domingo, 7 de agosto de 2016

Camisa de Vênus - Dançando na Lua [2016]

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Por Mauro Ferreira em G1

Camisa de Vênus volta corrosivo e revigorado no CD 'Dançando na lua'

"Se a dor é constante / Mas o trajeto é comprido / Não reclame da vida / Antes de tê-la vivido", adverte Marcelo Nova em versos do rock Sibilando como cascavel, uma das dez músicas de Dançando na lua, primeiro álbum de músicas inéditas do grupo baiano Camisa de Vênus em 20 anos.

O trajeto da banda é longo e, após sair em turnê nacional com show que percorreu o Brasil em 2015 para celebrar os 35 anos da formação do grupo (em 1980, na Salvador pré-axé), o Camisa de Vênus volta ao mercado fonográfico com repertório novo duas décadas após o álbum de estúdio Quem é você? (1996).

Lançado via Radar Records neste mês de julho, Dançando na lua é álbum que tem pegada e sonoridade roqueira que destacam as guitarras proeminentes de Drake Nova (guitarra solo) e Leandro Dalle (guitarra base). Filho de Marcelo Nova, Drake produziu o disco com o pai. Por isso mesmo, não espere ouvir em Dançando na lua o Camisa de Vênus da década de 1980. Até porque, além do vocalista Marcelo Nova, somente o baixista Robério Santana, integrou a formação original do grupo, fazendo parte do atual quinteto completado com o toque seco (e bem marcado) da bateria de Célio Glouster.

Contudo, o som de músicas como A urna da obsessão e Como no inferno de Dante (em cuja letra Marcelo se queixa do "cheiro insuportável dos domingos") é fiel aos cânones básicos do rock. Sem inventar moda, mas tampouco sem soar retrô, o Camisa de Vênus dança na lua conforme a música ditada pela cartilha do rock.

Marca forte do Camisa, o tom corrosivo das letras do grupo reverbera no disco em músicas como O estrondo do silêncio e, sobretudo, A raça mansa, grande petardo do repertório quase inteiramente autoral. A exceção é Só morto (Burning night), parceria de Jards Macalé com Duda Machado lançada por Macalé em compacto de 1969. O Camisa de Vênus dá peso e se ajusta ao tema tenso de Macalé, de cujo cancioneiro o grupo já gravara Gothan City (Jards Macalé e José Carlos Capinam, 1969) no álbum Batalhão de estranhos (1984).

Por mais que o título Dançando na lua sugira leveza, o álbum é pautado pelas sombras que enevoam o rock do Camisa de Vênus. A hard balada Manhã manchada de medo exemplifica o tom sombrio embutido em repertório que alfineta Deus e a raça humana. O fato é que o Camisa de Vênus volta revigorado, adulto, sem os ímpetos juvenis de sucessos da fase inicial como Simca Chambord (Marcelo Nova, Gustavo Mullen, Karl Hummel e Marcelo Cordeiro), hit radiofônico do álbum Correndo o risco (1986), lançado há 30 anos.

Entre idas, vindas e brigas (algumas resolvidas na Justiça), o trajeto do grupo é dos mais compridos e coerentes do rock nacional. Só que o Camisa de Vênus ainda corre riscos ao lançar autoral álbum de músicas inéditas que dá novo fôlego ao grupo na longa caminhada.


1. Dançando na Lua
2. A Raça Mansa
3. Chamada a Cobrar
4. Vento Insensato
5. Manhã Manchada de Medo
6. Sibilando Como Cascavel
7. A Urna da Obsessão
8. Só Morto/Burning Night
9. O Estrondo do Silêncio
10. Como no Inferno de Dante

Um comentário:

  1. Além de revigorar a vida da banda, também revigorou a vida tão combalida do nosso rock brazuca. Longa vida ao Camisa, longa vida à Marcelo Nova.

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