segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

Project46 - Doa A Quem Doer [2011]



Por Ricardo Seelig


O crescente número de bandas cantando heavy metal em português pode não ser ainda uma tendência, mas é uma ótima notícia. Se, por um lado, a escolha em compor letras na nossa língua limita a exposição externa destes grupos, já que o idioma padrão do rock e do metal sempre foi o inglês, por outro lado há um enorme benefício: a aproximação com o público. Ao relatar em suas músicas questões do cotidiano, problemas sociais ou o que mais for, e cantando na língua que o cara que está ali na frente do palco fala e entende, estas bandas constróem uma relação muito mais profunda com o ouvinte, conquistando novos fãs não só através dos riffs e das melodias, mas também pelo que tem a dizer.


O Project 46 é um destes grupos. O quinteto teve origem em 2008, em São Paulo, e é formado por Caio MacBeserra (vocal), Jean Patton (guitarra), Vinícius Castellari (guitarra), Rafael Yamada (baixo e vocais) e Henrique Pucci (bateria). A banda lançou um EP em 2009, e agora chega ao seu primeiro disco, o ótimo "Doa a Quem Doer", produzido por Adair Daufembach (Hangar) e lançado de forma totalmente independente. Aliás, o disco está disponível também para download gratuito no site da banda.


"Doa a Quem Doer" é impressionante. Da capa às músicas, tudo é do mais alto nível. O som é uma mescla de death melódico, metalcore e deathcore, com algumas passagens mais thrash e muito peso. A produção, excelente, acertou a mão e tornou tudo ainda mais agressivo, com timbres graves e gordurentos. Com composições muito bem construídas e com dinâmicas bem interessantes, o álbum transpira violência, fúria e agressão.


As onze faixas formam um tracklist homogêneo, onde o trabalho de guitarras é o principal destaque. “Violência Gratuita” tem ótimos riffs e um solo excelente, e o mesmo pode ser dito de “Se Quiser”. Mas a melhor faixa do play é, provavelmente, “Amanhã Negro”, onde a banda acerta ao fazer uma interessante combinação entre o peso e trechos mais melódicos.


O projeto gráfico também merece destaque, com uma bela capa e o encarte em formato de poster, com todas as letras e diversas fotos da banda.


O que temos aqui é um disco muito bom, que mostra uma jovem banda dona de um talento imenso. O futuro é promissor para o Project 46, e "Doa a Quem Doer" é a prova maior disso. Eu ficarei de olho na banda, e, se fosse você, faria o mesmo!

domingo, 26 de fevereiro de 2012

Mel Azul [2011]


Mel Azul é um quarteto instrumental formado por baixo, bateria, guitarra e teclado. Misturando rock, jazz, eletrônica e funk o grupo percorre os ritmos com improviso e psicodelia com músicas que começam e terminam sem respirar.

Formada em 2009 por Antonio Carvalho, Antonio Paoliello, Gustavo Prandini e Alexandre Silveira, a banda lançou no começo do ano seu primeiro trabalho, um EP composto por cinco músicas gravadas ao vivo. Agora o conjunto se concentra na produção de seu álbum de estréia e em levar suas apresentações a diferentes lugares e públicos.

Sérgio Sampaio - Eu Quero É Botar Meu Bloco na Rua [1973]

Download 128kbps


Por Leonardo Guedes

"Quando o cantor e compositor capixaba Sérgio Sampaio morreu, em 1994, as poucas notas divulgadas na imprensa sobre o fato passaram ao grande público a sensação de que sua obra musical se resumia ao hit "Eu quero é botar meu bloco na rua", marcha-rancho-arrasta-povo que obteve destaque no VII Festival Internacional da Canção transmitido pela "Rede Globo" em 1973. Os fãs não se conformaram com o rótulo de cantor-de-um-sucesso-só e iniciaram um trabalho de preservação e divulgação de sua memória que perdura até os dias atuais. Seus poucos discos são disputadíssimos nos sebos de todo o Brasil e tem preços elevados, tamanho o grau de raridade.

Antes de por seu bloco na rua, ele já tinha passado por um momento de notoriedade: participou do polêmico (e hoje cult) "Sociedade da Grã-Ordem Kavernista apresenta Sessão das Dez", uma patuscada produzida em 1970 por seu amigo Raul Seixas na gravadora CBS. Além de Sampaio e do Maluco Beleza, também gravaram o cantor andrógino Edy Star (uma versão baiana de Ney Matogrosso) e a sambista Miriam Batucada (como o nome indica, ela era conhecida por interpretar sambas batucando com as mãos. Também faleceu em 1994). No mais, o cantor aproveitava seus trabalhos de freelancer como locutor de rádio para divulgar seus discos compactos, que tocavam muito e vendiam bem. O auge veio mesmo é com a marcha-rancho: com tom de desabafo e refrão empolgante, levantou o público presente no Maracanãzinho (Rio de Janeiro) para acompanhar o festival. Resultado: contrato com a gravadora Philips para gravar seu primeiro disco completo. O nome da obra, para atender ao apelo comercial, ficou sendo "Eu quero é botar meu bloco na rua".

A capa era uma bizarrice que só vendo: o nome do cantor escrito com uma fonte, digamos, sanguinária. Na parte de baixo, rolos de filme apresentando um Sérgio Sampaio fazendo as mais horripilantes caretas, dignas de provocar pesadelos durante o sono. Tudo isso remetia a segunda faixa do lado A, "Filme de terror", um rock bem suingado: "Hoje está passando um filme de terror / Na sessão das dez, um filme de terror / Tenho os olhos muito atentos / E os ouvidos bem abertos / Quem sair de casa agora / Deixe os filhos com os vizinhos". Aliás, é bom recordar que o ano de lançamento, 1973, foi o auge dos chamados e tenebrosos "Anos de chumbo" da Ditadura Militar. Malandramente, ele inseriu a atmosfera sombria do período em outras faixas, de forma bem gaiata: na tensa "Labirintos negros", num clima de suspense e música murchando no final ("Por trás dos edifícios / Da cidade moderna / Os labirintos negros / Prendem o que esperam / A condução, ou não / A confusão, ou não / A confusão, eu não"); na toada "Viajei de trem" ("O ar poluído polui ao lado / A cama, a dispensa e o corredor / Sentados e sérios em volta da mesa / A grande família e o dia que passou / Viajei de trem, eu viajei de trem") e na debochada "Não tenha medo, não (Rua Moreira, 65)" ("Suje os pés na lama / E venha conversar comigo / Comigo / Chore, esqueça o drama e venha aliviar / O amigo / Vem, não tenha medo / Não tenha medo, não / A barra está pesada / Vem, não tenha medo / A barra pode aliviar").

