sábado, 28 de setembro de 2013

Gal Gosta - Fa - Tal - [1971]


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Por Jeocaz Lee-Meddi


FA-TAL - GAL A TODO VAPOR: O ÁLBUM DA GERAÇÃO DO DESBUNDE


Há momentos sublimes da criação do artista, cujo carisma é assimilado por uma legião de pessoas em busca de uma definição de ideais, sonhos ou apenas identificação na essência mais primária da composição do retrato humano. Quando esse momento acontece em uma determinada obra do artista, esta lhe é arrebatada (quase usurpada) e feita voz, ícone e representação. Assim aconteceu com “Os Sofrimentos do Jovem Werther”, de Joahnn Wolfgang van Goethe em 1774, livro símbolo de uma geração de jovens na Europa do romantismo, que fizeram dos sofrimentos e da forma de estar na vida do jovem Werther, o modelo a ser seguido.

No Brasil da fase pós-AI-5, promulgado em 13 de dezembro de 1968, o endurecimento da ditadura deixou uma geração calada e sem rumo. Uma geração que passou pelos suspiros das contestações de 1968, pelo psicodelismo embriagante do roque do fim dessa década, pelas drogas, a Tropicália, o movimento Flower Power e pelo histórico espetáculo de Woodstock; essa mesma geração chega ao início da década de setenta mergulhada em um vazio e em uma lacuna deixada pelo silêncio de quem pensava e via as palavras caladas pela força bruta.

Essa geração sem heróis ou ídolos para exaltar e refletir o espelho de Narciso, encontra-se em 1971 com Gal Costa, que com a sua voz de sereia, estreava o show que seria o símbolo dessa geração: “Gal a Todo Vapor”. Nessa simbiose entre artista e público, a geração que ficaria para sempre conhecida como a do desbunde, faz do show um momento de fuga e sonho, de poder dizer não às convenções de uma sociedade de um país calado pela repressão, mas mutante em seus costumes. O show estréia em novembro de 1971 no Teatro Tereza Raquel, no Rio de Janeiro, dirigido por Waly Salomão. Com ele a geração do desbunde elege a sua musa, Gal Costa. O espetáculo torna-se obrigatório durante todo o verão de 1972.

Do show surge o álbum duplo “Fa-tal: Gal a Todo Vapor”. O disco, assim como "Werther" de Goethe, é arrebatado da cantora para se tornar o hino cultural da geração do desbunde.

Geração Desbunde

A moda à época do show “Gal a Todo Vapor” é a dos cabelos compridos. Aquela geração de cabeludos órfãos da Tropicália e de Woodstock torna-se a Geração do Desbunde. O termo desbunde foi denominado pela esquerda radical. Era tido como um movimento individualista e sem propósito ideológico. Seus participantes eram vistos como politicamente alienados e alienantes. Seguiam a cultura underground sugerida pelo tropicalismo e pelo movimento hippie. A cultura vista como marginal e de ruptura estética. É a contracultura.

A contracultura surgiu com a publicação do poema “Howl”, de Allen Ginsberg (1956). Ginsberg foi o representante máximo do que ficou conhecido como a beat generation. Os beats foram os precursores ideológicos dos hippies, que surgiram nos anos sessenta. Os dois movimentos incitavam à filosofia do Drop Out: não lutar por mudanças no sistema, mas sim debandar (desbundar) e “curtir a vida” como lhes apetecesse, longe de princípios a ser seguidos, indiferentes às críticas e aos preconceitos dos “caretas”. A palavra de ordem era "não ser careta".

A geração de poesia marginal ou geração desbunde da década de 70, surge no eixo Rio-São Paulo. É um movimento de artistas (escritores, cineastas, cantores, pintores) independentes, que não possuem plataforma estética explícita, o que lhes tira o caráter histórico de movimento. No movimento modernista era comum a exaltação dos símbolos nacionais. No desbunde a exaltação é o homem e o seu existencialismo angustiado, a sexualidade rompe com os tabus. É a importação dos moldes americanos com o existencialismo europeu de Jean-Paul Sartre.

Glauber Rocha, dizia sobre as juventudes do desbunde e a juventude armada do final da década de sessenta: "a luta da granada contra o rock".

O desbunde trava o discurso do corpo, a festa, a droga. Procura novas formas de percepção, vocifera uma liberdade existencial convulsiva e prazerosa. Traz no underground a contestação.

No Rio de Janeiro, essa geração freqüentava no início da década de setenta o Píer, local que se tornou moda, criado por causa de um Emissário Submarino e ficava entre as Ruas Farme de Amoedo e Teixeira de Melo. Proporcionou boas ondas no mar e sensação nas areias de Ipanema. Ali nasceram as dunas do barato, ou dunas da Gal, local predileto da cantora. O ambiente descontraído reunia surfistas, artistas, hippies e intelectuais.

Fa-tal – Gal a Todo Vapor: o Disco

“Fa-tal – Gal a Todo Vapor” foi lançado pela Philips antes do natal de 1971. Primeiro álbum duplo da carreira de Gal Costa, traz dezenove faixas e dezessete canções, que foram imortalizadas no show. Na
capa é destacada a boca vermelha da cantora ao microfone, que a partir de então, seria símbolo e ícone da sua carreira, juntamente com os cabelos. Quando lançado em CD teve as disposições das músicas alteradas em relação ao LP e até a capa veio adulterada. Na versão do CD, é respeitada o início do show, com Gal Costa, intimista, ao violão. No LP, o disco inicia na segunda parte, com a cantora e a banda no palco.

Como completa tradução de uma geração calada e perdida em suas próprias dúvidas, é um disco de canções existencialistas e de sentimentos rasgados à flor da pele. Grandes nomes da MPB identificados à época como representantes do underground, assinam as faixas.

“Dê Um Rolê” (Galvão – Moraes Moreira) inicia o canto que arrebatará a geração dos cabeludos. Vinda de músicos da banda Novos Baianos, é um rompimento de quem traduz no amor os anseios de uma vida, maior do que a força do dinheiro. Ser “amor da cabeça aos pés” é ser maior do que o modelo da sociedade capitalista tão bem representada pelo “milagre brasileiro”, então no seu auge.

Mas se “Dê Um Rolê” é superior ao momento vivido, “Mal Secreto” (Jards Macalé – Waly Salomão) é a própria sombra dilacerante da força bruta que cala um país, uma juventude. Visceral, inquietante, protesto sufocado e silêncio diluído nos medos, mascarar e massacrar a dor, uma realidade social ou do amor.

“Pérola Negra” (Luiz Melodia) é a ousadia da nova forma de amar que a década trazia, “tente saber tudo mais sobre o sexo”, porque já se pode falar sobre sexo, estamos diante da geração que no final da década de sessenta descobrira o amor livre, que descobriu ser possível levá-lo para dentro dos brandos costumes da sociedade. Gal Costa quase que grita com o seu canto, esse momento tão arrancado de dentro de quem vivia a fase de transição da mudança de tais costumes. A música cresce, a voz da cantora é aqui guerreira, mostrando porque aquela geração a havia escolhido para musa. Quem ousava na época cantar a relação rasgando a camisa e as roupas? Com esta canção um novo compositor fica conhecido no cenário musical brasileiro, Luiz Melodia. Gal Costa revisitaria “Pérola Negra” na comemoração dos seus trinta anos de carreira, no álbum “Acústico MTV”, em 1997, em dueto com o compositor da música.

Duas faixas do “Legal” (1970), álbum anterior, são registradas aqui: “Hotel das Estrelas” (Duda – Jards Macalé) e “Falsa Baiana” (Geraldo Pereira). A primeira é uma canção que descreve a juventude que vê amigos mortos pela ditadura e pela droga. A juventude que se sente tolhida e ameaçada. Nem a ditadura nem a droga oferecem saídas, mas a segunda alivia um pouco mais os tormentos. É a solidão dos anos vista pela janela e pela distância:

“Dessa janela sozinha
Olhar a cidade me acalma
Estrela vulgar a vagar
Rio e também posso chorar
Oh, e também posso chorar...”

A segunda, música de 1944, leva uma roupagem estilo bossa nova que se perpetuou ao repertório de Gal Costa, uma verdadeira baiana. Teria uma terceira versão no "Acústico MTV".

Um momento intimista do disco, quebrando um pouco o seu canto instigante, acontece com “Assum Preto” (Humberto Teixeira – Luiz Gonzaga). Aqui Gal Costa usa a sua voz de sereia como arma da mais profunda beleza e tristeza, como os olhos da ave cegada para cantar melhor. Como a cantora se sentia com o exílio dos amigos da Tropicália. A interpretação comove. O disco segue na linha da saudade e da homenagem aos amigos: “Bota a Mão nas Cadeiras” (Folclore Baiano), homenagem à Maria Bethânia, que cantava a canção em seu show ”Rosa dos Ventos”. “Maria Bethânia” (Caetano Veloso) reflete a homenagem à cantora homônima. “Não se Esqueça de Mim (Chuva, Suor e Cerveja)” (Caetano Veloso) é uma lembrança aos amigos Caetano e Gil, que estão do outro lado do Atlântico, em Londres.

