segunda-feira, 28 de dezembro de 2015

Augustine Azul [2015]

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Por Macrocefalia Musical

É raro, mas pode acontecer. Você alguma vez já pegou um disco (seja ele no formato físico ou digital) e ficou encarando a capa? Não sei se existe um pensamento ''exato'' por trás desse ato, mas quando faço isso, geralmente penso: será que o conteúdo refletirá o que vejo na arte?
Por vezes é uma viagem sem volta. Como poderia saber que um prisma refletiria tanto Prog na forma de Pink Floyd? Jamais imaginaria que o Jeff Beck arrebataria meus ouvidos com um som tão futurista, ostentando uma maçã na capa de seu Jeff Beck Group, ou que o Led Zeppelin, fosse derreter minha mente da mesma forma que aconteceu com a carcaça do dirigível em chamas do Led I.

Não é um sistema à prova de falhas, muitas vezes as artes dos discos são trabalhos paralelos que tentam unir teias por conceitos diferentes. É uma maneira que propõe um novo ângulo de observação artístico para linkar um trabalho. A ideia é criar um signo, algo que você olhe e imediatamente pense: essa mina de Black Power é do ''Maggot Brain''.


Volto a repetir o mantra: é complicado achar um todo bem sincronizado, mas quando você acha e aprecia as notas, o baque é ainda maior. Você escuta o disco e frita de uma maneira quase conceitual. É como se você se identificasse com aquilo, da mesma maneira que o músico que está nos créditos o fez. É algo limpo e que não tenta se esconder, o groove é reto.

Arte: Inácio Eugênio - Crowl
E se tem um registro que vai lhe atingir como um porrete, desde a capa e desnorteará sua bússola psicológica, meu amigo, esse trampo será o EP dos paraibanos do Augustine Azul. O autointitulado lançado (virtualmente) no dia 01 de julho de 2015 é extremamente fiel ao que é relatado na capa e, digo mais, se eu deixei de falar algo, desculpem-me, desde que saquei essa jam, possuo dois martelos cravados no meu cérebro. A fritação Prog-instrumental do trio é violenta

Se teve um registro nacional que me pegou pelo pé foi esse aqui. A pegada do trio é assustadora. A bateria pesa, mas com técnica, bombeia o sangue da síncope para todos os instrumentos e mostra uma versatilidade notável, deixando claro desde a base, que o que temos aqui é uma cozinha bastante inventiva, livre e casca grossa.

O baixo de Jonathan Beltrão não caminha com a bateria de Edgard Moreira o tempo todo, ele desafia a guitarra, joga novos graves, deixa tudo mais torto e adiciona um groove bastante ácido em meio à tantas influências diversas. Insights que surgem desde o Stoner, passando pela psicodelia e um groove Funky que encerra o EP com ''Aquele Arregaço'', literalmente.

Na guitarra, João Yor fecha o pack, servindo como o norte de tudo que acontece aqui. Só que cuidado com essa frase, durante os quase 25 minutos que as notas surgem como um choque de taser, todos os instrumentos disputam espaço de maneira contundente.

Só que a fagulha que fará deste som, algo único nos seus fones, é justamente a criatividade de cada música. A diversidade de influências e a técnica crua de cada um dos envolvidos, que com um conceito muito bem definido, impressionam pela exatidão das timbragens.

Falei tanto das artes antes do texto por que você vai olhar pra essa daqui pra frente e lembrar: vish. É um trabalho marcante, seco e que define a força de um grupo que conseguiu achar um conceito e extendê-lo de forma rica sem se perder.

Aqui tem muito Blues, aquelas Hardeiras obscuras, música brasileira, ácido e no fim das contas o estrago chega com a força de um ''Mesclado'' mesmo. A química da banda é fervorosa, o baque é ''3>1'' na entrada, a pancadaria é vertiginosa e no fim parece que você vai cair, mas quando tudo ficar turvo, só verás um ''Teto Preto'' batizando jams ao vivo (a especialidade deste trio), como se a vida fosse uma eterna brisa num festival qualquer em 1900 e ''Setenta e Quatro''.

A cena underground brasileira vai muito bem (obrigado) e são grupos como esse, que além de evidenciarem o tato de nossos músicos e o alto nível das gravações made in Brazil (sem trocadilho), ressaltam ainda mais o puro néctar da música instrumental, nos provando por A + B, como é possível falar muito, sem precisar necessariamente cantar algo concreto. 