Também houve deboche em outras duas composições: "Lero e leros e boleros", na qual espinafra a nascente indústria cultural de massa ("Leros e leros / Tudo enche meus ouvidos / Por que tanta gente rindo / No filme que eu vi?") e no samba "Odete", onde desanca uma hipotética desafeta amorosa, com direito à citação de "Que maravilha", de Jorge Ben, no refrão final ("Você é mesmo carne de pescoço / Você é burra como não sei o quê / Eu rôo um osso desde um tempo antigo / Desde um tempo lindo / Ao conhecer você... Por entre bancários, automóveis / Que maravilha").

Passional, Sérgio Sampaio também fazia desabafos. Expôs seu desejo de ter uma música gravada por seu conterrâneo Roberto Carlos em "Eu sou aquele que disse", citando uma referência tropicalista (Caetano Veloso): "Cante, converse comigo / Antes que eu cresça e apareça / Mesmo eu não estando em perigo / Quero que você me aqueça / Neste inverno, ou não / Neste inferno, ou não". Com relação ao Rei, Sampaio levou a frustração para o resto da vida. Afeito às raízes familiares, parecia dialogar com o pai em "Pobre meu pai" ("Pobre meu pai / A marca no meu rosto / É do seu beijo fatal / O que eu levo no bolso / Você não sabe mais / E eu posso dormir tranqüilo / Amanhã, quem sabe?") e com a mãe em "Dona Maria de Lourdes" ("O auditório aplaudiu / Mas cuidado com a porta da frente / Dona Maria de Lourdes / Não espere por mim").

Gravou uma composição do pai (a quem se refere orgulhosamente como "maestro Raul Sampaio", uma vez que o citado era mesmo maestro de banda em Cachoeiro do Itapemirim, no Espírito Santo), a hilária "Cala a boca, Zebedeu". A música é baseada na história real de um marido submisso que vivia levando esbregues da esposa dominadora e acaba sendo trocado por um jogo da Seleção Brasileira: "Que mulher danada essa que eu arranjei / Ela é uma jararaca meu Deus / Com ela eu me casei... Ontem eu falando com ela ela gritou / Cala a boca Zebedeu / Não se meta comigo / Porque na minha vida quem manda sou eu".

O resumo de tudo é que "Eu quero é botar meu bloco na rua" é um disco primoroso: arranjos caprichados com instrumentistas de primeira (o próprio Sampaio no violão, Mamão e Wilson das Neves na bateria, e José Roberto Bertrami no piano), letras simpáticas e habilidade criativa. Mas vendeu pouco. O compacto que continha a faixa-título obteve mais saída. Em seguida, a saída da Philips a fama de "maldito" começando a abreviar sua carreira: temperamento pouco flexível diante das imposições de mercado, pouca estrutura para lidar com o dinheiro, boemia em excesso, drogas, álcool e o mesmo fim do amigo Raulzito Seixas, a quem dedicou-lhe gratidão na última faixa com um sambinha bem curto: "Meu nome é Raulzito Seixas / Eu vim da Bahia / Vim modificar isso aqui / Toco samba e rock, morena / Balada e baioque". Os dois morreram da mesma doença: inflamação no pâncreas.

Ficou a lembrança de um artista talentoso e autêntico, que parecia prenunciar seu destino no refrão de "Lero e leros e boleros": "Ai, meus amigos modernos / Ai, meu sorriso de adeus / Vou me fazer de eterno / No meu encontro com Deus"."


sábado, 25 de fevereiro de 2012

Made in Brazil - Made in Brazil [1974]



Por Fábio Cavalcanti

O primeiro álbum do Made in Brazil mostra um grupo que ainda está tentando moldar seu estilo, tanto a nível de sonoridade quanto a nível de produção. O interessante é que a banda conseguiu deixar bem claro, através de cada música, que todos os seus integrantes se divertiram horrores neste processo. Como resultado, este 'debut' conseguiu seu espaço entre os discos mais clássicos do rock nacional.

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012

Tianastácia - Orange 7 [2006]

Download


Lançado em 2006, "Orange 7" é o sétimo (sexto em estúdio) álbum da banda. Foi gravado de forma independente, seguindo o caminho de muitas bandas bem-sucedidas de todos estilos musicais; essa parece ser a melhor forma de mercado nesses novos tempos, pois não há pressão por parte de gravadoras. A banda surpreendeu mais uma vez, com um álbum diversificado e mais lento que os CDs anteriores - embora mescle rock'n'roll, pop rock e hard rock. São letras sobre amor e diversão, com influências de bandas americanas de hard rock dos anos 80.


terça-feira, 21 de fevereiro de 2012

O Têrço [1970]


Por Fábio Cavalcanti

A banda, formada no Rio Janeiro, ganhou seu espaço no hall do rock progressivo mundial com o ótimo álbum "Criaturas da Noite" (1974). Mas, a nível de curiosidade, vale conferir esta primeira "bolachinha", que traz um grupo ainda imaturo e indeciso quanto à sua essência musical, mas certamente bastante promissor a longo prazo...


Em "O Terço", o trio suga ao máximo do rock clássico - especialmente dos Beatles -, do folk rock e até da MPB, em faixas como "Antes de Você... Eu", "Plaxe Voador", "Imagem", "Flauta", e na curiosa "Oh! Suzana". Infelizmente, acaba pisando na bola no excesso de "breguice" das orquestradas "Longe Sem Direção" e "Velhas Histórias", além da bestinha "Yes, I Do".



Se você curte algo mais progressivo, sugiro a ótima "Saturday Dream", o momento mais ousado e diversificado do álbum. Já a curiosíssima "Nã" nos faz imaginar uma espécie de Jethro Tull rural. Destaco ainda "I Need You", um inesperado funk/soul muito legal! Parte deste suíngue também se encontra na leve e minimalista "Meia Noite".


Tão curto quanto o álbum em questão (que possui apenas 30 minutos de duração) é o meu parecer final: um trabalho razoável, recomendado para curiosos e colecionadores, e que mostra apenas que o melhor do Terço ainda estava por vir...

Formação para esse álbum:

Sérgio Hinds - voz, guitarra
Jorge Amiden - baixo
Vinícius Cantuária - bateria


Dois detalhes interessantes. O primeiro é que o nome da banda nesse álbum (o primeiro da banda) era O Têrço como acento circunflexo, ganhando a nova grafia a partir do próximo álbum. O segundo foi que tão logo o álbum foi lançado, Flávio Venturini ingressou na banda assumindo os teclados.

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2012

Vlad V - O Quinto Sol [1999]



O Quinto Sol resgata o rock progressivo com um toque de blues e MPB. As letras foram elaboradas visando à simplicidade para valorizar o diferencial de instrumentos como banjo, bandolim, flautas, harmônicas e acordeon. No dizer da banda, o disco é mais reflexivo “e foge ao padrão viagem para seguir com os pés no chão”, descreve o vocalista Jean. Além dele, a banda tem Doriga (teclados), Claudio (baixo) e Flavio (bateria)

Formação para esse álbum:

Jean Carlo - voz, guitarra, violões, banjo, bandolin, harmônica e flautas
Doriga - teclados, acordeon e vocais
Claudio Reif - baixo
Flavio Theilacker - bateria

Montanha - Luz Solar Decifra [2010]



Banda de rock que aposta no trabalho autoral cantado em português. Montanha teve seu primeiro compacto, chamado Underground, lançado em vinil, em 1992

Após um hiato, a banda volta à cena já reformulada. Veio então o primeiro disco oficial, batizado Montanha. Foi lançado em CD com 14 músicas. Com todas as cópias vendidas, o álbum teve boa aceitação pela mídia especializada no Brasil, e também em alguns veículos no exterior.