“Como Dois e Dois” (Caetano Veloso) aparece em duas faixas. A canção foi gravada naquele ano por Roberto Carlos, tornando-se sucesso de público na interpretação do cantor. O registro de Gal Costa é mais intimista, apesar de aparecer duas vezes no álbum, não marca o seu repertório e nem se torna uma interpretação essencial. E como o tempo é de sofrimento existencialista, “tudo vai mal” ou tudo está perfeito “como dois e dois são cinco”, Caetano Veloso fizera a música no auge do seu exílio na Europa.

Ainda percorrendo o universo intimista do álbum, esbarramos com a canção “Fruta Gogóia” (Folclore Baiano), que “Como Dois e Dois”, também aparece em duas faixas. Recuperada do vasto folclore da eterna magia baiana, “Fruta Gogóia” é daquelas canções que por algum motivo se prendeu para sempre ao mundo musical de Gal Costa, não se separando mais. A canção volta a ser incluída no álbum “Gal Costa ao Vivo”, de 2006. E cumprido a promessa, samba que Gal Costa ensaiar o mestre não olha.

Na calma momentânea do álbum passamos rapidamente por “Charles Anjo 45” (Jorge Ben), outra alusão ao amigo Caetano Veloso.

Na sua visita de homenagens à saudade, traz de volta “Coração Vagabundo” (Caetano Veloso), primeiro quase sucesso de sua carreira em 1967, do álbum de estréia “Domingo”. E alguns anos depois, o coração não se cansava em tempos difíceis, de ter esperança de um dia ser tudo.

Desfilando pela MPB, Gal Costa recupera uma antiga canção, “Antonico” (Ismael Silva), que até então já ninguém mais se lembrava, depois desse registro, ninguém mais se esqueceu. “Antonico” tornou-se uma canção cultuada pelos críticos e fãs da cantora. Em algumas fases da recente história brasileira, a canção foi assimilada no cotidiano brasileiro com o nepotismo e com a política de favores. Assim como “Fruta Gogóia”, também voltaria a ser regravada no álbum “Gal Costa ao Vivo”.

O auge do intimismo do álbum é alcançado com “Sua Estupidez” (Erasmo Carlos – Roberto Carlos), uma das interpretações mais definitivas da carreira da cantora. A canção tinha sido lançada por ela em um compacto simples no início de 1971. A melodia, a poesia da letra, a melancolia saudosista e a sua beleza ímpar, tudo cai com perfeição à voz da cantora. “Sua Estupidez” consegue algo raro, ser diferente e lírica em todas os registros que há na interpretação de Gal Costa. Além das duas versões de 1971, ao vivo e em estúdio, ela reaparece em 1997 no “Acústico MTV” e no dueto com Roberto Carlos em seu tradicional programa de fim de ano na Rede Globo; em 2006 numa participação especial no álbum de Wagner Tiso, “Wagner Tiso 60 Anos – Um Som Imaginário”. Nos cinco registros Gal Costa emociona nas interpretações desta canção.

Após as canções intimistas, voltamos à essência do álbum com “Luz do Sol” (Waly Salomão – Carlos Pinto). Novamente o protesto implícito da geração sufocada pelo medo e pelos perigos do regime. Aqui já não se grita que tudo é perigoso, ou divino maravilhoso, os tempos são outros. Tempo de silêncio e tortura, de sobrevivência. E quem sobrevive só pensa em ver a luz do sol brilhar novamente nas trevas dos tempos e da história do Brasil.

Mas é “Vapor Barato” (Jards Macalé – Waly Salomão) a canção que se irá tornar o hino oficial da Geração do Desbunde. A canção tinha sido lançada em compacto no início de 1971, em uma versão rock, totalmente diferente da versão ao vivo. A canção reflete essa juventude intelectualmente consciente do momento vivido, mas presa às limitações do regime e da droga. É na contestação da sexualidade imposta e do amor livre proposto que extravasam essas limitações. Os amores são fugazes, por isso vividos intensamente. Seguir à deriva dos sentimentos, partir sem olhar para trás em um navio ou outro veículo qualquer, sem as imposições do dinheiro, aqui novamente desprezado em relação aos sentimentos, visceralmente vividos.

"Oh, sim, eu estou tão cansado
Mas não pra dizer
Que eu não acredito mais em você
Com minhas calças vermelhas
Meu casaco de general
Cheio de anéis
Vou descendo por todas as ruas
E vou tomar aquele velho navio"

E “Fa-tal – Gal a Todo Vapor”, termina como começou, após um grande role, imerso no vapor barato em fuga, encerrando um dos mais emblemáticos e belos álbuns da MPB. O álbum é poesia underground, é marginal, de um existencialismo convulsivo. Fez parte de um movimento cultural que tomou o canto de Gal Costa como hino. Ver o show Gal a Todo Vapor e ouvir o disco era sinônimo de não ser careta, de pertencer a esse movimento.


Ficha Técnica:

Fa-tal - Gal a Todo Vapor
Philips
1971

Direção geral: Waly Salomão
Direção de produção e estúdio: Roberto Menescal
Técnico de gravação: Jorge Karan (gravação ao vivo)
Assistente de produção: Paulo Lima
Arranjos: Lanny
Capa: Luciano Figueiredo e Oscar Ramos
Fotos: Edison Santos e Ivan Cardoso

Músicos Participantes:

Direção musical e guitarra: Lanny
Baixo: Novelli
Bateria: Jorginho
Tumba: Baixinho

"Fa-tal": título extraído do poema homônimo, incluído no livro "Me Segura Que Eu Vou Dar Um Troço" de Waly Salomão

Faixas:

Versão do LP:

Disco 1

Lado 1
1 Dê um role (Moraes Moreira - Galvão), 2 Pérola negra (Luiz Melodia), 3 Mal secreto (Jards Macalé - Waly Salomão), 4 Como dois e dois (Caetano Veloso)

Lado 2
1 Hotel das estrelas (Jards Macalé - Duda), 2 Assum preto (Humberto Teixeira - Luiz Gonzaga), 3 Bota a mão nas cadeiras (Folclore Baiano), 4 Maria Bethânia (Caetano Veloso), 5 Não se esqueça de mim (Chuva suor e cerveja) (Caetano Veloso), 6 Luz do sol (Waly Salomão - Carlos Pinto)

Disco 2

Lado 1
1 Fruta gogóia (Folclore Baiano), 2 Charles anjo 45 (Jorge Ben), 3 Como dois e dois (Caetano Veloso), 4 Coração vabundo (Caetano Veloso), 5 Falsa baiana (Geraldo Pereira), 6 Antonico (Ismael Silva)

Lado 2
1 Sua estupidez (Erasmo Carlos - Roberto Carlos), 2 Fruta gogóia (Folclore Baiano), 3 Vapor barato (Jards Macalé - Waly Salomão)

quinta-feira, 26 de setembro de 2013

Eloy Fritsch - Exogenesis [2012]

 
Por Anderson Nascimento
publicado em 28 de agosto de 2012 no Galeria Musical

Em seu décimo álbum solo, Eloy Fritsh, conhecido músico que também faz parte da clássica banda de Rock Progressivo “Apocalype”, traz trezes novas faixas gravadas em seu estúdio caseiro entre 2011 e 2012, com a força de instrumentos eletrônicos e sintetizadores.

Com arte criada por Maciej Rebisz e MIrek Drozd, artistas europeus especializados em ilustrações de ficção científica, que remetem à criação do cosmos, e a viagem por esses confins, a jornada instrumental inicia com a bela canção “Gaia” que, apesar de ser a primeira estação da viagem, já traz tons épicos.

O disco é recheado de momentos que lembram canções de otimismo, que poderiam muito fazer parte de trilhas de grandes eventos esportivos, por exemplo. Esse é o caso de “Neutron Star”, belíssima faixa inspirada em filmes Sci-fi, que chega aos seis minutos de duração, te envolvendo e empolgando ao longo de toda a sua execução.

Já “Sunshine” tem elementos que remetem ao fim dos anos setenta e início dos anos oitenta, quando os sintetizadores dominavam boa parte dos territórios que haviam sido recentemente explorados pelo Rock Progressivo e pelo Punk.

A saga continua na faixa que dá nome ao disco. “Exogenenis” é inspirada na criação do universo, e na possibilidade de existir vida fora da Terra. Dividida em quatro partes, onde cada uma delas apresenta um movimento distinto, mas que pode ser dividida em momentos mais progressivos (primeira e terceira parte), e mais eletrônicos (segunda e quarta parte).

“Mayan Temple” é carregada de sensações, que chegam a criar um possível cenário ao longo da faixa, urdida com sons de pássaros e gongo, que parece anunciar a chegada de algo ou, quem sabe, alguém.

Entre a beleza de faixas como “Far Above The Clouds”, a Space Music de “Moonwalk”, que chega até a ser um pouco Pop, a tensa “The Ice Sea of Enceladus”, a esperançosa “New Dawn”, e a reflexiva “The Immensity of The Cosmic Ocean”, o disco atravessa nuances distintas, carregando de emoção e sentimentos ao ouvinte que busca sensações que vão além da canção.

Assim é o trabalho de Eloy, músico conceituado, detentor de importantes prêmios, mas que apesar de toda essa experiência, continua cultivando de grande inquietação artística, transformando em músicas suas aspirações e seu incrível talento para tocar e para compor.


