quarta-feira, 18 de julho de 2012

Zé Ramalho - Sinais dos Tempos [2012]


Zé Ramalho é uma das lenda da música brasileira. Autor de grandes hinos como “Avohai”, “Admirado Mundo Novo”, “Chão de Giz”, “Mistérios da Meia-Noite” e muitos e muitos hits, foi um dos principais nomes da música nordestina ao lado dos também lendários Alceu Valença e Elba Ramalho. O paraibano tem tido um bom espaço na mídia e têm despertado até o interesse do público jovem graças ao seu ótimo show no festival de música SWU no ano passado e, coincidência ou não, tem aproveitado esse hype para lançar “Sinais dos Tempos”, primeiro álbum de inéditas desde “Parceria dos Viajantes” (2007).

É difícil analisar um álbum desse calibre. Aos 60 anos, o artista geralmente apresenta uma postura mais relaxada, sem aquela procura por um hit ideal para tocar na rádio. Seguindo os passos de Rita Lee e tantos outros que se cansaram do desinteresse das gravadoras (que estão sempre à procura da próxima revelação teen), Zé lança o álbum pelo próprio selo, “Avohai music”, contribuindo para que o álbum soe, musicalmente, despretensioso, embora não isenta de riqueza.
Em geral, alguns artistas tornam-se mais reflexivos quando atingem esse ponto da carreira, mas aqui Zé reflete de uma maneira diferente. Enquanto outros voltam seus olhos a si e buscam a seneridade, Zé mantém seus olhos no mundo externo, tentando entendê-lo.

“Sinais dos Tempos” é antes de tudo um atestado da loucura do mundo visto por olhos já experientes que, entre altos e baixos de sua vida, encontrou sabedoria. A crise na Europa, assassinatos em massa no Oriente Médio, a inversão de valores, a fome e a seca no seu nordeste: tudo está misturado nas canções com os sentimentos do cantor sobre o mundo e si mesmo. “Sinais dos Tempos” possui até uma faceta profética, pois em alguns pontos trata a decadência do mundo como um prenúncio do fim (cabe destacar também a data do lançamento – 2012, fato não ignorado pelo cantor).

Musicalmente, quase todas as canções são levadas por uma base de violão que acompanha as variações melódicas na voz de Zé Ramalho. É nas letras que e tudo que está ao redor acompanha sua voz. “Indo com o Tempo”, canção que abre o álbum, carrega um diálogo entre a voz de Zé e uma guitarra bluesística. Em “Lembranças do Primeiro”, quem acompanha é uma bonita linha de teclados. “Justiça Cega” possui uma levada que remete a diversos artistas nordestinos, quase flertando com a lambada, acompanhada por saxofones. “Um Pouco do que Queira”, uma das melhores faixas do álbum ao lado do single “Sinais”, “Justiça Cega” e “Portal do Destino”, é um forró tradicional. No encerramento, uma trilha sombria acompanha a canção com o sugestivo nome de “Anúncio Final”. Embora todas as canções, com exceção da última, tenham uma estrutura semelhante, cada uma possui o seu diferencial.

“Sinais dos Tempos”, portanto, não carrega nenhum grande hit que vá se destacar nos shows do músico – o que de forma alguma é demérito das canções, pois participam de uma concorrência muito desleal. Mas é um equilibrado, refinado e relaxado trabalho de um artista que, felizmente pra nós, continua rodando por aí.

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