A banda, que prima pela energia no palco, dá ênfase à parte literária de suas canções. Além da espiritualidade, as letras têm como tema as antigas civilizações, realismo mágico e social, esses influenciados por escritores como Gabriel García Marquez e Pablo Neruda.

Luz Solar Decifra é o novo trabalho da banda andreense Montanha.

O lançamento oficial do álbum aconteceu no dia 12 de março de 2010 no teatro do Sesc Santo André, a convite do próprio Sesc.

Com nove canções, todas autorais, o Montanha prima por letras conceituais com temas que tratam de antigas civilizações, realismo mágico e social. 

Prestam sua homenagem ao escritor Gabriel Garcia Marques na canção Macondo. Mostram toda a sua bagagem musical com a canção Depois do Temporal, arranjada com violões de 6 e 12 cordas. 

Luz Solar Decifra é energia pura, feito para ser escutado em alto e bom som. 

O álbum foi gravado entre 2009 e 2010 e teve produção feita pelo Montanha. 


Montanha é:
Marcelo Fortunato: Vozes e bateria e percussão.
Jean Gantinis: guitarra base/solo e violões de 6 e 12 cordas.
Vinícius Castelli: guitarra base/solo e violão de 6 cordas.
João Leite: contrabaixo.

Pão Com Manteiga - Pão Com Manteiga [1976]

Download

Por Fabio S. Thibes


Banda paulista dos anos 70, a Pão com Manteiga fez um único disco conceitual e altamente metafísico. Tendo como base acústica o rock progressivo, e base vocal o rock psicodélico, fizeram uma das melhores hibridações dos gêneros de todos os tempos para mim.

O início do disco, altamente medieval - até por conta dos inúmeros personagens da época cantados, como Merlin, Cavaleiro Lancelot, etc - traz uma ilusão de um disco que será estático em canções estranhas de letras aparentemente bobas.

A um ouvinte desatento, obras-primas passam despercebidas, como 'Micróbio do Universo', quarta faixa e que começa a revelar vários quês a mais neste Pão com Manteiga.

A revelação vem com 'Montanha Púrpura', primeira faixa instrumental do disco - maravilhosa! E a partir de então o conceito se estabelece.

A passagem do pensamento místico, medieval para um científico, tecnocrático (ou talvez a grande metáfora do geocentrismo e antropocentrismo) torna-se o objeto do disco, que passa desde viagens intergaláticas à matas encantadas, mas que como toda evolução dá dicas do que virá.

'Cavaleiro Lancelot' parece dizer muito. A faixa que traz no título um personagem mito-histórico faz, a meu ver, uma enorme ponte dos campos abertos em que corria o cavalo de Lancelot, com os foguetes espaciais que irrompiam os céus e tinham chegado a pouco na Lua.

Trecho de Cavaleiro Lancelot:

o corpo metálico
a mente com ácido cítrico
o sangue azul do céu
viajando a trinta mil quilometros por segundo
viajando a trinta mil quilometros por segundo
pra chegar no lugar que está do lado oposto do Sol

'A Feiticeira' queria roubar o amor alheio, '... mas os tempos mudaram, só ela não viu...'. E como posfácio terrível, revela-se o trágico fim dessa sociedade que saiu de tempos metafísicos para outro inorgânico. A fuga do planeta transformou este homem, que viu sua própria inteligência lhe ser fatal - como canta a banda em 'Fugindo do Planeta', penúltima faixa.

E pra encerrar, há de ter um recomeço, uma descoberta, um novo início. E a direção está dada: a 'Virgem de Andrômeda'. Instrumental emocionante.

Nasi terá documentário sobre sua carreira e biografia em 2012

Novidade para 2012 é o lançamento de um documentário independente sobre a carreira e a vida pessoal de Nasi. Um grupo de produtores tem acompanhado sua rotina para transformá-la em filme. O documentário será lançado em julho paralelamente a sua biografia, escrita pelo jornalista Mauro Beting e publicada pela editora Belas Artes.

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012

terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

Fábio - Lindo Sonho Delirante [1968]


Lindo Sonho Delirante (LSD)



Por Fernando Rosa

Mais conhecido pela gravação do hit ‘Estela’ no início dos anos setenta, o cantor Fábio estreou em disco completamente na contramão da então praticamente extinta Jovem Guarda, e sintonizando com os novos tempos.

Em 1968, ele lançou um polêmico compacto, contendo as músicas ‘LSD (Lindo Sonho Delirante)’, dele e Carlos Imperial, e ‘O Reloginho’. Um funk bem marcado, ‘LSD’ é capaz de ainda hoje sacudir as pistas de dança.

A segunda música não tinha nada demais, o que não se pode dizer do lado ‘A’ do compacto. Além de um ritmo literalmente alucinante, a música trazia a provocação explícita na letra.

A capa do compacto também não deixava dúvidas sobre a sugestiva letra, estampando em letras garrafais, sob um fundo vermelho, acima da foto do cantor, a palavra "LSD", sublinhada com "Lindos Sonhos Delirantes".

Hoje uma das peças mais raras da história secreta do rock brasileiro, o compacto não fez sucesso, mas ajudou a abrir caminho para o ex-Juancito, nome adotado no início da carreira, em meados dos anos sessenta.

No início dos anos setenta, Fábio gravou um LP com participação de integrantes dos grupos A Bolha e O Terço e outros músicos. Na época, o disco foi bem recebido pela revista Rolling Stone, que publicou entrevista com o cantor.

O Fabuloso Fittipaldi [1973]



Composta por Marcos Valle e Paulo Sérgio Valle e executada pela banda Azymuth. Belíssima trilha.

01 - Fittipaldi Show
02 - Tema de Maria Helena
03 - Vitória
04 - Rindt
05 - Acidente
06 - Vinheta I
07 - Vinheta II
08 - Azimuth (Mil Milhas)
09 - Tema de Maria Helena
10 - Virabrequim


Entrevista com Mario Testoni Filho (Casa das Máquinas), 19/01/2012

Publicado originalmente em 19 de janeiro de 2012 no blog Louco Motor


Louco Motor - Primeiramente, agradeço a colaboração com o blog em disponibilizar seu tempo para esta entrevista. Enfim, O Casa das Máquinas surgiu lá no começo dos anos 70 com um som revolucionário para o rock brasileiro, pegando as melhores influências da época. Há pouco tempo a banda fez uma pausa para voltar com todo o gás em 2010 e com o ânimo renovado. Sem dúvida é uma alegria para todos nós, mas como é voltar a tocar sempre com essa vontade após tantos anos de estrada?