Uma bomba de estilhaços com um laço Prog para amarrar a ideia, esse é o Augustine Azul e seu EP. Depois da primeira audição parece que você saiu correndo e atravessou uma porta de vidro temperado. Que muqueta, é tão bom que até o nome do ''Nando Reis'' passa batido!


ENTREVISTA:

1- O conceito base do som de vocês é o rock progressivo e não o stoner, como muitos pensam. Como essa escolha estética faz vocês trabalharem pra mesclar influências e não se fechar dentro de um estilo apenas ?

O Rock Progressivo permite uma liberdade muito maior ao compor, pois conseguimos variar de maneira extrema o que é produzido dentro da música, como os compassos, tons, frases e temas. Algo que nos possibilita passear além do Rock Progressivo, mas o faz mantendo uma sonoridade que nos é íntima. Gostamos de escutar vários gêneros e isso se reflete no nosso som, que passeia não só pelo Stoner, mas absolutamente tudo que consumimos musicalmente.

2- E a banda, como se deu a formação do Augustine Azul ?

Eu (João Yor) e o Jonathan estávamos fazendo umas jams com nossos amigos. Daí pra frente as composições foram surgindo e a necessidade de ser uma banda também. O baterista dessas jams já tinha projetos e preferiu não continuar, depois Jonathan conheceu Edgard num bar e deu start na lombra.

3- O som desse EP é elementar por vários motivos, mas creio que o principa seja o caráter orgânico do todo. Como foi o processo de gravação ?

Sendo bem sincero, as condições não foram nem um pouco favoráveis, mas contamos com a ajuda de uma galera muito massa. Um amigo liberou a sala do home studio e uma bateria, os microfones arrumamos com outro parceiro, depois captamos a batera do jeito que deu e colocamos a guitarra e o baixo em linha, pra depois editar, mixar e masterizar tudo por conta própria e tá aí rolando. 

4- Na última session dessa gravação ("Nando Reis/Aquele Regaço"), o EP se encerra num boggie funkeado que é veneno. Vocês pensam em trabalhar mais com esse elemento ácido e gravar algo mais swingado num futuro próximo?

Sim, a gente viaja muito compondo e temos uma influência muito forte de Funk, mesmo não tocando o estilo propriamente dito, inclusive, já temos alguns riffs que transparecem mais nitidamente esse grooveado que o funk possui.

5- E daqui pra frente, quais são os planos? Dá pra soltar ou está tudo em off ainda?

Bicho, a gente tá em processo de composição e planejando lançar um álbum no próximo ano. Temos também músicas novas que já tocamos ao vivo e algumas que estão sendo compostas nos ensaios dos shows do EP. Ano que vem tem coisa nova com certeza!

6 - O Conceito trio remete bastante aos combos clássicos dos anos setenta, como o Taste e etc, mas como é essa química no víes de vocês, o instrumental ?

Nós achamos que o conceito de trio remete ao triângulo e a sua perfeita harmonia estética e prática. Além do som correr mais rápido, por ser mais concentrado, a gente se sente bastante confortável ao trabalhar junto, é uma liberdade massa de criação.

7- Pra finalizar, gostaria de agradecer pela atenção, o som de vocês é bastante singular. Aliás, falando nisso, o que os senhores estão ouvindo no momento? Algum desses sons acabou influenciando a gravação do EP de alguma maneira?

Pô, muito obrigado pelo elogio e pelo carinho com nosso som! Nós escutamos muito Led Zeppelin, Captain Beyond, Rush, King Crimson, Pink Floyd, Sleep, Down, EYEHATEGOD, Pantera, Wolfmother, Radio Moscow, Audioslave... É bem relativo como tudo isso entrou como influência no EP, acreditamos que interfira mais na maneira como desenvolvemos o gosto para não só escutar, mas criar sons.


João Yor - guitarra
Jonathan Beltrão - baixo
Edgard Moreira - bateria

quinta-feira, 24 de dezembro de 2015

Erasmo Carlos - Meus Lado B ao Vivo [2015]

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Por Eduardo Guimarães no Território da Música

Quem é dos áureos tempos do disco de vinil - que na verdade continua vivo - entende o conceito de Lado B. Era aquela música que não era trabalhada em rádios ou TVs e muitas vezes ficava perdida no meio do repertório do disco. Além de ser uma das faixas do lado B do LP ou do compacto, propriamente dito. 

