domingo, 30 de setembro de 2012

Som Imaginário - Som Imaginário [1970]



Das mais radicais das bandas do Clube da Esquina ( movimento musical mineiro do começo dos anos 70 fortemente influenciado por Beatles), o Som Imaginário com seu disco de estréia demonstra uma riqueza musical poucas vezes vista no cenário brasileiro, com uma mistura de Rock Progressivo, Psicodelismo e MPB que até hoje causa fascínio nos olhos dos colecionadores de raridades de todo o mundo, sendo que o LP original vale algumas centenas de dólares o que o torna praticamente impossível de se encontrar.

Uma banda que já contou com a participação de nomes mais do que consagrados como Marco Antônio Araújo, Naná Vasconcellos ,Toninho Horta, Wagner Tiso, Tavito e José Rodrix não podia fazer um disco que ficasse abaixo desse nível.

A audição começa surpreendendo com riffs bem interessantes na música “Morse”. O vocal é de Rodrix, que predomina na maior parte das músicas. “Super-God” com seu vocal distorcido e guitarras ácidas chega a assustar ouvidos despreparados , o que lhe valeu o posto de representar o Brasil juntamente com "Lem-ed-Êcalg" do Módulo 1000 na coletânea “Love, Peace & Poetry - Latin American Psychedelic Music”, lançada pelo selo alemão Q.D.K Media. “Tema dos Deuses” , música de Milton Nascimento (que na época era apoiado pela banda) tem um clima sombrio, sendo a única música instrumental do disco. “Make Believe Waltz” talvez seja a mais dissonante das músicas, não tendo muito a ver com o material em questão. “Pantera” e “Sábado” são boas músicas com seu lado mais popular, sem deixar de exercer sua atração. “Nepal” tem uma introdução bem psicodélica , mas posteriormente revela ser mais um ponto fraco no disco, logo compensado pela primeira versão de “Feira Moderna” com a letra original “Meu coração é velho/Meu coração é morto” que depois foi modificada na versão do Beto Guedes. “Hey, Man” é mais um ponto alto da audição e fechamos com “Poison” composta por José Rodrix e ninguém menos do que Marco Antônio Araújo [que 10 anos mais tarde lançaria seu primeiro álbum “Influências”, e outros clássicos do Progressivo que o fariam ser conhecido como “Gismonti dos 80” , alusão a Egberto Gismonti, outro nome que não obteve o reconhecimento merecido no Brasil], mas nada tendo a ver com seu trabalho solo.

Esse álbum representa mais uma pérola obscura na discografia do rock nacional dos anos 70. Após a saída de José Rodrix para a formação do trio Sá, Rodrix & Guarabyra a banda perdeu força mas ainda resistiu e fizeram mais 2 discos, que foram relançados conjuntamente em CD em 1997 ,mas infelizmente hoje a caixa está fora de catálogo, já que boa parte das 5000 cópias foi vendida para colecionadores estrangeiros. Um disco ao nível dos melhores discos tropicalistas . Nota 9.


sábado, 22 de setembro de 2012

A Bolha - É Proibido Fumar [1977]


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Por Ezequiel Neves
na contra capa do lançamento em cd de É Proibido Fumar em abril de 2009

"Não posso acreditr que quem goste de rock seja animal vertebrado". Quem cravou esta frase foi o polêmico joranlista Paulo Francis, no século XX. Discordo e prefiro a definição da sábia Angela Dust, que falou sério: "O rock é filosófico e muito inteligente. Há uam música cuja letra diz: 'You kant always get what you want'. Mas adoro mesmo o epíteto cantado por MIck Jagger: 'It´s only rock'n roll, and I like it' ". Certíssimo!

Por exemplo: o grupo carioca A Bolha. O conjunto, criado por Renato Ladeira e Arnaldo Brandão, entre outros, foi o pioneiro escrachante do Rock Brasil. Com o nome The Bubbles, botou os yas yas pra fora a partir de 1969. Foram para Londres em 1971 e Caetano Veloso convenceu-os a serem objetivamente, A Bolha. E deu o maior barato. Na volta já tinham a esperá-los uma legião de pirados e ripongas que não suportavam ouvir músicas caretas, veradeiros coitus interruptus sonoros.

A Bolha teve várias encarnações, todas esquentavam nossas bacurinhas, até ressurgir em 1977 tendo a frente o líder transcendental Marcelo Sussekind (hoje conceituado rock-producer). A Bolha voltou quente porque já estava fervendo. Mandaram de cara "É proibido fumar" e outras pepitas chacoalhantes.

Hoje estou surpreso: por que, entre milhões de livros dedicados ao rock brazuca, ainda não surgiu um calhamaço sobre a epopeia da Bolha? Se nossos tínpanos e corpos são beatificados com o som esmerilhante, imagine as nossas pupilas sedentas pelas historias desse veteranos sempre jovens?


quinta-feira, 20 de setembro de 2012

Marco Antonio Araújo - Entre Um Silêncio e Outro [1983]



Paralelo ao trabalho popular com o grupo Mantra, Marco Antônio Araújo mantinha seus estudos eruditos e sua presença na Orquestra Sinfônica de Minas Gerais. No álbum "Entre Um Silêncio e Outro" não há participação do grupo Mantra, mas conta com o flautista Paulo Guimarães, e os celistas Jacques Morelembaun e Márcio Mallard, formando um quarteto de câmara. Uma peça erudita, dedicada, in memorian, a sua professora Esther Scliar, da Escola de Música da UFRJ, e trazendo na capa uma gravura do artista plástico Carlos Scliar.

Labirinto - Cinza [2006]



Com nova formação, e o acréscimo de novos instrumentos e texturas musicais, o sexteto lança o EP com cinco músicas instrumentais. Cinza mostra um Labirinto mais denso, apontando os rumos que a banda trilhará; caminhos balizados por guitarras, baixo, bateria, violoncelo e sintetizadores digitais e analógicos.

Labirinto - Etéreo [2009]


O EP lançado em 2009 apresenta duas músicas gravadas no ano anterior, especialmente para a coletânea DIS1, e a terceira faixa gravada e lançada em 2007, agora remixada para o EP. “Etéreo” mostra um Labirinto mais denso e melancólico, com composições longas e trabalhadas; uma amostra do álbum Anatema, anunciado para o final do segundo semestre de 2010.

quarta-feira, 19 de setembro de 2012

Raul Seixas - Abre-Te Sesamo [1980]

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Por Anderson Nascimento
Publicada em 10 de junho 2011 no Galeria Musical

Enquanto que os anos oitenta foram cruéis para artistas consagrados dos anos sessenta e setenta, para Raul Seixas, porém, a nova década se iniciava como uma boa oportunidade de resgatar o som que o colocou como um dos principais artistas de nossa música na década que acabava de findar.