Mario Testoni Filho - Bem, primeiro é uma grande satisfação poder estar tocando e sendo aceito pelo público com um repertório que fez sucesso na década de 70, segundo que quando se faz aquilo o que gostamos, amamos, curtimos de verdade, sempre vai parecer que estamos no "início de novo".

Louco Motor - O Casa sempre teve um grande rodízio de músicos, todos de altíssima qualidade. Eu tive o prazer de ver um show de vocês no SESC de São Carlos e fiquei espantado com o novo vocalista, que deixou as músicas ainda mais vibrantes. Como foi a escolha dessa nova formação e ela continua assim em 2012?

Mario Testoni Filho - Apesar de ter tido algumas mudanças, os músicos que andaram pelo Casa sempre foram altamente profissionais, a escolha do João Luiz, atual cantor do Casa, se deu por uma indicação do Marinho Thomaz, baterista do Casa, o Fábio e o Leonardo foram os últimos a ingressar nessa nova formação que deve continuar sim, não só em 2012, mas, se Deus quiser, por vários anos.

Louco Motor- Ainda falando sobre os integrantes. Como já foi dito, muitos músicos passaram pela banda, assim como aconteceu e acontece em diversas bandas nacionais. Vocês acham que a troca constante de integrantes atrapalha o trabalho dos grupos?

Mario Testoni Filho - Bom, no Casa as mudanças não foram tantas, tivemos alguns experimentos para conseguir chegar nessa que é a formação atual do Casa, mas acho que se é preciso haver mudanças, porque não?

Louco Motor - Bom, não é novidade que o rock n roll no Brasil não é o estilo mais popular comentado na mídia e algumas vertentes, como o Hard Rock, por exemplo, continuam na mesma situação, senão piores, tendo que disputar espaço com bandas que só tocam cover e etc. Na visão de vocês, desde os anos 70, qual é o balanço do rock no nosso país? As bandas tem espaço garantido, como é?

Mario Testoni Filho - Na verdade sempre foi muito difícil, mas o engraçado é que mesmo sendo difícil sempre houve espaço para o Rock, principalmente o de qualidade, o exemplo vivo, sem puxar o próprio saco, é o Casa, que mesmo sem estar na mídia há muitos anos, consegue arrastar um público cada vez maior e mais jovem.

Louco Motor - Uma crítica constante dos músicos está relacionada ao público. Na opinião de vocês, existe desinteresse por falta de quem curte rock ou o problema é outro?

Mario Testoni Filho - O desinteresse não é daquele que curte Rock, mas sim de todos, é impressionante a falta de cultura que vivemos, apesar de termos músicas de péssima qualidade tanto na letra como na melodia e harmonia, temos hoje em dia uma NET (internet*) que faz você conhecer de tudo, não acredito que quem ouve e gosta dessas "músicas", tem conhecimento de outras. Falta vontade de pesquisa, conhecimento, cultura, e isso não é culpa só do público, mas sim das redes de divulgação, GLOBO, BANDEIRANTES, RECORD, SBT, etc. E até do próprio governo, afinal é mais fácil doutrinar um povo que não pensa, que não pesquisa, não corre atrás de novidades, mesmo que sejam de anos atrás.

Louco Motor - Como vocês veem a relação das bandas e músicos com a internet? Não dá para fugir dela, mas ainda assim muita gente insiste em “bater de frente”.

Mario Testoni Filho - Eu acho muito proveitoso, acabo de me formar em regência e composição, e tive uma matéria que se baseava em pesquisas no Youtube, desde músicas da Grécia antiga até as mais atuais. Não tenho nenhum problema em disponibilizar as músicas que pretendemos gravar na NET (*).


Louco Motor - Quais os lugares do Brasil em que o Casa das Máquinas é melhor recebido? E como a moçada mais jovem enxerga o trabalho de vocês?

Mario Testoni Filho - Temos uma grande aceitação do Rio de Janeiro para o Sul do país, inclusive cidades do interior desses Estados. Fico surpreso com a quantidade de jovens que vão aos Shows e cantam todas as músicas, as vezes sabendo as letras melhor que eu mesmo (rssss). Isso mostra que devemos continuar, e o mais breve possível apresentar pra essa galera músicas inéditas.

Louco Motor - Agora, voltando a falar da nova fase de vocês. O que a gente pode esperar daqui para frente? novos trabalhos? Turnês pelo Brasil? Afinal, 2012 acaba o mundo (rs).

Mario Testoni Filho - É verdade, 2012 acaba o mundo para os bregas, ignorantes, incultos, etc, (rs). Como disse antes, pretendemos lançar algumas músicas inéditas, talvez um CD com um DVD, provavelmente independente, disponibilizando as músicas na NET (*) e em nosso site, e vender em Shows pelo Brasil. Continuaremos na estrada se Deus assim permitir.

Louco Motor - Bom, quero agradecer mais uma vez convidá-lo para mais participações no blog Louco Motor. Mas enfim, este espaço final é para falar de qualquer coisa, deixar um recado para o público que gosta de vocês e para todos que curtem rock no Brasil, até para os que não curtem também.

Mario Testoni Filho - Quero agradecer pelo espaço cedido para o Casa das Máquinas.

Mario Testoni Filho - Galera se vocês querem ser músicos, ou seguir qualquer outra profissão ligada as artes, lembrem-se que vocês serão os responsáveis pelo que o público irá consumir, sendo assim é de vital importância que se tenha um conhecimento sério daquilo que irão apresentar, chega de lixo nas rádios e tvs, aliás, chega de emissoras que não apresentam nada de útil, se cada um de nós se recusar em dar audiência para essas emissoras, ou elas mudam ou fecham!
Um beijão no coração de todos vocês !!!!!!!!!!!
Longa vida ao Rock and Roll !!!!!

domingo, 12 de fevereiro de 2012

Marco Antonio Araújo - Lucas [1984]


"Lucas" é o último disco lançado até a sua morte prematura em 1986, devido a um aneurisma cerebral. O nível de maturidade musical que MAA atinge neste disco nos faz tentar imaginar para onde ele iria, talvez lançando discos de altíssimo nível até hoje.

O destaque, até pelo seu tamanho, é para a primeira faixa, a maravilhosa "Lembranças". A evolução dela é incrível. Muitos grupos, ao fazerem uma música maior, fazem apenas uma colagem de várias idéias praticamente desconexas, mas o que vemos aqui é o oposto disto.

O equilíbrio entre os instrumentos está ainda maior neste disco. MAA regendo a música com seu violão, criando lindas harmonias, piano bem mais presente que nos discos anteriores... Talvez seja o disco com o qual os apreciadores de progressivo mais se identificarão.