Veja também:

Meu Nome Não é Jhonny [2008]

 


Por Catia Dechen 
publicado em 28de fevereiro de 2008 no Território da Música

A trilha sonora de “Meu Nome não é Johnny” é fiel. Ao escutá-la, é possível rever o filme mentalmente. Até mesmo a canção “Outra Vez” entrou na trilha com a voz de Selton Mello, da mesma forma interpretada no filme. Além disso, o próprio João Estrella, personagem principal do filme, apresenta sua composição “Para Onde se Vai”.

Na tela, uma das festas patrocinadas por João Estrella teve como fundo musical “It’s a Long Way”, de Olivia Broadfield. A música “deprê” interagiu perfeitamente com as cenas que mostram um bando de jovens alucinados, viajando pelos caminho tortuosos da cocaína.

A história de João Estrella se passa no Rio de Janeiro dos anos 80, época marcante para a música e de grandes transformações culturais. Dessa forma, não poderiam faltar as grandes referências como Titãs e Lobão.

Entre músicas incidentais e grandes ‘hits’, a história de João Estrella é contada com harmonia no pop nacional e internacional.

A trilha nos leva por uma deliciosa viagem, passando pela urbanidade de Sá, Rodrix & Guarabyra, pelo pop de David Bowie, além de new wave, rock’n roll e até o romantismo de Roberto Carlos. Enfim, toda a rica diversidade característica dos anos 80, além das composições do produtor Fabio Mondego.

Vale a pena ver e ouvir “Meu Nome não é Johnny”. 

quarta-feira, 25 de setembro de 2013

Colírios, isqueiros e inspiração

Colírios, isqueiros e inspiração

A edição número 126 da Revista Fórum traz um amplo dossiê sobre a questão das drogas no Brasil, no qual apresenta matérias que tratam da importância de se discutir este tema, a descriminalização e a legalização, o tratamento da dependência química e o impacto do tráfico de drogas no sistema penitenciário brasileiro. Entretanto, a questão das drogas também está presente em manifestações culturais no país, em especial na música.

A matéria “Colírios, isqueiros e inspiração”, escrita por Pedro Alexandre Sanches , traça um amplo panorama de como a música brasileira abordou a temática das drogas desde 1950, com o samba “Chico Brito”, do carioca Wilson Batista, até atualmente com o funk “Cadê o Isqueiro”, do também carioca Mr. Catra.

Você pode encontrar a edição 126 da Revista Fórum nas bancas de jornais e agora também em todas as lojas da Livraria Cultura.

Leia abaixo a matéria sobre como a temática das drogas foi abordada na música brasileira (Obs: Você pode conhecer individualmente cada música citada na matéria clicando nos links, ou então conferir o playlist que a Fórum preparou com todas as músicas no final da matéria)

 
Colírios, isqueiros e inspiração
A temática das drogas, de forma cifrada ou explícita, faz parte de letras e canções brasileiras há décadas. Relembre algumas das obras dessa longa história

Por Pedro Alexandre Sanches
publicado em 21 de setembro de 2013 na Revista Fórum


A canção “Chico Brito”, composta por Wilson Baptista e celebrizada na voz de Dircinha Batista (na foto junto com a irmã, Linda), foi regravada por Paulinho da Viola
na década de 1970

Lá vem Chico Brito descendo o morro na mão do Peçanha/ é mais um processo, é mais uma façanha/ o Chico Brito fez do baralho seu melhor esporte/ é valente no morro/ e dizem que fuma uma erva do norte.” Em 1950, a paulista classe média Dircinha Baptista cantava o samba “Chico Brito”, do carioca do morro Wilson Baptista, ousando uma rara menção explícita da música brasileira a uma droga provavelmente ilegal, provavelmente maconha.

Chico Brito era “muito estimado” na favela, mas se encarregava de reproduzir, em confusa primeira pessoa, uma antiga lição de moral: “‘A vida tem seus reveses’/dizia Chico, defendendo teses/ ‘se o homem nasceu bom/ e bom não se conservou/ a culpa é da sociedade que o transformou’.” O indivíduo parecia se confessar passivamente “culpado”, ao mesmo tempo em que brincava (e isso lá é brincadeira?) de atirar a dita “culpa” daquilo que o envergonhava no outro, no próximo, no vizinho, na sociedade, no amorfo.

A canção dos Baptista que não eram parentes voltaria à baila em 1979, na voz de um dos artistas brasileiros mais bem-comportados (ao menos publicamente), o carioca Paulinho da Viola. Separadas pelo intervalo de 29 anos, as duas menções à “erva do norte” são soluços que confirmam um oceano de interdições – entre Dircinha e Paulinho, o tabu continuou governando a MPB, ainda mais a partir do advento de mais uma ditadura civil- militar no País. Embora a intoxicação tenha sido sempre um combustível da criação musical, continuou praticamente impossível citar o tema sem subterfúgios.

É óbvio que não iriam ser os generais-presidentes a liberalizar os costumes e permitir que a maconha (menos ainda outras drogas) soprasse solta pela boca da juventude. O rock em versão tropical e a jovem guarda passaram praticamente batidos pela questão – ou não, se considerarmos “É proibido fumar” (1964), de Roberto Carlos, como uma guimba largada à beira do caminho: “É proibido fumar/ diz o aviso que eu li/ é proibido fumar/ pois o fogo pode pegar/ mas nem adianta o aviso olhar/ pois a brasa que agora eu vou mandar/ nem bombeiro pode apagar.”

Por paradoxal que pareça (e seja), o AI-5, de 13 de dezembro de 1968, expulsou artistas mais, digamos, exaltados do Brasil, mas deixou atrás de si um rastilho de distensão simbólica, que daria origem ao hoje tão famoso confronto de bastidores brasilienses entre compositores “subversivos” e censores ultraconservadores.

Um marco de ruptura, aí, se daria na tropicália paulista dos Mutantes, que inscreveram num festival da canção de 1969 um rock viajandão chamado “Ando meio desligado”: “Ando meio desligado/ eu nem sinto meus pés no chão/ olho e não vejo nada/ eu só penso se você me quer.” Repressão à solta, começaríamos a tentar falar dos temas proibidos pela linguagem da brecha, da fresta, da grinfa, da bagana, do baurets.

Os ex-jovem-guardistas (negros) cariocas Golden Boys pegaram a senha dos roqueiros paulistas branquelos e soltaram o “Fumacê” num samba-rock baforado no ano terrivelmente acista e repressivo de 1970: “Ê, ê, ê, fumacê/ ah, ah, ah, fumaçá/ fumaceira tá saindo do lado de lá/ tem alguém queimando coisa/ tá botando pra quebrar.”

O samba-soulman pernambucano (negro) Paulo Diniz testou no mesmo ano o torpor movido a contracultura, em “Ponha um arco-íris na sua moringa”: “Ponha um arco-íris na sua moringa/ fique lelé da cuca num dia de sol/ praia de Ipanema, Simonal sorrindo/ (…) é lúcido, é válido, inserido no contexto”.

O soulman carioca (negro) Tim Maia entrou na onda viajandona via “Chocolate” (1971) e “Cristina” (1970). “Eu só quero chocolate/ não adianta vir com guaraná pra mim/ é chocolate o que eu quero beber/ não quero chá, não quero café, não quero Coca-Cola, me liguei no chocolate”, dizia o primeiro funk, mais inocente impossível. A semente da dúvida seria plantada em 1989, quando a carioca Marisa Monte regravou “Chocolate” inserindo nela alguns cacos, como “não quero pó, não quero rapé, não quero cocaína, me liguei no chocolate” e, ao final, um providencial “é proibido fumar”. Será? “Legalize marijuana”, explicitava Marisa em outro caco, seis anos antes do discurso sem subterfúgio do Planet Hemp – mas vamos com calma.

A outra deixa de Tim, “Cristina”, era ainda mais inocente (ou cifrada): “Vou-me embora agora pra longe/ meu caminho é ida sem volta/ uma estrela amiga me guia/ minha asa presa se solta/ eu vou ver Cristina.” Onde estaria a referência às drogas nesse romantic baião-soul? Reza a lenda que dizer “vou ver Cristina” era eufemismo da turma de Tim para dizer “vou fumar maconha”. Os consumidores de “Cristina”, a canção, ficavam (será?) por fora. Era tempo de brincar (brincar?) de esconde-esconde.

A MPB “desbundada”

Vinte e um anos depois de “Chico Brito”, o carioca Jards Macalé e o baiano Waly Salomão subiam os morros no Rio e traziam na descida “Vapor barato” (1971), tristíssimo hino contracultural divulgado pela baiana Gal Costa na ausência dos parceiros tropicalistas Gilberto Gil e Caetano Veloso. O que seria um “vapor barato”? Um “velho navio” a vapor? O vapor que escapa do cigarro de maconha? Vapor, o menino do morro utilizado como intermediário em tráficos leves e pesados? As dunas da Gal evaporavam na dúvida, enquanto os “rebeldes” que não aderiam à “guerrilha” ou ao “terrorismo” derivavam para o “desbunde”. O eufemismo, aqui, seria o da fuga da “vida real” por vias químicas.