Os insucessos de seus dois últimos álbuns, “Mata Virgem” e “Por Quem os Sinos Dobram”, fizeram com que Raul, recém-contratado pela CBS, desta vez como artista e não como produtor, investisse pesado em sua criatividade e lançasse um álbum que o trouxesse de volta. Para isso algo precioso na obra de Raul deveria voltar ao seu som, o Rock. 

A palavra mágica “Abre-te Sésamo” que dá nome ao disco, é uma espécie de grito redentor para a nova década que estava se iniciando, um renascimento na carreira de Raul, conduzida por uma canção que se aquilata com os velhos Rocks do artista.

E é baseado no Rock and Roll que o disco figura, trazendo canções de pegada roqueira, letras ácidas, anárquicas e de duplo sentido, casos de “Aluga-se” e “Rock das Aranhas” - que inclusive foram censuradas na época - além da participação especial de um jovem guitarrista chamado Celso Blues Boy.

Ainda que ecos do passado se apossem de quase todo o álbum, Raul sabiamente enxerga na nova década um alvorecer, e, de forma contundente, dá a sua versão na canção “Anos 80” para o que ele espera do que seria a sua última década com vida – “...melancolia e promessas de amor...anos 80, de esperança, sonho de um sonhador”.

Raul sabe ser lírico e encanta com a poesia “Angela”, feita pela sua então esposa Kika Seixas, e “Baby”, uma delonga em prol de uma adolescente de treze anos florescendo precocemente a sua sexualidade.

Além das músicas mais badaladas, o disco também conta com a divertida “Conversa Pra Boi Dormir”, com a psicodélica “O Conto do Sábio Chinês”, as regionais “Minha Viola” e “A Beira do Pantanal”, e a co-irmã de “Mosca na Sopa”, “É Meu Pai”.

Por mais que a sua saúde já não fosse mais a mesma, o álbum traz um Raul inteiro, cheio de vida, e com muita vontade de criar um álbum nos moldes de seus maiores êxitos. Ainda assim o álbum não vendeu o esperado, não houve muito interesse na promoção do disco por parte da gravadora, com reclamou o próprio Raul, além de a gravadora chegar ao cúmulo de pedir que Raul compusesse uma música para Lady Diana, o que o fez pedir a sua rescisão de contrato e pular fora, ficando novamente sem gravadora.

“Abre-te Sésamo” é notadamente um álbum que segue uma fórmula que deu muito certo anos atrás em sua carreira, incluindo Rocks, baladas, popular e até regionalismo. Ainda que o álbum não tenha o devido reconhecimento de sua importância, o disco dá uma aula de Rock e, no fim das contas, mostra que Raul acabou criando um de seus melhores álbuns, como ele mesmo o considerava, deixado então como legado de uma carreira repleta de altos e baixos.

segunda-feira, 17 de setembro de 2012

O Terço - Som Mais Puro [1982]



A banda O Terço era uma sombra do passado em 1982 quando o guitarrista Sérgio Hinds resolveu que era hora de gravar mais um álbum, dez anos depois da estreia. O músico queria resgatar uma época interessante do rock brasileiro, apesar de alternativo: o incipiente rock progressivo com sotaque setentista, em português, um movimento que, além d’O Terço, tinha bandas como Casa das Máquinas, o Som Nosso de Cada Dia, Bacamarte e Patrulha do Espaço, entre outras. O álbum na época não chamou muito a atenção, soterrado pelo início do pop rock dos anos 80. A Warner decidiu resgatar “Som Mais Puro”, dentro de uma série de relançamentos que inclui Guilherme Arantes, A Cor do Som e João Donato. “Som Mais Puro” tem influências progressivas e psicodélicas da década de 70, só que menos viajante, flertando com gosto com o jazz e com a MPB. É um trabalho que merecia mais atenção quando foi lançado.

Plebe Rude: financiamento coletivo viabiliza documentário

Publicado em setembro 14, 2012 em Rock em Geral

Um documentário sobre a Plebe Rude está em fase de edição e vem sendo viabilizado pelo sistema de financiamento coletivo, através da venda de cotas antecipadas. As imagens de “Plebe Ignara” flagram o grupo gravando o novo álbum em Brasília, intitulado provisoriamente de “Politicamente Daltônico”. O filme é dirigido por Diego da Costa e Hiro Ishikawa, e as cotas custam entre R$ 10 e R$ 1000, oferecendo, como contrapartida, nome nos créditos, ingressos para shows e cópias do novo álbum, entre outras. Clique aqui para ver o vídeo de divulgação, e aqui para participar do projeto. Na próxima quarta, 19, um evento parra arrecadar fundos para a produção do filme será realizado, em São Paulo. Veja os detalhes aqui.

Jesus Cristo Super Star [1973]

Mega 128kbps


Por v-effekt

Jesus Christ Superstar é um musical de rock de Andrew Lloyd Webber, com texto de Tim Rice. Apresentado em 1970, destaca as lutas políticas e pessoais de Judas Iscariotes e Jesus. A ação ocorre, na maior parte, conforme os evangelhos da Bíblia sobre a última semana da vida de Jesus, começando com a chegada em Jerusalém e terminando com a Crucificação. Atitude moderna e gírias prevalecem nas letras e há alusões irônicas à vida moderna enquanto a visão política dos acontecimentos é retratada. As produções cinematográficas e teatrais apresentam muitos anacronismos, na visão dos sectários, isto é, daqueles que querem separar política de religião.

Grande parte do enredo é focado na personagem de Judas, que é retratado como uma figura trágica, realista e conflitada que não está satisfeita com a aparente falta de planejamento político e afirmações de divindade de Jesus.

O musical ganhou um filme dirigido por Norman Jewison em 1973, porém o filme não faz jus a grande e belíssima obra que é esta ópera.

Jesus Cristo Superstar é o nome do musical na versão brasileira. Tem tradução de Vinicius de Moraes e das montagens dos anos de 1970 se destacaram dois atores no papel de Jesus: Antonio Fagundes e Eduardo Conde.

João Carlos Pegoraro, na época pianista e ensaísta (trabalhando como maestro/arranjador), foi quem acompanhou a peça, que já havia participado da peça Hair. Ayrton Salvanini foi o responsável pelo lançamento publicitário da peça.