Pois bem, pensando nessas canções menos populares, Erasmo Carlos resolveu abrir o baú e fazer uma série de shows com essas músicas.

O resultado dessa empreitada é o lançamento de “Meus Lados B”, ( que chega às lojas em julho), via Coqueiro Verde Records, em CD e DVD. Este trabalho reúne canções menos populares e também menos tocadas pelo próprio Tremendão ao longo da carreira. O show que resultou neste lançamento foi registrado em janeiro do ano passado, no palco do Tom Jazz, em São Paulo.


01. Gente Aberta
02. Amar Pra Viver ou Viver de Amor
03. A Carta
04. O Homem da Motocicleta
05. Estou Dez Anos Atrasado
06. Vou Ficar Nu Para Chamar sua Atenção
07. Dois Animais na Selva Suja da Rua
08. É Preciso Dar Um Jeito, Meu Amigo
09. Maria Joana
10. De Noite na Cama
11. Cachaça Mecânica
12. O Comilão
13. Mané João
14. Paralelas
15. Abra Seus Olhos
16. Grilos
17. Meu Mar
18. Queremos Saber
19. Análise Descontraída
20. Sementes do Amanhã
21. Geração do Meio
22. 1990 - Projeto Salva Terra

terça-feira, 22 de dezembro de 2015

Beach Combers - Na Brasa - Volume 1 [2011]

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Por Chico no Sintonia Musikal

Não se deixe enganar pela capa que remete a de bandas como Iron Maiden e outras de heavy metal, apaixonadas por caveiras e letreiros fantasmagóricos nos discos. O conteúdo deste primeiro – e único, até o momento – volume do “Na Brasa”, CD gravado pelos Beach Combers, é de genuína Jovem Guarda. Em contraste com a folia de Momo, que rolava pelas ruas e avenidas do Rio, o grupo se reuniu durante o carnaval de 2011 no Estúdio 82, localizado na Lapa, para produzir e gravar este álbum, segundo informa o site da banda. Foram registradas 13 versões instrumentais de clássicos do movimento que (completará 50 anos no mês que vem) completou 50 anos no dia 22 de agosto de 2015, dia da estreia do programa comandado pelo Roberto Carlos na TV Record.

A maioria das músicas - seis no total - é do repertório do Roberto Carlos, como "É proibido fumar" e "Quero que vá tudo pro inferno". Um dos destaques é o cover de “O milionário”, hit d’Os Incríveis, ainda insuperáveis nessa música. A curiosidade é “Nossas botas foram feitas para andar”, versão de “These boots are made for walking”, e gravada no Brasil pela Sonny Delane (postada aqui), entre outras. A única fora do universo musical da Jovem Guarda é “Um lugar do caralho”, de Júpiter Maçã, também gravada pelo grupo Kynna, com vocal da Lílian Knapp (ex-Leno & Lilian).

Trio carioca de Beat Music gravou este CD durante o carnaval de 2011
O trio carioca de Beat Music (Surf / Garagem / Psicodelia / Instrumental), do circuito independente, é formado por Bernar Gomma (guitarra), Guzz The Fuzz (baixo) e Lucas Leão (bateria). Neste CD, que foi liberado para download gratuito, os músicos contaram com a participação de Paoli, no órgão, pra dar o toque “lafayetteano” no disco, mixado e produzido pelo organista durante o carnaval. Este é o segundo álbum do trio, sendo que o primeiro é o EP homônimo, de 2010. O terceiro e mais recente, "Ninguém segura os Beach Combers" (2012), foi prensado em vinil na Alemanha e postado (ontem) no blog Por trás da vitrola, mas a ordem agora é curtir "Na Brasa". Confira:


01 – Intro 
(Beach Combers)
02 - Você não serve pra mim
(Renato Barros)
03 – Quando
(Roberto Carlos)
04 - Quero que vá tudo pro inferno
(Roberto Carlos – Erasmo Carlos)
05 - Namoradinha de um amigo meu
(Roberto Carlos)
06 - Eu te darei o céu
(Roberto Carlos – Erasmo Carlos)
07 - É proibido fumar
(Roberto Carlos – Erasmo Carlos)
08 - The millionaire (O Milionário)
(Mike Maxfield)
09 - Pobre menina (Hang on Sloopy)
(Russel – Farrell)
10 - Nossas botas foram feitas para andar (These boots are made for walking)
(Lee Hazlewood)
11 - Meu bem (Girl)
(Lennon – McCartney)
12 - Silvia 20 horas domingo
(Tom Gomes – Luis Vagner)
13 – Um lugar do caralho
(Flávio Basso, o Júpiter Maçã)
14 - Vem quente que estou fervendo
(Carlos Imperial – Eduardo Araújo)

segunda-feira, 21 de dezembro de 2015

Cidade Verde Sounds - O Jogo [2015]


Aquela vontade de ir curtir o verão na praia, que é o lugar mais que certo para ouvir um reggae. Seguindo esse pensamento vai o novo álbum do Cidade Verdade Sounds que ironicamente é uma banda do interior.


1 - Da minha vida eu que sei (Quem sabe sou eu)
2 - Rebelde na Esquina
3 - Dancehall Style (part Fael Primeiro)
4 - É proibido
5 - Hoje (part. Planta e Raiz)
6 - Real Raggamuffin (part. Monkey Jhayam)
7 - Estar com você
8 - Só por amor (part. Nissin Oriente, prod. DJ Coala e Mastor)
9 - O que a vida traz
10 - A Marcha que eu sigo (prod. Dj Caique)
11 - Viver como um só (prod. Oness Records)
12 - Red Eyes


sábado, 19 de dezembro de 2015

The Mullet Monster Mafia - Power Surf Orchestra [2009]




O Mullet Monster Mafia, também conhecido como Mullet, ou apenas MMM, como eram chamados pelo trio skate punk californiano Agent Orange, com quem dividiram um extensa turnê brasileira em 2010, começou atividades em dezembro de 2008 e no mês seguinte já estavam com este EP de 6 canções gravado. Em fevereiro de 2009 distribuíam as 1000 cópias no festival Psycho Carnival, em Curitiba.

Logo o quarteto ficou conhecido, seu som auto nomeado "Power Surf Orchestra", nada mais é do que uma surf music pesada, tocada em volume alto e sem dó dos instrumentos, a parte 'orquestra' ficava por conta do trompete JC Moloncio, que deixou a banda no final de 2012, reduzindo o Mullet Monster Mafia a um trio. O EP gravado em Piracicaba/SP tem produção conjunta do MMM com Celso Rocha, destaque para as porradas "Sinister people secrets" e "Swamp", e para a balada "Freshwater". O projeto gráfico é simples, as informações vêm na contracapa do envelope que guarda o CD. No rodapé um frase chama a atenção, ela diz: "Pirataria se combate é na facada!!!".

O Mullet Monster Mafia fez muitos shows, incluindo uma turnê de dez shows pela Europa em 2011, também acompanhou muitas nomes internacionais em passagem pelo Brasil. A banda lançou um segundo EP em 2011, "Dogs of the seas". O blog Disco Furado conversou com o trio no SESC de Presidente Prudente no dia 23 de março de 2013, ocasião em que o MMM acompanhava a turnê do quinteto surf music Los Chamánicos, do Chile. No link abaixo você pode conferir o que houve nesta conversa.

segunda-feira, 14 de dezembro de 2015

Walter Franco - Revolver [1975]

Mega FLAC


Por Lívio Tragtemberg
publicado originalmente na Revista Bizz, Edição 33, de Abril de 1988*

"Apesar de tudo muito leve", cantava esse paulista de formação universitária, em plena época da barra-pesada. A sabedoria de Walter Franco está reunida no Revolver e no seu precursor, o enigmático "disco da mosca" , de 73, que tem as antológicas "Me Deixe Mudo" e "Cabeça" (defendida por ele, grande campeão de vaias, no último FIC da TV Globo). Os dois discos são fundamentais, mas foi Revolver que antecedeu e indicou direções mais atuais - ainda - para a música popular brasileira, graças ao tratamento mais "roqueiro" (arranjos eletrificados, uso de efeitos e outros recursos de estúdio) dado a suas composições. Como um trovador extraviado da geléia geral da Tropicália, ele cria miniaturas, paisagens sonoras independentes entre si, dando corpo a um trabalho extremamente rico na combinação de poesia e música (os arranjos ficaram a cargo do baixista Rodolpho Grani Jr.). 