Outro marco do mesmo momento Fatal de Gal é “Dê um rolê” (1971), dos Novos Baianos: “Não se assuste, pessoa,/ se eu lhe disser que a vida é boa/ enquanto eles se batem, dê um rolê”. “Dar um rolê” seria, para os Novos Baianos, senha escamoteadora de outra prática. Os Novos Baianos, pilhados, ao que reza outra lenda, pelo conterrâneo bossa-novista João Gilberto, desbundaram geral no álbum Acabou chorare (1972), e em especial na faixa “A menina dança”, dominada por uma Baby Consuelo de pupilas dilatadas: “Quando cheguei, tudo, tudo, tudo estava virado/ apenas viro, me viro, mas eu mesma viro os olhinhos/ […] no canto, no cisco, no canto do olho, a menina dança/ dentro da menina/ a menina dança/ e se você fecha o olho a menina ainda dança”.



A MPB “desbundada” seria transbordante em referências tácitas (que hoje soam comovedoramente diretas) ao uso das drogas, a começar por “Maria Joana”, assinada, acredite, pelo capixaba Roberto Carlos em dupla com o carioca Erasmo Carlos – e lançada pelo segundo sob arranjo alucinógeno forrado de sapinhos coachantes: “Só ela me traz beleza nesse mundo de incerteza/ quero fugir mas não posso/ esse mundo inteirinho é só nosso/ eu quero Maria Joana”. Erasmo (e Roberto) queria(m) Maria Joana, a menina, ou marijuana, a erva? “Eu vejo a imagem da lua/ refletida na poça da rua/ e penso na minha janela/ eu estou bem mais alto que ela.”

Para audição de pouquíssimos, o futuro “maldito” paulista Walter Franco seguia a pista dos Mutantes em “Tire os pés do chão” (1971): “Tire os pés do chão/ vamos flutuar/ longe da razão/ sem pressa pra voltar.” Em 1975, ele seria mais cirúrgico na concretista “Eternamente”: “Eternamente/ é ter na mente/ éter na mente.”

Gilberto Gil voltou motorizado do exílio, dando bandeira em “Expresso 2222” (1972), “Barato total” (1974, cantada por Gal) e na chapadíssima “Abra o olho” (1974): “Ele disse ‘abra o olho’/ caiu aquela gota de colírio/ eu vi o espelho/ ele disse ‘abra o olho’/ eu perguntei como é que andava o mundo/ ele disse ‘abra o olho’/ o telefone tocou/ soando como um grilo de verdade/ eu ouvi o grilo/ o grilo cantando/ tava eu no mato de novo/ no mato sem cachorro/ eu pensei ‘tá direito’/ que eu nunca tive cachorro ao meu lado/ ele disse ‘abra o olho’/ eu disse ‘aberto’, aí vi tudo longe/ ele disse ‘perto’/ eu disse ‘está certo’/ ele disse ‘está tudinho errado’/ eu falei ‘tá direito’/ tudo numa gota de colírio/ ele disse ‘é delírio’/ navegar nas águas de um espelho/ ‘nego, abra o olho’”.

O colírio virou vedete, também em “Como vovó já dizia” (1974), do baiano da pá virada Raul Seixas: “Quem não tem colírio usa óculos escuros”. O ano de 1974 marcaria o desbunde do desbunde, movido às mais variadas drogas, das químicas às religiosas. O ex-mutante Arnaldo Baptista ficou “lóki”, “numa boa, pescando pessoas no mar”. A ex-mutante Rita Lee foi para o pasto procurer cogumelos de zebu. Raul se integrou à Sociedade Alternativa. Tim Maia entrou no Universo em Desencanto. Jorge Ben se convenceu de que os alquimistas estavam chegando. Roberto Carlos se aprofundou na picada aberta, em 1970, pelo “Jesus Cristo, Jesus Cristo, Jesus Cristo, eu estou aqui”.

O acreano João Donato (em dupla incrível com Gil) foi fumar plantas exóticas, como contaria em “Bananeira” (1975): “Bananeira não sei, bananeira sei lá/ bananeira sei, não, a maneira de ver/ bananeira não sei, bananeira sei lá/ bananeira sei, não, isso é lá com você.”

Gil e Rita pagaram pela trupe inteira. Em 1976, durante turnê dos Doces Bárbaros (com Caetano, Gal e Maria Bethânia), Gil acabou detido por porte de drogas – foi preso, julgado, punido, publicamente humilhado etc. Rita também pegou cana por porte de drogas, grávida, para ser visitada em solidariedade solitária pela (supostamente) caretona gaúcha Elis Regina. Caetano proclamaria aversão histórica às drogas, mas isso não o impediu de fundir cucas lelés com “Odara” (1977): “Deixa eu dançar pro meu corpo ficar odara/ minha cara minha cuca ficar odara”. Quem não dançava segurava as crianças.

Novo marco aconteceria em 1980, nada menos que na tela da então “platinada” (?) Rede Globo, durante uma tentativa de ressuscitar os festivais da canção, a bordo de uma travessura da dupla-casal Baby Consuelo & Pepeu Gomes, ex-Novos Baianos. Era tarde demais quando a ditadura percebeu o que o reggae “O mal é o que sai da boca do homem” queria dizer ao dizer o seguinte: “Você pode fumar baseado/ baseado em que você pode fazer quase tudo/ contanto que você possua/ mas não seja possuído/ porque o mal nunca entrou pela boca do homem…/ porque o mal é o que sai da boca do homem…”

O nome fora pronunciado: “baseado”. “Chico Brito” estava de volta, surpreendentemente audacioso – e a repressão cobraria seu preço, desancando a Globo, a gravadora Som Livre, o Pepeu e a Baby. Possuída (será?) pelo espírito dos anos 1990, Baby viraria pastora evangélica empenhada no discurso de combate às drogas.


De cima para baixo, álbuns
emblemáticos de Jorge Ben
(A tábula esmeralda - 1974);
Tim Maia (Chocolate - 1971);
Bezerra da Silva (Cocada Boa
- 1993); Utraje a Rigor (Nós
vamos invadir sua praia -1985)


Os oitenta e as drogas,
de forma explícita, nos noventa


A década de 1980, de proclamada abertura política, seria estranhamente recatada musicalmente, à parte um “Lança perfume” (Rita Lee, 1980) aqui, um alcoólico “Louras geladas” (RPM, 1985) acolá. A chegada de uma nova geração roqueira, ainda sob marcação cerrada da censura oficial, traria poucas menções mais corajosas, a exemplo de “Mim quer tocar” (1983), do grupo paulista Ultraje a Rigor, que tratava de (quase) rimar dinheiro com maconheiro. “Mim é brasileiro/ mim gosta banana/ mas mim também quer votar/ mim também quer ser bacana/ mim gosta tanto tocar/ mim é batuqueiro”, cantava em moldes autocomiserativos, meio “Chico Brito”, o hoje conservadoríssimo Roger Moreira, ao que o coro replicava, gostosamente: “Conheiro!”

“Parece cocaína, mas é só tristeza”, lamentaria Renato Russo, da brasiliense Legião Urbana, em “Há tempos” (1989), refletindo barras mais pesadas. Nele, no carioca Cazuza e (anos mais tarde) na brasiliense Cássia Eller, a doidice química se confundira perigosamente, venenosamente, com sexualidade e homossexualidade, aids e morte. A mensagem não seria alvissareira para jovens dos anos 1980 e 1990.

O samba oitentista também se aventurou pelos tabus, principalmente graças ao impagável pernambucano Bezerra da Silva, que preferia quase sempre falar de cocaína (Cocada boa seria o título do CD de 1993), mas é intérprete do clássico “A semente”, na melhor (e nem por isso bem-sucedida) tradição “não compre, plante”: “Meu vizinho jogou/ uma semente no seu quintal/ de repente brotou/ um tremendo matagal/ quando alguém lhe perguntava ‘que mato é esse que eu nunca vi?’/ ele só respondia ‘não sei, não conheço, isso nasceu aí’/ mas foi pintando sujeira, o patrão estava sempre na jogada/ porque o cheiro era bom e ali sempre estava uma rapaziada/ os homens desconfiaram ao ver todo dia uma aglomeração/ e deram um bote perfeito, levaram todos eles pra averiguação.” O guarda Peçanha estava de volta à carga para aterrorizar Chico Brito, com garras particularmente pontudas e afiadas.

No mesmo 1987, o carioca Zeca Pagodinho vinha beliscar os tabus, de modo defensivo, em “Maneiras”: “Se eu quiser fumar eu fumo/ se eu quiser beber eu bebo/ pago tudo que eu consumo com o suor do meu emprego/ confusão eu não arrumo/ mas também não peço arrego/ eu um dia me aprumo/ tenho fé no meu apego…”

Os sambistas faziam prenúncio para os rappers dos anos 1990, que, com Racionais MC’s e Mano Brown na liderança, trariam o tema das drogas ao primeiro plano, de modo explícito, sem nenhuma meia palavra. Não que não se tenha tentado, vezes incontáveis, mas como as forças repressivas se atirariam sobre artistas que estavam denunciando, mais que louvando o flagelo social carreado com as drogas? O rap abriu as portas para que as palavras que não se pronunciam começassem a ser pronunciadas.

