos outro solo do Hinds de arrepiar e o disco termina dessa forma, justamente num solo de guitarra, até porque não podia ser de outra maneira pra coroar a estupenda performance desse grande guitarrista.

Uma pena que o relacionamento tisnado entre Hinds e Mercês, com desavenças pendentes até os dias atuais, fizeram com que a maiorias das músicas desse belo trabalho ficassem esquecidas nas apresentações ao vivo ao longo dos anos, já que praticamente todas são composições de autoria do Cezar de Mercês.

O detalhe da capa é outro ponto positivo a se destacar, apresentando os integrantes do grupo com expressões apreensivas, ladeados pelas grades de uma janela diante de um tempo ruim do lado de fora, esperando justamente a mudança de tempo que sempre está por vir, podendo ser interpretada tanto para o contexto político por qual o país passava, como para a própria trajetória da banda que necessitava de revitalização após a saída de Venturini... mesmo sem obter o mesmo sucesso e admiração da crítica e público com relação aos trabalhos anteriores, é inegável que essa obra também engrandece a trajetória do O Terço pela qualidade musical aqui demonstrada.

Um comentário:

  1. Marcelo,
    Que agradável e tardia surpresa tenho ao ler seu texto!
    Conciso, forte e abrangente seu conhecimento e sensibilidade musical permite um visão de todo o contexto em que esse trabalho foi realizado.
    Coincidentemente, eu estava procurando o áudio de "Mudança de Tempo" para ilustrar um post no Facebook â propósito desse momento em que os fantasmas de um passado sombrio parece emergirem do fundo dos nossos pesadelos.
    Quando escrevi esta canção estava movido pelo desejo de conclamar mentes e corações a resistir e por isso o seu tom de chamamento, que se transforma em pragas contra quem nos amordaçava. "Tomara que um pé de vento...", "Tomara que a correnteza...", "Quem dera que a maré suba..."
    Nuvens negras da intolerância voltam a cobrir o céu da nossa frágil liberdade. Vamos espalhar estas nuvens para quando amanhecer de novo haver lugar para o sol!
    Valeu, Marcelo!

    Cezar de Mercês

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