Sobre as faixas, "Caipira" é uma ótima música bem ao estilo de MAA, com um excelente refrão na guitarra, "Para Jimmy Page" conta somente com Marco Antônio, "batendo" em seu violão bem a la Page. "Lucas", bela faixa de violão e sintetizadores. "Brincadeira" e "Cavaleiro" na verdade fazem parte da música "Fantasia No. 3", e "Cavaleiro" aqui tendo uma versão um pouco diferente, com vozes, ainda mais bonita.

"3rd Gymnopedie", que entra no disco como bônus assim como as três últimas, é na verdade uma versão da música do compositor Eric Satie.

Recomendadíssimo, é essencial na discoteca dos apreciadores de música instrumental em geral e progressivo (como toda a discografia de MAA).

Renato Godá - Canções Para Embalar Marujos [2010]


Uma grata surpresa vem rolando no cd player do carro, no som do meu quarto e nos fones do meu mp3player, essa novidade tem nome e um conceito meio “marinheiro-badboy-vagabundo” dos anos 20, ele é Renato Godá, que se define como “um escritor de musicas endiabradamnete românticas. Um cantor que leva ao palco a atmosfera esfumaçada de um cabaré onde jazz, folk, música cigana e chanson francesa convivem entre a elegância e a vulgaridade”.

E é de fato essa atmosfera que seu primeiro disco, Canções para embalar marujos, traz aos nossos ouvidos, uma sonoridade elegante, com letras que por muitas vezes contam a odisséia de um personagem boêmio, vagabundo, brigão, mas sempre apaixonado, como o próprio conta na faixa de abertura do disco, “Primeiro Roud”: “Derrubei caras maus que me olharam feio no balcão de bar/ Saqueei corações, dos mais sanguinários aos angelicais” .

Além disso, sobra espaço no álbum para reflexões de boteco, sobre temas como a relação entre o tempo e o amor na excelente balada, “Eu Sei”: “Eu sei,/ que o homem-bala voa / que a trapezista voa / e o tempo ainda é pior...”e na típica canção de pirata, “Como o Mar”, que traz a tona um clima de convés de embarcação, ou taberna de marujos: “Como o mar que leva e traz/ em ondas que nunca descansam / amores vem e vão / nos braços de qualquer amante”.

O disco é daqueles que encantam logo na primeira audição e que facilmente ouvimos do inicio ao fim sem pular uma faixa sequer, como se de fato fosse um livro em que cada canção conta um capitulo da estória.

O ápice dessa odisséia, fica para duas canções:“Cigarros e cafés”, em que o protagonista do nosso “livro” relembra sua fase de vagabundagem pelas noites e pelas ruas de um lugar perdido no tempo: “Freqüentava bares, hotéis e tantos lares/ Caminhava a toa até o dia amanhecer/ assobiando frases, melodias solitárias/ varando as madrugadas que me enchiam de prazer”. Além da belíssima “Chansson D’Amour”, na qual Renato Godá conta com a participação da doce voz feminina da cantora francesa Barbara Carlotti, para nos contar as desventuras de uma moça, ao que tudo indica, uma meretriz que lê Michel Foucault, ou uma catedrática que vende seu corpo: “Ela pensava de novo é amor/ em Copacabana, com qualquer senhor/ de madrugada fingindo prazer /vendia seu corpo sem qualquer pudor”.

E assim, passeando pela noite, entre cigarros, bares, bebidas, prostitutas e marinheiros, Renato Godá nos presenteia com um belíssimo disco, totalmente despretensioso, mas que não pode passar desapercebido pelos ouvidos mais atentos, nem pelos boêmios de plantão.

O Terço [1973]



Deus


Por Mairon Machado

Nem só a Europa produzia material de qualidade em termos de rock progressivo. Outros países como Itália, Alemanha e principalmente o leste europeu possuiam bandas de alto calibre, capazes de degladiar com os dinossauros britânicos de igual para igual. E na nossa terra brasilis as influências britânicas chegaram como uma brisa em um dia de verão, Diversos grupos surgiram no início dos anos 70 com a finalidade de lançar aos brasileiros algo na linhagem progressiva da Europa, mas com adaptações para os ouvidos acostumados com uma sonoridade mais leve, que aproveitavam a grande onda da jovem guarda e também do sucesso da bossa nova.

Um dos principais expoentes do rock progressivo brasileiro foi o grupo O Terço. Nascido em 1970, o primeiro álbum do grupo foi batizado apenas com o nome da banda, e com um circunflexo no e, ou seja, O Têrço, trazendo uma mistura de folk com rock que lembra bandas como The Band, Crosby Stills Nash & Young e principalmente o Buffalo Springfield. Nessa época, o grupo era formado por Sérgio Hinds (guitarra, vocais), César de Mercês (baixo), Jorge Amiden (guitarra) e Vinícius Cantuária (bateria), e após o lançamento do primeiro álbum, depararam-se com o rock progressivo, e perceberam que nem tudo era flores.

Passam então a construir seus instrumentos e a fazer diversas experimentações. Entre os principais instrumentos, estão a famosa "Tritarra", uma guitarra de três braços que Amiden empunhava para executar as difíceis peças que a banda começava a criar, bem como o violoncelo elétrico que Sérgio tocava. Esse violoncelo pode ser ouvido, por exemplo, em "Doze Avisos", uma bolachinha que o grupo gravou inspirado nos sons que andavam ouvindo. Após a participação do grupo no VI FIC (Festival Internacional da Canção), Amiden discutiu com os demais integrantes, abandonando o barco.

O trio decidiu mudar o nome para O Terço (sem o circunflexo) e logo foram para os estúdios. É no primeiro álbum com a nova formação, Terço, lançado em 1973, que o grupo apresentou sua nova sonoridade. Trazendo a experiência de uma apresentação na França acompanhando o cantor Marcos Valle, o trio construiu o álbum que daria o passo para o sucesso do O Terço um ano depois, com o lançamento de Criaturas da Noite (1974), deixando registrado no lado B deTerço uma maravilha do mundo prog feita em nosso país.

"Amanhecer Total" é daquelas raras composições onde um grupo entrega-se em busca da perfeição. Dividida em cinco partes ("Cores / Despertar pro Sonho / Sons Flutuantes / Respiração Vegetal / Primeiras Luzes no Final da Estrada - Cores Finais") e com a participação do excelente tecladista Luiz Simas, que fazia parte de outro grande grupo progressivo nacional, o Módulo 1000, e também de Patricia do Valle (vocais), Chico Batera (percussão) e Maran Schagen (piano), ela ocupa todo este lado em seus quase vinte minutos de muita viagem. 

O início com "Cores" traz somente a voz de Patrícia cantando a letra "branco branco, amarelo, cor-do-sol, Luz e sol, luz do sol, arco-íris brilhando no céu azul", acompanhada pelos violões de Sérgio e os efeitos de Chico Batera, no melhor estilo Jamie Muir, entrando então no "Despertar pro Sonho", com o violão sendo acompanhado por sons de mata e floresta. As escalas de Sérgio soam indígenas, até a entrada de Simas com o moog. Os vocais então trazem as lindas letra e melodia, falando sobre "acordar de um mundo adormecido, de um sono eterno, despertar", ou seja, uma espécia de "Awaken" antes mesmo da mesma ter sido concebida, acompanhadas pelos violões e por intervenções de mini-moog e percussão. O arranjo musical dessa parte da canção é sensacional. Apenas os violões e a percussão criam um ambiente para viajar literalmente, fazendo o ouvinte se sentir em um mundo isolado dos demais seres humanos.