1. Céu na Cuca
2. Tudo Está Bem
3. Sinédrio e Hosanna
4. Simão Zelote
5. Sonho
6. Tenta Não Pensar
7. Gethsemane
8. Negação de Pedro / Vamos Repetir
9. Rei Herodes
10. Arrependimento de Judas
11. Condenação / Superstar


domingo, 16 de setembro de 2012

Som Imaginário - Matança do Porco [1973]



A obra-prima do Som Imaginário é mesmo este terceiro e último trabalho, o fantástico Matança do Porco, lançado em 1973. Mais líder do que nunca, o tecladista, arranjador e maestro Wagner Tiso assina a maioria dos temas e desenvolve uma sonoridade que marcaria também o seu trabalho solo. Um disco conceitual que apresenta um instrumental fascinante, fundindo jazz, rock progressivo, música erudita e MPB.

O line-up era composto pelos seguintes músicos: Wagner Tiso (Hammond, piano acústico e elétrico), Tavito (violão), Luiz Alves (baixo) e Robertinho Silva (bateria). O álbum conta ainda com as participações especiais de Milton Nascimento, Danilo Caymmi e dos Golden Boys. Frederyko, o grande Fredera, já havia saído da banda quando o LP foi lançado, mas os vestígios de que participou das gravações do “abate suíno” são evidentes ao se escutar os brilhantes solos de guitarra desenvolvidos no álbum.Arranjos sinfônicos muito bem elaborados, abrindo terreno para a banda fazer misérias… 

Faixas como “Armina” (que combina guitarra fuzz e piano clássico de forma esplêndida),“A 3” (com Tiso criando frases no melhor estilo Kerry Minnear, do Gentle Giant), “A N° 2” (progressiva ao extremo, com um timbre de órgão sensacional e uma construção harmônica de arrepiar) ou “Mar Azul” (que agrega elementos do samba-jazz e traz Danilo Caymmi nos arpejos de flauta) mostram uma banda bem entrosada e com músicos no auge de suas habilidades.

O maior destaque do disco está na faixa-título: um tema de 11 minutos que divide-se em três movimentos, onde se sobressaem as vocalizações deslumbrantes de Milton Nascimento, os agudos da guitarra de Fredera e os fraseados bem bolados de Tiso.Divinamente sublime, “A Matança do Porco” foi composta por Wagner Tiso para o filme “Os Deuses e os Mortos”, de Ruy Guerra,que concorreu às premiações do Festival de Berlim, em 1971.

Depois deste disco, o grupo prosseguiu sua jornada por pouco tempo, promovendo novas alterações em sua formação. Robertinho Silva saiu para a entrada do baterista Paulinho Braga. Luiz Alves foi substituído pelo baixista Noveli.Tavito preferiu trabalhar sua carreira solo e cedeu lugar ao grande Toninho Horta. O saxofonista Nivaldo Ornelas, que já havia participado da banda em 1970, também foi reagrupado. 

Com esse conjunto, gravaram o álbum “Milagre dos Peixes – ao vivo”, creditado a Milton Nascimento e ao Som Imaginário, em 1974. Frederyko ainda retornaria à banda, antes do seu fimprecoce, em meados de 1976. Menos mal que o intercâmbio entre os músicos continuou nos anos seguintes. Não é difícil encontrar alguns deles participando de discos de Wagner Tiso ou Milton Nascimento, por exemplo. Fredera, Tavito, Toninho Horta, Nivaldo Ornelas e a maioria de seus integrantes, também gravaram seus registros individuais. Mas o certo é que O Som Imaginário, como banda, nunca mais gravou qualquer outro material … infelizmente!

Para quem se interessou em adquirir esses discos, a EMI lançou em 1997 uma caixa luxuosa contendo os três cds da banda. Como não foram produzidas muitas cópias, o box simplesmente desapareceu das lojas rapidamente e hoje é um produto difícil de ser encontrado. Em 2003, a EMI soltou no mercado vários títulos remasterizados, no rastro das comemorações de 100 anos de Odeon no Brasil. Um dos relançamentos foi justamente o Matança do Porco que, provavelmente, ainda deve estar em catálogo.Básico!

sábado, 15 de setembro de 2012

Sagrado Coração da Terra - Flecha [1987]

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O álbum "Flecha" projetou o grupo além das fronteiras de Minas com a inclusão de Flecha como tema da novela global "Que Rei Sou Eu?". Dividido em 2 partes: "Canções e Sinfonias", este disco acentua ainda mais o caráter vocal-instrumental da banda, com destaque para "Manhã dos 33", "Tocatta" e "Cosmos x Caos".

RELAÇÃO DE MÚSICAS:

As canções
01 - Flecha
02 - Manhã dos 33
03 - Paz
04 - Seres Humanos
05 - Carinhos Quentes

As sinfonias
06 - Tocatta
07 - Cosmos X Caos
08 - O Futuro da Terra

Lestics - História Universal do Esquecimento [2012]



Por Cleber Facchi

De todas as bandas nacionais que surgiram ao longo da última década, a paulistana Lestics é de longe uma das mais curiosas. Sem a intenção vulgar de produzir um som comercial, o fascínio de se relacionar com um selo/gravadora e ciente do público reduzido que a acompanha (ouvintes que “misteriosamente” crescem a cada novo trabalho), o projeto comandado por Olavo Rocha (voz) e Umberto Serpieri (violão,teclados,guitarra,gaita e voz) chega ao quinto registro dentro de uma estufa criativa e particular que lentamente se abre aos ouvintes. Denominado História Universal do Esquecimento (2012, Independente), o novo disco (também lançado dentro do site da banda) parece fadado a tudo, menos desaparecer das mentes e dos ouvidos dos espectadores.

Com um acabamento menos sombrio do que o anterior Aos Abutres (2010), o projeto segue com a contribuição (necessária) de Marcelo Patu (baixo) e Marcos Xuxa (bateria), instrumentistas que auxiliaram a dupla inicial a alcançar um novo resultado dentro da estrutura antes limitada do projeto. Ainda dialogando com as mesmas pluralidades da música folk, indie e do country alternativo – encontros que em algum momento fluem como um misto entre Cass McCombs e Wilco -, a banda deixa o enclausuramento dos projetos passados para soar maior, não apenas na extensão do disco (o maior até aqui), mas na maneira como os instrumentos, os detalhamentos e principalmente os versos parecem se expandir no decorrer da obra.