No fundo, a concepção entre palavra e som na música de Walter Franco é indissolúvel e indivisível. Ele trabalha o ritmo da palavra, desdobrando-a com pausas curtas e respirações alongadas, criando novos sentidos a partir de frases breves, como na lancinante "Apesar de Tudo É Muito Leve". Walter já tinha evoluído muito além da letra colegial/adolescente, que marca o rock dos 80. "Nothing" é um exemplo da construção complexa que faz a partir de elementos extremamente simples: "Nothing to see/ Nothing to do/ Nothing today/ About me/ I am not happy now/ I am not sad". Junto com "Feito Gente"- ambas deste LP - e "Canalha" (de 79) forma o tríptico pré-punk anos antes do retardatário punk tupiniquim. 

A poesia de Walter evoluiu em duas direções: uma decorrente da influência da filosofia oriental e outra que aborda a agressividade urbana. Da primeira ele herdou a utilização da forma mântrica-circular da frase que retorna sobre si mesma, ou que se revela por etapas, palavra por palavra, como em "Mamãe D´Água" (o verso "Yara eu" vai sendo acrescido de palavras até formar "Yara eu te amo muito mas agora é tarde eu vou dormir") e no famoso hai-kai caleidoscópico de "Eternamente" ("Eternamente/É ter na mente/Éter na mente/Eterna mente/Eternamente"). Como se vê, novos significados vão surgindo a cada nova palavra que se desdobra a partir da inicial. É um procedimento em sintonia com a poesia moderna, em especial, pelos minimalistas americanos, como Gertrude Stein, e.e. cummings e, no teatro, Bob Wilson. 

Na concepção musical do LP, tentou-se esgotar as possibilidades de um estúdio de dezesseis canais, com utilização de play-backs em sentido contrário, saturação de freqüências e pré-mixagens. A complexidade do trabalho desenvolvido com a sonoridade da bateria - que além de usar filtros de freqüências, serve-se às vezes de outra bateria - levou a utilizar dois bateristas nos shows. A combinação dos instrumentos acústicos - principalmente os tambores e tumbadoras que reforçam o clima tribal/meditativo de algumas letras - com os teclados e guitarras sintetiza as boas influências da música contemporânea e do rock. 

Os últimos vinte anos de música no Brasil atestam que Revolver não perdeu sua atualidade. Continua pulsando de idéias, novas até para o ouvido da era digital. O percurso posterior de Walter Franco seguiu outras direções, principalmente o caminho das baladas meditativas. Mas de quem elaborou dois LPs de tamanha criatividade e inteligência, podem-se esperar sempre novas surpresas. Por enquanto, a Continental Discos bem que poderia relançar Revolver (ele já chegou a ser relançado em 79, mas é muito difícil encontrá-lo hoje nas lojas) e o "disco da mosca" (também conhecido como Ou Não) que está igualmente fora de catálogo e é outra pérola da música popular brasileira. 



A1. Feito Gente
(Walter Franco)
A2. Eternamente
(Walter Franco)
A3. Mamãe D´água
(Walter Franco)
A4. Partir do Alto / Animal Sentimental
(Walter Franco)
A5. 1 Pensamento
(Walter Franco)
A6. Toque Frágil
(Walter Franco)

B1. Nothing
(Walter Franco)
B2. Arte e Manha
(Walter Franco)
B3. Apesar de Tudo é Muito Leve
(Walter Franco)
B4. Cachorro Babucho
(Walter Franco/Chico Bezerra)
B5. Bumbo do Mundo
(Walter Franco)
B6. Pirâmides
(Walter Franco)
B7. Cena Maravilhosa
(Walter Franco/Cid Franco)
B8. Revolver
(Walter Franco)

sábado, 12 de dezembro de 2015

Belchior - Alucinação [1976]

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Por Allan Kardec Pereira em Tequila Radio