Os pernambucanos Chico Science & Nação Zumbi cantaram “Macô” (1996). Apadrinhados por Waly Salomão e regravando “Vapor barato”, os cariocas d’O Rappa fizeram “A feira” (1996), de modo admiravelmente transparente: “É dia de feira, quem quiser pode chegar/ vem maluco, vem madame, vem maurício, vem atriz/ pra comprar comigo/ tô vendendo ervas que curam e acalmam/ tô vendendo ervas/ que aliviam e temperam…” O rap-roqueiro paulista Chorão, com seu Charlie Brown Jr., seguiria nessa pista em tons fortes, de títulos como “Zóio de Lula” (1999), “Não deixe o mar te engolir” (1999), “Fichado” (2000), “Com a boca amargando” (2002), “Cheirando cola” (2004)…

Provavelmente nenhum deles ousaria tanto se não tivesse surgido antes um elemento emergente carioca, o Planet Hemp de Marcelo D2, Black Alien e BNegão, primeira iniciativa brasileira a adotar o “legalize já” como bandeira ao mesmo tempo musical e ideológica. Os três discos de estúdio da banda de rock-rap eram retos, diretos e repletos de reivindicações pró-maconha: 1995 – “Não compre, plante!”, “Legalize já”, “Maryjane”, “Fazendo a cabeça”, “Skunk” e “Porcos fardados”; 1997 – “Queimando tudo”, “Biruta”, “Se liga”; 2000 – “Ex-quadrilha da fumaça”, “Quem tem seda?”, “O sagaz Homem-Fumaça”.

A repressão policial partiu com tudo para cima da nação Hemp, possivelmente exercida por sobrinhos dos delegados e promotores, que, em 1976, passavam lição moral no futuro ministro da Cultura Gilberto Gil. Perseguição, proibições, prisão, processos – de tudo tiveram de enfrentar os rappers que, aos olhos das forças repressivas, faziam “apologia” ao crime. A cultura de polícia administrativa venceu, e a banda se dissolveu após a terceira tentativa. D2 seguiu em suas convicções, mas obrigado a se abrandar mais e mais.
É temerário tentar medir, até por falta de distância histórica, mas em certa medida a perseguição ao Planet Hemp surtiu alguns dos efeitos desejados pelo ideário tradição-família-propriedade-repressão. Nas gerações mais recentes, é costumeiro o discurso roqueiro abstêmio, de ídolos rebeldes que apreciam declarar que não bebem, não fumam etc. Os novos forrozeiros e sertanejos mandam brasa, mas preferem se deter às bebidas alcoólicas. O tecno-sertanejo “Eu te amo e open bar” (2011), é tema-símbolo, na voz do paranaense Michel Teló: “Tudo que eu quero ouvir/ eu te amo e open bar.”

A pertinácia, atualmente, fica por conta de gêneros musicais marginalizados e de periferia, notadamente o funk carioca e o rap (sempre ele), inclusive em versos de denúncia como os de Criolo, em “Linha de frente”, “Bogotá”, “Sucrilhos” (sucrilhos valem como droga?) etc., todos do celebrado álbum Nó na orelha (2011).



No funk carioca, o iconoclasta Mr. Catra é explícito em “Cadê o isqueiro?” (2011): “Minha memória é pouca, mas tem expansão/ eu vou dizer, pode entender/ minha inspiração vem do THC/ que invade os pulmão, invade os cano da circulação/ que assim de repente invade a mente, deixando você todo dormente/ neurônios, são poucos que restam/ neurônios que sobram são poucos/ o que vou fazer com aqueles que restam queimar,/ como eu fiz com os outros?”

São 61 anos de separação entre “Chico Brito” e “Cadê o isqueiro?”. Pouca coisa parece ter sido resolvida nesse setor, de lá para cá. O funkeiro (negro) Mr. Catra se desprende do Wilson Baptista de outrora ao se autoafirmar mais dono dos próprios neurônios que produto de uma sociedade conservadora amorfa, localizada sempre lá fora, nunca aqui dentro. Os meninos do asfalto, eternos compradores desses outros, parecem preferir se esquivar e fazer de conta de que não participam da geleia geral. Mas Mr. Catra ocupa o vácuo em ritmo de funk-candomblé, sem poupar-nos, os garotos (brancos) do asfalto, da denúncia de um velhíssimo e resistente “chicobritismo” autovitimizador: “Por que prender o usuário?/ por que matar o varejista?/ hipocrisia é discriminar/ cabeça feita é ser realista/ […] falso moralismo de doidão, caô”.

Mel Azul - Luz Alem [2012]

Download


Felipe Blanco

Mel Azul é um quarteto instrumental formado por baixo, bateria, guitarra e teclado. Unindo o peso do rock, a improvisação do jazz, texturas eletrônicas e o groove do funk, o grupo percorre atmosferas em músicas que começam e terminam sem respirar.

Formada em 2009 por Alexandre Silveira, Antonio Carvalho, Antonio Paoliello e Gustavo Prandini, a banda lançou no começo de 2011 o seu primeiro trabalho, um EP com cinco músicas, intitulado como Mel Azul, um registro de sessões de total improviso. No segundo semestre de 2011 o grupo se concentrou na criação de seu primeiro álbum, que reúne sete composições gravadas e produzidas pela própria banda no estúdio Freak. O resultado é o disco Luz Alem, um trabalho com uma estética que marca uma nova fase na carreira do Mel Azul.

“Mel Azul te cozinha em fogo alto para te servir no prato cheio de uma bateria biônica, enquanto o contrabaixo vibra criando uma base que por si só existe e coexiste com uma guitarra aflita e urgente em meio a uma tempestade elétrica de teclados.”


#3. Mel Azul - IndoVindo from Dois84 on Vimeo.


Veja também:
Mel Azul - EP [2011]

terça-feira, 24 de setembro de 2013

Quantum [1983]

Download FLAC


Postado por Mercenário Maldito
publicado no Progressive Downloads

No Brasil, não basta ser brilhante, competente ou exímio instrumentista. O músico que pretende dedicar-se exclusivamente a música instrumental só tem duas saídas. Custear do próprio bolso o projeto independente e sofrer com a distribuição e divulgação, ou ir embora do Brasil e lá, no exterior, tentar concretizar seus objetivos.

Mas algumas vezes, ocorre que alguns teimosos heróis, enfrentam todas as dificuldades "impostas" e acabam conseguindo, a duras penas, concretizar pelo menos em parte, alguns de seus sonhos. Esse é o caso do Quantum, que nos presenteia com esse exemplar e inigualável álbum inaugural.

Certamente, quem ainda não teve o privilégio de conhecer essa exemplar banda brasileira, que funde com absoluta maestria e muita competência o jazz rock e o progressivo, vai ficar profundamente impressionado com a qualidade sonora, a magistral técnica, a criatividade nos arranjos e a beleza das melodias que transbordam infinitamente por todo esse magnífico trabalho, uma verdadeira pérola da música instrumental brasileira, capaz de rivalizar com absoluta facilidade com qualquer outra banda estrangeira.

"Tema Etéreo" nos traz uma incomparável aula de como se deve fundir com sabedoria, habilidade e elegância o jazz rock e o progressivo. São mais de 9 minutos repletos de pura inspiração, habilidade e qualidade técnica de todos os seus integrantes. É uma faixa para se ouvir no volume máximo, pena tratar-se de uma gravação independente e por tal razão, não pôde ser melhor explorada, tendo em vista os elevados custos com estúdio. A faixa "Inter Vivos" é um verdadeiro clássico do bom e velho progressivo. Consiste-se numa clara e inequívoca declaração de amor ao progressivo, onde fica evidente a homenagem ao Genesis (na sua melhor fase). "Sonata", outra jóia desse álbum, é simplesmente uma das mais belas composições que já tive o privilégio de ouvir. Suave, profunda e emocionante. A faixa "Quantum", poderia ser entendida como uma "micro suite", repleta de uma beleza inicialmente contida, que se desdobra sutilmente nos dois primeiros minutos, para logo depois, revelar-se explosiva e catastrófica, para num terceiro momento, "reinventar" o cíclico e eterno processo da criação, com temas absolutamente cativantes, inteligentes e geniais.

Quero deixar expresso, aqui nesse meu insignificante Mukifu e limitado texto, meus sinceros respeitos e profunda admiração por todos os integrantes dessa genial banda brasileira, que com sua habilidade, criatividade e exemplar competência, desenvolveram um dos melhores álbuns que já tive a oportunidade e o privilégio de ouvir e tenho certeza que o álbum só não ficou melhor (do que já é) por absoluta falta de suporte e apoio financeiro.

Trata-se de um álbum exemplar, perfeito e merecedor de grande destaque na discoteca de qualquer apreciador do jazz rock e do progressivo. E quem não concordar, que faça melhor! Pois falar é fácil, realizar é tarefa hercúlea.


QUANTUM (1983)

Músicas:
01. Tema Etéreo
02. Chuva***
03. Acapulco
04. Inter Vivos**
05. Sonata
06. Quantum
07. Presságio [faixa bônus lançada junto com a reedição do álbum em 1993]*

Músicos:
Marcos G Rosset (Gringo): guitarra e violão (baixo em "Inter Vivos")**
Reynaldo Rana Jr. (Dinho): guitarra e violão de 12 cordas
Fernando Costa: teclados (guitarra em "Chuva")***
Segis C. Rodrigues: baixo
Paulo Eduardo Naddeo: bateria e percussão
Rolando Castelo Jr.: bateria em "Inter Vivos"**
* Felipe Carvalho: baixo em "Presságio"

domingo, 22 de setembro de 2013

Herod - Umbra [2013]



Por Victor de Almeida

“Onde não há luz, não há sombra…”

Uma das poucas bandas que eu conheço bem é a Herod. Acompanho o trabalho deles desde 2010 e posso dizer que vi o Umbra nascer e se transformar. Vi toda a empolgação juvenil (algo muito em falta no cenário musical nacional), dedicação e resistência de uma banda que está junta desde 2006, mas que parece que está começando agora. E eu posso dizer, a Herod está apenas começando.