Da mesma forma que os trabalhos anteriores, com o novo disco o uso constante de versos temperados pelo impacto sutil das palavras e frases arquitetadas de forma a atrair o ouvinte está por todos os lados. Habilidade natural de Olavo Rocha, que desde o “hit” Luz do Outono provou cantar sobre amor como ninguém, em História Universal do Esquecimento temos mais um substancial cardápio de composições que discutem o romantismo com esperança (Enquanto Espero) e certa dose de melancolia (Saudade do cativeiro). Dentro dessa dicotomia de percepções, não é difícil nos depararmos com versos que mesmo simples (“Você pode ir decidindo enquanto beija/ e eu posso ir te beijando enquanto espero”) representam exatamente aquilo que o espectador busca dizer, como se o álbum fosse do princípio ao fim um imenso tradutor de sentimentos.
Longe de apenas falar sobre amor ou términos de relacionamentos, assim como nos primeiros discos Serpieri e Rocha apresentam um colosso de músicas que tratam dos mais variados reflexos da vida e das percepções humanas. Da saudade e distância dissecadas em um criativo jogo de palavras na faixa Quinze Mil Dias (“Quase quinze Mil Dias/Vivendo Quase Mil Metros/Acima do nível do mar”) ao teor amargurado que se dissolve na quase vingativa A mesma decepção(“Na minha imaginação/ Seu Perfume Era Discreto/ Suas pernas eram longas/ Seu sorriso era completo”), o disco surge repleto por desajustes cotidianos que de tão comuns surgem como inéditos na voz e nos versos enaltecidos pelo vocalista.
Mesmo profundamente íntimo de tudo aquilo que a banda já produziu (principalmente no conteúdo das letras), o presente registro estimula o nascimento de músicas muito mais “comerciais” e de fácil assimilação. Para além da bem resolvida tríade de abertura, todas as faixas presentes no disco parecem surgir como prontas para animar a trilha sonora da novela das nove, efeito antes limitado na construção dos anteriores álbuns, mas que agora se expande de forma notável. Em História Universal… as canções parecem muito mais plásticas e até dinâmicas, ainda que profundamente sinceras e capazes de comover o espectador em uma rápida passagem, acabamento lírico (e também instrumental) que deve aproximar o grupo paulistano de uma nova onda de espectadores.
Nada limitado quando o comparamos com o “caseiro” e tímido 9 Sonhos (2007), ao alcançar o quinto disco da carreira a Lestics parece pela primeira vez ciente de todas as possibilidades e possíveis alcances de sua obra. Não apenas os companheiros de banda posteriormente anexados parecem bem ambientados como Umberto Serpieri e Olavo Rocha soam melhor habituados ao composto que eles próprios ajudaram a desenvolver, resultado que se anuncia na construção de faixas coesas, menos ríspidas e que pouco a pouco parecem romper com os limites antes intencionais que ocultavam a obra e um provável crescimento do grupo.

quinta-feira, 13 de setembro de 2012

Cartoon - Martelo [1999]



Ouvir os mineiros do Cartoon é, sem dúvida uma felicidade imensa. É ter a certeza que o bom e velho rock n’ roll está vivíssimo e muito, muito bem representado. Se vocês quiserem ter uma idéia da sonoridade da banda, é só colocar tudo de melhor que existiu no rock, principalmente o progressivo, dos anos sessenta e setenta e misturar bem. Para fãs de Yes, Jethro Tull, Rush, Emerson, Lake and Palmer, Frank Zappa e outras bandas do gênero, Cartoon é uma verdadeira viajem pela era dourada do rock e, mesmo sendo um amalgama de tudo isso que foi citado, eles conseguem ser bastante originais.

“Martelo”, primeiro trabalho da banda, lançado em 1999, possui uma produção impecável. A gravação é perfeita e o projeto gráfico do encarte é bonito e divertido, possuindo inclusive, no centro deste, uma parte que se levanta, como nos livros infantis, revelando os cartoons dos integrantes da banda, representados como duendes.

As letras, com exceção de First Lake Conclusion são todas em português e trazem mensagens positivas e bem humoradas. As canções são todas muito bem trabalhadas, técnicas, com viagens à la Frank Zappa e vocalizações que muito lembram Queen.

E por falar em técnica, isso é o que não falta para Boxexa (teclados, castanhola e voz), Khadhu (baixo, violão gaita, esraj, sitar e voz) Vlad (guitarras, violão, baixo e voz) e Bhydhu (bateria e percussão). Ousaria dizer que Khadhu é o melhor baixista/vocalista do Brasil e está entre os melhores do mundo.

Os únicos pontos negativos deste grande álbum são a música O Amor, um sambinha, que apesar de muito bom, está totalmente fora do contexto e uma eventual falta de coesão nas junções entre as muitas e variadas partes das músicas, problema comum entre muitas bandas de rock/metal progressivo, porém, totalmente perdoável, haja vista a dificuldade de se fazer músicas do estilo.

Destaque para as faixas Duend’s, Estagnação, a ótima A Verdade Sobre os Incas, O Tempo e First Lake Conclusion, que conta com a participação de Renato Savassi na flauta.

segunda-feira, 10 de setembro de 2012

Som Nosso de Cada Dia - Snegs [1974]



Por Luiz Carlos Menegon

Formado nos anos 70 em São Paulo, o grupo adotou o estilo rock progressivo, com elementos de psicodelismo. Com integrantes diversos (Manito, Pedrinho, Marcinha, Egídio, Dino Vicente, Rangel), atuou como trio na maior parte do tempo. Um deles, o virtuoso Manito, fazia parte nos anos 60 da banda Os Incríveis, uma das mais populares da Jovem Guarda. O primeiro dos dois discos lançados pela banda é o mais famoso. "Snegs", de 1974, é considerado um dos clássicos do rock brasileiro dos anos 70.

O Som Nosso de Cada Dia inicialmente Cabala, era formado por: Pedrão (contrabaixo, viola e vocal), Pedrinho (bateria e vocal) e pelo virtuoso Manito (órgão Hammond, Mini Moog, piano, violino, flauta, e sax). Além dos músicos, a banda tinha como letrista o poeta Paulinho Mastrote Machado, que assinava suas colaborações com a banda sob o pseudônimo de "Capitão Fuguete", uma vez que na época trabalhava na Editora Abril, situação essa que impedia sua vinculação com bandas de rock. A banda pode ser considerada a primeira banda a fazer rock progressivo no Brasil, uma vez que esse novo estilo que começava a dominar o cenário externo ainda era uma novidade por aqui.