Filho de bodegueiro, sobrinho de boêmios. Antônio Carlos Gomes Belchior Fontenelle Fernandes, cearense de Sobral. Cantador de feira, poeta. Seminarista por um tempo, quando de lá saiu em 1965, veio conhecer a música dos Beatles, que desde 1962 já existiam. Teve influências visíveis em sua música da poética direta de um Dylan. Afastava-se dos concretos, “A minha alucinação é suportar o dia a dia/e o meu delírio é experiência com coisas reais”, diria o poeta/cantor em Alucinação. Alguns até aproximariam esse estilo direto de canções/poesia sujas de vida do estilo de Ferreira Gullar – uma vida quase palpável, diante da voz rouca e do tom de lamúria que anos depois os Mamonas Assassinas parodiariam em “Uma Arlinda Mulher”. Flertou com os Tropicalistas, quiçá mais no sentido de recepção da música estrangeira, sobretudo os já citados Beatles e Dylan. Há claras referências musicais aos dois, embora Belchior acompanhe suas canções essencialmente dos ritmos nordestinos e cearenses – sobretudo o brega, com letras extremamente particulares.

Alucinação, de 1976, é o segundo LP de Belchior, o primeiro a garantir sucesso de público e crítica ao jovem nordestino então chegado ao sul. É visível o tom de engajamento em prol da juventude, através da evidente dicotomia entre rebeldia e repressão. Lotado de referências as mais dispares possíveis- muitas delas através de um posicionamento irônico do cantor (à algumas letras de Caetano) -, tais como Drummond Allan Poe, Manuel Bandeira; os baianos Gil e Caetano; suas influências estrangeiras, Dylan, Lennon e McCartney, além de Kubrick em referência a Laranja Mecânica.

Letras um tanto longas, declamadas com a alma em Apenas um rapaz latino-americano, canção que versa sobre a vida do próprio cantor em sua chegada a cidade grande. Talvez nos versos: “Mas não se preocupe meu amigo/Com os horrores que eu lhe digo/Isso é somente uma canção/A vida realmente é diferente/Quer dizer!/A vida é muito pior”. resida um pessimismo realista diferente do que, por exemplo gritava Caetano em “Alegria, Alegria”. Explicitado ainda mais na faixa “Fotografia 3×4″, onde os versos: “Veloso o sol não é tao bonito pra quem vem do norte e vai viver na rua…”.

“Como o diabo gosta”, “Velha Roupa Colorida” e “Como nossos pais” trabalham com essa idéia de rebeldia e leva a esperança – sempre presente, é verdade, ainda que por trás de todas as dificuldades – para um nova possibilidade de juventude. Há também falas sobre amor, amizade (“Para abraçar meu irmão e beijar minha menina na rua /é que se fez o meu lábio, o meu braço e a minha voz, em“Como nossos pais”), bem como encanto e desencanto advindo dos estranhamentos da migração nordestina para o eixo Rio-São Paulo (“Em cada esquina que eu passava / um guarda me parava / pedia os meus documentos e depois sorria /examinando o 3×4 da fotografia / e estranhando o nome do lugar de onde eu vinha”, em “Fotografia 3×4”);(“Vou ficar nesta cidade / não vou voltar pro sertão / pois vejo vir vindo no vento / o cheiro da nova estação, em “Como nossos pais”).

Para além do rock esperançoso de “Sujeito de Sorte”, prevalece em Alucinação um desencanto poético calcado em uma profunda análise de si por parte daquele que canta. Exemplificada na grande canção (na minha opinião, a mais brilhante de Belchior) “A Palo Seco”.

“E eu quero é que esse canto torto,
feito faca, corte a carne de vocês.” 



A1 - Apenas Um Rapaz Latino Americano
A2 - Velha Roupa Colorida
A3 - Como Nossos Pais
A4 - Sujeito de Sorte
A5 - Como o Diabo Gosta

B1 - Alucinação
B2 - Não Leve Flores
B3 - A Palo Seco
B4 - Fotografia 3×4
B5 - Antes do Fim

segunda-feira, 7 de dezembro de 2015

Eloy Fritsch - Landscapes [2005]

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Por Rodrigo Werneck no Whiplash

Um movimento quase que totalmente underground hoje em dia, em especial no Brasil, o rock progressivo dá no entanto mostras freqüêntes de sobrevivência, algo que só ocorre com estilos musicais onde há consistência, e que privilegiam a criatividade e a busca por novos horizontes sonoros. Este é o caso da banda gaúcha Apocalypse, e em específico do tecladista Eloy Fritsch, cujo mais recente disco solo acaba de ser lançado.

