segunda-feira, 13 de outubro de 2014

Camisa de Vênus - Camisa de Vênus [1983]

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Por Fabio Ross no Essa e já ouvi...

Imagine-se com 30 anos nas costas. Você já trabalhou como auxiliar de enfermagem, vendedor e radialista. Você morou alguns meses em New York (EUA) e fala com boa fluência o inglês. Você mora em Salvador - Bahia. É início da década de 1980, e você ama música mais que a si mesmo... mas não sabe tocar nenhum instrumento. Pegou o cenário? O que você faria? Provavelmente tentaria seguir carreira alí mesmo. Mas isso não bastava para Marcelo Nova. Criar o Camisa de Vênus era quase uma necessidade, que vinha de uma inquietação constante do estabelecido.


A BANDA

Marcelo Nova sempre teve esse "problema", nunca estava satisfeito com esse lance de "status quo". Começou a trabalhar cedo, ainda adolescente, como ajudante de seu pai, que tinha uma clínica de fisioterapia. O salário era todo convertido em discos. Em entrevista ao blog Imprensa Rocker, ele contou que não tinha interesse em nada, nem por "futebol, praia ou clube".

Quando qualquer um pensaria em seguir os passos do pai, Nova pede demissão e abre uma loja de discos. Foi a porta de entrada para a mídia. No fim dos anos 70, ele é convidado pela Rádio Aratu FM para apresentar o programa "Rock Special", pelo qual ganhou certa notoriedade nacional. Havia coisas que só ele conhecia, e rapidamente passou a se posicionar como formador de opinião.

Isso bastaria para que ele seguisse em uma emissora maior. Adivinha? Claro que não, preferiu vender a loja e usar o dinheiro pra morar em New York. Lá, conheceu o movimento punk e a filosofia "Do It Yourself" (que eu já tratei aqui no post "Ramones"). E foi o que bastou para voltar ao Brasil, decidido a formar uma banda. Contatou o amigo Robério Santana, e junto com Karl Hummel, Gustavo Mullen e Aldo Machado, funda o Camisa de Vênus, banda punk que ia na contramão de tudo que se entendia por cultura na comunidade baiana do começo dos anos 80.


CONTEXTO HISTÓRICO

Enquanto Nova engatinhava as ideias que formariam o Camisa, a música baiana estava mais que consolidada no Brasil, compreendendo os principais nomes e movimentos artísticos do país. Este status vem de muito antes, com suas origens na década de 60. Neste tempo foi quando houve o Golpe Militar, e os consequentes famigerados Atos Institucionais.

Nessa "zona", a cultura respondia em forma de protestos. Vários artistas surgiram com esta proposta, agregando aos ritmos regionais elementos de música estrangeira. Dentre os quais, destacam-se Caetano Veloso, Gilberto Gil, Tom Zé e dezenas de outros. A este movimento deu-se o nome de Tropicalismo.

O governo, certamente, reagiu, punindo com exílio a muitos deles. Claro que isso não diminuiu a força do movimento, que a essa altura já deixava um legado à cultura baiana. A década de 70, então, viu eclodir diversos outros artistas com expoentes diversificados. Dentre todos, destaco Armandinho (virtuose da guitarra baiana) e Raul Seixas, ambos inserindo mais elementos do rock às suas canções.

Raul, em especial, chamava muito a atenção de Nova. Suas canções, simples e sagazes, o inspiraram desde cedo à incursão musical. Agregando as ideias do Maluco Beleza com o DIY e o enfraquecimento do militarismo, Nova não teve dúvida: o Camisa tinha de ser diferente de tudo. Era hora agredir todo mundo!


O DISCO

Não é a toa que o "Camisa de Vênus" incomodou na hora em que chegou. Tecnicamente, é um disco pobre. Mas era exatamente isso que Nova e banda queriam. Uma das coisas mais intrigantes que eu li naquela entrevista ao Imprensa Rocker é que, naquele tempo, não se fazia banda se você não fosse um Jimmy Page, ou um Jeff Beck. Mas quando conheceu Sex Pistols e The Clash, a coisa se tornou mais palpável.

Essa é a pegada que permeia todo o "Camisa...". O grande barato não é a parte técnica. Se o analisar assim, vai jogá-lo contra a parede nos 2 primeiros minutos. O mais admirável aqui são os textos.

Desde sua abertura, com a faixa "Passamos por Isso", Nova deixa claro que não vai poupar ninguém. Nesta, em específico, a "agulhada" vai direto no olho da MPB, em sua visão, engessada e pedante (e é mesmo). É o mais puro DIY com a anarquia, que se vê na maioria das faixas, como em "O Adventista" (em que o alvo são as pessoas que escolhem uma vida de alienação) e "Pronto pro Suicídio" (de novo, às pessoas, presas em suas rotinas).

A anarquia em "Camisa..." é, de fato, a palavra de ordem - paradoxalmente falando. Percebe-se isso em "Correndo Sem Parar" (minha preferida!), "Metástase", e "Passatempo". É soco atrás de soco, sem descanço, sem poupar ninguém, igreja, política, as pessoas em geral. A faixa que se tornou mais conhecida dessa obra, "Bete Morreu" é outro exemplo disso, bem como "Negue", um cover inusitadíssimo do clássico de Nelson Gonçalves.

Todos os seus 36 minutos de duração parecem ter sido projetados pra fazer você vomitar. E eu garanto, isso vai acontecer. Se você curte "ver o circo pegar fogo", eu te asseguro: você vai adorar sentir essa ânsia!


LISTA DE FAIXAS

1. Passamos Por Isto
2. Metástase
3. Bete Morreu
4. Correndo Sem Parar
5. Negue
6. O Adventista
7. Dogmas Tecnofascistas
8. Homem Não Chora
9. Passatempo
10. Pronto Pro Suicídio
11. Meu Primo Zé


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