Camadas de teclados endoidecidas nos levam aos "Sons Flutuantes", numa viajante sessão com César cantando sobre essas camadas, para daí entrar na melhor parte da canção, a marcada "Respiração Vegetal", onde guitarra, teclado, baixo e moog fazem diversas escalas, com Vinícius tocando cirurgicamente. Baixo e guitarra fazem escalas pesadas, com o órgão interferindo sobre a levada de bateria. A guitarra então sola super distorcida, para assim os vocais assumirem novamente o posto principal. Temos então o solo de órgão acompanhado pela sessão instrumental anterior, muito pesada, e que repete a estrofe mais uma vez, com a mesma sessão rítmica. Destaque para a intrincada peça criada por Mercês e Cantuária para acompanhar o solo de órgão. 

O piano de Maran muda o clima em "Primeiras Luzes no Final da Estrada - Cores Finais", numa linda melodia onde a letra de "Cores" é repetida diversas vezes sobre camadas de piano, moog, teclados, baixo e bateria. Nada mais nada menos que DIVINO!

Em 1974, a entrada de Luiz Moreno para o lugar de Vinícius, e principalmente de Flávio Venturini assumindo os teclados, elevaram O Terço para o status de uma das principais bandas do rock nacional. Com essa formação, lançaram o fundamental Criaturas da Noite, onde outra maravilha foi registrada, no caso "1974", mas se não fosse "Amanhecer Total", certamente hoje não teríamos o prazer de cantar os "da-da-di-ra" de "1974", e principalmente, não teríamos a saborosa sensação de ouvir uma maravilha feita em terras brazucas.

E para os que não tiveram a oportunidade de conhecer a versão de Terço com capa-sanduíche, deixo aqui os comentários feitos explicando essa canção:


"o nada decompôs-se, era o princípio
o som, fugido do silêncio, surgiu:
cada coisa viva fez seu mundo, e vários mundos foram criados
verdes, azuis, brancos, vermelhos, amarelos, todos se mesclando. cinza
com o som, veio o movimento de pernas e de asas que correram e voaram
e foram levar cada qual seu mundo a outros mundos nascentes
mas correram e voaram tanto que se perderam pelos verdes e azuis daquela terra.
branco, branco
amarelo
cor do sol
luz e sol
arco íris
brilhando no céu azul


a água foge tropeçando em pedras, o verde vivo
ferve, borbulha, evapora-se em bolhas brilhantes. e tudo dança
através da terra.
a luz, por fim, toca o solo já mais frio e escuro.
é o despertar para o sonho.
despertar para o sonho
acordar do sono eterno
despertar
sono de pedra
trouxe o mundo adormecido
despertar
agora é dia. despertar
da longa noite. despertar
o sonho espera
as coisas nos envolvem ainda beirando a terra
e nos trazem o silêncio com seus sons flutuantes
sons flutuantes
soltos ao vento
sons flutuantes
livres
vivos
eles percorrem o ar numa dança primitiva, unem-se
e separam-se divertidamente até serem esmagados contra o 
ar, para então fugirem para longe, mais longe.
mas nós conseguimos vê-los sempre porque eles
como círculos de fumaça, girando, eles
sobem até desprenderem-se uns dos outros, depois se
deixam prender livres numa respiração vegetal,
porque querem ser seiva e alimentar um corpo ainda arbusto
cujas mãos, presas em galhos finos, dançam também
com o vento, se entrelaçando num gesto amoroso, mas
cujos pés são raízes cravadas no chão para sempre.
primeira luzes no final da estrada.
quando finda a longa espera
o homem transformado em fera
preso em jaulas de ouro e aço
confinado em seu espaço?
o final da estrada próximo está
a cidade morta quer despertar
talvez ainda exista dentro dela
qualquer coisa que haja vida
quando o homem da cidade
acordará por seu sonho
e ouvirá sons flutuantes
e verá cores toantes?
a vida talvez já não exista, mas temos
que transpor os blocos de cimento da
entrada para conhecer os homens da
cidade. então talvez amanheça nos campos
esquecidos e nas cidades mortas."

Formação para esse álbum:
Sergio Hinds - guitarra
Cesar de Mercês - baixo
Vinicius Cantuaria - bateria

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

Tianastácia - Tá na Boa [1999]



Lançado em dezembro de 1999, "Tá na Boa" é o terceiro álbum da banda. Foi produzido por Marcelo Sussekind, um dos produtores de rock mais requisitados do Brasil. Em 13 faixas, sendo oito inéditas, o grupo exibe sua veia roqueira, inspirada em Led Zeppelin, Black Crowes, Pearl Jam, Mutantes, Secos e Molhados, Beatles e Rolling Stones. As letras baseiam-se no trinômio "paz, amor e rock'n'roll". Destaque para a música "Conto de Fraldas", do baiano Tom Zé, e a regravação de Cabrobró.


Entrevista com Edgard Scandurra, 03/02/2012

Envelheço na cidade: entrevista com Edgard Scandurra
Publicado em 03 de fevereiro de 2012 no Billboard Brasil

por Gabriel Daher

O rock brasileiro não seria o mesmo sem Edgard Scandurra. O garoto que aprendeu a tocar guitarra vendo a banda de seu irmão mais velho ensaiar na garagem de casa cresceu e ajudou a fundar duas das mais importantes bandas do gênero no país: Ultraje A Rigor e Ira!. Desde então, Edgard participou de diversos outros projetos de sucesso ao longo dos mais de trinta anos de sua carreira e se tornou um dos mais importantes guitarristas do Brasil. Prestes a completar 50 anos de idade no próximo domingo, dia 5, Edgard Scandurra conversou com a Billboard Brasil e falou sobre diversos aspectos de sua extensa trajetória. O guitarrista não se esquivou nem quando o assunto foi a chance de uma futura reconciliação do Ira!.

Ex-membro das bandas pós-punk Mercenárias e Smack, Edgard Scandurra foi um dos instrumentistas e compositores mais prolíficos de sua época, consagrando composições como “Núcleo Base”, “Envelheço Na Cidade” e “Flores Em Você”. E quem achou que ele iria desacelerar após o traumático fim do Ira!, em 2007, se enganou completamente. De lá pra cá, Edgard tocou seu projeto de música eletrônica Benzina, se dedicou à sua carreira solo e passou a participar de shows e gravações de jovens artistas como Tulipa Ruiz, Karina Buhr, Marcelo Jeneci e muitos outros. Não fosse o bastante, Edgard ainda achou tempo para realizar dois projetos em conjunto com seu amigo de longa data, Arnaldo Antunes.