Em paralelo à sua carreira como tecladista e líder do Apocalypse, Eloy Fritsch desenvolve uma carreira solo mais voltada à música eletrônica e ao new age. Este “Landscape” é na verdade o seu sétimo disco solo, sendo que um oitavo já chegou às lojas, a coletânea “Past and Future Sounds 1996-2006”. Entretanto, “Landscape” é o disco mais rock de Fritsch, e não nega as grandes influências de Rick Wakeman (Yes, Strawbs, David Bowie, solo), entre outras. Embora tenha sido gravado em 2003 e oficialmente saído em 2005, somente agora este disco chega às prateleiras, em virtude das dificuldades de se lançar CDs hoje em dia (problema agravado no caso de artistas de rock progressivo). Difícil de entender? Mais difícil ainda é compreender porque trabalhos tão cuidadosos, rebuscados e de bom gosto ficam restritos a um nicho deveras reduzido do mercado musical.

O disco foi inteiramente composto, arranjado, gravado e mixado por Eloy, que usou seu estúdio caseiro para tal, e o resultado é simplesmente ótimo. Alguns discos solo de tecladistas são um tanto quanto enfadonhos, sem “pegada”, mas este não é o caso aqui. Eloy soube dosar de forma equânime a participação de todos os “instrumentos”. Todas as baterias e percussões foram simuladas por seus sintetizadores, e felizmente os timbres obtidos foram muito bons. Há viradas de bateria, mudanças de andamento, ou seja, o disco em momento algum fica monótono. Há até – pasmem – solos de baixo bastante convincentes, nas faixas “Teleportation” e “Run Through The Light”, bem como sonoridades de fretless em “Oasis”.

Os principais teclados usados por Eloy no CD foram um digital, o Korg Triton Classic, e um analógico (e antológico), o Minimoog (especificamente um construído há 35 anos atrás, em 1973!). Com eles, consegue a proeza de tocar de tudo um pouco: piano, dezenas de sons de diferentes teclados, guitarras, baixos, percussões. Enfim, uma pequena “orquestra de bolso”.

Voltando às influências, algumas composições lembram bastante as do tecladista grego Vangelis Papathanassiou, como “Andromeda”, “Somewhere In Time” e “Top of The World”. Ecos de Tangerine Dream e Larry Fast e o seu Synergy podem também ser encontrados. Ou seja, nada mais nada menos que o “crème de la crème” da música eletrônica. Isso não quer dizer, porém, que o disco seja uma mera cópia dos citados artistas, pois as composições, arranjos e a performance são de um nível altíssimo.

O disco agrada tanto a ouvintes “leigos” quanto a tecladistas, já que uma verdadeira aula na escolha de sons nos é proporcionada por Fritsch. “Science Fiction” apresenta aqueles tradicionais timbres espaciais e misteriosos de um Theremin, aqui simulados com perfeição pelo teclado Triton. Sons de “clavinet” podem ser ouvidos em “Run Through The Light”, adicionando um bem-vindo e contagiante “groove”. Já em “Escape”, temos uma levada de guitarra distorcida bem convincente (tirada mais uma vez nos teclados) junto a uma batida à la “Another Brick In The Wall” (Pink Floyd), sobre o que o Minimoog sola majestoso.

A arte gráfica inclui ilustrações de Alexandre Bandeira, calcadas nas pinturas etéreas de Roger Dean, em mais uma velada referência a Rick Wakeman, incluindo peixes voadores, rochas flutuantes, e seres mitológicos. Talvez um pouco batidas, mas mesmo assim condizentes com o espírito e o tema central do álbum (“landscapes” significando as “paisagens sonoras” nesse caso).

Resumindo, um ótimo lançamento que chega a ser surpreendente. A qualidade do trabalho de Eloy Fritsch é conhecida no meio, e mais reconhecida lá fora do que aqui. Mas, sem ser pretensioso e não almejar vôos mais altos (comercialmente falando), o trabalho assim mesmo alcança altas pradarias sonoras. Altamente recomendável!


1. Landscapes
2. Teleportation
3. Andromeda
4. Science Fiction
5. Somewhere In Time
6. Cartoon
7. Run Throught The Light
8. Oasis
9. Escape
10. Imaginary Voyage
11. Top of The World
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