Como o Brasil vivia sob um forte clima de repressão imposto pelo regime militar, a banda enfrentou sérios problemas com a censura, sofrendo patrulhamento ideológico, sendo freqüente a presença da polícia federal em seus ensaios e shows, uma vez que eram considerados um grupo de postura contestatória e subversiva. A barra começou a pesar cada vez mais. A primeira apresentação da banda aconteceu no show organizado pela TV Bandeirantes, seguindo-se a esse participações no "Kohoutek Festival" em 1973.No mesmo ano, a banda grava em apenas sete dias o lendário álbum Snegs, considerado por muitos como sendo o melhor disco de rock progressivo já lançado por uma banda brasileira.

Tudo isso se deve ao altíssimo nível técnico dos músicos, bem como pelas belíssimas e complexas composições, aliadas às letras ao mesmo tempo poéticas e densas, de conteúdo filosófico, existencialista e contestatório, convidando as pessoas a pensar e se rebelar contra a repressão política e a alienação mental impostas pelo governo e pela mídia. O disco contém verdadeiros hinos, como "Sinal da Paranóia", "Bicho do mato", "Snegs de Biufrais" e "Massavilha", soando de maneira geral como um encontro do Emerson Lake & Palmer com Clube da Esquina. Após o lançamento de Snegs em 1974, a banda é convidada a abrir os shows da primeira grande turnê internacional a passar pelo Brasil: Alice Cooper.

Os shows da banda são tão impactantes que era comum ouvir gritos para que a banda voltasse ao palco durante todo o show de Alice Cooper! Apesar de todas essas coisas boas rolando, no ano seguinte o tecladista Manito resolve sair, indo substituir Arnaldo Batista nos Mutantes, mas acaba permanecendo pouco tempo com eles. A banda prossegue, sendo que, no ano de 1976 lançam o disco Sábado/Domingo, que tem o lado A voltado para black music, e no B sua sonoridade característica, devido a pressões da gravadora. Apesar dessa concessão, podemos ver que a banda mostra uma competência ímpar até mesmo quando é obrigada a tocar um estilo completamente diferente do progressivo que a consagrara.

Logo após do lançamento de um compacto com as músicas "Black Rio" e "Identificação", a banda se separa em 1977. Após anos tocando com vários artistas brasileiros de renome, os músicos do SNCD voltam a se reunir em 1994 para uma série de shows comemorativos. Pouco tempo depois vem a falecer o baterista Pedrinho.

Made in Brazil - Deus Salva... O Rock Alívia [1985]



Por Fábio Cavalcanti

Em 1985, o hard rock dominava o cenário musical mundial. O "Made" aproveitou a onda e lançou seu álbum mais pesado: "Deus Salva... O Rock Alívia". A produção é absurdamente crua - ao ponto de trazer alguns momentos de "clipping" -, mas o resultado final é um "crocante" disco de rock "com atitude", daqueles que podem satisfazer as necessidades de qualquer pessoa que aprecie uma música sem frescuras.

Raul Seixas - Krig-Ha Bandolo! [1973]




Por Carlos Roberto Merigo Filho
Publicado originalmente em 7 de julho de 2000 no Whiplash

No ano de 1966, aquele que seria chamado mais tarde de maluco beleza, Raul Seixas, já era conhecido na Bahia com a sua banda Raulzito e Os Panteras. Fizeram diversas apresentações, incluindo uma no Festival da Juventude no cine Roma, onde foram obrigados a voltar ao palco mais cinco vezes, de tão aplaudidos. Nessa época ele conhece a americana Edith Wisner, filha de um pastor, pára de tocar e volta aos estudos. Raul passa entre os primeiros colocados da Faculdade de Direito e declara: “Viu como é fácil ser burro?”

Casa-se com Edith, e depois de muita insistência de Jerry Adriani, volta a tocar com os Panteras. Mudam-se para o Rio de Janeiro, onde em 1968 gravam o primeiro disco, agora chamado de Raulzito e Seus Panteras. O álbum foi um fracasso total, a banda se dissolve e Raul volta pra Salvador.

Em 1970, Jerry Adriani apresenta Raul ao diretor da gravadora CBS, que o convida para ser produtor de discos. Raul aceita e passa a produzir para diversos artistas. Em 1971, ele produz e participa do seu primeiro disco de maior expressão “Grã-Ordem Kavernista Apresenta Sessão das Dez”. Porém, só em 1972 no Festival Internacional da Canção, todo o Brasil conheceria Raul Seixas através do rock-baião “Let Me Sing”. Raul e sua banda, embora sem crédito, interpretaram inteiramente o LP “Os 24 Maiores Sucessos da Era do Rock” em 1973.

Era chegada a hora de partir para seu primeiro trabalho solo, o álbum “Krig-Ha Bandolo!” pela Phiplips/Polygram. E se o produtor Raul Seixas aprendeu sua profissão no estúdio, o jovem Raulzito foi desde cedo emérito rato de livraria, lendo de tudo, desde gibis a livros de filosofia. Nesse disco Raul já conta com a parceria de Paulo Coelho na maioria das canções.

Raul começaria então, a destilar todo seu veneno, ironia e humor ácido contra a sociedade vigente e aos valores impostos por ela. Na primeira música do disco “Mosca Na Sopa”, Raulzito já mostra que cutucaria essa sociedade por muito tempo ainda e que não adiantaria dedetizá-lo, pois nem assim poderiam extermina-lo. Canção essa que mistura dois elementos musicais, começando solenemente com o som de batucadas, berimbau e palmas de rodas de capoeira chegando até ao ritmo contagiante do Rock ‘n Roll. Era Raul, começando a perturbar o nosso sono.

Segunda faixa, “Metamorfose Ambulante” nasceu já clássica, se tornando pouco tempo depois um sucesso estrondoso. Nela Raul mostra todas as suas faces, o Raul Guru, o Raul Raulzito, o Raul Maluco Beleza e sobretudo o que nem ele sabia o que era. Define perfeitamente a consciência humana, mostrando que não sabemos o que somos e que amanhã seremos completamente diferentes. Um ode ao livre pensamento e à necessidade de reconsiderar conceitos e opiniões. Uma das mais importantes canções do cânone raulseixista.

Como de costume, Raul adorava modificar as letras de suas músicas durante os shows. Em um show em São Paulo, 1983, Raul alterou a letra de “Metamorfose Ambulante” da seguinte forma: “Eu prefiro ser essa metamorfose ambulante, do que ter aquela podre velha opinião formada sobre tudo, formada sobre toda essa babaquice que esta ai existindo e parando sobre nossas cabeças, essa lama que a gente engole e não faz nada, mas esse caos de gente é o sinal de que algo esta pra acontecer.” Que se concluiu numa performance arrebatadora.