Ao contrário do que cantava no clássico do Ira!, Edgard ainda parece longe de envelhecer na cidade. Feliz aniversário!


Você é considerado um dos grandes ícones do rock nacional. Nesses 50 anos de vida, o que você mais se orgulha de ter feito?

Eu me orgulho muito de ter começado uma carreira como músico, de muito cedo já ter definido isso. Quando eu tinha seis ou sete anos de idade, eu já me imaginava fazendo shows, gravando discos. E me orgulho de ter conquistado esse sonho de criança, poder viver da música, pagar minhas contas, educar meus quatro filhos, ter construído uma vida toda em torno da música.

E como foram seus primeiros contatos com a música?

Eu tenho um irmão dez anos mais velho que eu, o Marco. Ele tinha uma banda – eu tinha uns cinco anos - e foi por causa dela que eu comecei a ter contato com o pessoal ensaiando na garagem, até os discos. Era uma banda que fazia um rock na época do iê-iê-iê, e os integrantes já tinham contato com Jimi Hendrix e já estavam sacando uma coisa um pouquinho mais a frente da época. Esse som foi parar na minha mão muito rápido. Então eu já tinha um repertório na minha casa que eu conhecia bem: Led Zeppelin, Black Sabbath, já tinha até algumas coisas mais sofisticadas, como o King Crimson. Aos dez anos eu ouvia King Crimson. Isso tudo me influenciou muito. Eu comecei a tocar vendo esses ensaios, de ouvido. Meu irmão me ensinou uns dois, três acordes, e eu comecei a pegar o instrumento canhoto, tocar do meu jeito o violão do meu irmão, e aí comecei a desenvolver as minhas músicas. Com 15 anos formei minha primeira banda, o Subúrbio, que durou uns quatro anos, até quando entrei no exército. Logo depois formei o Ira!, junto com o Nasi, que já era meu amigo desde o colegial e que também chegou a fazer uma participação no Subúrbio. O Ira! foi uma outra realidade da música brasileira, quando o rock estava mais em evidência, existiam muitas bandas, havia toda aquela cena do punk de Brasília, de São Paulo, de Recife, Porto Alegre, e aí eu comecei a gravar mesmo.

domingo, 5 de fevereiro de 2012

Vivendo do Ócio - O Pensamento É Um Imã [2012]



Por Izadora Pimenta

Do rock cru vindo da Bahia com Nem Sempre Tão Normal, de 2009, a Vivendo do Ócio se mostra em maior liberdade criativa em seu segundo álbum, O Pensamento É Um Imã, que tem lançamento oficial  pelo selo Vigilante, da Deckdisc.

Produzido por Rafael Ramos e Chuck Hipólitho e mixado em Los Angeles por “Big Bass” Gardner(Queens Of The Stone Age, Foo Fighters), o álbum segue um novo ideal de se arriscar mais. Os baianos deram abertura para se reinventar em alguns momentos, porém, em outros, se mantêm numa zona de conforto repleta dos mesmos refrões e recados rápidos do primeiro trabalho. Levando em conta o pacote completo, é possível visualizar uma balança quase equilibrada, mas que já nos mostra o lado para qual vai pender dali em diante: o Vivendo do Ócio quer assumir a sua própria identidade.

Os fãs mais antigos irão se identificar logo na primeira faixa, Bomba Relógio, que tem início com um riff bastante convidativo que dita as intenções já disseminadas pela banda. Mas quem pretende ver uma evolução significativa dos baianos, é bom pular logo para a quarta, Nostalgia, que junto às faixas seguintes, Dois Mundos e Radioatividade, trazem o recheio mais criativo e charmoso do álbum.

Nostalgia traz a participação discreta do Agridoce - Pitty nos vocais e Martin na guitarra – e nada mais é do que um ode à saudade da terra natal, com a letra escancaradamente autobiográfica casando de maneira delicada com as guitarras impecáveis. Última faixa a entrar no disco, de maneira não planejada, acabou se mostrando como o primeiro sinal claro da transformação à qual a banda se propõe, já que abre todo um espaço para ela mostrar toda a sua versatilidade com ousadia e classe.


Este mesmo caminho é seguido em Dois Mundos, uma faixa que remete bastante ao Skank deMaquinarama (2000) – não por acaso, álbum que marca também uma transição na carreira dos mineiros.Dois Mundos é – quem diria – a faixa mais pop da Vivendo do Ócio até então. Radiofônica ao extremo, acompanha o clima saudosista de Nostalgia em sua melodia. Para fechar esse ciclo, Radioatividade vai levando o ouvinte de volta para o som costumeiro da banda, mas flerta com as mesmas influências das anteriores.

Depois, a tal versatilidade só é encontrada na nona faixa, O Mais Clichê. Com a participação de Dadi, doNovos Baianos, surpreende ao trazer um quê de Alceu Valença ao disco, mas parece deslocada dentre duas faixas bastante roqueiras.

Para os que procuram ver a banda aprimorando o trabalho de Nem Sempre Tão Normal, a penúltima faixa,Preciso Me Recuperar, soa como uma releitura do trabalho, melhor trabalhada do que o original. O Mundo É Um Parque, que a antecede, também segue a mesma linhagem, mostrando que a banda aprendeu a domar melhor as suas inspirações na hora de transformá-las em canções.

Com O Pensamento É Um Imã, o Vivendo do Ócio tem um bom material para explorar o caminho já aberto ao longo dos três anos em atividade no espaço da música nacional, e também para aproveitar a carência atual de boas novas bandas de rock que estejam prontas para atingir os ouvidos de todo o público consumidor. Com os singles e as amostras certas, potencial não falta.

Formação em O Pensamento É Um Imã:
Jajá Cardoso – vocal e guitarra
Luca Bori – baixo e voz
Davide Bori – guitarra
Dieguito Reis – bateria

sábado, 4 de fevereiro de 2012

Pholhas [1977]

Download 128kbps




Conhecido por fazer um pop/rock meloso em inglês, o Pholhas em 1977 gravou este álbum homônimo. Mas desta vez as músicas estão mais para um "hard rock progressivo", devido em parte pela entrada de Mário Testoni (ex-Casa das Máquinas) nos teclados e o uso do baixo Rickenbacker pelo baixista Oswaldo Malagutti. E houve também a mudança de língua, neste álbum todas as músicas são cantadas em português. Vale ressaltar que este é o único álbum da banda voltado para o Rock Progressivo, mesmo assim uma excelente obra.

Para quem curte rock progressivo brasileiro é um disco bastante recomendável! Todas as faixas são boas, com exceção das duas últimas que são meio fracas. Destaque para "Imigrantes", "Águas Passadas" e "Dr. Silvana".

O baixo aparece bastante na música, obviamente influenciado pelas paletadas de Chris Squire. E os teclados tem passagens prog muito interessantes. Guitarras legais e medianas, mas não aparecem tanto. Bateria normal e vocais felizes. 

