segunda-feira, 22 de dezembro de 2014

Cassiano - Imagem e Som [1971]

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Por Rodrigo Mattar em A Mil Por Hora

O paraibano Genival Cassiano dos Santos, nascido em Campina Grande no ano de 1943, é um dos nomes mais injustiçados da história da música brasileira. Já faz três décadas desde seu último lançamento de músicas inéditas e só uma coletânea alentadíssima organizada por Ed Motta para o selo Dubas Música da Universal foi capaz de resgatar parte da fecunda obra do cantor/compositor.

Cassiano é um dos pais do soul e do funk no Brasil. No começo da carreira musical, formou o grupo Bossa Trio, mais tarde rebatizado Os Diagonais, com o irmão Camarão e os também nordestinos Amaro e Hyldon. Gravaram um álbum que continha uma surpreendente versão de “Na baixa do sapateiro”, de Ary Barroso, cheia de suingue. O disco teve pouca repercussão e vendas baixas, mas Tim Maia adorou e ouviu – tanto que chamou o quarteto para participar de seu primeiro disco, lançado em 1970.

O sucesso instantâneo de músicas como “Primavera” foi a prova de que Cassiano estava para o soul e o funk como João Gilberto para a Bossa Nova, no sentido do fraseado harmônico das canções e harmonias rebuscadas. Tanto que o próprio Tim dizia que pra cada nota que escrevia, Cassiano dava cinco.

E assim no início de 1971 o paraibano, com a ajuda de músicos como Capacete (baixo elétrico), Charles (piano) e Paulinho (bateria), com participação dos Diagonais nos vocais e arranjos de Waldyr Arouca Barros, gravou enfim seu primeiro disco, pela RCA Victor.

Imagem e Som, título do álbum de estreia de Cassiano, traz grandes canções do mestre. A inevitável “Primavera”, uma regravação do estouro nacional de Tim Maia, acaba sendo apenas mais uma das 12 faixas do álbum, que abre com “Lenda”, parceria de Lula Freire com Marcos Valle. Com Tim Maia, Cassiano assina duas músicas – os funks “Ela mandou esperar” e “Tenho dito”.

Mas as melhores de todo o álbum são as composições assinadas somente pelo paraibano. A lindíssima balada “Já” tem grande influência harmônica do que os Beach Boys fizeram em Pet Sounds, com uma levada de bateria típica dos anos 60. “É isso aí” (que, ainda bem, não é aquela da Ana Carolina com o Seu Jorge) remete aos grandes grupos da Motown, como Four Tops e Temptations. Nessa faixa, a linha de baixo de Capacete é simplesmente espetacular.

Mas não ficou por aí: “Uma lágrima”, canção que o próprio Cassiano qualifica como uma das mais bonitas que fez, ganhou lindo arranjo de Waldyr Arouca Barros. A letra é o que se pode descrever como o mínimo dentro do máximo. Poucos versos, frases curtas, diretas e tocantes.

Sonho que sonhei, lindo amanhecer
Natureza que te amo
Hoje o amor se faz em forma de canção
Até o luar presente se fez
Uma lágrima que em santas lágrimas
A nova época já viu passar sem se lamentar
Só o amor constroi, só o amor reviverá
Uma lágrima…

E ainda existe “Não fique triste”, que fecha em grande estilo o belo disco de estreia de Cassiano como artista solo. Ela é construída numa harmonia do tipo vai-volta-vai-volta. Parece que a música nunca acaba, algo parecido com “We’re going wrong”, do Cream, só que com muito mais doçura e num andamento mais lento. Realmente, um momento brilhante de um artista que, volto a repetir, não merecia nunca ser esquecido pela MPB. Cassiano é um gênio e poucos sabem reconhecê-lo.


Ficha técnica de Imagem e Som

Selo: RCA Victor
Gravado em 1971
Produção de Alfredo Corleto

Músicas:

1. Lenda (Lula Freire/Marcos Valle)
2. Ela mandou esperar (Cassiano/Tim Maia)
3. Tenho dito (Cassiano/Tim Maia)
4. Já (Cassiano)
5. É isso aí (Cassiano)
6. O caso das bossas (Gil Rosendo/W. Namor)
7. Eu, meu filho e você (Cassiano)
8. Primavera [Vai chuva] (Cassiano/Sílvio Rochael)
9. Minister (Cassiano)
10. Uma lágrima (Cassiano)
11. Canção dos hippies [Paz e amor] (Professor Pardal)
12. Não fique triste (Cassiano)

2 comentários:

  1. Fala meu velho.... Adoro este som! Parabéns pela postagem.
    Um grande abraço e um feliz Natal para o Vitrola!

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    1. Que revelo aqui. Comecei a dar atenção a obra de Cassiano recentemente e volto a constatar que temos muitos bons artistas esquecidos.

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