Nesse mundo de sobe e desce, altos e baixos, “Dentadura Postiça” define o que entra e o que sai.

“As Minas do Rei Salomão”, onde o real e o falso se encontram quando o princípio encontra o fim. É pensar na relatividade da importância dos fatos e dos objetos pra quem se esqueceu do passado e se perdeu no presente.

Violão e clima espacial abrem e percorrem “A Hora Do Trem Passar”, onde Raul pergunta se é hora de partir ou hora de chegar. Aliás tudo passa, e já que vai passar porque não esperarmos e admirarmos a solidão do amanhecer?

Rock ‘n Roll rasgado e puro em “Al Capone”, que junta Hendrix, Frank Sinatra, Júlio César, Al Capone e Jesus Cristo na imortal frase de Bob Dylan: “Não existe sucesso como o fracasso e o fracasso não é sucesso algum”.

Gravada no estúdio da CBS, Raul canta em inglês e diz ter escrito para Elvis Presley a canção “How Could I Know”, sétima do disco.

Em “Rockixe”, Raulzito canta a mediocridade e o ridículo do “way of life” comandado pela indústria capitalista, mesmo que se encontre na esquina da falência ele diz: “O que eu quero eu vou conseguir!”

Cachorro-Urubu afirma que “aquilo que aconteceu na França sempre vai se repetir, essa mesma briga por um cigarro de palha”, sempre brigando pelo básico necessário. Uma alusão aos movimentos estudantis que tomaram a França em 1968.

Pra fechar este grande álbum, um dos maiores sucessos da década de 70 no Brasil, que se tornou um clássico absoluto da música brasileira. Para promover o disco, Raul circulava pelas ruas da cidade com o violão na mão cantando “Ouro de Tolo”, que é um tapa na cara dos valores do ser mediano, mostrando toda a mediocridade do ser humano.

"É você se olhar no espelho se sentir um grandissíssimo idiota, saber que é humano, ridículo, limitado, e que só usa dez por cento de sua cabeça animal. E você ainda acredita que é um doutor, padre ou policial que está contribuindo com sua parte para o nosso belo quadro social."

Raul nos mostra que o mundo vai além disso que pensamos, que podemos mudar nosso destino já que “existem mais coisas entre o céu do que supõe nossa vã filosofia”. Pensamento esse, mostrado claramente no final da canção: “Eu que não me sento no trono de um apartamento com a boca escancarada, cheia de dentes, esperando a morte chegar. Porque longe das cercas embandeiradas que separam quintais, no cume calmo do meu olho que vê assenta a sombra sonora de um disco voador”

Esse era apenas o trabalho inicial da carreira solo de Raul Seixas, onde ele já mostra as suas armas, suas doses de luta contra o conformismo, porque como ele mesmo diria: “Um microfone nas mãos é uma grande arma se usado com sabedoria!”

Guilherme Lamounier [1973]

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Por Ricardo Schott em Discoteca Básica

O compositor carioca Guilherme Lamounier é um nome tão pouco lembrado que nem teve tempo de se tornar uma "lenda" - raras vezes seu nome foi mencionado em revistas de música e o disco em questão seria bem pouco citado, apesar de ser uma obra-prima do pop nacional. Seus maiores sucessos, "Enrosca" e "Seu melhor amigo", foram eternizados por um cantor cujo nome já afasta fâs de pop-rock: Fábio Jr. ("Enrosca" também foi gravado por... bem... Sandy & Junior). Seu papel durante os anos 70 acabou restrito, em vários momentos, aos bastidores - ele compôs outras inúmeras canções, numa linha que trafegava entre o rock, a MPB e a soul music nativa, que acabariam gravadas por Zizi Possi, Rosa Maria, Roupa Nova, Frenéticas, Jane Duboc e outros. Também responsabilizou-se por vários temas de novelas globais, além de trabalhar ao lado da dupla Robson Jorge & Lincoln Olivetti em várias empreitadas.

Guilherme vinha de família de músicos: o avô, Gastão Lamounier, era compositor e o primo, Gastão Lamounier Junior, também tornou-se compositor e músico, trabalhando com Erasmo Carlos, Banda Black Rio, grupo Karma e vários outros ("Tem que ser agora", gravada por Pedro Mariano em 2000, é de Gastão e Luiz Mendes Junior). Outro primo famoso era Ricardo Lamounier, DJ da boate setentista New York City Discothéque. Antes de Guilherme Lamounier, Guilherme já havia gravado um outro disco, hoje também obscuro, pela Odeon - lançado em 1970 com produção de Carlos Imperial e participação de Dom Salvador e Maestro Cipó, o disco é definido por um site de venda de discos raros como "uma versão crua e rude de Wilson Simonal", contendo "funks pesados" como "Cristina" e "A casa onde ela mora". O álbum de 1973, um dos raros discos nacionais lançados pelo selo Atco, da WEA - que era representada no Brasil pela Continental, durante os anos 70 - pode ser definido como um feliz encontro entre folk, pop, rock (pesado em alguns momentos) e o acento soul que marcaria praticamente tudo feito por Guilherme. Era uma coleção de 10 belas melodias que, ouvidas hoje, dão pena por quase não terem freqüentado as rádios. De lá para cá, este disco jamais seria reeditado.

Guilherme Lamounier foi fruto de uma parceria entre o cantor e Tibério Gaspar, que assinou as letras de todas as músicas - as fotos do encarte, sempre trazendo a dupla, dão a entender que Tibério, mais conhecido por suas parcerias com Antonio Adolfo ("Sá Marina", "Juliana") foi fundamental para o desenvolvimento do álbum. Tocado ao violão e ao piano, com discretas guitarras, o disco abria com uma balada quase Beatle, "Mini-Neila". A melodia, de matar Noel Gallagher de inveja, era acentuada pelo belo arranjo de cordas - creditado, no encarte, a um tal de Luiz Claudio - e completada por um belo refrão, um dos melhores do disco. Depois vinha o som folk e viajante de "GB em alto relevo", uma melodia cheia de surpresas e de acordes escondidos, que mostram a excelência de Lamounier como artesão pop. "Patrícia", outra balada folk, entra no álbum lembrando Lô Borges e traz uma letra cheia de imagens fortes, sexuais. "Os telhados do mundo" é quase progressiva, trazendo percussão, efeitos sonoros, guitarras, órgão e uma letra psicodélica, libertária ("não me interessa saber o que vocês pensam de mim por aí/só interessa saber quem sou ou o que não sou por aqui"). Todas as letras do álbum oscilavam entre o romantismo e uma espécie temática jovem dos anos 70, com imagens de teor quase hippie.