Minha relação com a banda começou em 2010. Eu lembro do Elson Barbosa me entregando em mãos, aqui em Maceió, uma cópia do CD que a Herod estava lançando. Absentia era um disco de pós-rock composto e gravado por um trio – além do Elson no baixo, a banda contava com Sacha na guitarra e Johnny na bateria. Os temas instrumentais, sem grandes adereços, produções ou orquestras fez minha cabeça durante alguns meses. Tanto que começamos a pensar num plano para trazer o show do disco para Maceió.

Um ano mais tarde, eu produzi a terceira edição do Festival LAB aqui em Maceió e, com a defasagem de um ano, fizemos o lançamento do álbum Absentia, já após a entrada do Lucas Lippaus (guitarra) na banda. Lembro que durante esse show a Herod apresentou uma “música que estaria no novo disco”. A música era “Silencio” e pode ser encontrada em um vídeo do YouTube gravado ao vivo durante o show. Ouvindo agora a versão final gravada, lembro com saudade (e bastante orgulho) do dia em que tiramos algumas lascas de cimento da parede do Armazém Uzina, casa em que realizamos o festival.

Mas de 2011 para cá muita coisa aconteceu. Esbarrando nas dificuldades de toda banda independente, a banda criou seu próprio site para buscar através do financiamento coletivo bancar parte da produção do álbum. O Buzzker foi bem sucedido e gerou uma grana que possibilitaria uma gravação com uma estrutura maior do que eles estavam habituados. E maior também foi o público com o qual tiveram a chance de testar seu repertório novo, frente a trinta mil pessoas, abrindo os shows da turnê brasileira do The Cure no início de 2013.

Umbra nasce, então, como uma obra coletiva. Seja por já trazer, desde o seu começo, a ideologia do crowd-funding ou mesmo pela abertura para participação de outras pessoas dentro do processo de criação do disco. A Herod que você vai ouvir nesse álbum não é um quarteto e, sim, um octeto. Digo isso porque a banda soube aprender com cada uma dessas trocas e tirar o melhor de cada um deles.

Além de produzir o disco, Joaquim Prado também participa tocando sintetizador em “Penumbra”, “Blinder”, “Antumbra” e “Umbra”, bem como, guitarra em “Collapse”, “Limbo” e “Umbra”. Ouvir Jair Naves gritando sem voz, como nos tempos do Ludovic, é um dos presentes que o disco traz. Foram feitos três takes vocais para “Limbo”; No terceiro, Jair já estava sem voz, falhando nos gritos e rouco. É justamente esse take que foi escolhido, casando com o clima claustrofóbico e desesperado da letra. Ainda participam: Cadu Tenório, da banda Sobre A Máquina (RJ), com os noises em “Penumbra”, e Filipe Albuquerque, da Duelectrum (SP), com o vocal em “Blinder”.

Em 05 de setembro de 2013, Umbra vai nascer definitivamente e será lançado para download gratuito pelo selo virtual Sinewave (www.sinewave.com.br). Um disco construído em cima de temas sombrios e pesados, referência ao título que significa “escuridão e sombras” em latim. Umbra também é um álbum baseado em melodias, no lado bonito e obscuro da escuridão, mesclando elementos do pós-rock, drone, rock progressivo e noise. Mixado por Joaquim Prado, no Panda Amarelo Estúdios, e masterizado por Sérgio Soffiatti, em O Grito Estúdios, Umbra também mostra uma evolução técnica no processo de gravação em estúdio. É um álbum que eu acredito ser um divisor de águas na discografia da Herod, mas que também mostra para outras bandas independentes que sim, é possível fazer algo com qualidade técnica superior nesses tempos. As ferramentas estão postas para todos, é saber aproveitar.

Mas acredito que, mais importante do que tudo que eu falei, Umbra não é um álbum que mostra a Herod de hoje. É um álbum que irá mostrar novos caminhos para uma banda que acabou de começar. De novo.


Sacha: guitarras, drone, vocais
Lippaus: guitarras
Elson: baixo
Johnny: bateria

quarta-feira, 18 de setembro de 2013

Recordando o Vale das Maçãs - As Crianças da Nova Floresta [1978]

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Por Mairon Machado

O ano de 1977 viu nascer no Brasil um dos grupos mais fantásticos do rock progressivo nacional. Através do álbum As Crianças da Nova Floresta, o Recordando o Vale das Maçãs estabeleceu-se como um dos principais nomes da música na virada da década de 70 e para os 80, com canções que remetiam para as origens do rock progressivo, mas sem exagerar em técnica ou virtuosismo, apenas empregando letras sensacionais em arranjos belíssimos e encantadoramente trabalhados.

Recordando o Vale das Maçãs
O Recordando o Vale das Maçãs foi formado em 1973, em Santos (SP) através dos amigos Fernando Pacheco (violões e voz), Fernando Motta (violões e percussão) e Domingos Mariotti (flauta, voz), com a ideia de tentar mostrar o som da natureza através da música. Motta e Pacheco já haviam tocado juntos nos grupos Os Lobos e End Up Six.

Com o passar dos anos novos músicos uniram-se ao grupo, sendo que Domingos saiu em 1977. Pacheco, Motta, Luis Aranha (violino), Moacir Amaral (flautas), Eliseu de Oliveira (teclados), Ronaldo Mesquita (baixo) e Milton Bernardes (bateria) gravaram As Crianças da Nova Floresta, gravado em 1977, mas lançado em 1978, e que é considerado por muitos (eu incluso) o melhor disco de rock progressivo brasileiro já lançado (na frente de qualquer um de O Terço, Mutantes, O Som Nosso de Cada Dia e Módulo 1000). 

O grupo em ação

De uma forma geral, o disco apresenta letras similares às do Yes, contando histórias de alegria, superação, força de vontade e também alguns momentos de misticismo, sempre passando um lado “natureza” em todas as faixas, destacando o excelente trabalho entre flauta, violões e percussão. As canções do Lado A de As Crianças da Nova Floresta, tratam sobre esperança (“Rancho, Filhos e Mulher”, mitologia (“Besteira”), loucura (“Olhar de Um Louco”) e vida (“Raio de Sol”).

Jornal divulgando matéria sobre o RVM

Mas é justamente quando você coloca a agulha no lado 2 que você sente o diferencial do Recordando o Vale das Maçãs para as demais bandas do rock progressivo nacional daquela época. Tudo bem, “1974″ é um clássico do Terço, “O A E O Z” é uma canção que caberia muito bem em qualquer disco do Yes, mas “As Crianças da Nova Floresta” está muito acima de todas as citadas. 

O começo suave, com a flauta e os violinos sendo introduzidos ao mesmo tempo do violão e do baixo (que merece destaque em todo o álbum), dão sequência ao estribilho de teclados que leva ao início a letra (“quando eu penso nas voltas, que a vida, nos leva a dar …”). O ritmo lento, com a flauta fazendo intervenções junto com a voz, é simplesmente encantador. A bateria segura de Milton marca a canção quase com uma precisão cirúrgica, enquanto a letra vai descorrendo sobre como se livrar dos problemas, vendo que outras pessoas tem problemas piores que você, que você precisa mudar algumas situações/opiniões para ser mais feliz. Enfim, um quase “Close to the Edge” brasileiro. 


Recordando o Vale das Maçãs, ao vivo na TV

As harmonias vocais juntamente dos tecados vão aumentando o ritmo da canção, até chegarmos no momento onde você “encara os problemas de frente”, com um belo solo de baixo seguido por uma sequência de solos de teclado e baixo. A flauta soa mais forte, acompanhada pelo violão de 12 cordas de Pacheco, onde as verdades que precisam ser vistas são mostradas. 

“Olhe tudo do jeito que você quiser ver, mas antes olhe pra dentro de você, o caminho começa por aí” é o ponto mais forte da canção, que segue no mesmo ritmo, com o baixo tomando conta da canção juntamente com a letra e os acompanhamentos dos violões. Por fim, “unam-se as mãos e venham conhecer essas crianças, por que essas crianças são vocês” encerra a letra, mostrando que todos somos crianças, que temos que evoluir e não criar problemas, mas sim aprender a solucioná-los. Uma bela letra para uma bela canção, que termina com uma voz feminina angelical, que não dá pra saber se é de uma mulher ou de uma menina, mas que fecha com chave de ouro essa canção. Esses vocais foram feitos pela cantora Cristina Lobão, que saiu do grupo ainda em 1977.

O grupo acabou sendo contratado exclusivo da TV TUPI, chegando inclusive a ter um clipe que passava 6 vezes por dia na TV, durante 3 meses. Paralelo a isso, o Recordando o Vale das Maçãs participou regularmente de um dos maiores programas de audiência na época, “Almoço com as Estrelas”, apresentado por Lolita Rodrigues e Airton Rodrigues.