Bom, resumidamente pode-se definir este álbum como: algo de Rush, Yes e Deep Purple + felicidade comum em muitas bandas brasileiras.

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

Entrevista com Leno, 06/01/2012

Publicado em 06 de janeiro de 2012 no Memorial Raul Seixas

Gileno Wanderley Azevedo, ou simplesmente Leno, foi um dos grandes nomes da Jovem Guarda, tanto na célebre dupla que formou com Lílian, quanto em sua bem-sucedida carreira solo. Conheceu Raul Seixas quando este ainda fazia parte dos Panteras e tornaram-se grandes amigos, praticamente irmãos. Raulzito considerava Leno como um de seus mestres.


MRS - Quando você conheceu Raul Seixas? Como foi esse primeiro contato?
Leno - Foi em um show da minha gravadora, a CBS, na Urca, no Rio, em 1968. Ele estava lá com os Panteras para acompanhar o Jerry Adriani. Tinha acabado de chegar de Salvador e veio falar comigo pra dizer que meu compacto com A Pobreza estava em primeiro lugar lá. Achei uma atitude simpática. No dia seguinte já estávamos juntos tocando violão. 


MRS - Como foi a gravação do álbum Vida e Obra de Johnny McCartney? 
Leno - Caótica e "esfumaçada", gerada à cannabis, coisa nova pra nós. Estreei uma nova mesa de som no estúdio da CBS e foi possível extrair uma sonoridade que ninguém tinha no Brasil, até então.


MRS - Porque o álbum não pode ser lançado na época? 
Leno - Metade das letras foram censuradas pela ditadura, e pra completar a CBS não achou comercial para um artista do seu cast que, como eu, vinha de dois grandes hits solo com canções românticas. Nada contra, eu também curto isso. 


MRS - Vida e Obra de Johnny McCartney foi muito bem recebido pela crítica. É considerado inovador e contestador. A que você atribui esse sucesso? 
Leno - Sinceramente, porque é bom mesmo. Pena que não saiu na época. Já estava lá quase tudo o que foi feito no rock nacional posteriormente. Inclusive nos discos de Raul. Fico orgulhoso que ele tenha deixado escrito que eu fui um dos seus mestres. Ele também foi pra mim, de várias formas. 


MRS - Como era o processo de composição com Raul?
Leno - Geralmente um de nós tinha a ideia e pedia para o outro continuar. Como em Sentado no Arco-Íris, que fiz a música, comecei a letra e ele a definiu e terminou brilhantemente. Uma das censuradas em 1971, o rock mais pesado gravado no Brasil até então. Com A Bolha, a primeira letra que ele dizia ter tido orgulho de ter feito, conseguimos enrolar a censura e colocá-la no FIC do Maracananzinho via TV Globo. Foi a primeira participação de Raul naquele festival, e não Let Me Sing, como ainda pensam.


MRS - Há alguma estimativa de quantas músicas você chegou a compor com Raulzito? 
Leno - Umas quinze, fora as que ele fez para mim gravar solo e na volta da dupla Leno e Lílian, em 1972.


MRS - Leno, o livro O Mago traz uma versão de como foi o primeiro encontro entre Raul Seixas e Paulo Coelho. Por que você contesta esta versão?
Leno - Porque é falsa e incompleta. Ele omite o fato de que eu estava no apartamento do Raul naquela noite no Jardim de Alá, aturando suas conversas sobre superioridade da magia sobre a ciência. Raul me chamou para ir lá por ter sido eu quem lhe emprestou dois dias antes um artigo sobre Ufologia, escrito por um tal Paulo Coelho. Sem isso ele não teria conhecido Raul. Curioso como era, Raul o procurou na redação, perto do estúdio da nossa gravadora no Rio e me convidou para nos encontrarmos, os três, naquela mesma noite. Só estávamos lá nós quatro: Edith (esposa de Raul), Paulo, Raul e eu. Não estava sua esposa como ele diz. E nessa noite Raul passou mais tempo ouvindo nossas diferenças de opinião do que participando delas. Ainda ficamos meia hora na calçada. Ele queria me convencer de qualquer maneira (risos). Impossível ele ter esquecido, a não ser que não lhe sirva de marketing ter seus "desígnios do Destino" mudado por um artista da Jovem Guarda, estilo que era patrulhado e discriminado pelos porra-loucas da época. Talvez a memória dos "guerreiros da luz" seja mais seletiva do que a dos meros mortais. 


MRS - Há alguma música ou álbum de Raul, em especial, que você goste mais? 
Leno - Dos álbuns, Novo Aeon e o primeiro, Krig-ha, Bandolo!, cujo repertório inteiro ele foi lá em casa me mostrar antes de gravar. Das músicas, até hoje canto Objeto Voador, só dele, feita a meu pedido e que ele regravaria anos depois com novo título (S.O.S.) e letra diferente em alguns trechos. O velho tema de vida extraterrestre. Mas no sentido científico e cada vez mais provável. 


MRS - Você e Raul conviveram por quanto tempo? Apesar de serem muito amigos, por que houve um afastamento entre vocês? 
Leno - Foi meu maior amigo companheiro e eu dele. Era um cara muito divertido e gostava de ajudar os outros como uma espécie de "terapeuta existencial" movido a bom humor, apesar de se dizer "egoísta". Na verdade éramos dois individualistas no sentido de que cada ser humano é único. Convivemos quase diariamente entre 1968 e 1972, quando eu estava com vários hits nas paradas após a separação da dupla Leno e Lílian. Fui o primeiro a gravar uma de suas composiçoes que lhe deu uma boa grana e ele era grato por isso, principalmente estando prestes a ser pai de sua primeira filha, Simone. Ele também tocava e cantava em minha banda nos meus shows no Rio. Estar em sua companhia era sempre alegre e estimulante, musical e intelectualmente. Já tinha tudo de bom do Raul Seixas posterior, mas sem o ranço autodestrutivo que suas futuras más companhias gostaram de estimular. Continuamos nos encontrando através dos anos mas sem a mesma frequência. Infelizmente ele não segurou a barra de um sucesso merecido. Estava muito diferente daquele Raulzito que aprendi a amar. E que deveria estar aqui conosco lúcido, saudável, cético e bem humorado. Como seus familiares e verdeiros amigos, e não os oportunistas de plantão, gostariam de vê-lo. Mas nos seus últimos anos morávamos em cidades diferentes. Sem contar o tempo que morei fora do Brasil.


MRS - E quais são seus novos projetos, Leno? 
Leno - Estou lançando um DVD intitulado O Mundo Dá Muitas Voltas, nome de uma balada minha e de Raulzito, com uma retrospectiva de meu trabalho desde a Jovem Guarda até os dias de hoje, incluindo algumas letras inéditas que Raul havia me pedido para colocar música. Pedido cumprido, como em Quatro Paredes. E não é oportunismo, e sim a história da minha vida. Passei muito tempo calado ouvindo gente falando do que não sabe. Agora resolvi falar. Deve ser a idade... (risos).