Bem distante do tal "Wilson Simonal cru" do primeiro disco, Guilherme cantava de uma forma quase black, alternando tons rockeiros com vocais roucos e gritados, lembrando por vezes uma versão carioca de Arnaldo Baptista (com quem até se parecia fisicamente). Esse modo de cantar aparecia em músicas como "Freedom", soul acústico pesadíssimo, com linhas de baixo vigorosas e um forte trabalho de metais, quase lembrando uma trilha de filme. Ou mesmo em "Cabeça feita", hard rock doidaralhaço que, dois anos depois, seria gravado pelo grupo carioca O Peso - e que fechava o disco com guitarras na cara do ouvinte e uma letra bandeirosa e libertária. O disco ainda trazia baladas com um pé no soul, como "Capitão de papel" (cuja letra, bem anos 70, citava personagens de histórias em quadrinhos) e a belíssima "Amanhã não sei", conduzida por violão, piano e órgão Hammond e explodindo em um forte arranjo de cordas no final. Completando, ainda havia a curiosa "Será que eu pus um grilo na sua cabeça?" - balada hippie com letra bucólica e romântica, que não citava em momento algum o longo nome da música - e a balada hard "Passam anos, passam anas", seis minutos de fazer os Black Crowes roerem os cotovelos de inveja (a música até lembra um pouco "Descending", do Amorica).
Na época de Guilherme Lamounier, o cantor já colaborava com músicas para trilhas de novelas - ele já havia gravado, na onda dos cantores brazucas que pagavam de inglês, o tema "What greater gift could there be" para a novela global O homem que deve morrer. Continuou assinando outros temas, como a disco-track sacana "Requebra que eu curto" (O pulo do gato, 1978) e até mesmo "Enrosca", cuja versão original era um pop-rock pesadinho (da novela Locomotivas, 1977). Guilherme também escreveu músicas para filmes dos anos 70, como a pornochanchada Cada um dá o que tem (de Carlo Mossy). Sua carreira discográfica é que permaneceu no pára-e-anda por um belo tempo. Ainda na Continental, Guilherme lançou um single com "Vai atrás da vida (que ela te espera)" e deu uma sumida, lançando apenas outros compactos. Em 1978 sairia outro Guilherme Lamounier, desta vez pela Som Livre - revelando "Serenatas perfumadas com jasmin", da trilha de Pecado rasgado.

De lá para cá, pouco se ouviria falar de Lamounier - a não ser por uma ou outra regravação. Seu ultimo disco sairia em 1983, um single com a zoada "Eu gosto é de fazer o que ela gosta". Pouco se sabe sobre a vida de Guilherme hoje, o que ele anda fazendo e se ainda trabalha - pesquisando na internet, é impossível achar informações sobre a vida dele e até mesmo o site Cliquemusic, que possui um bom material para pesquisa sobre MPB, não tem um verbete com o nome do cantor. As fofocas e boatos sobre a vida de Lamounier se acumulam até entre alguns de seus antigos amigos, já que não há muita informação. E Guilherme Lamounier permanece inédito em CD, mesmo com os vários projetos que a WEA vem fazendo para reeditar discos do catálogo da gravadora Continental. Para quem quiser conhecer o álbum, há cópias em CD-R rolando por aí.

domingo, 9 de setembro de 2012

Engenheiros do Hawaii - A Revolta dos Dândis [1987]



Em 11 de janeiro de 1985 os Engenheiros do Hawaii faziam seu primeiro show, começando sua trajetória de sucesso. Segundo disco da carreira dos Eng Haw, A Revolta dos Dândis foi lançado em 1987 e registra a banda em um momento de mudança: a sonoridade passa a lembrar menos o SKA do que seu antecessor (Longe Demais das Capitais de 1986); Augusto Licks substituia Marcelo Pitz enquanto Humberto Gessinger dedicava-se ao baixo; Foi o marco inicial da trilogia ‘Cores da bandeira do Rio Grande’ e também da identificação com as engrenagens, marca registrada da banda a partir de então.

A abertura do disco ficou por conta de A Revolta dos Dândis I que era seguida por Terra de Gigantes cujo clipe ficou bastante conhecido. Ela inicialmente não tinha bateria (fato que preocupava a gravadora pois fatalmente não tocaria nas rádios apesar de seu potencial para fazer sucesso) recebeu uma curtíssima virada de bateria – provavelmente a mais breve na história da música e teve sua letra retirada do encarte do disco em uma espécie de “autosabotagem” do grupo.

Confirmando a excentricidade que marcaria o álbum, Infinita Highway com seis minutos, apesar de extensa para os padrões radiofônicos, tinha alguns trechos que haviam sido escritos ainda na adolescência de Gessinger e tornou-se definitivamente o hino da banda.

Refrão de Bolero é uma balada frequente ainda hoje nos sets acústicos da banda e faz com que os músicos sejam frequentemente questionados a respeito de “Quem é Ana?”. O lado A do LP encerrava com a interessante Filmes de Guerra, Canções de Amor que sobreviveu ao tempo e batizou o álbum desplugado de 1993.

O lado B reservava uma sonoridade mais sombria, começando com A revolta dos Dândis II, passando para Além dos Outdoors. Na sequência a arrastada e excelente Vozes contrastava com a veloz Quem tem pressa não se interessa, uma referência ao livro O Ser e O Nada de Jean-Paul Sartre. Por fim a balada rock, Desde Aquele Dia e Guardas da Fronteira (com participação de Julio Reny) encerram o álbum.