Em 1982, o grupo lançou o compacto “Sorriso de Verão/Flores na Estrada”, que segue a mesma linha do LP lançado quatro anos antes, agora com o baterista Lourenço Gotti, mas infelizmente a banda não atingiu o sucesso que merecia. A TV TUPI já havia fechado, e o Recordando o Vale das Maçãs passou a gravar especiais para TV Cultura, e participando de programas na Bandeirantes e Globo, com “Sorriso de Verão” levando-os ao primeiro lugar nas rádios (FM) de Santos, onde permaneceram durante 6 meses.

Compacto de “Sorriso de Verão”

Depois disso, o grupo separou-se. Em 1987, Fernando Pacheco lançou o excelente Himalaia, que conta com a participação de alguns músicos do RVM no lado A. Com certeza eu irei falar desse disco aqui em breve.

As Crianças da Nova Floresta II

Nos anos 90, voltaram a fazer shows pelo Brasil, culminando no lançamento de As Crianças da Nova Floresta II (1994), o qual resgata canções de As Crianças da Nova Floresta e também de Himala, porém em versões instrumentais. O grupo foi descoberto na europa e no Japão, já que As Crianças da Nova Floresta havia sido lançado por lá, em 1994, os leitores da revista francesa Big Bang elegeram As Crianças da Nova Floresta II como o melhor álbum de progressivo daquele ano, recebendo então o convite, através da embaixada francesa, de participar do Fête de la Musique em Paris, em 1997. Em 2006, foi lançado Spirals of Time, que apesar de não conter o nome do grupo, foi gravado pelos mesmos integrantes que mantém o nome Recordando o Vale das Maçãs na ativa.

Atualmente a banda faz shows em Minas Gerais,ao mesmo tempo que Domingos e Motta acabaram de lançar o excelente Reunião, mantendo o charme e a pureza dos anos 70, cultivadas através da semigual suíte “As Crianças da Nova Floresta”

terça-feira, 17 de setembro de 2013

Robertinho de Recife - Jardim da Infância [1977]



Por Mercenário Maldito
publicado no Progressive Downloads

Enquanto tentava recuperar os dados de um velho HD, encontrei uma preciosidade brasileira que ficou esquecida pela absoluta falta de tempo em aprimorar sua qualidade sonora.

Infelizmente a matriz em MP3 (que deixo de consignar a origem por não ter tomado a cautela de anotar) estava gravada em apenas 128 kbps, o que por si só, já limita qualquer tentativa de aperfeiçoamento sonoro. Fiz o que foi possível, milagre não faço.

Após uma cuidadosa seção de Sound Forge, acho que deu para recuperar pelo menos em parte a qualidade do LP (que diga-se de passagem, também não é das melhores).

Robertinho de Recife, sem sombra de dúvida, foi um dos guitarristas brasileiros mais injustiçados pelo público, pela critica e principalmente pelas gravadoras. Ao longo de sua carreira já fez de tudo um pouco, acompanhou vários grandes nomes da MPB, passou por uma fase heavy, formou a “Bunda”, oops, digo, banda Yahoo (com o evidente intuito de colocar uns trocados no bolso), enfim, o cara é “cascudo” e hoje é produtor musical, arranjador e ao que parece nem pensa em voltar aos palcos (lamentavelmente).

Essa obra inaugural tem de tudo e muito mais e é a prova cabal dessa irremediável injustiça. Robertinho consegue mesclar e impor com maestria os ritmos brasileiros ao Jazz e ao Jazz-rock, é uma verdadeira façanha no que se refere a arranjo, composição e execução. É de uma beleza, complexidade e competência técnica e artística exemplar.

Preste atenção à música “Chamada”, é magnífica a fusão do som brasileiro com o mais genuíno jazz- rock ao estilo Mahavishnu. A perfeita integração do cello, do baixo acústico, do trumpete com a guitarra e a guitarra portuguesa é obra de quem sabe das coisas. Outras que impressionam são “Sinais”, “Idade Perigosa”, “Ao Romper D’Alva” e “Agrestina”.

Fagner foi o produtor dessa jóia e escolheu a dedo os músicos que participam desse trabalho, que conta com: Chico Batera, Marcio Montarroyos, Sivuca, Itiberê, Jamil Joanes, Nivaldo Ornellas, Wagner Tiso dentre muitos outros.


Veja também:
Robertinho de Recife - Rapsódia Rock [1990]

sexta-feira, 13 de setembro de 2013

Marcelo Nova - 12 Fêmeas [2013]



Postado por Alexandre Campos Capitão
publicado no Blog oficial do Marcelo Nova

Após O Galope do Tempo, Marcelo Nova se colocou numa sinuca de bico, pois como iria suceder aquela que é considerada sua obra-prima? Marceleza passou o giz e numa tacada de mestre não apenas encontrou uma saída para esse momento da sua carreira, como também concretizou 12 Fêmeas como o trabalho em que elevou a música que emoldura a grandiosidade dos seus textos ao mesmo patamar do conteúdo das suas palavras. Seu novo disco apresenta um Marcelo Nova tendo suas emoções, dramas, histórias e poesia em voz e caneta também interpretadas com complexidade e riqueza de detalhes musicais sem precedentes em sua obra.

Drake Nova, como já escrevi em outra oportunidade, deixou o papel de guitarrista para encarnar o de cenógrafo, compondo o ambiente ideal que cada texto, cada sentimento, e cada situação pede. Drake é o maior responsável pela complexidade de cores, nuances, ruídos, harmônicos e todo tipo de dinâmica contida nesse álbum. Não bastasse isso, ainda é responsável pela arte gráfica do álbum. Sim, meus amigos, o gênio encontrou o parceiro ideal.

Marcelo Nova entrou no New Studio em São Paulo, que se transformou no seu Abbey Road, com 12 canções definidas e planos de fazer um disco apenas com violões e guitarras. Mas ao longo do processo as participações foram se ampliando, inicialmente as intervenções começaram através de Luiz de Boni, uma espécie de Ian Stuart marcelonovista. Mas esse processo se ampliou de tal forma, que até surgiram contribuições internacionais bastante inusitadas.

A trindade Marcelo Nova/Drake/De Boni formou a base do álbum, com De Boni assumindo o papel de multi instrumentista, tocando baixo, percussão, além do órgão e piano. Os membros da banda que acompanham nos shows há vários anos, Leandro Dalle (baixo) e Célio Glouster (bateria), também se fazem presentes em 3 faixas.

Mas o acaso também teve sua participação. Você pode chamar de sorte, destino ou do que preferir.

O rei do rock jantava num shopping da capital paulista quando começou uma apresentação de música escocesa executada com a tradicional gaita de fole. Marceleza se aproximou e convidou um dos músicos para gravar uma participação no álbum. Acabou descobrindo que se tratava de um autêntico escocês, Aindan Drummond. Drummond como Marcelo Drummond Nova, seu nome completo. O que poucos sabem é que a origem do sobrenome Drummond de Marceleza(pronuncia-se Dramom) também é a Escócia. E assim dividiram as coincidências e a canção A Morte Da Mão Que Afaga. Das highlands para São Paulo, assim se escreveu mais um capítulo do disco.

Num outro dia, chegando ao estúdio encontrou um grupo de monges tibetanos que viajava pelo mundo gravando canções e arrecadando fundos para o movimento de libertação do Tibet. Estava definida mais uma participação internacional, com tambores artesanais quase impossíveis de nominá-los. Não pense em percussão étnica tibetana, hare krishna, do tipo que George Harrison utilizou. Mas antes, próximo ao que fazia John Bonham. Logo Marcelo o rei do rock e dos apelidos passar a chamar o monge Goba Wangka de “Prachanska”, ou você acha que ele perdoaria um serviçal do Dalai Lama? Do Himalaia para São Paulo, 12 Fêmeas seguia evoluindo. Quase como se tivesse vida própria, mas sempre comandado pelas rédeas firmes do seu mentor.

Só que esse condutor apresenta-se sob o nome de Marcelo Nova. Um homem que quando ouve falar em auge, Correndo o Risco, A Panela do Diabo, Quem é Você?, O Galope do Tempo, respira fundo e sobe mais um degrau. Preserva tudo que tornou seu trabalho tão notório, como também mantém sua dialética profunda e viva, adicionando amplitude e profundidade. Quando o ouvinte se entrega para 12 Fêmeas é possível sentir como se as dores e os dramas cantados fossem seus, ou contassem a sua própria história, uma espécie de bônus track interior. O sangue respingado no espelho ainda parece quente. Suspiros e gemidos ecoam pelos cômodos... Marcelo Nova é capaz de fazer isso. O maior letrista desse país.

Marceleza continua sendo também um produtor do primeiro time. Auxiliado por Drake e De Boni, por trás dos botões da mesa de som, um incansável perseguidor da qualidade, com o ouvido apurado pela sua coleção de CDs, LPs, e a dinâmica quem reconhece o elevado nível do próprio trabalho. E para a masterização foi escalado Ricardo “Franja” Carvalheira, também responsável pelo O Galope do Tempo.

12 Fêmeas é mais do que uma experiência sonora, é mais do que uma experiência sentida, é mais para Are You Experienced?, sendo também uma experiência visual. Num trabalho gráfico primoroso, a começar pela capa, bela e fora do lugar comum de se relacionar com o título, passando por várias telas que evoluem ao longo do encarte, muito mais para um livreto. Trabalho da artista plástico, esposa, mãe (você escolhe a ordem), Inêz Nova. Família que trabalha unida, bota pra fudê unida.

Marcelo fez mais que canções, criou 12 atos que traduzem o espírito do seu trabalho.

Faixa a faixa:

Claro Como a Luz (Escuro Como Breu)

A faixa de abertura já dá a tônica do que está por vir. Não se trata de um álbum do tipo 1,2,3 e o pau come. 12 Fêmeas é para ser ouvido com o cérebro e não com a cintura. Drake coloca o dedo em nossa cara e mostra logo a que veio. A passagem em que a sua guitarra simula bandolins pode ser colocada junto dos momentos instrumentais mais célebres de toda obra de Marcelo Nova. O violoncelo tocado Antonieta Minella adiciona mais drama. E a percussão do monge de “Dalai Nova” quebra os últimos paradigmas que restavam. Dona de um refrão privilegiado, ainda traz a frase que não me sai da cabeça “meu sótão está lotado de macacos”.

Inverno Impiedoso

Um riff tenso de blues vai se repetindo de forma neurótica. A evolução dessa canção lhe dá uma sensação de entrar sanatório em formato espiral, e que a cada passo a saída se torna mais distante. Vem o órgão, vem o tímpano. Marcelo canta “esse deve ser o inverno mais impiedoso que já vi”. Eu penso que essa é a canção mais impiedosamente outsider que já ouvi. Doentiamente genial.

Eu Lhe Vejo Em Sonhos

Essa canção ganhou um lyric vídeo. Um rock estradeiro daqueles que dá vontade de ligar o carro e pisar fundo. Marcelo ao volante, Drake no bando da frente, Leandro, Celio, De Boni e você no banco de trás. Entre uma troca de marchas e outra, o motor v8 se enche de potencialidade: “Sempre penso em você quando vou me deitar, pois só no mundo dos sonhos posso lhe encontrar”. Mas com Marcelo Nova sempre tem mais “Meu anjo de olhos de fogo e língua de querosene”. Acabamos multados...

Anjo Doce Anjo

O drama volta à pauta. Violão e órgão conduzem as imagens construídas. De mãos dadas com a tensão, o violoncelo também retorna. “A sua criança está de volta, quase irreconhecível, a dor ainda é a mesma, ela só aumentou de nível”. A canção termina e você ainda aguarda a resposta: “anjo doce anjo, me responda se é visível”.

A Minha Inveja

“Eu invejo o sol, que derrete seu gelo, faz seus dias mais longos, aquece seus pelos”. Entre muitos violões e muitas guitarras, Marcelo e Drake celebram a primeira parceria musical.

Blue Eyes

O baixo chama e um belo trabalho de bateria começa. Blue Eyes tem um dos grandes solos de guitarra do álbum. “Então seus dedos tocaram os meus e roçando me deixaram mudo, me pegando desprevenido quando estar preparado é tudo”. Marceleza sempre nos pega desprevenidos.

O Nome do Jogo

A capacidade da descrição transporta você para aquele quarto de hotel. Cuidado com o que leva na mala. O aviso lá está: “paixão é um jogo violento e perigoso, com seus arames farpados, seu terreno pantanoso”. As descrições continuam, você segue pelos cenários criados e se depara com uma constatação dolorosa: “eu sigo quebrando o que não sei consertar”. Que belo violão. Que bela canção.

Temporada No Inferno

Marcelo nos recepciona: “bem vinda à outra temporada no inferno”. E atenção, a pausa contida nessa canção é outro momento memorável. Drake não perde oportunidade de mostrar competência. Ele não costuma perder gol dentro da área. Atrai a atenção da zaga e livre de marcação deixa Marceleza chutar no ângulo, indefensável: “nós somos a prova viva do imenso mal gosto de Deus”. Poderia terminar aí, mas não termina, sorte nossa.

O Ódio da Mão Que Afaga

A única canção não inédita de 12 Fêmeas. Lançada anteriormente no ao vivo Hoje no Bolshoi, ela ganha sua versão definitiva. Os violões estão lá, as guitarras também, o órgão, o piano, e Aindan Drummond solando com sua gaita de fole. Que final épico.

Mistério Para Mim

O sabor jazzy é adotado pela décima fêmea. Drake conversando fluentemente com De Boni. “Com a cabeça fez que não, mas acabou dizendo sim, nada que esclarecesse o seu mistério para mim”. Mas quem disse que todo mistério deve ser resolvido? Por exemplo, por onde andou Drake nos últimos 20 anos?

Não Consigo Escapar de Você

Marcelo não pede permissão e novamente te transporta: “era o último minuto do ano e os fogos bailavam no ar”. Imediatamente você se vê numa daquelas tantas noites de réveillon. Novas imagens vão sendo descritas, sem que se encontre uma solução. “Lembrar daquele beijo roubado me deixou algemado, impossível me locomover, todos os trens já partiram, e eu não consigo escapar de você”. Um belo solo de piano no meio da canção e um de guitarra que culmina com um final original e caótico, daqueles que você não consegue escapar.

Sinais de Fumaça

Para falar da canção que fecha 12 Fêmeas preciso cometer uma heresia, mas afinal quem pode escrever algo relevante sem alguns bons pecados? Sinais de Fumaça é uma espécie de A Ferro e Fogo sem orquestra. Talvez não tão lírica, mas igualmente ousada e longa, com muita dinâmica, e com todos os ingredientes para também se transformar em clássico. Ao invés dos clarins, a microfonia da Gibson Chet Atkins de Marceleza introduz o que vem a seguir. Ao invés do mar, o fogo. O refrão “Tem algo queimando baby, tem algo cheirando mal” será cantado nos shows pelas mesmas vozes que cantam “bota pra fudê”. Um longo solo de órgão mostra todo o gabarito de De Boni. E no solo de guitarra surge outro candidato a melhor performance do álbum. Os tambores se apresentam de forma única, trazendo ainda mais personalidade para a composição. “Deus está roendo as unhas em sua suíte nas alturas, contemplando toda a insanidade das suas próprias criaturas”.

12 Fêmeas possui um defeito grave, e vou te contar agora qual é: ele possui um fim. Pois esse é daqueles que discos que você gostaria que nunca acabasse. Mas Marcelo Nova encerra 12 Fêmeas sem guardar o melhor para o final. O melhor está em cada segundo desse que já é o melhor álbum de 2013.

quarta-feira, 11 de setembro de 2013

Wander Wildner - Baladas Sangrentas [1996]



Por Lucas Vieira

O primeiro disco do ex-Replicantes não poderia ter um título melhor. Com um som cru e um vocal rasgante, o rockeiro gaúcho Wander Wildner fez realmente baladas sangrentas em seu estereotipado “Punk brega”. O rótulo deve relacionar-se ao seu som muito influenciado pelo punk e suas letras com temáticas melancólicas, além do uso de alguns elementos, como cordas, que os mais fanáticos devem condenar. Ao longo do disco, Wildner além de cantar em português, flerta com o espanhol, que se faz presente ao longo da sua carreira. Isso já pode ser notado no início do disco, com “Ustê”, o punk violento que traz o título com a versão “portunhol” da palavra “usted” – “senhor” em espanhol. A segunda faixa, é uma balada muito interessante, com um ar meio triste e que depois de três anos do lançamento do disco, veio a ficar famosa na regravação do grupo Ira!. “Bebendo Vinho” é regida por um violão seguido de um arranjo de cordas ao fundo. Wander grava no disco uma tradução de Marcelo Moreira para a animada “Lonely Boy”, dos Sex Pistols, que ficou muito fiel à original lançada no disco The Great Rock N’ Roll Swindle – que diga-se de passagem, é um título que faz jus a banda. As letras de “Empregada” e “Freira Desalmada” são bem sacanas. A primeira é da turma da Graforréia Xilarmônica e a segunda é do Wander, com timbres que lembram bastante os anos 80. O clássico extraordinário “Eu Tenho Uma Camiseta Escrita Eu Te Amo”, vem na sexta faixa, com timbres médios, som pesado e a letra sobre um rapaz e seu amor platônico. Em uma das passagens da música aparece uma linha de cordas, dando um clima mais calmo à musica. Em seguida, o clássico “Lugar do Caralho”, do seu conterrâneo Júpiter Maçã, recebe um arranjo eliminando seu caráter psicodélico e assumindo uma característica mais beat. “La Playa” é mais um punk descompromissado, com a letra no estilo dos Ramones e a segunda aparição do espanhol no disco. Seguindo em espanhol, “Burgues” é uma crítica irônica e de som pesado ao capitalismo – de praxe, se tratando de punk. Pagando de “macho mauzão”, Wander aparece com “Maverickão”, de Zicco Cardoso, uma canção bem agitada, falando sobre o amor a um carro Maverick. Referência aos beatniks aparece em “On The Road”, canção que tem o mesmo título do livro do escritor Jack Kerouac, expoente do estilo literário. A letra lembra a temática dos beats, de estar sempre pronto para partir, com a mochila à mãos e coisas assim. A sonoridade pesada fica por conta da guitarra rápida e distorcida, o baixo com som bem estalado e a marcação da bateria no prato de condução. Por último, “Ganas de Vivir”, traz outra vez o espanhol, com um som bem latino e apenas o violão e um slide. Baladas Sangrentas não é nenhum disco clássico, vanguardista ou genial, mas ele é um ótimo álbum, com um punk rock escrachado e é a pura expressão do rock gaúcho na mão de um de seus grandes criadores.