Na reunião de apresentação do disco a impressão dos executivos foi “Esse disco é um Boeing com tanque cheio. Poder ir longe… Se não explodir na decolagem”. Bom, o que explodiu foi a carreira da banda – e no bom sentido.

quinta-feira, 6 de setembro de 2012

Quaterna Réquiem - Velha Gravura [1992]



Por Marco

Gravado em 1990 e lançado dois anos depois, “Velha gravura” foi o primeiro álbum do Quaterna Réquiem, uma banda do Rio de Janeiro, liderada por Elisa Wiermann e Cláudio Dantas. Neste disco, completamente instrumental, predominam o teclado de Elisa e violino de Kleber Vogel, num estilo próximo a Camel e ELP. Os destaques, na minha opinião, vão para “Ramoniana”, em que há uma bela flauta, tocada por Roberto Meyer, e a faixa-título, com um solo melancólico de Kleber. Depois desse álbum, Kleber saiu da banda, o que foi uma perda considerável. Apesar de bom, o disco seguinte, “Quasímodo”, não chega aos pés deste aqui. Felizmente, parece que Kléber voltou à banda e, portanto, podemos esperar mais uma obra-prima para o próximo álbum. Considero este disco uma das obras-primas do progressivo nacional e recomendo a todos. Como curiosidade, a capa, belíssima, foi desenhada pelo baterista Cláudio Dantas.
Formação para Velha Gravura:
Elisa Wiermann - piano, teclados
Kleber Vogel - violino
Jones Júnior - guitarra, violão
Marco Lauria - baixo
Cláudio Dantas - bateria, percussão
Adauto Vilarinho - oboé
Roberto Meyer - flauta

sábado, 1 de setembro de 2012

Arnaldo Baptista - Loki? [1974]




Fernando Naporano
publicado originalmente na revista Bizz, edição 43, de fevereiro de 1989


No pop brasileiro, são raros os que driblaram a barreira lingüística e edificaram trabalhos fundamentais. Em meio às síndromes progressivas, à invasão da Nordésia e do "rockão pauleira", no início de 74, o LP em questão surgiu não apenas como antídoto a essas tendências, mas também como uma obra única e radical do rock brasileiro.

Gravado em terríveis condições emocionais - Arnaldo havia perdido Rita Lee para sempre -, após sua saída dos Mutantes, o disco conta, além da participação de três ex-integrantes (o baterista Dinho, o baixista Liminha e Rita nos backing-vocals), com arranjos de Rogério Duprat. A gravação feita às pressas proporcionou um punch inigualável e, dado seu estado emocional, Loki? acabou por ser o maior tratado existencial do rock brasileiro, algo digno do desespero suicida da nouvelle vague, da dolorosa raiva incontida dos angry young men ingleses e de poetas visionários que enxergaram o lado obscuro da realidade. 

Arnaldo demonstrou o que significa amar até perder o nome, buscar os paraísos artificiais a partir da desintegração da alma e percorrer os porões proibidos dos sentimentos, dando vazão aos abismos da vida e anunciando esboços da morte tateada, ainda que não consumada. Nessas antevisões, ele já parecia estar ciente das amargas metamorfoses que delineariam seu destino tatuado por uma tentativa de suicídio em 1980, após ter criado a alucinada Patrulha do Espaço. 

Se, textualmente, provou genialidade, em nível musical nada deixou a dever; ou seja, a partir de sua voz arrancada do âmago e de um sensível piano de concepção clássica, ele percorre o tecido rock com eclética maestria, indo das mais tristes baladas até progressive rocks, passando por tons de bossa, jazz, funk e blues. 

A primeira faixa do LP, a linda rock'n'roll ballad "Será Que Eu Vou Virar Bolor?", usando o título como mote, traça ironicamente um paralelo entre o futuro de seu amor e o do rock'n'roll, ambos ameaçados de extinção. A seguinte "Uma Pessoa Só", arranjada por Duprat, remonta os lindos sonhos dourados de 71/72, quando os Mutantes viviam em comunidade na Serra da Cantareira, numa trip coletiva em que era possível ser "uma pessoa só". "Não Estou Nem Aí" é uma beat-ballad pulverizada por tons bluesísticos/jazzísticos em que, sombreado pela (im)possibilidade de esquecer os "males", ele desafia a morte de forma sarcástica. Em "Vou Me Afundar na Lingerie", um bluesy-popster de primeira linha, instala a evasão absoluta do mundo real "deslanchando bem embaixo" e propondo afogar as mágoas no deslumbre da natureza e na relatividade das pequenas. A instrumental "Honky Tonky" é um delicioso mergulho ao piano. 

A segunda face traz a memorável "Cê tá Pensando Que Eu Sou Loki?", esmerado exercício bossístico que desbanca a loucura, mas não exime o prazer pelas viagens. Na baladaça "Desculpe", penetra na angústia passional, um "Jealous Guy" à brasileira, que sentindo "o pulso de todos os tempos" exige o amor a qualquer custo. Na fragmentada "Navegar de Novo", desvenda sua particular "passagem das horas" e as dimensões (im)possíveis do tempo. "Te Amo, Podes Crer", uma balada de amour fou, encarna o pranto de um abandonado que revela: "Dentro de algum tempo eu paro de tocar/espero o apocalipse de então eu te encontrar", um verso que resumiria profeticamente seu futuro. Fechando, a folk-psicodélica "É Fácil", microssíntese do amor absoluto. 

Se hoje sua obra é mítica, saiba que Arnaldo pagou muito caro por toda essa paixão levada às últimas conseqüências. "Já leu todos os livros" e sabe que "a carne é triste". 

Fernando Motta e Domingos Mariotti - Reunião [2011]

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No inicio de 2007 Fernando Motta e Domingos Mariotti iniciaram as gravações de um CD com suas composições; para isso convidaram seus amigos que tocaram juntos na banda Recordando o Vale das Maçãs, por isso, reunião. O projeto musical também conta com a participação de Fernando Pacheco (violões), Luiz Aranha (violino), Ronaldo Mesquita (baixo), Sergio Lombardi (baixo), Paulo Motta (violão), Lee Eliseu (teclados) e Juca Schmidt (palmas). As flautas de Mariotti e as guitarras de Motta conduzem todo o trabalho.

Depois de quatro anos de muita dedicação e cuidados com arranjos e detalhes de timbres de cada instrumento está aí como resultado o CD Reunião, com influências do rock progressivo, jazz, new age, e folclore, entre outros estilos.

Fernando Motta, Domingos Mariotti e o guitarrista Fernando Pacheco fundaram em 1973, em Santos, a banda de rock progressivo Recordando o Vale das Maçãs, que encontra-se em atividade até hoje. Mariotti deixou a banda logo nos seus primeiros anos e Motta no inicio dos anos 1980.

O Duo Fernando Motta e Domingos Mariotti surgiu no inicio dos anos 1990 e ainda chegou a participar algumas apresentações e gravações do Recordando o Vale das Maçãs. Seguiu compondo novos temas, montando novos arranjos, criando um estilo próprio e dando vida ao seu primeiro trabalho, o CD Reunião.